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FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS

UNIVERSIDADE NOVA DE LISBOA

D

EPARTAMENTO

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NIVERSITÁRIO DE

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AÚDE

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ÚBLICA

O DIREITO A SER

ESQUERDINO

A N Á L I S E D A S P E R C E P Ç Õ E S ,

C O N H E C I M E N T O S E A T I T U D E S S O B R E A

Q U A L I D A D E D E V I D A D O S E S Q U E R D I N O S

M. C. Escher

I

NTROD UÇÃO

«...dizei-me ora quem sois e por que "esquerdos" fados viestes a ser nesta escravidão meu companheiro?...» D. Francisco Manuel de Melo, in Apólogos Dialogais (séc. XVII)

A questão da lateralidade, em particular da preferência manual (handedness), tem sido alvo de debate nas mais diversas áreas do conhecimento (Medicina, Antropologia, Psicologia e Sociologia, entre outras). Mesmo dentro da Medicina, este assunto diz respeito a várias especialidades como a Genética, Pediatria, Psiquiatria, Neurologia, Medicina do Trabalho e Saúde Pública.

Estima-se que 10% da população mundial tem preferência manual esquerda (esquerdino ou, mais vulgarmente, canhoto) (1; 2; 3), registando-se variações geográficas. Por exemplo, no Japão, a percentagem de esquerdinos na população é de aproximadamente 5% (1), presumivelmente devido à alta frequência de crianças forçadas a escrever com a mão direita. Em contraste, na população indígena Yanomamo, na Venezuela, por exemplo, a frequência de esquerdinos ronda os 23%. Neste caso, supõe-se que o facto de ser esquerdino traz vantagens em actos de confrontação física (bastante frequentes nesta população), pelo factor-surpresa acrescido (4).Globalmente, a lateralidade à esquerda é mais frequente no sexo masculino, havendo um decréscimo da prevalência de esquerdinos declarados com o aumento da idade (5; 6). Este declínio pode dever-se a uma maior frequência de indivíduos idosos forçados a escrever com a mão direita ou a uma menor esperança média de vida dos esquerdinos (7). A lateralidade esquerda também tem um componente hereditário significativo. Assim, segundo um estudo de McManus & Bryden, dois progenitores dextros têm menor probabilidade de terem um filho esquerdino (9,5%), do que se um dos pais (19,5%) ou os dois (26,1%) forem esquerdinos. Desconhece-se, no entanto, o verdadeiro peso da componente genética em relação à influência ambiental (por imitação ou por ensino propositado dos pais) (8)."

Na Idade da Pedra, a escrita era feita com o apoio do escopro seguro pela mão esquerda e batido com o martelo pela mão direita, e que levou a que os primeiros alfabetos se escrevessem da direita para a esquerda, como ainda o são o árabe e o hebreu, línguas nas quais a escrita com a mão esquerda está mais facilitada. Por contraste, o alfabeto Latino, escrito da esquerda para a direita, está mais adaptado à escrita com a mão direita (9).

Ao longo da História, os esquerdinos têm sido alvo de considerável discriminação. A conotação negativa da “esquerda” remonta ao proto Indo-Europeu (3000 a.C.), idioma precursor de todas as línguas latinas, que não tinha qualquer palavra para designar este lado (1). Em 1903, Cesare Lombroso, um dos pais da Criminologia, associava a lateralidade esquerda à criminalidade, insanidade e atraso mental (10). Em 1946, Blau definia a preferência manual esquerda como “um sintoma neurótico (…), um dos sinais de uma psico-neurose infantil”. Em 1960, Hertz afirmava: “Um dos sinais que distingue uma criança bem-educada é de que a sua mão esquerda se tornou incapaz de qualquer acção independente” (3). Este sentido pejorativo de tudo o que se relaciona com o lado esquerdo está patente na própria linguagem: no Latim, a palavra sinistra refere-se à esquerda, mas também ao Diabo e ao azar, tendo este duplo significado permanecido nas línguas europeias derivadas do Latim, como o Inglês ou o Português, como atestam os sinónimos de esquerdino canhoto6 e

sinistro7. Ao invés, o lado direito, está associado a correcção, rectidão, justiça e destreza (11). O

termo ambidextro (“ser dextro em ambas as mãos”) e, o menos usado, ambissinistro (“dejajeitado nos dois lados”, mais reforçam as conotações comummente atribuídas a estas palavras. Apesar de tudo, actualmente parece haver uma maior aceitação dos esquerdinos na maioria das sociedades (2). Também são encontrados exemplos de conotações positivas associadas à lateralidade esquerda, nomeadamente entre os Incas, e actualmente entre os indígenas dos Andes - onde está associada a capacidades espirituais, incluindo a magia e a cura – e no Budismo – representando a sabedoria.

Com o advento da Epidemiologia moderna, na segunda metade do século XX, foram efectuados estudos que demonstraram uma associação estatisticamente significativa entre ser-se esquerdino e ter doenças como alergias, enxaqueca, dislexia, gaguez, malformações esqueléticas, patologia tiroideia e outras doenças auto-imunes, e ainda patologia psiquiátrica como esquizofrenia (12). Com estes dados, Geschwind e Galaburda, em 1984, propuseram um modelo de desenvolvimento da lateralidade esquerda, segundo o qual os níveis de algumas hormonas durante a gravidez (nomeadamente a testosterona) influenciariam, tanto a organização dos hemisférios cerebrais, como a génese de outros órgãos como o timo e tiróide (13). Em 1988, Halpern e Coren, com bastante polémica, afirmaram que em média os dextros vivem mais 9 anos que os esquerdinos (14), tendência que tem sido corroborada por outros estudos (15). Contudo, esta diferença de longevidade não é unânime, já que alguns autores defendem que a menor prevalência de

Nos últimos 5 anos, com o recurso adicional a técnicas de Biologia Molecular, foram demonstradas algumas das associações acima citadas, nomeadamente com alguns tipos de esquizofrenia, esclerose múltipla, dislexia e algumas neoplasias (16; 17; 18; 19; 20).

