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Os capitães-de-fragata Antônio Luís von Hoenholtz12, brasileiro, e Dom Guilherme Black, peruano, em 1871, recebem instruções para realizar a demarcação dos limites com o Peru. Em 1874, o Barão de Tefé, acreditava ter localizado as vertentes do Javari, a 7º 1' 17'' 5 de latitude sul, considerando como sua nascente principal o rio Jaquirana. Convém salientar que essa comissão em nada se relacionava com as demarcações dos limites entre Brasil e Bolívia.

Diante da interrupção das demarcações referentes ao Tratado de Ayacucho e da crescente pressão boliviana, o Ministro das Relações Exteriores, Carlos de Carvalho Diez de Medina, em 1895, assinou o protocolo de 19 de fevereiro de 1895. Segundo Lopes Gonçalves, o protocolo foi “a origem de todos os males à população do Acre, dos vexames por que tem passado a nossa chancelaria, dos prejuízos suportados pelo Amazonas, ocasionados ao comércio, à liberdade do trabalho, à ordem social” (1901 apud RICARDO, 1954, v. 1, p. 106).

O protocolo em seu segundo artigo definia que:

Ambas as partes adoptarão, como se tivesse sido praticada pela Comissão Mista (a que devia concluir a demarcação da fronteira) a operação pela qual, na demarcação de limites entre o Brasil e o Perú, se determinou a nascente do Javarí. Esta nascente está, pois, para todos os efeitos, na demarcação entre o Brasil e a Bolívia, situada aos 7º 1' 17''5 de latitude sul e 74º 8' 27''07 de longitude oeste de Greenwich (RICARDO, 1954, v. 1, p. 106-107).

Em outras palavras, o governo brasileiro aceitou o primeiro marco da fronteira com o Peru como sendo o último da fronteira com a Bolívia. A Comissão Mista, que deveria finalizar os trabalhos de demarcação, foi, então, constituída pelos coronéis Gregório Thaumaturgo de Azevêdo, ex-governador do Amazonas, e José Manuel Pando Solares, futuro presidente da Bolívia (COSTA, 2005; RICARDO, 1954).

Aceitando a nascente do Javari localizada pelo Barão de Tefé, pelas instruções do protocolo, a linha de fronteira deveria partir do marco do Madeira, na latitude 10º 20' 13''65, e seguir para oeste e a norte até as vertentes do Javari. Ajustes deveriam ainda ser realizados, de acordo com o Tratado de Ayacucho, a fim de melhor corresponder à realidade da ocupação da região e de conformar a fronteira com limites naturais.

Iniciando os trabalhos da Comissão Mista pela nascente do Javari, entretanto, Thaumaturgo de Azevêdo descobriu que a nascente não se encontrava no local indicado. Sancionar esse erro seria perder a área mais rica e produtiva do Amazonas, a região que mais

12 Em 11 de junho 1873, o capitão de fragata Antônio Luís von Hoenholtz receberia o título nobiliárquico de

abastecia o governo do estado com borracha para a exportação, e, não menos importante, povoada por brasileiros (RICARDO, 1954).

Thaumaturgo de Azevêdo, comprometido em corrigir o equívoco cometido, pronunciou-se contrário a aceitar o marco estabelecido:

Aceitar o marco do Peru como o último da Bolívia, devo informar-vos que o Amazonas irá perder a melhor zona de seu território, a mais rica e a mais produtiva; porque, dirigindo-se a linha geodésica de 10° 20’ a 7º 1' 17''5 ela será muito inclinada para o norte, fazendo-nos perder o alto rio Acre, quase todo o Iaco e o alto Purus, os principais afluentes do Juruá e talvez os do Jutaí e do próprio Javari; os rios que nos dão a maior porção de borracha exportada e extraída por brasileiros. A área dessa zona é maior de 5.870 léguas quadradas. Toda essa zona perderemos, aliás, explorada e povoada por nacionais e onde já existem centenas de barracas, propriedades legítimas e demarcadas e seringais cujos donos se acham de posse há alguns anos, sem reclamação da Bolívia, muitos com títulos provisórios, só esperando a demarcação para receberem os definitivos. Portanto, a serem executadas as instruções que me destes, terá o Amazonas que perder 46% da produção da borracha ou, anualmente, 2.610:960 $600, no caso da [sic] linha de limites não abranger os afluentes do rio Juruá; ou, se abranger, a perda será de 68% e a renda desfalcada de 3.859:680 $000 e maior ainda será o prejuízo e desfalque na renda, se a mesma linha não salvar os afluentes do rio Jutaí e os do próprio Javari, como ltecuaí, já navegado por vapores em muitos dias de viagem. Nestas condições, penso que podeis apresentar ao ministro boliviano o alvitre de ser descoberta a verdadeira origem do Javari, e, uma vez reconhecida, ali se colocar o último marco da fronteira com a Bolívia (COSTA, 2005, p. 84).

