“Não matarás” (Êx 20.13; Dt 5.17).
No mundo inteiro, morrem anualmente por aborto provocado tantos fetos quanto a metade da população do Brasil.1 Conforme dados fornecidos pela UNESCO, a cada ano suicidam-se 500.000 pessoas.2 Segundo a Anistia Internacional, só na década de 80 mais de 40.000 pessoas sofreram a pena capital.3 De acordo com as estimativas do historiador russo Roy Medvedev, o ditador comunista Stálin exterminou pelo menos 17 milhões de pessoas por fome, expurgos sangrentos e em conseqüência do brutal programa de coletivização agrícola.4 Nos últimos anos, mais de 50.000 indivíduos deixaram suas vidas na guerra civil em El Salvador. Milhares morrem em guerras em todo o mundo ou são brutalmente assassinados por inimigos pessoais em brigas domésticas. O tráfico de drogas também faz um número incontável de vítimas. A segunda maior causa moitis no Brasil são os acidentes de trânsito, que matam mais pessoas do que o enfarte ou o câncer. A Palavra de Deus ensina que não podemos matar e que precisamos respeitar a vida do próximo, mas parece que a indústria bélica, com seus tanques, foguetes e metralhadoras, fala mais alto. A humanidade não vive em paz, embora, formalmente, goze o maior período de paz entre as superpotências deste século.
O que significa não matar? O sexto mandamento é aplicável em situações de guerra? Qual a resposta bíblica diante da crescente criminalidade? O homem tem direito de morrer com dignidade e sem dores? Até quando é justo prolongar a vida por meios artificiais? .
I. A versão inibidora e crítica do sexto mandamento no Antigo Testamento
Em termos negativos, o sexto mandamento proíbe a matança. No Antigo Testamento, há sete termos hebraicos traduzidos por “matar” em português.
A palavra rãçah, usada no sexto mandamento, é encontrada 47 vezes e indica o assassinato violento de um inimigo pessoal (Nm 35.27; 35.30; 2 Rs 6.32). “Não assassinarás” seria uma tradução viável. Este verbo nunca é usado para indicar um assassinato em defesa própria (Ex 22.2), uma morte acidental (Dt 19.5), a execução de assassinos (Gn 9.6) ou situações de guerra. O verbo
rasah é usado para suicídio, mas não é aplicável ao homicídio não-premeditado
(Êx 21.12-14) ou acidental (Nm 35.23).
Já o verbo qetal é o de uso menos corrente (SI 139.19; Jó 13.15; 24.14).
Hemit, derivado de hãmas, indica violência deliberada, homicídio (Jr 22.3; Ez
22.26; Sf 3.4; Pv 8.36). A questão do homicídio aparece também em outros textos (Gn 49.5ss.; Jz 9.24; Jó 4.19; Is 59.6; Jr 13.22; 22.3; 51.35; Ez 7.23). O termo hãrag é empregado 162 vezes e significa “matar uma pessoa” (Nm 31.19; Jr 4.31). Tabah indica a matança de animais. A palavra zãbah é usada em relação a sacrifícios de animais. Finalmente, no Antigo Testamento shãhat indica qualquer morte sacrificial. II.
II. O equivalente positivo do sexto mandamento
Jesus Cristo, o Deus vivo, é o autor e doador da vida (Gn 1.27-30; Jo 1.3, 4), e Ele deseja que o homem a tenha em abundância (Jo 10.10). O símbolo da criação divina e da recriação escatológica é a árvore da vida (Gn 2.9; Ap 22.2). Jesus Cristo, que é a essência da vida (Jo 11.25; 14.6), deu-Se em sacrifício (Jo 10.15) para que tenhamos a vida eterna (Jo 10.15,18), crendo nEle (Jo 20.31).
A morte é a conseqüência do pecado (Rm 6.23) e, portanto, é mais do que um mero processo biológico que acompanha o nascimento. Na realidade, é o merecido juízo divino sobre a transgressão e a culpa do homem, inclusive do homem eleito (Dt 31.14; 32.48, 52; 1 Sm 15.22-25).
