possibilitam evocar nos espectadores memórias relacionadas à imagens, paladares, sensações e/ou sons, fazendo com que o indivíduo seja atravessado por emoções provenientes da produções de sentidos
O QUE OS OLHOS NÃO VEEM: UMA EXPERIÊNCIA SENSÍVEL.
Everson Oliveira da CRUZ 1
Universidade Federal do Rio Grande do Norte. E-mail: [email protected]
RESUMO
O presente artigo tem como objetivo discutir uma proposta de “teatro dos sentidos” onde o não visual e a experiência vivida do espectador contribui para a construção de imagens particulares suscitadas pelo tato, por aromas, sabores e sonoridades, consequentemente, para apreensão e fruição estética do Espetáculo “O que os olhos (não) veem”. O texto propõe, a partir de Merleau-Ponty, uma discussão acerca do olhar que transcende o olho e reverbera as percepções do corpo durante a apreciação do Espetáculo apresentado.
PALAVRAS-CHAVE: Teatro, cegueira, experiência, fenomenologia. WHAT THE EYES CAN’T SEE: A SENSITIVE EXPERIENCE. ABSTRACT
The purpose of this paper is to discuss a proposition of a “theatre of senses”, where the non-visual and the life experiences from the viewer are put together in order to elaborate particular images spurred by the tact, aromas, tastes and sounds, contributing for the enjoyment of the play “O que os olhos (não) veem”. The text proposes , from Merleau-Ponty, a discussion about the look that transcends the eye and reverberates body perceptions during the consideration of the play.
INTRODUÇÃO
O artigo visa discutir uma proposta de “teatro dos sentidos” presente no Espetáculo “O que os olhos não veem” desenvolvido durante os estudos teórico-práticos do Projeto de Extensão “O que os olhos não veem o coração (não) sente”, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Através de pesquisas voltadas para o universo da cegueira o Espetáculo converge para a construção de um teatro que não se vê, mas se sente com todo o corpo através de sabores, aromas, toques e sons.
As cenas se constituem e se completam para o espectador a partir da experiência e do mundo vivido de cada um, e configuram uma comunicação sensível entre o artista e seu público, provocando-os à uma percepção diferenciada do olhar.
Para discutir com a proposta do espetáculo e a ideia de mundo vivido, o texto é permeado pelos estudos do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty compreendendo que o mundo configura-se pelas minhas experiências, pelas experiências dos outros, e pelas experiências dos outros nas minhas num movimento de alteridade, sendo este movimento responsável pela apreciação estética do Espetáculo, dialogando também com Jacques Ranciere e o termo espectador emancipado.
O texto que segue, embasado pelos estudos da fenomenologia, ainda apresenta algumas discussões norteadas pelos estudos de Joel Martins e Maria Aparecida Viggiani Bicudo acerca do método fenomenológico, desenvolvido no Brasil.
É a partir deste método que o texto anuncia uma investigação da estrutura do fenômeno situado a partir das descrições dos espectadores – após a experiência vivida no Espetáculo - considerando que não existe um observador absoluto “O que os olhos não veem”.
Criado no início de 2014, o Projeto de Extensão “O que os olhos não veem o coração (não) sente”47, coordenado pelo Prof. Dr. Jefferson Fernandes Alves, centra suas pesquisas no universo da cegueira, atrelando esse tema a estudos sobre/no corpo, desenvolvendo um Espetáculo a partir de uma proposta sensorial, dialogando com propostas desenvolvidas no Brasil, aproximando-se bastante do projeto “Teatro dos sentidos”, compreendido pela artista como uma maneira de se fazer teatro, voltado, principalmente para a pessoa com deficiência visual, embora hoje já exista uma plateia formada por videntes ou “enxergantes vendados”.
Até então os integrantes do Projeto de Extensão, participaram de atividades diversas entre capacitações sobre audiodescrição, oficinas e intrevistas com deficientes visuais, e laboratórios às cegas48 que resultaram no Espetáculo Teatral intitulado “O que os olhos não veem”49, apresentado pela primeira vez em Dezembro de 2014, passando a ser ponto inicial da pesquisa intitulada “O que os olhos não veem: o não visual como forma de apreciação estética”.50
47
48
Laboratórios que participamos vendados a fim de investigar como nossos sentidos respondem a
determinados estímulos.