Carlos de Carvalho aceitou o alvitre do agora general Thaumaturgo e o propôs ao plenipotenciário boliviano (COSTA, 2005). A Bolívia, todavia, não aceitou a proposta, alegando que seria um absurdo reiniciar “nuevas y dificiles investigaciones sobre un punto de límite ya deliberadamente estabelecido y definitivamente reconocido”13 pelos dois países. A demarcação, dessa forma, prosseguiu, persistindo no erro de von Hoenholtz.

Agravando ainda mais a situação, em 1896, o general Dionísio Cerqueira assumiu a pasta do Exterior. O novo ministro discordou da posição de Thaumaturgo (CERQUEIRA, 1903), que diante do desprestígio acabou por demitir-se da comissão.

Em O Acre: limites com a Bolívia, o general Thaumaturgo registra, veementemente, as críticas que recebera. A oposição considerava os que apoiavam o general (e ele próprio) “espíritos pouco escrupulosos, sob a máscara de um falso patriotismo”, “pouco ilustrados a serviço de especuladores de pouca consciência”, que “tergiversando os fatos, procurando servir suas ambições pessoais e angariar proventos”, “só por perversidade de ânimo, por ignorância ou por venalidade pode desconhecer o direito da Bolívia ao Acre” (AZEVÊDO, 1901, p. 32-33).

13 “[…] novas e difíceis investigações sobre um ponto de limite já deliberadamente estabelecido e

A posição de Thaumaturgo foi, entretanto, apoiada por diversas instituições e personalidades, que aplaudiram suas sugestões, como sendo notáveis pela sabedoria profissional e, principalmente, pela visão patriótica14.

O assunto ganhou momentum no Congresso Nacional e na imprensa e a população brasileira passou a interessar-se pela causa acreana. Formaram-se, à época, quatro diferentes interpretações do Tratado de Ayacucho15 quanto à cessão de território brasileiro à Bolívia, conforme elenca Cassiano Ricardo (1954):

• Não houve cessão de território, uma vez que o território não era brasileiro, não havia o que ceder. Ainda que a população do Acre fosse composta essencialmente por brasileiros, a ocupação era ilegal, pois teria sido realizada somente em 1879, doze anos após o Tratado de Ayacucho.

• Não houve cessão de território, pois o território era e continuava a ser brasileiro. Neste caso, a interpretação do tratado de 1867 deveria ser, obrigatoriamente, a da linha paralela.

• Houve cessão de território, de acordo com o próprio Tratado de Ayacucho. As bacias do Purus e do Juruá, que estariam povoadas por brasileiros mesmo antes de 1867, eram brasileiras e foram cedidas na assinatura do tratado, que as transferia para a Bolívia.

• Houve cessão de território, não por conta do tratado, mas por um erro de interpretação e uma sequência de erros da diplomacia brasileira.

A opinião do chanceler era a de que não poderia haver cessão de território brasileiro em benefício da Bolívia, uma vez que, de acordo com o Tratado de Ayacucho, o Acre era boliviano. Atribuir a Dionísio Cerqueira a alcunha de antipatriótico, irresponsável ou negligente, como foi tratado na época e por diversos autores na posteridade (RICARDO, 1954), é uma injustiça à causa nobre que o ministro julgava defender.

De acordo com o entendimento do chanceler, o Tratado de Ayacucho já beneficiara em seus termos o direito brasileiro sobre a bacia amazônica. O Tratado de Santo Ildefonso, de 1777, definia que a fronteira brasileiro-boliviana deveria partir, a leste, da distância média entre a confluência entre o Beni e o Mamoré e a foz do Madeira no Amazonas. A partir deste ponto, a linha deveria seguir a oeste por uma paralela, até atingir a margem oriental do Javari.