A formulação positiva deste mandamento é viver em paz com seu próximo: “... se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens” (Rm 12.18). É amar o inimigo e orar por ele (Mt 5.44). O apóstolo Paulo nos aconselha: “Longe de vós toda a amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda a malícia. Antes sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus em Cristo vos perdoou” (Ef 4.31, 32).
A agressividade humana já aparece nos jardins de infância e continua nos pátios das escolas públicas e particulares, nos protestos universitários e sindicais, nos desajustes matrimoniais e em alguns comícios públicos. A forma
mais dolorosa desse processo é a guerra civil, o terrorismo e a guerra generalizada. Mas Deus criou o homem à Sua imagem (Gn 1.27). Portanto, a Bíblia salienta e sustenta a inviolabilidade da vida humana. O respeito à vida é mais do que mero conceito apodíctico judaico-cristão: faz parte da ética jurídica de todos os países civilizados.
Na moral tradicional, três são as razões que apoiam o valor da vida:
1. A vida é um dom de Deus (Jó 1.21; 33.4; SI 31.15) — “Não assassinarás” refere-se à dignidade e singularidade do homem que vive sob a bênção e proteção de seu Criador. Deus é o dono da vida e o homem é seu administrador (Dt 30.15; SI 36.9; Lc 12.20).
2. A vida é um bem pessoal inalienável — Quitar a vida própria ou alheia é ofender a Deus e depreciar o Criador. Também é ofender a si mesmo e ao próximo, porque é deixar de acreditar em qualquer tipo de ajuda externa. O valor da vida não depende dos anos acumulados, nem da capacidade física ou intelectual da pessoa. Antes, a vida é um bem pessoal intransferível e incalculável. Por isso, nenhum indivíduo, nenhuma organização ou sociedade, nenhum grupo de médicos e nem o próprio Estado secular podem arrogar a si o direito de legalizar a matança de seres indefesos ou classificar as pessoas, separando as que devem morrer das que podem viver. A valorização e proteção da vida como bem pessoal proíbe de forma categórica o suicídio, a eutanásia, o infanticídio, o feticídio e o genocídio.
3. A vida é um bem da comunidade — Atentar contra a vida do próximo é uma ofensa à comunidade cujo núcleo é a família. O apóstolo Paulo, usando a analogia do corpo e das funções de seus membros, ensinou que “Deus coordenou o corpo, concedendo muito mais honra àquilo que menos tinha, para que não haja divisão no corpo; pelo contrário, cooperem os membros, com igual cuidado, em favor uns dos outros. De maneira que, se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam” (1 Co 12.24-26).
O coletivismo crê que o homem é um robô, e o antropocentrismo o vê no centro de seus planos egoístas. O avanço da tecnologia, a mecanização moderna, a urbanização crescente e a massificação criaram a unificação dos valores e ideais do homem, fazendo com que surgisse o individualismo extremado e esquecendo que o indivíduo ainda é um bem da comunidade à qual pertence: “Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si” (Rm 14.7).
Por isso, preservar, proteger e valorizar a vida humana numa convivência pacífica são os equivalentes positivos do sexto mandamento. III.
III. A interpretação do sexto mandamento por João Calvino
“O fim do mandamento é: Visto que o Senhor vinculou o gênero humano por uma como que (precisa) unidade, a cada um deve ser delegada a
preservação de todos. Em suma, é-nos, portanto, proibida toda violência e brutalidade, e, de um modo geral, toda e qualquer ação deletéria, pela qual venha a sofrer dano o corpo do próximo. Conseqüentemente, inculca-se-nos aplicá(-lo) fielmente, se algo em nosso poder é de valia para proteger a vida do próximo, buscar (o) que lhe contribui para a tranqüilidade, sermos vigilantes em desviar-lhe as cousas deletérias, dar-lhe ajuda, se está em qualquer situação de perigo... a Escritura assinala dupla razão em que se assenta este mandamento: que o ser humano é não só a imagem de Deus, mas ainda nossa (própria) carne.”5
IV A atualização do sexto mandamento
Atualizemos o sexto mandamento para as seguintes questões: pena capital, guerra, suicídio, eutanásia, aborto, infanticídio e genocídio.