49
A proposta do espetáculo é apresentada para um público de até vinte pessoas vendadas e/ou que não disponham da visão.50
Pesquisa vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, desenvolvida por Everson
Oliveira da Cruz, sob a orientação da Professora Doutora Karenine de Oliveira Porpino e Co-orientação do
Professor Doutor Jefferson Fernandes Alves.
REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
Os primeiros contatos com o universo da cegueira iniciaram em 2014, durante uma capacitação de “Audiodescrição e adaptação de material tátil para estudante com deficiência visual” promovida pelo Departamento de Fisioterapia e pela SEDIS-UFRN onde pudemos perceber a importância deste recurso para pessoas com deficiência visual e baixa visão.
Segundo Costa 51(2011, p.32) a AD seria “a transformação de imagem em texto, realizada em peças teatrais, cinema e televisão, cujo fim prioritário é tornar acessíveis esses eventos culturais aos deficientes visuais”. Direcionada ao indivíduo com deficiência visual, ela também serve como recurso de compreensão para pessoas com baixa visão ou que, por algum motivo, tenha dificuldade de compreender determinado conteúdo. Concernente à isso Sant’Anna52 (2010, p. 137) afirma que a audiodescrição “surge como uma tecnologia assistiva que busca suprir a lacuna deixada pela comunicação visual, para aqueles que dela não conseguem tirar proveito”.
Além das teorias, foi possível perceber na prática a função desta tecnologia assistiva e a importância da adaptação de materiais para pessoas cegas. Muito mais que uma capacitação de formação profissional, o curso pode promover uma formação humana, nos fazendo perceber a presença do outro enquanto diferente e ao mesmo tempo igual, isso porque, a convivência com os cegos que se faziam presente naquela formação, quebravam aos poucos não só barreiras físicas, como atitudinais, movendo nosso olhar para uma percepção diferenciada do nosso próprio cotidiano. Talvez, uma das primeiras situações questionadora de uma perspectiva (não) visual, ao perceber a dicotomia existente entre a visão e o olhar, ampliando a dimensão do visível para além daquilo que nossos olhos alcançam.
Outro momento que convém mencionar trata-se da oficina de fotografia, desenvolvida pelo professor Prof. Marcos Antonio da Silva, do Instituto de Educação e Reabilitação de Cegos do Rio Grande do Norte, localizado no bairro do Alecrim, Natal-RN. O fato de Marcos ser cego congênito, faz com que a AD, enquanto “palavra alheia cuja expressividade se dirige, principalmente, para pessoas com deficiência visual, a fim de que estas possam atribuir sentidos a artefatos, cenas e eventos visíveis e imagéticos” (ALVES, 2014, p.236), lhe proporcione, enquanto fotografo, um olhar diferenciado sobre seus registros.
Em um dos seus ensaios fotográficos, através do olhar do outro, Marcos registra suas experiências no bairro do Alecrim, lançando um olhar – que parte de suas experiências – sobre barreiras arquitetônicas que, para o cotidiano de um vidente passaria despercebido. O olhar do fotografo, que transcende aquilo que a visão pode perceber, proporciona ao vidente uma experiência diferenciada do olhar, onde o mundo percebido se torna visível com outros olhos.
Depois de apreciar o ensaio do fotógrafo, voltar ao espaço mencionado é entrar em um processo de despertar para o mundo, revendo-o não mais pela perspectiva da vidência mas pela perspectiva da experiência que o Marcos nos conta a partir dos seus registros. Deixamos então de perceber o espaço apenas com os olhos passando a vê-lo – através da experiência que nos foi mostrada – com corpo todo.
