4.2. Parâmetros da publicidade enganosa Elementos para configuração
4.2.3. A enganosidade por omissão
4.2.3.2. Publicidade e o alcance do dever de informar
O estudo da publicidade enganosa por omissão nos leva a necessariamente indagar sobre a extensão do dever de informar e o conteúdo da mensagem publicitária. Vale dizer, até que ponto a publicidade deve informar? É possível informar todas as condições de aquisição em 30 segundos de publicidade? Ou em espaço de mídia restrito?
Estabelecer-se o alcance do dever de informar por meio da publicidade é tarefa notadamente árdua. A esse respeito, parece-nos, porém, fundamental chamar a atenção para o fato de que eventual função informativa exercida pela publicidade não deve ser confundida com o dever de informar ampla, precisa e ostensivamente o consumidor, nos termos do artigo 31 (aplicável à oferta não publicitária)271 e demais dispositivos do CDC. Com efeito, o direito básico do consumidor à ampla e ostensiva informação, assegurado pelo CDC em todas as fases contratuais (pré-contratual, contratual e pós-contratual), não se esgota – e nem poderia se esgotar – na publicidade de bens e serviços.
Um primeiro elemento que deve ser considerado em relação ao alcance do dever de informar na publicidade consiste na sua própria finalidade. Segundo a doutrina mais especializada, a função informativa está subordinada à função persuasiva, já que é inerente à publicidade que o fornecedor coloque em relevo as características que favoreçam seus produtos272. Assim, embora a publicidade contenha informações e seja um
271 Como reconhece BENJAMIN (CBDC comentado..., p.273), ―o artigo 31 aplica-se, precipuamente, à oferta não publicitária‖ e, mais adiante, ao tratar do tema da publicidade enganosa por omissão admite que ―não seria admissível que, em 15 segundos de um anuncio televisivo, o fornecedor fosse obrigado a informar sobre todas as características e riscos de seus produtos ou serviços. Assim, nos termos da lei e nos passos do Direito Comparado, só aquelas informações essências são obrigatórias‖. (idem, p.336). Ainda no sentido de que o artigo 31 não se dirige às mensagens publicitárias, mas incide em relação à apresentação de produtos e serviços, SANTOS, Fernando Gherardini. Direito do Marketing, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p.221.
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Na doutrina, ressaltando o papel secundário da função informativa da publicidade, encontramos Jean CALAIS-AULOY para quem, ―é conveniente, entretanto, não confundir informação e publicidade. Esta não tem a finalidade de informar; ela tem por missão atrair os consumidores‖ (―Il convient cependant de ne pas confondre information et publicité. Celle-ci n‘a pas poux but d‘informer; elle a pour mission d‘attirer les consommateurs‖, Droit de la consommation, 4ª ed, Paris: Dalloz, 1996, p.44). No mesmo sentido, cf. PASQUALOTTO, Adalberto: ―A originária função informativa foi subordinada pela nova função persuasiva, que não deixa de ser conseqüência de uma propensão natural de qualquer empresário de falar bem do seu produto e do poder de sugestão próprio aos meios de comunicação em massa‖ (Os Efeitos Obrigacionais da Publicidade no Código de Defesa do Consumidor, São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997, p. 29). E também
145 meio eficaz de levar ao conhecimento do consumidor a existência de produtos e serviços, é certo que dificilmente se obterá do material publicitário veiculado, qualquer que seja ele, a precisão total e absoluta de informações que muitas vezes se requer para a conclusão de um negócio. Como observa o jurista francês Jean Calais-Auloy ―a publicidade mesmo que não seja enganosa, ela é necessariamente tendenciosa‖.273
Do que resultam – diante da dupla finalidade da publicidade – quase que dois interesses conflitantes: incentivar o consumo versus bem informar o consumidor.
Adotando essa mesma linha de pensamento, Walter Ceneviva, escreve que ―mesmo para quem não admita o dolus bonus na publicidade, forçoso reconhecer que publicidade e precisão absoluta são dados incompatíveis entre si‖. Para o autor, o critério da finalidade também ―distingue a publicidade comercial da informação: naquela o propósito de incentivar a venda está sempre presente; nesta a indicação é neutra, quanto à comercialização‖.274
Alcides Tomasetti, por sua vez, pontua que, ―a informação tem o sentido funcional de racionalizar as opções do consumidor‖. E esclarece que essa racionalização das declarações negociais e das relações jurídicas de consumo ―é resultado que não se obtém pela sugestão (publicitária, em especial), a qual primordialmente atual pela incitação dos sentidos‖275
. Ou seja, a publicidade quer, em primeiro plano, atrair a atenção do consumidor sobre a existência de um certo produto (e, sob este prisma, pode ser entendida BENJAMIN: ―a informação que é dada pelo anunciante é um mero veículo – parcial – por ele utilizado para incentivar os consumidores a adquirirem seus produtos e serviços. Não se deve, pois, esperar dele mais informação que aquela que seja suficiente para alcançar tal objetivo. Ademais, de maneira geral, tampouco se aguarde informação outra que não seja a incompleta, partisan, de natureza seletiva‖. (ob. cit., p.304). E, ainda, VILAÇA LOPES, Maria Elizabete: ―o objetivo da publicidade não é só informar os consumidores, mas informar com o fito de vender‖ (O Consumidor e a Publicidade. Revista Direito do Consumidor, v. 1, São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 152). V, ainda, item 1.3 (―funções da publicidade‖) do capitulo 1º doutrina citada em rodapé n.22 retro.