- A -
A QUESTÃO DA PENA CAPITAL
De acordo com a Anistia Internacional, cerca de 40.000 pessoas podem ter sido condenadas à morte e executadas só na década de 80. Mais de 80% dessas condenações ocorreram no Irã, na China e na África do Sul. Na China, aproximadamente 30.000 criminosos foram executados entre 1983 e 1987. A pena capital foi aplicada em 35 países, enquanto 80 nações deixaram completamente essa prática.6
A questão da pena de morte, chamada também de pena máxima ou capital, está sendo mais amplamente discutida em nossos dias devido ao surgimento do terrorismo internacional organizado e da crescente criminalidade em todo o mundo. Quase não se passa uma semana sem que os meios de comunicação internacional nos informem sobre seqüestros e assassinatos de pessoas inocentes com a finalidade de apresentar idéias ou reivindicações terroristas. Alguns argumentam que a pena máxima é divinamente instituída e socialmente necessária. Outros a consideram bárbara e anti-cristã.
A Anistia Internacional opõe-se incondicionalmente à pena capital e considera cada execução uma violência contra os direitos humanos.7 A verdade é que mais de 90% das execuções são aplicadas em países sob regimes totalitários.8
Tanto os que defendem quanto os que condenam a pena de morte apresentam argumentos e contra-argumentos teológicos e filosóficos para justificar sua posição.
1. Objeções à pena capital
Geralmente são usados os seguintes exemplos bíblicos para condenar teologicamente a pena máxima:
a) O caso de Caim: Alega-se que a pena capital não era a intenção de Deus, porque Ele proibiu enfaticamente qualquer pessoa de vingar o homicídio cometido por Caim (Gn 4.15). “Qualquer pessoa” seria qualquer vingador, mesmo que fosse representante da lei ou das autoridades.
b) Jesus e a mulher adúltera: Embora a lei de Moisés tenha ordenado que se apedrejasse a pessoa adúltera (Lv 19.20-23; 20.10), Jesus poupa a vida da mulher apanhada em adultério. Em vez de pedir o cumprimento cego da lei, Jesus simplesmente ordena que ela não peque mais (Jo 8.11). Portanto, conclui-se que Jesus Se opunha à pena capital.
c) A cruz de Ciisto e a graça perdoadora: Do ponto de vista bíblico, talvez o argumento mais forte seja a cruz de Cristo e a graça perdoadora. “Esta objeção sustenta que a pena capital é baseada num conceito sub-cristão ou pré-cristão da justiça, que é transcendido por uma moralidade neotestamentária da graça. Deus não deseja castigar os homens, muito menos com a pena capital; pelo contrário, Deus quer perdoar os homens através de Cristo. Todos nossos crimes' foram pregados à Sua cruz (Ef 2.15, 16). A lei foi cumprida por Cristo, no preceito e na penalidade (Mt 5.17; G1 3.13). Visto que a justiça de Deus foi satisfeita pelo sacrifício de Cristo, não há necessidade de os homens pagarem a penalidade por seus pecados. Deus oferece o perdão a todos e por tudo.”9
Além desses argumentos teológicos, os que defendem a extinção da pena capital afirmam que não se pode excluir por completo a possibilidade de um erro judicial e que, na maioria dos países, ela recairía sobre os mais pobres. 2. Argumentos teológicos a favor da pena de morte
a) O caso de Caim: “Às vezes é argumentado que a pena capital não era a
intenção de Deus desde o início, conforme pode ser deduzido da intervenção de Deus para poupar Caim dela. QuanJ j Caim matou seu irmão, Abel, Deus explicitamente proibiu qualquer pessoa de matar Caim por sua vez. Disse: ‘Assim qualquer que matar a Caim será vingado sete vezes’ (Gn 4.15).
