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Quarto recorte: os adolescentes e o tornar-se adulto

CAPÍTULO 7 PROPONDO REFLEXÕES

7.2 AS MÚLTIPLAS RELAÇÕES DA CONSTITUIÇÃO DISCURSIVA DO SABER

7.2.4 Quarto recorte: os adolescentes e o tornar-se adulto

Evidenciou-se um discurso sobre a adolescência que a toma como um período de transição da infância à adultez vivenciada ora como uma “doença temporária”, ora como “a melhor época da vida”. Assim, constata-se um discurso ambíguo em relação a como os adolescentes são e ao que precisam diante do que “são”. Produz-se certa infantilização dos estudantes de ensino médio, que são vistos como “muito novinhos” para escolher, imaturos, desorientados, “perdidos” entre tantos livros e apostilas. Estes aspectos “convocam” os professores e a escola a proporcionar-lhes uma formação integral que, conforme descrita nos depoimentos, assemelha-se a um acompanhamento quase “tutelar”.

Assim, é preciso mobilizar um “arsenal” de práticas e instrumentos para dar conta desta adolescência “perdida”, já que os alunos são considerados sujeitos sem rumo ou referências, que não conhecem a si mesmos, carecendo de uma identidade e necessitando dos serviços especializados. Diante desse discurso constitui-se a prática de psicólogos ou coordenadores pedagógicos na escola, já que se difunde a ideia de que os adolescentes precisam de atendimento especializado para não permanecerem “errantes”. Pode-se exemplificar este aspecto a partir da expectativa que paira sobre os jovens de que realizem sua escolha vocacional ao término do ensino médio, seguindo a “norma” de que o ingresso no ensino superior constitui o autêntico projeto de vida. Haveria algum espaço escolar que pudesse suspender todas essas verdades sobre adolescência, trabalho e felicidade e que propiciasse um momento de invenção de si em lugar de produzir esta conformidade a certos “padrões” de vida?

Ao mesmo tempo, evidenciam-se discursos que propõem que os adolescentes estão conscientes da necessidade de estudar para o vestibular, que precisam de aulas preparatórias e que exigem que a escola cumpra todos os conteúdos requisitados pelo exame, não tendo razões para permanecer na mesma caso não tenham suas demandas atendidas. Este

adolescente “adultizado” é muito prezado pelos professores, constituindo o “modelo” ao qual todos deveriam aderir. É interessante perceber que a conduta “adolescente” valorizada é aquela produzida pelos discursos que dão sustentação ao ensino médio na rede particular: ter emprego é o modo de ser feliz e ter uma graduação é desenvolver a “empregabilidade”. Diante disso, o que cabe ao adolescente fazer? Levar “a sério” os estudos preparatórios para o vestibular, pois assim estarão no “caminho certo”. E o que cabe à escola oferecer? Um ensino que possibilite este caminho. Assim, o adolescente “modelo” para os professores é aquele que (re)produz o sistema de produção capitalista nos bancos escolares, ou seja, aquele que se dedica ao “consumo” de conhecimento, estudando não pelo prazer de conhecer, mas para ser aprovado no vestibular.

Outro aspecto a considerar é a necessidade de “colocar limites” aos adolescentes e de exigir-lhes comportamentos adequados ao ambiente escolar, sem “apressar” exigências do mundo do trabalho. Cabe indagar a que tipo de “limites” este discurso se reporta, pois há a compreensão de que todo adolescente precisa deles. Evidencia-se, neste aspecto, traços dos discursos psicológico e psicopedagógico requisitados, possivelmente, para dar conta da indisciplina escolar. É importante pensar como estes “limites” parecem ser exercitados de modo a “enquadrar” os adolescentes ao “modelo padrão” constituído discursivamente pelos professores: o estudante que dedica-se aos estudos de nível médio com avidez, a fim de ser capaz de aprovar em vários vestibulares. No entanto, os limites devem ser colocados a partir do exercício da “autoridade suavizada” dos professores, conforme descrita no capítulo anterior. Assim, o processo de formação do adolescente tendo em vista sua preparação para aquilo que os professores julgam ser seu “futuro” é realizado de forma branda, com o mínimo de confrontação, num ambiente que combina proteção e exigência. A indisciplina, por sua vez, é vista como um sintoma passageiro da adolescência, que desaparecerá na vida adulta. Vale recordar a frase da professora de química, que afirmou que “Os bons hoje já foram ruins um dia” e que vale a pena fazer algumas coisas que nos são impostas, pois estaremos nos tornando “bons”. Assim, todos já foram indisciplinados, mas o mundo escolar ensina o caminho para que todos se tornem pessoas produtivas.

Este aspecto também se verifica no enunciado que constitui a escola como o lugar em que se pode errar, pois esta tem como atribuição corrigir os erros. A partir de qual referencial se julgam o que são “acertos” e “erros” no ambiente escolar? Seriam consideradas “erradas” as posturas que não favorecem os estudos para o vestibular como prioridade dos adolescentes? E o discurso da “carência” inerente aos adolescentes, pela suposta dificuldade familiar em que vivem. O que este discurso produz? É possível perceber que estes discursos

corroboram para o desenvolvimento de práticas escolares que assumem ainda mais o “governamento” destes indivíduos, já que os adolescentes “perdidos” e “carentes” encontrarão na escola e nos professores a disponibilidade de mostrar-lhes os rumos e corrigir-lhes os erros. Por outro lado, os adolescentes que já estão bem “focados” no vestibular, que dispensam este “socorro”, são constantemente informados de que estão no caminho certo. Assim, a “manipulação” dos indivíduos para que vivam suas vidas a partir de determinados preceitos é muito suave e praticamente invisível, pois não se efetiva a partir da coação, mas a partir do estabelecimento de discursos que produzem modos legítimos de ser. Assim, a escola cumpre a função de formar indivíduos, colocando-os em “uma (mesma) forma”. O discurso dos professores evidencia a permanência da função disciplinadora das práticas pedagógicas. Cabe ainda ressaltar que se produz certa patologização das dúvidas dos adolescentes que, ao invés de serem consideradas como uma experimentação de diferentes modos de ser, são vistas como algo que deve ser “corrigido”, orientado a condutas consideradas adequadas.

De que forma os discursos que proferimos e legitimamos como verdadeiros em relação à adolescência contribuem para os adolescentes serem como são? Será que a escola escuta o adolescente ou o encaixa em um formato prévio tido como tipicamente adolescente? De alguma forma, repensar o ensino médio requer repensar a própria adolescência, já que o discurso escolar assume certa compreensão da mesma e estrutura suas práticas a partir desta “essência adolescente”. A existência de uma essência adolescente parece ser dada como certa pelos saberes “psi” que impregnam o discurso dos professores, de modo que ignora-se por completo o fato de que ela é produto de um contexto sócio-histórico. A ambiguidade do adolescente não é considerada como uma expressão do seu processo de crescimento, mas como uma “falha” deste desenvolvimento. Os professores estão tão mergulhados nos saberes sobre a adolescência provenientes dos discursos “psi”, misturados com concepções do senso comum, que não percebem a emergência e produção das características de uma adolescência contemporânea.

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