273 CALAIS-AULOY, Jean. Droit de la consommation…, p.44: ―Mais une publicité, même si elle n‘est pas trompeuse, est nécessairement tendancieuse‖. O autor aduz na seqüência que não é o caso de se proibir a publicidade, mas é preciso que os fornecedores veiculem aos consumidores informações objetivas: ―Il n‘est pas question d‘interdire la publicité. Mais il faut que les professionnels fournissent aussi aux consommateurs une information objective‖(idem, p.45).
274 CENEVIVA, Walter. Publicidade e Direito do Consumidor. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1991, p.79.
275 TOMASETTI JUNIOR, Alcides. O objetivo de transparência e o regime jurídico dos deveres e riscos de
146 como informativa), mas não no sentido de informar exaustivamente o consumidor de modo a auxiliá-lo na racionalização de suas opções, como bem pontua Alcides Tomasetti. Esta é a função da informação: neutra na indicação do produto ou serviço.
Ao lado da finalidade, um segundo elemento se coloca quanto ao alcance do conteúdo informativo da publicidade e diz respeito à sua natureza massificada. Aqui também parece haver um paradoxo conceitual: se a publicidade, por definição, é um instrumento de massa, dirigido à coletividade, parece ser difícil, senão impossível, a plena satisfação de um dever de informar ampla e ostensivamente o seu público destinatário, o que, por outro lado, pode e deve sempre ocorrer no tratamento conferido ao consumidor individual.276 Como instrumento de massa de natureza pré-contratual, a publicidade está obrigada, nos termos da lei (art.37 §3º CDC), a veicular as principais informações sobre os bens e serviços anunciados de modo a possibilitar uma escolha esclarecida (sem vícios) por parte dos consumidores.
Destarte, parece ser inevitável a conclusão de que a publicidade não é o instrumento que satisfaz de modo suficiente e eficaz o amplo dever de informar o consumidor sobre as características dos bens e serviços. Ou melhor, este dever não se esgota na publicidade, seja porque não há tempo e espaço suficiente para tanto, seja porque tal dever só existe ou é factível de ser esgotado no tratamento individual entre consumidor e fornecedor, no momento da contratação (transparência no atendimento na loja) e mesmo após a celebração do negócio. Isso não quer significar, evidentemente, que para despertar a atenção do consumidor e convencê-lo a adquirir produtos e serviços possa o fornecedor fazer uso de artifícios enganosos.
Assim, mesmo havendo limitações ao alcance do dever de informar na publicidade, inerentes a essa técnica mercadológica, uma coisa é certa: a publicidade não pode induzir em erro seus destinatários. Se assim procede, o anunciante deve responder
276
No mesmo sentido, COELHO, Fabio Ulhoa aduz que o empresário não está em regra obrigado ―a promover publicidade com determinado conteúdo‖. Segundo este autor, ―a legislação tutelar dos consumidores não lhe impõe o dever de subsidiar os espectadores da publicidade com a transmissão de dados úteis à escolha destes no sentido de consumir ou não o produto ou serviço anunciado. Isto é, o dever de informar prévia, ampla e adequadamente que a lei prescreve ao fornecedor na disciplina das relações individuais, não se concretiza por meio da promoção publicitária, mas através do próprio atendimento dispensado em concreto a cada consumidor‖ (O Empresário e os Direitos do Consumidor, São Paulo: Saraiva, 1994, p.258).
147 pelos danos causados, materiais e morais, coletivos ou individuais. Mas então qual seria o conteúdo mínimo de informação que a publicidade deve apresentar para não ser caracterizada como enganosa? O Código de Defesa do Consumidor não estabelece um conteúdo mínimo informativo, o que se mostra adequado, tendo em vista a natureza dos diferentes produtos e serviços e as próprias diferenças entre os vários públicos-alvo.277
Como estudamos, o que a Lei exige é que não se omitam as informações essenciais sobre os bens e serviços necessários para que o consumidor possa tomar uma transação com conhecimento de causa e que, caso silenciados, seriam aptos a alterar a sua decisão. E por essenciais, como vimos, pressupõem-se os dados que possam onerar o consumidor ou limitar a fruição do produto ou serviço de modo não previsível (i.e. que não possam ser inferidos do contexto do anúncio) ou que de qualquer modo restrinjam substancialmente o alcance da oferta constante do material publicitário. Trata-se de conceito a ser verificado no exame do caso concreto, dado que a qualidade de ―essencial‖ pode variar conforme o produto/serviço e o público consumidor atingido pela mensagem.
