• Nenhum resultado encontrado

SABER, VERDADE, PODER: POR UMA ARQUEOGENEALOGIA DOS OBJETOS

CAPÍTULO 3 MICHEL FOUCAULT: TRAÇANDO A PRODUÇÃO HISTÓRICA

3.3 SABER, VERDADE, PODER: POR UMA ARQUEOGENEALOGIA DOS OBJETOS

Quero dizer que em uma sociedade como a nossa, mas no fundo em qualquer sociedade, existem relações de poder que atravessam, caracterizam e constituem o corpo social e que estas relações de poder não podem se dissociar, se estabelecer, nem funcionar sem uma produção, uma acumulação, uma circulação e um funcionamento do discurso. Não há possibilidade de exercício do poder sem certa economia dos discursos de verdade que funcione dentro e a partir desta dupla exigência (FOUCAULT, 2005, p. 179).

Conforme esclarecido anteriormente, o modelo jurídico-político-formal do poder não dá conta das relações de poder da sociedade disciplinar e da vontade de verdade, segundo

Foucault. Há uma forma de exercício de poder que extrapola as instâncias formais e que se constitui a partir da formação de saberes e das técnicas de disciplinamento. A este respeito, Foucault esclarece que as relações de poder constituem campos de saber e estes supõem e constituem, ao mesmo tempo, relações de poder (FOUCAULT, 2001). É justamente a relação do poder com o saber que o transforma em um instrumento positivo: o poder faz ver e falar.

No entanto, Foucault propõe uma abordagem da relação entre saber e poder diferenciada das análises tradicionais desta interação, conforme descritas por Courtine (2006): o poder pode ser obtido a partir do saber; o poder impede e distorce a aquisição do saber; e, finalmente, o saber liberta os homens dos efeitos repressores do poder. Em sua analítica do poder, Foucault não tematiza nenhuma dessas interações, mas propõe uma relação circular entre saber e poder: as relações de poder mudam, formam e produzem a realidade que experimentamos.

Para compreender a incidência das relações do poder sobre a produção de saber é preciso recordar a passagem do poder soberano para o poder disciplinar. A constituição deste iniciou a produção de um conhecimento impessoal sobre os indivíduos. Este conhecimento e o aumento do poder correlacionam-se, pois quanto mais poder é exercido, mais especificação se produz sobre os indivíduos. Da mesma forma, quanto mais conhecimento é produzido sobre estes, mais o poder é reforçado. Assim, o poder disciplinar é expansionista, determinando o que julgamos verdadeiro ou falso. Enfim, poder e saber são intrínsecos, pois o poder produz saber e este é usado para selecionar técnicas de poder e implementá-las em práticas.

Admitindo que o poder produz saber e que saber e poder estão diretamente implicados, a análise das relações “poder-saber” não podem partir de um sujeito de conhecimento. Ao contrário, para Foucault, o sujeito que conhece, os objetos a conhecer e as modalidades de conhecimento são efeitos do poder-saber. Segundo ele, “(...) não é a atividade do conhecimento que produz um saber, útil ou arredio ao poder, mas o poder-saber, os processos e as lutas que o atravessam e o constituem, que determinam as formas e os campos possíveis de conhecimento (FOUCAULT, 1975, p. 160)”. Assim, para Dreyfus & Rabinow (1995), poder e saber se entrecruzam no sujeito e o que opera esse cruzamento no sujeito é o discurso, complementa Veiga-Neto (2007).

Segundo Foucault, a verdade está circularmente ligada aos sistemas de poder. Estes apoiam a constituição da verdade que os alimenta. Vale ressaltar, conforme Araújo (2007), que o termo “verdade” não é utilizado pelo filósofo no sentido cognitivo, “como capacidade de conhecer mais e melhor a realidade através de representações mais acuradas” (p. 15).

Assim, seu campo de estudos não é a história da verdade em seu refinamento técnico e científico, mas “a história das condições de possibilidade e de uso da verdade, de saber” (ARAÚJO, 2007, p. 15). Enfim, Foucault pretere a produção histórica e concreta do saber à sua validade científica e estrutura cognitiva.

Quanto à relação poder-saber, é preciso deixar claro que o primeiro não incide apenas de forma a obstaculizar a apreensão da verdade dos fatos, efeito que poderia ser combatido com a assunção de procedimentos que trouxessem à luz sua obscura atuação. Neste sentido, não há saberes dominantes ou libertadores – todos os discursos operam como regimes de verdade. Em vez de restringir o saber, o poder, segundo Foucault, ocupa-se de formas de governo produzidas a partir de campos de saber, deixando claro que o filósofo não se refere às instâncias centralizadoras público-estatais ao empregar esse termo. Para Foucault (2001) governar é “estruturar o campo possível de ação dos outros” (p. 244). A pedagogia, assim como outras ciências humanas, baseia-se em formas específicas de governo, a partir de procedimentos denominados “tecnologias do eu” que visam à autorregulação e ao autodisciplinamento dos sujeitos. Assim, se as relações entre saber e poder se estruturam no campo discursivo, este deve ser o campo de lutas para a articulação das resistências. O saber que produz poder também o mina e resiste a ele.

É preciso ter em mente, segundo Araújo (2001), que as relações de poder não se restringem a um efeito econômico. O poder na sociedade disciplinar não constitui relações do tipo dominação/sujeição, mas

investe nas instituições de modo capilar, suas práticas são reais, seus alvos são específicos, seus efeitos são duradouros e deles a sociedade capitalista tem retirado o máximo de proveito, como a sujeição do corpo, do comportamento, (...), a utilização máxima das energias, desejos e pensamentos dos indivíduos (ARAÚJO, 2001, p. 23).

