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7 ENTREVISTAS – INDÍCIOS DA NOVA RAZÃO DO MUNDO NO SUL

7.3 TRABALHO DE BASE E POSSIBILIDADES DE RESISTÊNCIA

Entretanto, apesar desse cenário de crescentes dificuldades materiais e de difícil diálogo entre os trabalhadores e o sindicato, ainda restam opções e alternativas que possibilitam tanto a resistência frente às pressões das empresas quanto à formação de relações simbólicas que possam reaproximar e aumentar a coesão entre sindicato e os trabalhadores. Essas possibilidades passam primeiro no retorno ao trabalho de base, no esforço (até então deixando em segundo plano) de estabelecer diálogos com os trabalhadores, mantendo constante diálogo:

É um trabalho de médio prazo. Já foi curto, hoje é médio. Mas é um trabalho concentrado. Não é um trabalho “hoje, semana que vem eu volto”. Não. Tem que começar a conversar, conversar. E, dentro dessa conversa, tem que mostrar algum resultado pros trabalhadores. Encarar o sistema. É pra perder, vamos perder juntos. Eu puxei uma greve aqui numa empresa chamada Prada, litografia, do grupo CSN. Fizemos uma greve por causa de cinquenta reais. Ficamos uma semana. Fomos pro tribunal no Rio, ganhamos lá. Trinta dias depois ela mandou cento e vinte embora. Mas ela foi mandando por semana, ela retaliou. Esqueceram de amarrar o acordo com a juíza de que não podia haver retaliação. Aliás, não podendo haver retaliação estava no texto. Mas retaliação envolve muita coisa. Não pode perseguir, sacanear. Então, não escreveram demissão. Enfim, eu vou pra porta da empresa… Ninguém ficou puto comigo não. Eu estava na frente do movimento, mas estava o presidente e todo mundo lá. Não sou melhor do que ninguém, mas se tivermos de perder, vamos perder juntos. Mas vamos perder com a moral e com respeito. E isso nós ganhamos. A empresa hoje está mudando o jeito de tratar o trabalhador. Depois de tantos anos. Então, houve alguns ganhos, mas houve perdas também. E o pessoal entendeu que a vida é um perde e ganha mesmo, não tem jeito. (Entrevista realizada em 07/08/2019 com André Kondylopoulos, Secretário Saúde/Segurança/Previdenciário do Sindicato Metalúrgico do Sul Fluminense)

Nessa medida, o trabalho de base, apesar de ter sido relegado a um plano secundário, não está completamente perdido. Ainda existem possibilidades de estratégias que podem priorizá-lo, produzindo resultados positivos, reaproximando o SMSF dos trabalhadores, criando diálogos capazes de realinhar as demandas, reduzindo a distância entre esses agentes. Em vista da última década e da forma como o sindicato lidou com o trabalho de base, houve um crescimento inversamente proporcional: houve um desenvolvimento material oriundo da aproximação com o governo federal ao passo que houve um crescente afastamento do diálogo com os trabalhadores, uma espécie de “encastelamento”. Nesse debate, é possível inferir que o mero acesso a elementos materiais não é suficiente para estruturar o sindicato, sendo necessários elementos imateriais capazes de produzir identidades simbólicas e relações sociais mais intensas e coesas. Também há a percepção de que a estabilidade material, além de não ser uma solução em si, pode agir como um

empecilho para a construção do movimento sindical e a sua manutenção. Essa percepção está atrelada à abordagem sobre o neoliberalismo realizada por Dardot e Laval (2016), na medida em que o neoliberalismo não é apenas um conjunto de estratégias econômicas voltadas para o acúmulo de capital e a obtenção cada vez maior de lucro, sendo uma racionalidade, produzindo valores que afetam a vida cotidiana dos sujeitos48. Por isso, uma instituição que se proponha a combater os valores neoliberais (precarização do trabalho, medidas estatais de austeridade, redução das proteções sociais, etc.) e os seus efeitos negativos nos sujeitos, não pode se limitar a crescer materialmente, visto que o “combate” com o neoliberalismo não está apenas nos corpos e nas práticas, mas, também, nos valores, na forma como os sujeitos apreendem a sua realidade na sua vida cotidiana, em todas as esferas da sua existência.

É em meio a esse combate com os produtos oriundos da racionalidade neoliberal que o trabalho de base ganha tanta importância na ação sindical, pois é através da aproximação e do constante diálogo com os trabalhadores que o sindicato pode ser capaz de desenvolver demandas condizentes com os interesses individuais, assim como pode ser capaz de empregar práticas de contestação que serão apoiadas pelos trabalhadores:

Aí eu falo pra você: o movimento sindical, precisa… algumas boas pessoas precisam entender que já passou pra elas e se elas quiserem manter porta aberta, deixa quem quiser, quem tem vontade de trabalhar, trabalhar. Porque não é difícil, mas você tem que concentrar e gastar seu tempo. Gasta saúde, gasta tudo. Mas se você quiser realizar um trabalho, não pra ficar conhecido na história, mas pra se realizar, como homem. Um homem que vem no mundo e não gosta do que faz… Primeiro é gostar do que faz, depois é ganhar dinheiro. Sindicato dá dinheiro só pra quem rouba. Você quer trabalhar? Já deu, agora não tem mais nada pra levar. Se quiser levar, tem que levar pia, vaso. Você quer trabalhar? Eu gosto do movimento sindical. Eu nasci com ele vinte e dois anos atrás. E olha que eu não gostava de política. Eu fui entrar na política com vinte e sete anos. Era mais um cidadão. Quando entrei na Volkswagen eu conheci a política e gostei. Meus erros e meus acertos. Graças a Deus mais acertos do que erros. E quero continuar errando pra aprender mais. É isso, não tem segredo. Não precisa ficar procurando. A questão é: os dinossauros tem que sair hoje. Eu não me considero velho. Velho é o cara que tá lá com setenta anos, velho no movimento. Eu tô novo ainda. E vou trabalhar pra tentar fazer algo melhor. (Ibidem)

