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Os autores identificam três usos da noção de construção no campo da análise do discurso. O primeiro deles refere-se à propriedade referencial da linguagem, ou seja, sua capacidade de, ao descrever ou nomear um determinado objeto, “construir” este objeto. Essa construção pode ser compreendida como o modo a partir do qual, dada a descrição ou nomeação feita, os sujeitos passam a considerar não as palavras, mas aquilo a que elas fazem referência. Esta ideia contribui para a compreensão da relação que mantemos com o mundo enquanto relação atravessada por diferentes versões construídas discursivamente, colocando por terra a possibilidade de uma experiência, com este mesmo mundo, que seja imediata ou

direta.

Alguns pós-estruturalistas desenvolveram caminhos alternativos e também chegaram a esta problemática, oferecendo uma outra perspectiva para o emprego da noção de construção em análise do discurso. O papel fundamental da construção para eles repousa articulado à noção de realismo. Seu interesse volta-se para o modo a partir do qual formas de falar e escrever produzem um efeito de realismo. Em geral, suas análises abordam o realismo como resultado da naturalidade ou familiaridade no uso dos discursos. Essa naturalidade, no entanto, deve ter sua constituição histórica revelada.

Os dois casos apresentados acima tratam a construção como processo relativamente automático. No primeiro, são propriedades referenciais da linguagem; no segundo, a recorrência, a familiaridade e a gratuidade com que são tomados/utilizados os recursos discursivos fazem com estes que adquiram uma espécie de transparência na produção de sentido, deixando, em diversas situações, pouca ou nenhuma margem de dúvidas durante o processo de produção de sentido em curso num determinado contexto. A terceira perspectiva constitui-se a partir da retórica.

Os aspectos retóricos das construções discursivas foram objeto de detida elaboração dentro do campo da psicologia social discursiva, principalmente nos trabalhos de Michael Billig (1996) e de Jonathan Potter (1996). Billig (1996, p. 106), defende que uma “abordagem retórica acentua a bilateralidade do pensamento humano e de nossas capacidades conceptuais”. Embora possua uma definição particular no campo-tema4 das pesquisas

envolvendo discurso e psicologia social, a noção de retórica apresenta algumas características que merecem ser destacadas para os propósitos deste estudo de caso.

De acordo com Patrick Charaudeau & Dominique Maingueneau (2012, p.434-435), a retórica pode ser definida como

“(...) a ciência teórica e aplicada do exercício público da fala, proferida diante de um auditório dubitativo, na presença de um contraditor. Por meio de seu discurso, o orador se esforça para impor suas representações, suas formulações e para orientar uma ação. (…) Uma intervenção retórica é constituída por um conjunto de atos de linguagem planificados, orientados, que se dirigem a um público dubitativo,

4 O conceito de campo-tema foi sintetizado por Peter Kevin Spink (2003, p.28) desta forma: “O campo-tema,

como complexo de redes de sentidos que se interconectam, é um espaço criado - usando a noção de Henri Lefebvre (1991) - herdado ou incorporado pelo pesquisador ou pesquisadora e negociado na medida em que este busca se inserir nas suas teias de ação. Entretanto isso não quer dizer que é um espaço criado voluntariamente. Ao contrário, ele é debatido e negociado, ou melhor ainda, é arguido dentro de um processo que também tem lugar e tempo. Mesmo quando herdamos um campo-tema ou usamos termos que presumimos como legítimos (...), continuamos a negociá-lo através dos argumentos sobre a sua importância como tópico. Campo portanto é o argumento no qual estamos inseridos; argumento este que têm múltiplas faces e materialidades, que acontecem em muitos lugares diferentes." (SPINK, 2003, p.28).

solicitado por discursos contraditórios, que visam a uma ação sobre os participantes na reunião, em vista de uma tomada de decisão. (…) De qualquer forma, a retórica codificou, estimulou e descreveu as práticas comunicacionais orais, contraditórias, públicas, nos domínios político e religioso, antes do rádio e da televisão. Seus objetos reais são tomados nas transformações do mundo da comunicação eletrônica; seu objeto teórico, a circulação da fala, está bem definido em um grupo no qual circulam discursos contraditórios.” (grifo dos autores).

