3 ESTADO E NEOLIBERALISMO
3.1 SOBERANIA E GOVERNANÇA
O Estado “[…] não deve ser julgado por sua capacidade de assegurar sua
soberania sobre um território, segundo a concepção ocidental clássica, mas pelo
respeito que demonstra às normas jurídicas e às “boas práticas” econômicas da
governança” (DARDOT; LAVAL, 2016: 276). Essa governança ocorre através do modo
como os sujeitos orientam as suas ações, como preparam os seus corpos de modo a seguir a ordens previamente estipuladas. Essa mudança de foco do Estado, da soberania para a governança, implica não no controle das ações, não na imposição de comportamentos específicos, mas sim no estímulo de determinados comportamentos, na liberdade para que os sujeitos possam agir de acordo com os seus interesses particulares. Essas características são condizentes com o Estado neoliberal, segundo Harvey:
Neoliberalismo é em primeiro lugar uma teoria de práticas políticas e econômicas que propõe que o bem-estar pode ser alcançado mais facilmente através da liberalização das empresas individuais, liberdades e habilidades. Dentro de uma instituição caracterizada por um forte direito de propriedade privada, livre mercado, e livre negociação. O papel do estado é criar e preservar um cenário institucional apropriado para essas práticas. O estado tem que garantir, por exemplo, a qualidade e integridade do dinheiro. Deve também preparar o exército, defesa e polícia e estruturas legais e funções requeridas para proteger os direitos de propriedade privada e pra garantir, pela força se necessário, o funcionamento adequado dos mercados. (HARVEY, 2005: 2) (Tradução nossa)
Para Foucault (LEMKE, 2001), o Estado neoliberal está mais preocupado em permitir que os sujeitos tenham liberdade para agir do que em coagir e punir as suas ações. No entanto, essa liberdade é condicionada ao mercado e aos interesses econômicos que o constituem. Nessa medida, esse Estado pautado na governança não impõe, mas estimula. Age dessa forma ao buscar criar uma conjuntura na qual os sujeitos se sintam inclinados a agir segundo os seus interesses, não sendo coagidos por leis e valores morais, tendo liberdade para buscar a satisfação dos seus desejos e a concretização dos seus objetivos. O Estado neoliberal pauta o seu crescimento não no planejamento minucioso das ações a serem tomadas pelas instituições públicas ou na intervenção direta nos mercados, tampouco no cerceamento do sujeito e na imposição de valores morais e éticos rígidos a serem seguidos. De modo a dinamizar e potencializar o crescimento, o Estado neoliberal estimula os sujeitos a buscarem constantemente o seu aprimoramento pessoal, de modo a sempre desejarem mais e conquistarem mais (DARDOT; LAVAL 2016). Entretanto, agir de acordo com os princípios da governança não implica na total liberalização das ações
individuais, não significa que os sujeitos estejam livres para fazer o que desejarem sem a presença de um Estado pronto para intervir. Esse constante estímulo à busca do novo não é indiscriminado, tampouco independe das ações das estatais e institucionais, tendo como foco apenas o indivíduo. O Estado não abdicou do seu papel enquanto entidade coercitiva, práticas que não sejam condizentes com os seus preceitos são combatidas e neutralizadas:
Uma contradição surge, por um lado, entre um individualismo sedutor mas alienante e pelo outro pelo desejo de uma vida coletiva significativa. Enquanto indivíduos são supostamente livres para escolher, eles não devem escolher construir fortes instituições coletivas (como sindicatos) em oposição a fracas associações voluntárias (como organizações de caridade). Eles definitivamente não deveriam escolher se associar para criar partidos políticos com o objetivo de forçar o estado a intervir ou eliminar o mercado. (HARVEY, 2005: 69) (Tradução nossa)
Organizações e movimentos sociais são vistos como empecilhos pelo Estado neoliberal porque eles atrapalham os mercados na medida em que dão voz às demandas dos sujeitos. Estes, no neoliberalismo, são vistos como corpos que, através de um contrato, cederam seu tempo e força de trabalho (Gago, 2018). O neoliberalismo parte do princípio de que esse contrato foi acordado de forma consensual e igual, isto é, os agentes que participaram dessa negociação dispõem de informações semelhantes e, deliberadamente, aceitaram as condições apresentadas. Qualquer reclamação após o a concordância do contrato apenas atrapalha a produção e, portanto, atrapalha o mercado, resultando na necessidade da intervenção estatal. Nessa medida, as condições da intervenção estatal não estão vinculadas a preocupações e valores morais, mas sim à lógica do mercado, por isso:
A concorrência não é considerada, então, como na economia ortodoxa, clássica ou neoclássica, uma condição para o bom funcionamento das trocas no mercado; ela é a lei implacável da vida e o mecanismo do progresso por eliminação dos mais fracos. Profundamente marcado pela “lei da população da Malthus, o evolucionismo spenceriano conclui bruscamente que o progresso da sociedade e, mais amplamente, da humanidade supõe a destruição de alguns de seus componentes. (DARDOT; LAVAL, 2016: 53)
O Estado não está preocupado com a segurança dos sujeitos, isto é, ele age com base nos parâmetros que buscam manter a proteção do direito à propriedade privada e ao estímulo às liberdades individuais, se posicionando de modo a preservar a concorrência entre os agentes e a vigência dos termos estipulados nos contratos sociais formados. Está preocupado com as questões da ordem da governança, no modo como os sujeitos são capazes de conduzir as suas próprias vidas:
A arte de governar se transforma radicalmente: trata-se agora de respeitar a proliferação de iniciativas, de não as limitar, enfim: governar é “saber como dizer sim a esse desejo”. Desejo como sinônimo de iniciativa livre, como impulso de desenvolvimento do próprio capitalismo. O contraponto ao
soberano hobbesiano é contundente: este se forma quando os homens são capazes de renunciar a seus desejos para dar lugar a uma autoridade política unificada. Mas, num governo que suscita e promove o desejo, a ordem já não é mais assegurada pela totalização efetuada a partir da perspectiva do soberano. Pelo contrário, a eficácia de governar consiste em liberar a interação de uma pluralidade de fins específicos, por si só diversos. (GAGO, 2018: 229)
Essa arte de governar praticada pelo Estado neoliberal pautada na liberação dos desejos e das vontades individuais toma como ponto de partida e como objetivo final o indivíduo, isso na medida em que esses indivíduos agem com base em interesses que não atendem à coletividade, mas a um punhado de agentes capazes de concretizar os seus objetivos. A liberdade da qual ele desfruta não é incondicional, ela existe na medida em que os indivíduos atendem ao credo neoliberal, isto é, à defesa da propriedade privada e do livre mercado. Esses princípios pautados na governança buscam incentivar a iniciativa individual em detrimento das soluções baseadas na coletividade:
Para protegê-los contra o medo do populismo – fascismo, comunismo, socialismo, populismo autoritário e até mesmo a escolha da maioria – os neoliberais tem de colocar fortes limites na governança democrática, dependendo de meios não democráticos e não institucionais (como a Reserva Federal ou o FMI) para fazer as decisões. (HAREY, 2005: 69) (Tradução nossa)