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CAPÍTULO II – INTERSECÇÕES CONCEPTUAIS NO CAMPO DOS REFUGIADOS E DA SAÚDE

10. QUANDO O CONCEITO DE CULTURA SE TORNA REDUTOR

Analisar o contexto etnográfico local, a partir da ótica meramente “cultural” sem colocar em perspetiva o que acontece ao nível das políticas nacionais ou internacionais

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(inevitavelmente com elas relacionadas), é semelhante ao que alguns antropólogos fazem, quando analisam a morte dos órfãos da região maia, sem os relacionar com os motivos porque morreram os seus pais (Farmer 2003; D. Green 1999). O conceito “cultura” tem sido ultimamente utilizado como uma característica estática que frequentemente legitima as diferenças (em relação a uma sociedade mais lata) e abre a porta a interpretações erradas, usadas posteriormente pelo poder, como forma de descriminação das diferenças. O conceito de cultura substitui frequentemente na atualidade, o conceito de raça, nacionalidade ou religião, como forma de discriminar as diferenças. Também em Portugal, os desencontros terapêuticos entre médicos e requerentes de asilo ou refugiados, são frequentemente justificados pelos primeiros, como incompatibilidades culturais ou de “raça”. As manifestações de racismo também são frequentemente incorporadas na forma de tratamento da doença, ainda que por vezes, estejam escondidas pelo véu do assistencialismo. As forças que dão lugar a epidemias como o HIV-Sida, ou o modo como se pretende esconder uma tuberculose entre os requerentes de asilo institucionalizados, remetendo-os para longe dos olhares dos técnicos (sem explicar aos próprios requerentes de asilo porque razão estavam proibidos de permanecer junto dos seus companheiros, remetendo-os para casas isoladas), também existem num contexto em que os direitos humanos são por vezes desrespeitados. Trata-se por isso, mais do que falar- se em desigualdades sociais, averiguar onde e quando, existe o que Farmer denomina

violência estrutural. Segundo este autor, a forma de contornar esta possibilidade,

surge através da incorporação dos direitos humanos no contexto da saúde pública a nível global, considerando os assuntos relacionados com a qualidade e acesso à saúde pelos mais pobres (ou marginais ao sistema social) como uma preocupação fundamental, num mundo caracterizado pelo sofrimento.

É também no campo da saúde pública e, dentro deste, em particular, na análise da antropologia médica crítica, que os efeitos da violência têm vindo a ser analisados, em particular através do estudo do impacte da violência e da guerra no bem-estar das populações, famílias e indivíduos em particular (Farmer 1992, 2003, 2004b; Rylko- Bauer, Whiteford, e Farmer 2009; L. Green 1999; Johnston 2007; Kleinman, Das, e Lock 1997). Na verdade, igualmente no domínio da análise da saúde pública e respetivas implicações no campo da saúde dos refugiados e requerentes de asilo, coloca-se a questão da ética, na medida em que a ética é sempre emoldurada pela política, uma vez que mergulha nas relações de poder entre as pessoas e as instituições com elas relacionadas. A abertura e orientação em relação às experiências de sofrimento do “outro” são, também motivadas pela compreensão sobre a origem da dor e do sofrimento e pela assunção do lado no qual nos posicionamos face a essas mesmas

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pessoas em sofrimento. Neste campo específico, desenvolver políticas de saúde pública culturalmente competentes, implica desde logo, a realização de trabalhos etnográficos que deem visibilidade às reais necessidades das pessoas com as quais lidamos, apesar de o sofrimento, a dor, ou mesmo o terror, serem experiências que dificilmente podem ser partilhadas (cf. Daniel 1994: 238, cit. in Hastrup 2003), fazendo parte, por isso, do domínio das subjetividades.

A própria narrativa do sofrimento, requerida pelas polícias de fronteira para atestar a veracidade das histórias dos requerentes de asilo, de modo a serem aceites no país, é algo que pode ficar coartado pela natural incapacidade de verbalização do sofrimento. Como afirma Elaine Scarry: “A dor física não se limita a resistir simplesmente à linguagem, mas também a destrói ativamente, provocando uma reversão imediata a um estado anterior à linguagem, aos sons e gritos que um ser humano emite mesmo antes de a linguagem ser aprendida. A destruição da linguagem está intimamente relacionada com a destruição do sujeito. A violação não é simplesmente uma transgressão dos limites físicos de alguém; a um nível mais profundo, é uma violação da própria individualidade [selfhood] e, portanto, uma destruição da posição a partir da qual se pode falar na primeira pessoa” (1985: 232).

No campo da saúde mental, por exemplo, é necessário interiorizar esta relação entre a necessidade do silêncio dos refugiados e requerentes de asilo, e o sofrimento que nem sempre pode ser verbalizado. A cultura terapêutica do Ocidente passa essencialmente pelo apelo à verbalização do sofrimento. Contudo, o ato de verbalizar os sentimentos (e sofrimentos) requer em muitas sociedades, a integração e reconhecimento do indivíduo no tecido social e também que seja reconhecido por este. Este não é de todo o caso dos requerentes de asilo em Portugal. Logo, o apelo à narrativa do sofrimento feito pela polícia de fronteira, ou mais tarde pelos técnicos de saúde, pode encontrar uma barreira de significados subjetivos que pela aflição que eles envolvem, obliteram na vítima a capacidade de o colocar por palavras. Os antropólogos (entre outros cientistas sociais), recentemente têm vindo a entender a experiência quotidiana das pessoas em sofrimento, através da proximidade que o trabalho de campo permite, mais do que apenas elaborar extensas recolhas das suas narrativas. Essa prática tem permitido concluir que a violência e o sofrimento, passam a ser dimensões inerentes à existência das pessoas, e não algo apenas externo a elas, algo que lhes aconteceu e que ficou num tempo passado e num contexto geográfico diferente. Em particular, a experiência traumática é algo que se vai repetindo sucessivamente nos lugares de asilo, caso não estejam salvaguardadas

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as condições sociais e clínicas para que o passado se dilua apenas numa memória (Nordstrom e Robben 1995: 2). A violência, nem sempre é passível de descrição: ela é muitas vezes, estrutural e simbólica. Logo, o processo de exteriorização dos sentimentos e experiências subjetivas, não é um processo simples de representação: “Passando do implícito ao explícito, de uma impressão subjetiva a uma expressão objetiva, a manifestação pública sob a forma de um discurso ou ato público constitui em si um ato de instituição e, portanto, representa uma forma de oficialização e legitimação: não é por coincidência que (…) todas as palavras relacionadas com a lei têm uma raiz etimológica que significa dizer. E a instituição, entendida como aquilo que já está instituído, já explicitado, cria ao mesmo tempo um efeito de cuidado público e de legalidade e um efeito de fechamento e desapropriação” (Bourdieu 1991: 173).

11. CONDICIONALISMOS DO SISTEMA MÉDICO E PROCURA DE SOLUÇÕES

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