Neste contexto, impõe considerar que o alcance do dever de informar – na publicidade – pode comportar graus diversos, isto é, ter seu conteúdo maior ou menor a depender do tipo de negócio, das partes contratantes e do produto ou serviço alienado. Antonio Junqueira de Azevedo esclarece com propriedade que ―o dever de informar tem graus; conforme a situação, há simples dever de esclarecer ou, mais fortemente, o de aconselhar ou, até mesmo, se houver riscos, o de advertir. Se o fornecedor é um profissional, é provável que deva cumprir os três graus (basta pensar na venda de um material sofisticado ou no fornecimento de serviços de médico ou advogado). E explica ainda o autor que, ―conforme a fase das negociações, se inicial ou final, o dever de informar, ainda que limitado somente a esclarecer, pode ter conteúdo menor ou maior (=esclarecer mais, ou menos).278
277 Assim também entende BENJAMIN, para quem ―a enganosidade por omissão varia conforme o caso, já que não se exige, conforme mencionado anteriormente, que o anúncio informe o consumidor sobre todas as qualidades e características do produto ou serviço‖ (CBDC comentado..., p.336). Sobre o conceito de dado essencial v. item 1.3.1 (retro).
278 AZEVEDO, Antonio Junqueira de. Estudos e Pareceres de Direito Privado, São Paulo: Editora Saraiva, 2004, p.179.
148 A publicidade, portanto, não tem a obrigação de informar todas as qualidades e características dos bens e serviços ou de detalhar todas as condições para contratação. O dever de informar ampla e precisamente o consumidor é um dever muito maior, a ser observado em todas as fases contratuais (especialmente no atendimento pessoal), podendo, inclusive, comportar graus diversos (maior ou menor), conforme a situação em análise. O que se proíbe é que o fornecedor alegue algo (ex: preço, qualidade, quantidade, etc.) que depois não se confirma no momento da contratação e/ou omita informação essencial à perfeita compreensão do alcance da oferta, configurando-se, nestes casos, a enganosidade comissiva e/ou omissiva.
Ainda sobre alcance do dever de informar, cumpre notar que há situações em que a inclusão de muitos dados na publicidade ou embalagem do produto levam mesmo à desinformação do consumidor – o que pode ocorrer quando as informações efetivamente relevantes ao consumidor restam perdidas ou despercebidas em meio a tantas outras. Com efeito, há informações que, por excessivas, não cumprem a sua obrigação de ―bem informar‖ dado que a maior quantidade de informações não resulta no fato de que tenham sido adequadamente prestadas aos consumidores. Em recente pesquisa publicada pelo Instituo de Defesa do Consumidor – IDEC constatou-se, por exemplo, que as embalagens de cereais granola continham excesso de informação prejudicando a leitura do consumidor para os dados mais relevantes sobre as propriedades do produto. Segundo a matéria ― nas embalagens, o Idec encontrou excesso de informações nos rótulos, o que confunde o consumidor e não contribui para auxiliá-lo na escolha da granola adequada à sua necessidade‖279
. Trata-se do excesso que confunde, e leva à desinformação, podendo ser usado como técnica eficiente de tergiversação ao estilo ―informar para confundir‖.280
279
A matéria complementava ainda que ―entre as informações eventualmente relevantes nas embalagens figuravam, também, aquelas declarações do tipo ―0% colesterol‖, absolutamente dispensáveis para um produto como a granola, já que o colesterol é naturalmente ausente nesse tipo de alimento, composto apenas por produtos de origem vegetal. Por outro lado, as declarações referentes a nutrientes, naturalmente presentes na granola (―alto teor de fibras‖, ―fonte de proteínas‖, etc.), são difíceis de ser verificados pelo consumidor, por questões técnicas. Assim, algumas alegações ou declarações sem nenhum sentido – e que chegam mesmo a desinformar – estão lado a lado com outras que podem ser úteis‖. (Revista do IDEC n.135, agosto de 2009, p.21).
280 Acerca dos efeitos do excesso de informação nas relações de consumo, cf. trabalho desenvolvido por MARZAGÃO, Nelcina C. de O. Tropardi. Da informação e dos efeitos do excesso de informação no direito do consumidor. Tese de Doutorado, Faculdade de Direito da USP, 2005.
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4.2.3.3. A parte captatória (principal) da publicidade e as mensagens secundárias na