51
Doutoranda em Estudos da Linguagem (PUC-Rio), mestre em História Comparada (UFRJ) e graduada em História (UERJ). Possui formação complementar em roteiro e locução de audiodescrição. É audiodescritora, desde 2008, atuando predominantemente na produção e revisão de roteiros. Tem experiência docente, especialmente na capacitação de profissionais para produção de roteiros de AD.52
Bacharel em Administração de Empresa, trabalha há 22 anos como analista de sistemas na Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação (Prodam), onde é responsável pelo site sobre Acessibilidade Digital, prestando consultoria e suporte a produtos específicos para pessoas com deficiência, acessibilidade à Internet/Intranet da PRODAM e da Prefeitura de São Paulo. Participou das comissões da ABNT para a criação das normas de acessibilidade para a internet e caixas automáticos de bancos. Foi membro da comissão de unificação do braille para informática nos países de língua portuguesa. Participou no desenvolvimento do acesso ao Bradesco Internet Banking para pessoas com deficiência visual.Nesse processo de redescoberta do ambiente já visto – e não olhado sob outra perspectiva – compreendemos, a partir de Merleau-Ponty (2004) que
(...) Reaprendemos a ver o mundo ao nosso redor do qual havíamos desviado, convictos de que nossos sentidos não nos ensinam nada de relevante e que apenas o saber rigorosamente objetivo merece ser lembrado. Voltamos a ficar atentos ao espaço onde nos situamos e que só é considerado segundo uma perspectiva limitada, a nossa, mas que é também nossa residência e com o qual mantemos relações carnais – redescobrindo em cada coisa um certo estilo de ser. (p.29)
No intuito de suscitar um olhar diferenciado sobre a cena, estimulado através de sons, aromas, toques e sabores, o Espetáculo Teatral “O que os olhos não veem” provoca a percepção corporal, convidando o espectador (vidente ou não vidente) a apreciar um espetáculo a partir da perspectiva da não vidência.
A investigação, partindo da recepção do Espetáculo, compreende que ela se dar na experiência, configurando entre atores e plateia uma comunicação sensível, provocando o olhar através de estímulos sonoros, olfativos, táteis e gustativos somado aos processos fenomenológicos do mundo-vida de cada espectador, compreendendo que o mundo, a partir dos estudos de Merleau-Ponty (1999),
(..) é, não o do ser puro, mas o sentido que transcende a intersecção de minhas experiências e a intersecção de minhas experiências com a do outro, pela engrenagem de umas sobre as outras, ele é pois inseparável da subjetividade e da intersubjetividade que fazem sua unidade pela retomada de minhas experiências passadas em minhas experiências presentes, na experiência do outro na minha (p.17)
A partir do Espetáculo “O que os olhos (não) veem”, buscamos dialogar com o fenômeno que se mostra e o sujeito que vivencia/experiência (MARTINS e BICUDO, 2005), problematizando essa região do não visual que também é passível de presença, podendo, através de percepções táteis, visuais, gustativas e sonoras, levar à apreciação estética, considerando que (...) a região que cerca o campo visual não é fácil de ser descrita, mas é certo que ela não é negra nem cinza. Há aí uma visão indeterminada, uma visão de sei lá
quê, e se se ultrapassa o limite, o que está atrás de mim não deixa de ter presença visual. (MERLEAU-PONTY,
1999, p. 23)
É com esta visão indeterminada que o espectador assiste aquilo que transcende o campo visual, para compreensão das cenas. Obviamente não podemos dizer que existe um botão para ativar uma visão especifica que norteie o espectador para uma apreciação concreta e unilateral da proposta. Embora os estímulos sejam os mesmos, o espectador observa do seu lugar inter-subjetivo.
A partir de Rancière (2012), compreendemos o espetáculo como um teatro sem espectadores, ou seja, teatro no qual a relação passiva da apreciação, implicada pela própria palavra, seja submetida a outra rel(ação). Entendido aqui como ação, o drama deve não só movimentar o que/quem está no palco, mas também movimentar o que/quem está na plateia. É sobre este mover-se – e isso não quer dizer apenas fisicamente – que o teatro pode se tornar novo. Torna-se novo, portanto, quando o espectador deixa de lado a passividade, implicando numa mudança de atitude a partir do momento em que, ao invés de ser seduzido, passa a aprender ativamente durante o espetáculo.