O que é facilmente olvidado nesta isenção óbvia da pena capital é que a passagem claramente subentende a validez da pena capital. O caso de Caim era especial. Quem teria executado a sentença? O irmão dele estava morto. Decerto Deus não iria chamar o pai para executar seu filho remanescente! Nesta situação o próprio Deus pessoalmente comutou a sentença da morte.
No entanto, quando Deus suspendeu a pena de morte de Caim, a Bíblia claramente indica que esta não seria a regra. Vários fatores apoiam esta
conclusão. Primeiramente, o próprio Senhor disse: ‘A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim’ (Gn 4.10). Clama para quê? Para a justiça, sem dúvida. O princípio bíblico é que somente outra vida pode satisfazer a justiça de uma vida perdida (c/. Lv 17.11; Hb 9.22). Em segundo lugar, o temor de Caim de que alguém no futuro o mataria demonstra que a pena capital era sua própria expectativa natural: ‘... quem comigo se encontrar me matará’, exclamou (Gn 4.14). A pessoa naturalmente prevê a perda de sua própria vida como consequência de tirar a vida doutrém. Em terceiro lugar, a resposta de Deus a Caim subentende a pena capital: ‘Assim qualquer que matar a Caim será vingado sete vezes’. Isto, sem dúvida, significa que a pena capital seria usada contra qualquer pessoa que matasse a Caim. Destarte, de modo contrário àquilo que talvez pareça na superfície, o caso de Caim é a ‘exceção’ que comprova a regra. Desde o princípio, era a intenção de Deus que os crimes capitais recebessem penas capitais.”10
b) A aliança de Deus com Noé: “A primeira referência à pena capital acha-se em Gênesis 9.6. Noé e sua família sobreviveram ao grande dilúvio, que foi precipitado pela maldade e pela violência daquela civilização antediluviana
(cf. Gn 6.11). Quando Noé emergiu da arca. Deus lhe deu a seguinte injunção:
‘Se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu; porque Deus fez o homem segundo a sua imagem’. O assassinato é errado porque é matar Deus em efígie, e quem tirar a vida dos outros homens deve ter sua vida tirada pelas mãos dos homens. Os antediluvianos tinham enchido o mundo com violência e derramamento de sangue. Pelo uso da pena capital os homens deveríam abafar a violência e restaurar a ordem da justiça. Deus instituiu a ordem e a paz sociais e deu ao governo a autoridade sobre a vida para garantir à humanidade estes benefícios.”11
c) O exemplo de Acã: Aquilo que de nossa perspectiva do século XX parece inaceitável e brutal aconteceu com Acã e seus familiares, por desobedecerem ao mandamento do Senhor. Não apenas Acã, mas todos seus familiares sofreram a pena máxima (Js 7.1,12,20, 24-26).
d) A lei de Moisés: Na lei de Moisés percebemos até uma expansão e radicalização da pena de morte. O princípio básico era “vida por vida, olho por olho, dente por dente” (Êx 21.23, 24). A pena máxima foi permitida e sancionada por Deus nos seguintes casos: assassinato premeditado (Êx 21.12-14); seqüestro (Êx 21.16; Dt 24.7); adultério (Lv 20.10-21, Dt 22.22); homossexualismo (Lv 20.13); incesto (Lv 20.11, 12, 14); bestialidade (Êx 22.19; Lv 20.15, 16); desobediência aos pais (Dt 17.12; 21.18-21); ferir ou amaldiçoar os pais (Êx 21.15; Lv 20.9; Pv 20.20; Mt 15.4; Mc 7.10); falsas profecias (Dt 13.1-10); blasfêmia (Lv 24.11-14; 16.23); profanação do sábado (Êx 35.2; Nm 15.32-36); e sacrifícios aos falsos deuses (Êx 22.20).