Supondo a validade de uma análise ideológica, a autora prossegue seu raciocínio indagando: Por que não nos livramos disso tudo? Porque, para Foucault, saber, verdade e poder não alienam ou mascaram, não violam princípios, mas produzem sujeitos dóceis, corpos sujeitados ao poder disciplinar, individualidades controláveis. Esta imbricação entre saber, verdade e poder não constitui uma operação violenta, mas porta uma violência velada, advinda do rigor do saber e da aplicação das tecnologias disciplinares com vistas à produção da norma. No entanto, estes dispositivos coercitivos são aceitáveis em nossa sociedade, especialmente em virtude do caráter “verdadeiro” de seus discursos. Enfim, o poder disciplinar dá lucro, tem um fim político, produz saber, articula dispositivos que agem sobre o

corpo, sujeitando forças e capacitando para o trabalho, conclui Araújo (2001). Diante disso, o que cabe ao intelectual, senão o desvelamento das produções ideológicas?

O problema político essencial para o intelectual não é criticar os conteúdos ideológicos que estariam ligados à ciência ou fazer com que a sua prática científica seja acompanhada por uma ideologia justa; mas saber se é possível constituir uma nova política da verdade. O problema não é mudar a “consciência” das pessoas, ou o que elas têm na cabeça, mas o regime político, econômico, institucional de produção da verdade (FOUCAULT, 1994b, p.14).

A crescente objetivação do “humano” culmina, grosso modo, na produção de subjetividades modernas, segundo Araújo (2001). Este círculo poder-saber propicia o desenvolvimento das tecnologias do eu, operações que os sujeitos realizam sobre si mesmos, objetivando atingir felicidade, sabedoria ou perfeição. Este é um dos vértices dos processos de subjetivação: as práticas que os sujeitos administram a si mesmos, que foram forjadas, por sua vez, pelos regimes de saber e pela ação do poder sobre a produção deste saber. Eis a face produtiva do poder preconizada por Foucault: a emergência de um saber sobre o “homem” produz modos segundo os quais este se subjetiva, livremente. Este processo não demanda o uso de força ou o exercício de um poder de dominação/submissão, que provocaria resistência. Ao contrário, o homem assujeita-se a um saber sobre si, impõe a si próprio algumas técnicas e consente certas práticas em nome da busca por seu aprimoramento.

Assim, o sujeito não se sente coagido a adotar certos modos de existencialização; ele, em seu exercício de liberdade, apenas crê que está aderindo aos modos de viver mais legítimos, já que a “parafernália” de produção subjetiva, como as práticas educacionais, ancora-se em discursos tidos como “verdadeiros”. Assim, o poder age sobre o campo de ação dos sujeitos, estruturando suas possibilidades, mantendo, por conseguinte, a sensação de “liberdade de escolha” individual. Por isso, o cerceamento do poder não se dá no sujeito de forma impositiva ou autoritária, mas na constituição e regulação de seu campo de ação, de suas possibilidades de existencialização. Isto não pode se dar sem a utilização e a produção de tecnologias que visam à ação dos sujeitos sobre si próprios; ação consentida por estes em virtude de sua legitimação por regimes de saber. A tecnologia, segundo Rose (1996),

(...) refere-se (...) a qualquer agenciamento ou (...) conjunto estruturado por uma racionalidade prática e governado por um objetivo mais ou menos consciente. As tecnologias humanas são montagens híbridas de saberes, instrumentos, pessoas, sistemas de julgamento, edifícios, espaços, orientados, ao nível programático, por certos pressupostos e objetivos sobre os seres humanos (p.26).

Essa ideia de tecnologia mobiliza a prática do governamento. Sabe-se que, para Foucault, “(...) governar leva à consideração da profusão de técnicas, esquemas, estruturas e ideias deliberadamente mobilizadas na tentativa de direcionar ou influenciar a conduta dos outros” (DOHERTY in PETERS, BESLEY (orgs.), 2008, p. 204). Nesse particular, é importante lembrar o destaque que Foucault deu ao papel dos experts, já que as práticas de governamento estão conectadas com sistemas de saber “especializados” que justificam os campos de intervenção. Neste sentido, o saber escolar enquanto saber especializado também produz práticas de governamento que, por sua vez, concretizam modos específicos de subjetivação. Assim, problematizar o saber escolar é um modo de explicitar as formas de governamento produzidas pelo mesmo.

Enfim, a constituição de qualquer campo de saber é atravessada pelas relações de poder. Deste campo de saber emergem práticas que concretizam a manipulação técnica dos indivíduos pelas instituições: práticas pedagógicas, tecnologias do eu, práticas disciplinadoras. Todas estas ações visam ao governamento dos indivíduos, ou seja, à homogeneização de modos de ser que compactuam com os regimes de poder-saber vigentes em uma sociedade. Assim, as condutas humanas podem ser favoravelmente controladas sem que os indivíduos sejam coagidos por uma máquina totalitária – ao contrário, seus pensamentos, sentimentos e desejos são fabricados por estes aparatos, na ação do indivíduo para consigo mesmo e na ação de todos sobre todos. Mesmo produzindo-se a partir das configurações sociais, os sujeitos sentem estar sendo fieis a si mesmos, leais à sua interioridade, sentem estar agindo de forma consoante às verdades sobre o homem, uma vez que a manipulação exercida é muito sutil e produtiva, se constituindo a partir dos regimes de verdade estabelecidos e das técnicas de aperfeiçoamento de si que estes produzem.

Para prosseguir este estudo, é necessário, neste momento, mapear a produção de saber no campo discursivo. Para este fim, recorremos à teorização foucaultiana apresentada nas obras “Arqueologia do Saber” (2004) e “A Ordem do Discurso” (1996), e às contribuições de alguns comentadores.

Documentos relacionados