Duas são as fórmulas que, segundo Rancière (2012), convergem para essa reforma ativa do espectador. Em uma, o espectador não deve criar empatia com o que está sendo apresentado, não podendo, portanto, identificar-se com o personagem. Nesta primeira fórmula, cabe ao espectador observar o fato de forma cientifica buscando compreender suas causas, precisando “aguçar seu próprio senso de avaliação das razões, da discussão e da escolha decisiva” (p.10). A segunda, propõe justamente o contrário. A posição ativa do espectador encontra-se justamente na sua capacidade de ser “arrastado para o círculo mágico da ação teatral, onde trocará o privilégio de observador racional pelo do ser na posse de suas energias vitais integrais” (p.10). Essas características podem ser encontradas, consecutivamente em Brecht e Artaud ao passo que um o espectador deve distanciar-se do que está sendo encenado afim de um refinamento crítico do olhar, o outro deve fazer o sentido inverso, perdendo toda e qualquer distância entre plateia e cena abdicando de sua
própria posição enquanto espectador. As iniciativas modernas de reforma do teatro oscilam constantemente entre esses dois polos, da inquirição distante e da participação vital, com o risco de misturar seus princípios e seus efeitos” (p.10).
A cena e a performance, propõe uma prática coletiva do espectador. Entre Brecht e Artaud, consecutivamente, o espectador age para transformar e é circundado pela performance, conforme expõe o autor:
Segundo o paradigma brechtiano, a mediação teatral os torna conscientes da situação social que lhe dá ensejo e desejos de agir para transformá-la. Segundo a lógica de Artaud, ela os faz sair de sua posição de espectadores: em vez de ficarem em face de um espetáculo, são circundados pela performance, arrastado para o círculo da ação que lhes devolve a energia coletiva (p.13).
Utilizando como metáfora a figura do mestre e do aprendiz, Rancière (2012) expõe ambos os papeis para exemplificar a prática pedagógica. O aprendiz/ ignorante, só é ignorante para aquilo que ainda ignora pondo-se distante do conhecimento que ainda despreza por não conhecer. Ao mestre, por sua vez, cabe a função de aproximá-lo do conhecimento a fim de eliminar progressivamente esta distância ao passo que reconstrói outra. É nessa relação que se instaura algo como um “jogo do conhecimento”, onde o aprendiz precisa, a cada etapa concluída, iniciar uma nova etapa criada pelo mestre, quando as inteligências se igualam e outras novas se desnivelam, proporcionando com isso a emancipação intelectual. Neste caso, o aprender está diretamente ligado aos sentidos. Não cabe portanto apenas ver o espetáculo mas aprender a usufruir de outros sentidos para poder apreciá-lo.
O estado de jogo deve se instaurar entre o espectador e o espetáculo que assiste. A emancipação do espectador requer um trabalho do ator no sentido de mantê-lo atento ao jogo, e também do espetador em estar em estado de jogo para um novo aprendizado a cada espetáculo, fazendo relação entre o vivenciado durante o espetáculo e os signos que lhe estão sendo exposto, e seu mundo-vivido a partir dos signos que já fazem parte de sua essência e experiências de vida.
“Não há dois tipos de inteligência separados por um abismo. O animal humano aprende todas as coisas como aprendeu a língua materna, como aprendeu a aventurar-se na floresta das coisas e dos signos que o cercam, a fim de assumir um lugar entre os seres humanos: observando e comparando uma coisa com a outra, um signo com um fato, um signo com outro signo” (RANCIÈRE, 2012, p.15)
No desvelar dos signos através das experiências já assimiladas pelo ser humano está o trabalho poético da tradução que é a base da aprendizagem, imbricada nessa distância de comunicação à ser vencida – comum ao ser humano – diminuindo a cada experiência e apreensão desses signos saindo daquilo que se conhece para aquilo que ainda é desconhecido pelo aprendiz. Nesse caminho, o mestre “não ensina seu saber aos alunos, mas ordena-lhes que se aventurem na floresta das coisas e dos signos, que digam o que viram e o que pensam do que viram, que comprovem e o façam comprovar” (p.16). Quando ao Espetáculo, cabe aos atores conduzir os espectadores/participantes de “O que os olhos (não) veem” à uma aventura de experiências proporcionando-os também uma “floresta de signos” a serem explorados.