48 “Sobre se os trabalhadores mudaram nesse tempo… Eu acho que, obviamente, não é só porque os

sindicatos são pelegos. Você tem uma mídia, toda uma estratégia cultural e de mídia pesadíssima que vai fazendo essa geração se afastar do que tinha antes. Isso eu tô querendo falar dos partidos que durante uma década, o tempo do Lula e da Dilma, não se tinha mais uma formação. Se tinha uma cooptação das lideranças dos movimentos. Não se mexia nessas mídias. O Lula hoje em dia até fala disso, foi um grande erro. Você tem um massacre das novas tecnologias, você tem a internet, a televisão…” (Entrevista realizada em 31/07/2019 com Sandra Mayrink Veiga, membro da Oposição Metalúrgica)

Na conversa com o André, fica claro que o retorno ao trabalho de base não é uma impossibilidade, tampouco é uma solução que demande respostas miraculosas ou mesmo repleta de detalhes intrincados. Ele aponta a necessidade do trabalho constante e da paciência por parte do sindicato. A necessidade do constante diálogo, da demonstração de que os problemas diários vividos dentro da fábrica são absorvidos pelo sindicato e as demandas cotidianas virarão pauta de luta e contestação e, ainda que nãos sejam alcançados os objetivos estipulados, haverá uma relação de transparência entre o sindicato e os trabalhadores, de modo a construir uma relação de confiança entre esses dois agentes sociais, possibilitando futuras iniciativas cujos resultados poderão ser mais positivos.

Todavia, esse esforço voltado ao reestabelecimento do trabalho de base aborda outra questão. Ainda que o retorno ao diálogo constante com os trabalhadores seja apontado como uma das soluções para os problemas atuais vividos pelo sindicato, a questão do discurso a ser utilizado se mostra de difícil resolução. A história do SMSF e a sua forte relação com o novo sindicalismo sugere a possibilidade do retorno a uma prática altamente contestatória, sustentada em posturas belicosas, voltadas à realização de greves e ao acirramento das relações de antagonismo entre trabalhadores e empresas. Essa possibilidade se torna mais interessante na medida em que o SMSF pode fazer referência ao seu passado, criando um vínculo de nostalgia com um passado não tão distante que retrata a classe trabalhadora e a região sob uma ótica positiva, sob um viés que realça características que se perderam com o tempo, seja em função das mudanças políticas e econômicas, seja em função dos fenômenos sociais direcionados por diferentes valores. Entretanto, essa estratégia faz referência a valores e a um tipo de racionalidade que perderam espaço no decorrer das últimas décadas. A intensificação do processo de individualização e a difusão da racionalidade neoliberal produzem valores que apresentam grandes desafios aos valores mobilizados no período do novo sindicalismo. O estímulo aos interesses individuais e o afastamento de relações coletivas que possam ser consideradas de “luta” é um desafio real e que produz inúmeras questões ao SMSF. Somado a esse cenário, há também a existência, cada vez maior, de trabalhadores cuja trajetória de vida não se confunde com a do novo sindicalismo e com a CSN enquanto empresa estatal. Esses trabalhadores não tem como experiência o período de lutas e demandas, assim como de constante diálogo entre o sindicato e os demais movimentos sociais (SANTANA, 2006):

Vamos falar de Volta Redonda que é a base mais politizada. Houve através do tempo uma mudança muito radical no comportamento dos trabalhadores. Houve muito. Muito grande. Pessoas mais novas não interessadas em política. “O que der tá bom”. O turnover é alto. Quatro, cinco meses vão embora. O desinteresse pela parte política em geral é muito grande nas empresas. Volta Redonda perdeu muito com isso. Volta Redonda que é o centro da história política. Hoje, segundo informação, 85% a faixa etária é de vinte e cinco anos. Que política essa turma entende? Nem história eles leem. Eles não participaram do movimento. Eles tão vendo esse fascismo nascendo e eles estão gostando. (Ibidem)

Esse choque geracional apresenta uma série de desafios no que diz respeito à linguagem a ser utilizada, no discurso a ser mobilizado, nos valores a serem expostos, assim como nos meios de comunicação e nos interesses a serem trabalhados. Os “dinossauros” são sujeitos que conseguem, apesar de todo os desafios e fraquezas, se manter no poder e reproduzir suas práticas sindicais. No entanto, a despeito da sua permanência nas lideranças sindicais, sua atuação é alvo de críticas, sendo apontada como limitada, como insuficiente para os novos desafios. A linguagem desses trabalhadores mais jovens é permeada pelos valores produzidos pela racionalidade neoliberal e pela accountability enquanto valor que ganha destaque e se opõe à atribuição da responsabilidade à uma liderança que possa ser vista enquanto “vanguarda”.