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3 ESTADO E NEOLIBERALISMO

3.2 QUADROS TÉCNICOS

De modo a não depender perigosamente de partidos políticos e de valores coletivos, o Estado neoliberal acaba dando grande ênfase ao conhecimento técnico, oriundo da busca pelo aperfeiçoamento individual. Esses quadros técnicos atendem ao mito do indivíduo neoliberal, reproduzindo a crença de que a busca pelo aperfeiçoamento individual é a melhor solução para os problemas enfrentados pelo Estado. Esses técnicos seriam então capazes de oferecer mecanismos para que os sujeitos e os governos possam agir de acordo não com a coletividade, mas com a lógica técnica. Dessa forma, o FMI, por exemplo, surge como uma espécie de consultor técnico que produz respostas e mecanismos a ser aplicados pelos governos e pelas empresas, havendo sempre o cuidado de preservar as máximas neoliberais. Dardot e Laval mostram que esses técnicos não apenas funcionam em grandes instituições como o FMI, há também aqueles que trabalham em menor escala afetando diretamente os sujeitos no nível individual, os livros de autoajuda e a programação neurolinguística têm essa característica, produzindo mecanismos e

discursos pautados na solução dos desafios vividos pelos sujeitos através da individualidade e do aprimoramento de si:

Diferentes técnicas, como coaching, programação neurolinguística (PNL), análise transacional (AT) e múltiplos procedimentos ligados a uma “escola” ou “guru” visam a um melhor “domínio de si mesmo”, das emoções, do estresse, das relações com clientes ou colaboradores, chefes ou subordinados. Todos têm como objetivo fortalecer o eu, adaptá-lo melhor à realidade, torná-lo mais operacional em situações difíceis. Todos têm sua história, suas teorias, suas instituições correspondentes. O que nos interessa como saberes psicológicos, com um léxico especial, autores de referência, metodologias particulares, modos de argumentação de feição empírica e racional. O segundo aspecto é que se apresentam como técnicas de transformação dos indivíduos que podem ser utilizadas tanto dentro como fora da empresa, a partir de um conjunto de princípios básicos. (DARDOT; LAVAL, 2016: 339)

O conteúdo produzido por esses quadros técnicos cria discursos e práticas sustentados na individualidade, na oposição à coletividade. São mobilizados de modo a estimular a ação e liberdade individual, tendo como foco um conjunto bem específico dos limites dessas ações e liberdade. O Estado neoliberal não é estruturado com base no cerceamento e em rígidas e constantes intervenções, mas no estímulo à um tipo de liberdade que obedece a regras muito bem delineadas. Esse constante esforço realizado pelo Estado acaba por instigar nos sujeitos uma cultura individualista, pautada na competição e na desconfiança de soluções pautadas na coletividade. O estímulo estatal é voltado para a busca de soluções que não contestem a realidade social, que não proponham novas possibilidades e arranjos políticos, mas que encontre na individualidade as soluções necessárias. Por isso, há uma menor limitação no que diz respeito a repostas que transgridam a lei, mas que sejam capazes de oferecer soluções não coletivas:

O programa neoliberal não procura criar uma sociedade disciplinadora nem uma sociedade normalizadora, ele é caracterizado pelo fato de que cultiva e otimiza diferenças. É, portanto, nem necessário nem desejável para uma sociedade exibir conformidade sem restrições. Pelo contrário, a sociedade pode viver satisfeita com certo grau de criminalidade, a qual não é um sinal de disfunção social, mas sim de que a sociedade funciona adequadamente, regulando até mesmo a distribuição da criminalidade. (LEMKE, 2001: 199) (Tradução nossa)

Essas medidas neoliberais buscam não moralizar as soluções encontradas, se esforçando para não criar uma conjuntura uniforme, na qual os sujeitos possam empregar estratégias e agir de modo padronizado. Para o bom funcionamento das instituições neoliberais (DARDOT; LAVAL, 2016), é preciso que haja espaço para o imprevisto, para que os sujeitos sejam capazes de buscar e produzir o novo, de modo a dinamizar as relações dentro do mercado e, consequentemente, as relações na sociedade. Na medida em que o Estado tenta não moralizar e sancionar as estratégias

produzidas pelos sujeitos, ele tende a naturalizar os acontecimentos. Estes apenas se sucedem, são frutos das ações individuais, consequências da busca pela satisfação dos desejos, meros resultados, sejam eles esperados ou não:

Ao mesmo tempo que se governa o desejo, ele também é fomentado. Por isso, à primeira vista, é um modo paradoxal de governar por meio da liberação e não da restrição do fazer. A economia se converte num mundo de gestão do imprevisto – através de técnicas de segurança – que toma cada acontecimento como um fenômeno natural” e, portanto, como algo que não é nem um bem nem um mal, mas aquilo que “é o que é”. O acontecimento se

naturaliza. (GAGO, 2018: 230)

Essa naturalização não se limita apenas aos sujeitos na sua individualidade, afetando tanto instituições sociais quanto nações. Mesmo o material produzido pelos quadros técnicos com países e instituições em mente toma como foco não a dimensão da coletividade e da coesão social, mas a preservação dos valores do mercado. Os valores comuns elaborados e defendidos se resumem às condições de manutenção da livre competição entre os mercados de diferentes países. Espera-se que, para manter a competitividade, os países atendam a certos princípios comuns que acenem para possíveis investidores com o comprometimento com as regras neoliberais:

Como respeitam as regras da corporate governance, os investidores estrangeiros esperam que os dirigentes locais adotem as regras da state

governance. Podemos ver, desse modo, que esta última consiste em pôr os

Estados sob o controle de um conjunto de instâncias supragovernamentais e privadas que determinam os objetivos e os meios da política que deve ser conduzida. Nesse sentido, os Estados são vistos como uma “unidade produtiva” como qualquer outra no interior de uma vasta rede de poderes político-econômicos submetidos a normas semelhantes. (DARDOT; LAVAL, 2016: 277)

Nessa medida, há certas semelhanças entre as expectativas dos técnicos neoliberais voltadas para os governos locais, para os sujeitos e para as instituições sociais. Espera-se que haja um foco ininterrupto no sentido da preservação da competição, da possibilidade dos mais diversos agentes se colocarem em posição de disputa ao mobilizar as mais variadas estratégias. Espera-se que tanto os sujeitos quanto os governos respeitem a liberdade individual e coíbam a procura por soluções coletivas que caminhem em outra direção que não a do livre mercado. Há também o constante incentivo ao aprimoramento de si, uma vez que a competição nunca acaba e, portanto, uma conquista momentânea não significa o fim da “batalha”. Dardot e Laval (2016) tomam o neoliberalismo como sendo muito mais do que um conjunto de regras econômicas que influenciam o mercado internacional. O neoliberalismo é uma forma de produção de racionalidades e de valores, englobando e influenciando todas as dimensões da realidade social. Produz novas relações e dinâmicas, afeta

significativamente as estruturas sociais, não podendo ser vinculado somente ao campo econômico.