e) O ensino de Jesus: Temos a tendência de esquecer que Jesus reafirmou o princípio da pena máxima no sermão do monte: “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas: não vim para revogar, vim para cumprir... Ouvistes que foi
dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento [à pena de morte]. Eu, porém, vos digo que todo aquele que (sem motivo) se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento” (Mt 5.17, 21,22).
f) Ananias e Safira: Esse casal foi condenado à morte pelas palavras apostólicas de Pedro. Eles tiveram morte imediata porque mentiram (At 5.13). Encontramos, então, e claras evidências de que o Novo Testamento, mesmo na dispensação da graça, permite que homens condenem homens à morte.
g) Estêvão e Tiago: Esses dois exemplos históricos de Atos mostram claramente que o Sinédrio, ou Concilio dos Setenta, tinha poder para pronunciar a pena capital. Tal atitude não foi reprovada pelo historiador ou pela comunidade, mas simplesmente comunicada (At 7.59; 12.1, 2).
h) O ensino de Paulo: Em Romanos 13.1, 2 vemos que Deus deu a espada às autoridades humanas para protegerem a vida. O uso da espada para o bem da sociedade logicamente inclui a pena de morte em casos especiais. Mas é importante observar que a espada foi dada para o bem da sociedade e não deve ser empregada indiscriminadamente.
i) A morte de Jesus Cristo: Pilatos realmente teve autoridade para prescrever a pena máxima a Jesus, e Cristo Se submeteu a ela (Jo 19.11). Sem essa pena não gozaríamos de tão grande salvação.
Diante de todos esses argumentos, concluímos que realmente existem exemplos morais concludentes no Antigo e no Novo Testamentos, que “mostram que Deus ordenou, e os homens exerciam a pena capital para delitos específicos. Ajpena de morte é instituída por Deus, através dos homens, contra os culpados”.1'
3. A problemática da pena capital no século X X
A perpetração da pena máxima em mais de trinta países no mundo inteiro é uma situação moral questionável, pelo fato de esta prática muitas vezes estar sendo utilizada por governos de regime totalitário, como a China e o Irã. Em muitos casos, a vítima é condenada à morte sem um processo jurídico legal, acusação comprovada ou direito à defesa legítima, o que pode levar a erros jurídicos irreversíveis. E fácil acabar aplicando a pena de morte, não apenas contra criminosos, mas também contra qualquer oposicionista que critique o regime. Por essa razão, a Anistia Internacional exige a abolição incondicional e irrestrita da pena de morte no mundo inteiro.13 Embora os dois Testamentos apoiem formalmente a pena de morte, essa prática é contrária ao espírito e à religião cristã, que são de amor, paciência, tolerância e perdão. Desde Constantino, o cristianismo a tem apenas tolerado como legítima defesa coletiva e como execução da vontade divina para situações específicas e extremas.
No Brasil, a reintrodução da pena máxima certamente seria desfavorável à classe pobre e favorável aos ricos. E preciso fazer uma ampla reforma judiciária
e penitenciária e acabar com as desigualdades jurídicas entre ricos e pobres. O jornalista Gilberto Dimenstein, diretor da sucursal de Brasília do jornal Folha
de São Paulo, aponta ainda outro aspecto da pena de morte. Em sua estimativa,
a população de crianças abandonadas no Brasil chega a 27 milhões. Os grupos de extermínio eliminam um menor de rua por dia, o que é uma institucionalização social da pena de morte em pleno século XX.14 Chegou a hora de dar um basta à discriminação do menor e desenvolver um programa sensato envolvendo Estado, igrejas e entidades filantrópicas. Precisamos melhorar a escolaridade da criança brasileira, aperfeiçoar as escolas técnicas e os cursos profissionalizantes, enfim, fazer tudo para resgatar a dignidade humana e o direito à vida. O ensino do sexto mandamento é claro, específico e concreto: todo ser humano possui o direito de viver dignamente.
