CAPÍTULO 1 MODA BAIANA CONTADA EM VERSOS E PROSAS
1.3 Bahia: “utopia de lugar”
1.3.3 Que moda é essa? Afro, pop ou plural?
Configura-se na criação de moda contemporânea do Estado uma convergência para a incorporação desses traços de identificação de uma cultura afro brasileira. Trabalhos como o realizado pela estilista baiana Carol Barreto afirmam esse caminho, ao projetar na vestimenta e nos acessórios uma moda produtora de uma aparência que exprime pertencimento e diferenças (dinâmica dualista típica da moda), a partir dos marcadores sociais. Em sua coleção VOZES: Moda Ancestralidades44, Carol Barreto mostra, através das suas criações, formas de resistência a partir da mistura de materiais diversos, que trazem traços dos colonizadores europeus adaptados e remodelados pela herança africana local que resultam em uma poética multicultural única. Segundo a estilista45, “não se trata de moda étnica, mas da moda evidenciando as raízes
do Brasil sem exotismo e sem estereótipos”.
44 Sua coleção Vozes: Moda Ancestralidades desfilou na Black Fashion Week, semana de moda internacional realizada em 2015, na França, em Paris.
Figura 12 - Divulgação do projeto Vozes: Moda e Ancestralidades, da estilista Carol Barreto, com as modelos dos quilombos Tabuleiro da Vitoria, Santiago do Iguape e Engenho da Ponte
Fonte: Fotógrafa Andressa Pires. Foto divulgação enviada, em 28 de fevereiro de 2016, pela assessoria de comunicação da estilista Carol Barreto ilustrando o release do projeto.
Porém, lança-se a partir dessas considerações iniciais uma problemática que será fundamental para o encaminhamento desta pesquisa que se estrutura através destas linhas. Ao se pensar na relação entre o design de moda e a cultura local, compreende-se que: Não seria mais apropriado para um ambiente tão híbrido investir-se em uma moda (ou quem sabe, modas) que desse conta das culturas que compõem esse caldeirão múltiplo, diverso, fluido, situacional que é a Bahia?
Esse cuidado surge a partir dos pensamentos de Cuche (1999, p. 191) ao tecer sobre o paradoxo que o fechamento em uma identidade etno-cultural pode trazer. “Em certos casos, (esse fechamento) apaga todas as outras identidades sociais do indivíduo, será mutilante para ele, na medida em que ela leva à negação de sua individualidade”. Utilizando as reflexões de Georges Devereux (apud Cuche 1999, p. 191), quando uma identidade étnica hiperinvestida oblitera as outras identidades, deixa de ser uma ferramenta e se torna uma “camisa de força”.
A partir desta perspectiva, pretende-se estudar o cenário da moda baiana contemporânea, identificando como designers e marcas locais constroem novas expressões em suas criações através de uma sugerida identidade, em uma sociedade cada vez mais transnacionalizada. Considerando, essencialmente, essa peculiaridade da formação cultural baiana.
Uma cultura afeita aos jogos de hibridação, jogos que desde o início impediram que por aqui vingasse purezas pré-brasileiras e que na sua versão mais contemporânea passaram a incluir as possibilidades, os desafios e os perigos do mercado. (MIGUEZ, 2002, p. 108, grifo do autor)
A relevância das iniciativas políticos-governamentais de estímulo ao mercado deve ser levada em conta, uma vez que surgem com a intenção de garantir rentabilidade apostando na
relação design e moda, apoiado nos diferenciais dos elementos regionais. Dentre as ações estaduais que buscam esse localismo, podem ser citadas o Projeto Estruturante Moda Design Bahia, criado para possibilitar aos empresários dos APLs (Arranjos Produtivos Locais) de Confecções de Salvador e Feira de Santana ter acesso à capacitação especializada e a um Centro de Design de Moda; e Polo Industrial de Confecção Rua do Uruguai e Entorno, ação de responsabilidade social corporativa do Shopping Bahia Outlet Center que visa a competitividade dos micro e pequenos negócios.
Destaca-se, entre as iniciativas, o Projeto Estruturante Moda Design, iniciado em 2002, através de uma parceria entre o governo do Bahia e o Instituto Brasileiro de Moda (IBModa)46. O Projeto organizou as empresas em um Arranjo Produtivo Local (APL), reunindo 280 empresários na Bahia. De acordo com Jackson Ornelas (ABITTEXBRASIL, 2016), assessor especial da SECTI baiana (Secretaria de Ciência e Tecnologia), o estudo47 iniciado em 2004 identificou segmentos que poderiam constituir APLs. Entre eles estava a área de confecção. Nesse período, foram feitos investimentos para conhecer as possibilidades de alavancar a indústria de moda no estado, reconhecendo seus principais problemas e, a partir desse reconhecimento, promover a competitividade da indústria de bens de moda da Bahia por meio da inserção de design de moda como agregação de valor de produtos e marcas. Os resultados divulgados na Revista Bahia Indústria (FIEB, 2009) indicaram três linhas principais de atuação: investir em design para diferenciação dos produtos; optar pela facção marca branca (produção de peças com a etiqueta de outras empresas); ou a produção em massa para compensar o custo. Segundo a coordenadora da APL de Confecções, Tatiana Torres (ibidem), a opção pelo design levou em conta o potencial baiano para a criação de uma marca que “traduzisse” a cultura local.