A retórica embasa a terceira concepção de construção indicada pelos autores. Indo além dos limites das anteriores, permite considerar o realismo como um efeito alcançado através do modo como textos ou conversações são arquitetados numa determinada situação. Aqui é que a questão do estudo da linguagem em uso tem toda a sua potência. Sua ênfase recai sobre pontos de pouco destaque nas outras concepções, sem, no entanto, contradizê-las ou falseá-las. As maneiras a partir das quais são organizadas e articuladas determinadas versões de eventos ou acontecimentos numa dada situação, acabam por produzir um efeito sobre sua superfície. Dessa forma, a aparência factual, sólida e estável que determinadas versões adquirem pode ser compreendida como efeito de modos específicos através dos quais textos e conversações têm os recursos interpretativos e as estratégias discursivas neles empregados e organizados. São mobilizados diferentes dispositivos linguísticos e técnicas retóricas para se atingir esse objetivo, com diferentes níveis de eficácia.

“Quando consideramos a construção retórica [a partir] desta terceira perspectiva, endereçamos mais do que a simples propriedade referencial das palavras, e alguma coisa que está para além da ideia de que existem tipos consolidados de produção de sentido que dão origem a bases de explicação e entendimento tomadas como verdadeiras [não se configurando como objeto de questionamento, investigação e análise]. Estamos voltados para o campo dos aspectos específicos do discurso responsáveis pela justificação de diferentes versões. Estes aspectos incluem uma variedade de efeitos derivados da categorização e particularização, do uso sistemático de combinações entre formulações vívidas e vagas, da mobilização de técnicas narrativas variadas, construções envolvendo consenso e corroboração, e de várias formas retóricas básicas, tais como listas e contrastes.” (idem, p.95, tradução minha).

Há um aspecto das contribuições da abordagem retórica caracterizada pelos autores que tem papel importante no tipo de análise que realizei aqui, tanto na identificação dos repertórios interpretativos quanto das estratégias discursivas. Para os autores, as versões não são construídas apenas para servirem de argumento. Elas são construídas como argumentos voltados para, também, minimizar ou inviabilizar versões alternativas, configurando um quadro de tensão na relação entre elas, trazendo à tona a questão do poder e da dominação.

que a análise de conversação. Em termos específicos de técnica de pesquisa, dirige nossa atenção para o modo como um argumento ou versão particular é projetado, as vezes de maneira bastante velada, para minar uma ou mais alternativas em competição. O ponto central é o de que argumentos e versões factuais são frequentemente construídos contra um Outro ausente.” (idem, p.96, tradução minha).

Os autores afirmam que o discurso racista é atravessado por um complexo trabalho retórico, central para o desenvolvimento da prática argumentativa e para mobilização de sentidos. Isso faz com que um dos aspectos principais da análise do discurso voltada para a identificação de repertórios interpretativos seja a busca da variabilidade das estratégias retóricas nas construções discursivas.

“A variabilidade é importante porque é um sinal de que diferentes modos de construir eventos, processos e grupos estão sendo postos em marcha para atingir diferentes efeitos. Padrões de variação e consistência na forma e no conteúdo de explicações ajudam o analista a mapear o padrão do repertório interpretativo de que os participantes fazem uso. Mais amplamente, é um modo de ajudar a revelar os diferentes modos em que o discurso é orientado para a ação. (…) na análise do discurso, o objetivo não é classificar as pessoas, mas revelar as práticas discursivas

através das quais categorias raciais são construídas e a exploração legitimada. Nós

não esperamos que os indivíduos sejam consistentes em seus discursos – de fato, seria surpreendente se eles o fossem. Ao invés disso, esperamos que sua fala e escrita variem em função de seu trânsito por diferentes repertórios para produzir explicação e legitimação em diferentes contextos e fazer suas afirmações parecerem responsáveis.” (Idem, p.101-102, tradução e grifo meus).

No caso da pesquisa realizada com brancos neozelandeses, voltada para o mapeamento da linguagem do racismo e do papel do discurso na legitimação da exploração entre grupos sociais, discutida anteriormente, o objetivo dos autores é “capturar a operação ideológica de uma ampla gama de repertórios interpretativos agindo numa cultura. Isso exige que estejamos voltados para os desfechos dos discursos, para a lógica de discursos particulares, e para os modos a partir dos quais eles podem ser combinados.”. Em função disto, os procedimentos de análise desenvolvidos pelos autores compõem um “complexo - e nem sempre fácil de descrever – processo de produção de sentido.” (idem, p.103, tradução minha).

As aquisições discursivas passadas participam ativamente da construção das explicações modernas sobre grupos, atravessadas como são pela consideração profunda da relação destas explicações/construções com as formas de organização social vigentes. Isso imprime à estas categorias uma significativa mutabilidade, permitindo que diferentes aspectos de suas variações se tornem tópico de análise.