- B
A MALDIÇÃO DA GUERRA
O homem sensato não deseja a guerra porque sabe que traz enormes conseqiiências morais e sociais para o povo. A guerra é uma maldição e precisa ser evitada. Desde 1945 houve mais de 150 conflitos armados,15 e hoje, mais de 25 milhões de pessoas prestam serviço militar ativo no mundo inteiro.16 Em 1979, a União Soviética gastou 165 bilhões de dólares (17% do Produto Nacional Bruto) em armas.17 A miséria e a fome dos países do terceiro mundo poderíam ser facilmente resolvidas com o dinheiro que as grandes potências investem em armamento nuclear. Mas infelizmente, enquanto a humanidade continuar sem Deus e sem esperança, e Cristo não voltar para estabelecer Seu reino, estaremos longe da paz. Reinhold Niebuhr (1892-1970), o mais famoso professor de ética cristã dos Estados Unidos neste século, encara a questão com realismo bíblico ao afirmar que os indivíduos podem converter-se à paz, mas a sociedade imoral nunca se libertará da maldição da guerra.18
A questão da guerra é o segundo exemplo clássico que não se enquadra necessariamente no sexto mandamento. O povo de Israel jamais considerou que este mandamento proibisse guerras, mesmo porque o próprio Deus ordenou várias guerras: contra Amaleque (Êx 17.8-16; 1 Sm 15.1-9), contra os filisteus (1 Sm 7.1-14), contra os amonitas (1 Sm 11.1-11), contra Jerico (Js 6.2ss.), contra Ai (Js 8.1ss.), contra os cananeus (Js 11.19, 20) e muitas outras, mencionadas principalmente nos livros históricos do Antigo Testamento.
O próprio Deus é conhecido como “homem de guerra” (Êx 15.3; Is 42.13). O título “Senhor dos Exércitos” (Êx 12.41; 1 Sm 17.5; SI 46) indica que Deus luta contra os inimigos ao lado de Seu povo. Em Números 21.14 lemos: “livro das Guerras do Senhor”. O próprio Deus, na qualidade de capitão, chefiava o exército (2 Cr 13.12). Na oração do rei Salomão, temos uma forte indicação de que o Senhor envia Seu povo contra os inimigos (2 Cr 6.34). Ele armou
emboscadas (2 Cr 20.22) e ensinou o salmista a combater (SI 144.1). Algumas vezes, Deus assumiu a batalha e combateu sozinho, enquanto o exército de Israel ficava quieto (2 Cr 20.17). Qualquer guerra “convocada por Deus” estava fadada a ser vencida pelos israelitas.
Assim, qual a posição dos cristãos com respeito à guerra? Até que ponto o cristão pode envolver-se em conflitos bélicos? Existem normas ou diretrizes bíblicas para nos orientar nesta questão?
Quanto a esse problema, o cristianismo divide-se em pelo menos três correntes de pensamento. E interessante observar que todas usam a Bíblia para fundamentar seus pontos de vista.
1. O ativismo
O ativismo sustenta que o cristão deve ir para todas as guerras em submissão e obediência ao governo instituído e ordenado por Deus (Rm 13.1-7). Para justificar sua posição, essa linha de pensamento opera com as seguintes referências bíblicas: Gênesis 1.28; 9.5, 6; Êxodo 21.23-25; Mateus 22.21; Romanos 13.1-7; 1 Timóteo 2.2; Tito 3.1; 1 Pedro 2.13,14.
Além desses exemplos bíblicos, o ativismo apresenta cinco argumentos filosóficos sugeridos por Platão: o governo é o pai do homem; o governo é o educador do homem; o governado comprometeu-se a obedecer a seu governo; o governado não está compelido a permanecer sob seu governo; e sem governo haveria caos social.19
Qual seriam os problemas do ativismo? O primeiro é de ordem hermenêutica. Como podemos justificar guerras entre nações pagãs de hoje baseados em guerras ordenadas pelo Senhor no Antigo Testamento? Nenhuma dessas nações é o povo escolhido por Deus. O segundo problema é que já se