No entanto, muitos dos estudos referidos têm sido alvo de diversas críticas. A existência de vários viezes, como a inconsistência nas formas de classificação da lateralidade, a escassa análise acerca da frequência de “esquerdinos corrigidos” durante a infância, ou mesmo o viés de publicação (estudos com resultados positivos são mais publicados), têm posto em causa a sua validade (2). Certos autores, como Perelle e Ehrman, defendem a existência de vários sub-grupos de esquerdinos: 1) esquerdinos “patológicos”, isto é, aqueles que sofreram uma lesão no hemisfério esquerdo durante o seu desenvolvimento (daí a maior prevalência de doenças do foro neuropsiquiátrico); 2) esquerdinos “naturais”, com dominância do hemisfério direito sem nenhum dano prévio; 3) esquerdinos “adquiridos”, que embora tenham dominância do hemisfério esquerdo, começaram a utilizar a mão esquerda por mero acaso (3).

Actualmente, o ambiente físico e estrutural está planeado e construído maioritariamente para dextros, por ser o grupo mais prevalente. Assim, desde os objectos de escritório aos instrumentos musicais, passando pelos automóveis, acessos a edifícios e sua arquitectura, bem como outras infra- estruturas, podem implicar dificuldades quotidianas para os esquerdinos. De facto, há provas da existência de uma maior vulnerabilidade destes, nomeadamente nos acidentes domésticos e de trabalho (21; 22; 23). A lateralidade esquerda está associada ainda a limitações, por vezes graves, no desempenho de algumas profissões (cirurgiões, dentistas) (23; 24).

Contudo, ser esquerdino também parece ter algumas vantagens (8). Por exemplo, no campo profissional, aonde um estudo verificou que os homens esquerdinos auferiam rendimentos mais elevados do que os dextros (25). Também nas artes, os esquerdinos parecem ser mais criativos do que os dextros (26), e existem dados a favor de uma maior proporção de esquerdinos entre os músicos do que na população em geral (27). Já no campo desportivo, naquelas modalidades como o ténis ou a esgrima em que existe interacção com um adversário, a preferência manual esquerda parece ser uma vantagem. No ténis, a proporção de esquerdinos nos lugares cimeiros é muito mais elevada do que aquela da população total de jogadores ou da população em geral (28). Por último, pensa-se ainda na preferência manual esquerda como uma vantagem na luta corpo-a-corpo, levando a um fenómeno de selecção natural, com preservação deste fenótipo ao longo da história (29).

No que diz respeito à população portuguesa, não existem dados referentes à caracterização demográfica da lateralidade, nem à avaliação do impacte sócio-cultural. Desconhece-se se tem havido evolução na educação para os esquerdinos, algum programa específico para prevenção de acidentes ou acções contra a discriminação descrita anteriormente. O presente estudo pretende abordar alguns destes aspectos.

O

BJEC TIVO S

Objectivo Principal:

Avaliar percepções, conhecimentos e atitudes da população sobre a qualidade de vida (quotidiano, saúde e profissional) dos esquerdinos.

Objectivos Secundários:

Caracterização da preferência manual na amostra, incluindo diferenças de lateralidade associadas a sexo, idade, escolaridade.

Avaliar a prevalência da alteração forçada da preferência manual nos vários grupos etários. Aferir a persistência de pressões sociais e discriminação em relação à preferência manual esquerda.

Registar as principais dificuldades no quotidiano dos esquerdinos.

Verificar a existência de diferenças, designadamente entre os sexos, grupos etários e graus de escolaridade.

ME TODOLO GIA

Tipo de estudo: Estudo descritivo e transversal.

População em Estudo: Indivíduos com mais de 14 anos de idade Descrição da Amostra: Amostra de Conveniência da População Alvo

Critérios de Inclusão:

Idade superior ou igual a 15 anos

Presença no local e momento do questionário Disponibilidade para responder ao questionário Conhecimentos da Língua Portuguesa falada e escrita Ausência de deficiência dos membros superiores

Os investigadores negam qualquer conflito de interesses em relação a este estudo.

Processo da Colheita dos Dados:

Realização de questionário de auto-preenchimento, anónimo e individual, constituído por perguntas de escolha múltipla e resposta curta.

Será realizado um pré-teste.

Descrição das Variáveis

As variáveis a estudar incidirão sobre:

Caracterização sócio-demográfica (sexo, idade, escolaridade e profissão) dos inquiridos; Avaliação da lateralidade (Edimburgh Handedness Inventory revisto por Stephen M. Williams)

(30) e mudança forçada de mão utilizada para escrever; Avaliação da convivência com esquerdinos;

Avaliação das percepções acerca da qualidade de vida dos esquerdinos (dificuldades em tarefas e manuseamento de objectos em casa, na escola ou no trabalho; saúde e relações inter-pessoais, eventuais profissões, felicidade, etc);

C

RONOG RA MA

Mês

Março

Dia

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25

Apresentação e aprovação do protocolo Pesquisa bibliográfica

Planificação do questionário Formação Epinfo

Recolha de dados

Processamento de dados e edição do artigo Aula de formação (edição do artigo) Entrega do artigo

BIBLIOG RA FIA

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No documento Relatório estágio profissional (páginas 32-42)

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