14 O Instituto Politécnico Brasileiro, a Sociedade Nacional de Geografia, o Instituto Histórico e Geográfico, Rui

Barbosa e Lauro Sodré foram alguns indivíduos e instituições que apoiaram a atitude do general Thaumaturgo de Azevêdo (COSTA, 2005).

Note-se que o ponto médio do Madeira se encontra, aproximadamente, no paralelo 6º 58'. Seria nesse paralelo, e não nos 10º 20', que se esperava encontrar o Javari. A retificação do ponto de partida da fronteira veio a beneficiar o país, garantindo ao Brasil vastas porções de terra, inexistentes pelo acordo de 1777.

O ministro considerava a apelação insistente pela interpretação da linha paralela dos 10º 20' que seguisse até o meridiano da nascente do Javari e depois seguisse por uma perpendicular um ultraje ao direito internacional e às tradições da diplomacia brasileira. Mesmo os argumentos referentes à ocupação brasileira no Acre eram rebatidos por Dionísio Cerqueira com a premissa de que o uti possidetis referia-se às condições de 1867 e não às atuais.

Registrado em La Bolivie et le Brésil: la question de l'Acre, l'appréciation du Gouvernement brésilien en 1900 en complète contradiction avec celle d'aujourd'hui16 estão as, vale dizer, nobres e veementes considerações de nosso chanceler sobre a questão: “Le Brésil est très grand, très riche, très noble. Il sait défendre ses droits et respecter ceux des étrangers. Il préfère son honneur a l'intérêt et pense qu'il y a une chose qui vaut plus que les grandes cultures de caoutchouc de l'Acre: c'est la Justice”17 (CERQUEIRA, 1903, p. 62).

O ministro Dionísio Cerqueira, porém, transigindo diante da opinião pública, mudou sua posição sobre o caso. Em uma tentativa de atender às vontades tanto da Bolívia como da opinião pública brasileira, Cerqueira designou o capitão-tenente Augusto da Cunha Gomes para verificar a posição da nascente do Javari (COSTA, 2005; RICARDO, 1954). Cunha Gomes iniciou os trabalhos em junho de 1897 e em 11 de janeiro de 1898, apresentou o relatório da expedição. A nascente do Javari estaria, na verdade, na latitude 7º 11' 48''10 sul (GOMES, 1899), uma pequena diferença, de pouco mais de dez minutos, das demarcações de Hoenholtz e Black. Esta linha, da boca do Madeira à nascente do Javari, ficaria conhecida como “linha Cunha Gomes”.

O chanceler Dionísio Cerqueira, tendo em vista a incerteza quanto à nascente do Javari, elabora uma proposta ao ministro boliviano no Brasil. Em nota oficial, de 25 de abril de 1898, o Itamaraty comunicou o ministro boliviano que a demarcação deveria ser suspensa, pois:

16 “A Bolívia e o Brasil: a questão do Acre, a apreciação do governo brasileiro em 1900, em completa

contradição com a de hoje” (tradução sugerida).

17 “O Brasil é muito grande, muito rico, muito nobre. Ele sabe defender seus direitos e respeitar os direitos dos

estrangeiros. Ele prefere sua honra ao interesse, e acredita que existe uma coisa que vale mais que as grandes culturas de borracha do Acre: a justiça” (tradução sugerida).

[...] provada como fica a necessidade de retificação (da nascente principal do Javari) não pode o governo brasileiro continuar pela sua parte a demarcação; suspende-a, pois, para se entender com o governo boliviano e não pode agora continuar sem obter do Congresso Nacional o crédito necessário (COSTA, 2005, p. 85).

A resposta boliviana, por meio de seu representante no Rio de Janeiro, D. José Paravicini, como esperava a diplomacia brasileira, foi contrária à suspensão dos trabalhos de demarcação. Paravicini escreve:

[…] no sería motivo bastante para impedir que mi Gobierno continúe la ocupación

que ha emprendido ya de los ríos Aquiry, Yacú y Purus y establecese a las oficinas fiscales necesarias, en lugares aún en el peor caso para Bolivia, absolutamente inquestionable, pues sería perjudicial para sus intereses dejar por más tiempo esas

regiones sobre las quales están definidos sus derechos18.