A Elementais, objeto central da nossa análise, é uma das empresas que compõe o mix de marcas. Com a razão social Fábrica de Estilo, concentrou sua administração e produção no condomínio Bahia Têxtil, inaugurado em 2012, e localizado no bairro do Uruguai (Cidade Baixa). O empreendimento é fruto de uma Parceria Público Privada entre o empresariado do segmento têxtil e o governo do Estado. Seguindo as estratégias competitivas do Projeto Estruturante Moda Design Bahia (SUDIC BAHIA, 2017), o condomínio foi criado com o objetivo de: Otimizar o potencial dos recursos humanos (mão de obra local); viabilizar a modernização do processo produtivo; obter vantagens competitivas de compra e venda; atingir
46 O IBModa é uma instituição brasileira voltada exclusivamente à área de negócios da moda. Criado em sintonia com a nova fase da moda brasileira, onde há uma forte necessidade de se pesquisar, refletir e aprofundar o conhecimento especializado, medidas fundamentais para conseguir uma posição competitiva no mercado. (IBMODA, 2017)
47 Para o desenvolvimento desses estudos, foi contratada a empresa Competitiveness Consultoria que elaborou um diagnóstico sintetizado, indicando as opções estratégicas para uma atividade competitiva.
níveis internacionais de qualidade e custo e reduzir o efeito das flutuações sazonais da demanda para que as empresas instaladas sejam capazes de atingir elevados níveis de produtividade, preparando-as também para a concorrência internacional nesse setor.
Figura 13 - Inspirado no modelo italiano de cluster, o sistema do condomínio possibilita um maior poder de negociação e ampliação da produção aos pequenos e médios para competir com grandes empresas do ramo
Foto: Manu Dias; Secretaria de Comunicação do Estado da Bahia < http://www.sde.ba.gov.br/noticia.aspx?n=31769>
Projetado para uma área de 20.000 m², o Bahia Têxtil conta com 21 galpões, com áreas variáveis entre 210,00 a 2.128,00 m², que abrigam atualmente 21 empresas de pequeno e médio porte, do seguimento têxtil (confecção). Ao todo, foram investidos aproximadamente R$ 12,3 milhões para sua construção (Ibidem). A implantação de um polo de confecção pretendeu apoiar e estimular os empresários baianos, reduzindo seus custos de produção. Seguindo o modelo italiano de cluster48, o Bahia Têxtil adotou o sistema de produção que concentram pequenos e médios em um mesmo território a fim de alcançar maior poder de negociação (barganha) e escala produtiva a fim de concorrer com os grandes conglomerados, além de possibilitar acesso à estrutura e tecnologia mundiais de ponta através de incentivos governamentais e institucionais.
Hoje49, o condomínio gera 950 empregos diretos (com potencial de 1.500 empregos diretos) e cerca de 5.000 empregos indiretos. Como parte do projeto inicial, a meta é consolidar o espaço como um conjunto integrado de indústria e comércio que inclui a estruturação de um Outlet (comércio varejista com produtos de lojas de fábrica). As empresas instaladas trabalham com diversas áreas do ramo de confecções como produção de roupas masculinas, femininas,
48 Cluster é um grupo concentrado de empresas inter-relacionadas e instituições correlatas, em uma determinada área, que se vinculam por elementos comuns e complementares. A tendência para essas formações começou na Itália.
49 Informações concedidas à autora deste estudo, em 14 de março de 2017, pelo conselheiro do condomínio Bahia Têxtil, Miguel Sehbe, que é também condômino signatário através da sua empresa Tecno Factory, que produz roupas clássicas masculinas.
fardamentos e ternos, além de bordados, pintura – 14 das 21 empresas50 em atividade no complexo atuam na confecção de fardamentos /uniformes.
50 São elas: Leme Comércio e Confecções, Camisas Polo Salvador, IO Roberio Sampaio, Loygus For Export, Bordados A Mil, 3RM Uniformes, Irmãos Bonfim da Silva, Silva e Silva, Fashion World, Haiduk Moda Surf, Thenis e Cia, Elementais, Tamara Reis e Cia, Hebert Uniformes, SR Uniformes, Logística, Look Modas, Raio Express, WA Uniformes, Aurea Aleluia.