Sobre os espectadores que adentram esta multiplicidade de signos o autor afirma que “talvez eles saibam o que é preciso fazer, desde que o performer os tire de sua atitude passiva e os transforme em participantes ativos de um mundo comum” (p.16), compreendendo aqui “mundo comum” enquanto mundo- vida, propomos ao espectador a investigar as dimensões da visão e do olhar, emancipando-o para selecionar, comparar, interpretar o que assiste conforme suas experiências, levando em conta que o espectador emancipado
(...)Compõe seu próprio poema com os elementos do poema que tem diante de si. Participa da performance refazendo-a à sua maneira, furtando-se, por exemplo, à energia vital que esta supostamente deve transmitir para transforma-la em pura imagem e associar essa pura imagem a uma história que leu ou sonhou, viveu ou inventou. Assim, são ao mesmo tempo espectadores distantes e interpretes ativos do espetáculo que lhes é proposto (p.17).
Cabe então, investigar de que forma se dá essa experiência deste espectador emancipado dentro da floresta de signos que propomos de forma a investigar a essência do fenômeno através das descrições pós- espetáculo.
METODOLOGIA
A fenomenologia tem início com Edmund Husserl e desenvolve-se com outros autores, dentre eles, Heidegger, Merleau-Ponty, Gadamer e Ricoeur que, também, foram sucedidos por tantos outros. Isso porque a forma de pensar fenomenologia modifica de acordo com o tema e o pesquisador que interroga. Trata-se, portanto, de analisar o fato percebido através da visão particular de quem observa e vivência a experiência.
O pensar ligado à Fenomenologia foca seu olhar para os procedimentos de interpretação do fenômeno53 interrogado-o, ou seja, interpreta mundo através do fenômeno, pautado na realidade, na consciência, na essência, na verdade, na experiência, na intersubjetividade sobre o vivido(BICUDO, 1997). Impõe uma intencionalidade e analisa a partir de uma “variação imaginativa” do fenômeno situado, julgando-o segundo o que percebe como essencial.
A realidade, gerada pela intencionalidade voltada para o fenômeno é, na verdade compreendida, interpretada e comunicada, de forma perspectival, podendo haver uma, duas, ou várias realidades dependendo da interpretação e comunicação do percebido, que não ocorre no vazio, mas em um estar-com-o-percebido. “É o invisível se mostrando, tornando-se visível” (BICUDO, 1997, p.18) numa consciência atenta para o que se vê. É ir-ás-coisas-mesmas de forma à analisar sem conceitos prévios.
Não quer dizer, portanto, que não haja uma busca da compreensão por vias da experiência prévia do pesquisador de forma que o pré-reflexivo possa caminhar para a reflexão, fazendo-o perceber que o fenômeno não é gerado de maneira isolada mas na co-relação sujeito/fenômeno, compreendendo assim a esfera intersubjetiva, gerada através das formas de ver (perceber, compreender, interpretar) e de falar (dizer, agir) – considerando que a palavra por si só necessita de compreensão hermenêutica, ou seja, requer interpretação para completar seu entendimento – constituindo assim a essência do fenômeno que se mostra na pesquisa rigorosa.
Resgata o que é visto (compreendido) para elaboração da verdade (“mostração” da essência), sendo esta verdade, a partir da essência, que pretendemos encontrar através das descrições pós-espetáculo, a fim de perceber como o fenômeno manifestado contribui para a apreciação estética do Espetáculo “O que os olhos (não) veem”.
Pensada a partir de HUSSERL (1986), a fenomenologia volta-se para o mundo vivido ou experiência, propondo descrever o fenômeno, não com intuito de chegar em uma explicação causal do que se investiga, mas compreendê-lo a partir de uma interpretação ou, como Husserl, uma meta-compreensão (pensar o pensado) no retorno as coisas mesmas.
Dentro do espetáculo “O que os olhos não veem” a proposta é investigar como as experiências vivenciadas pelo público contribuem para a apreciação estética do Espetáculo por vias da percepção corporal (exceto a visão), e como o corpo se organiza, apreende a experiência e a compreende por vias da experimentação sensorial.
A fim de mensurar as perspectivas do olhar e organizar o pensamento através da recepção do Espetáculo, o caminho a ser traçado, divide-se em três momentos básicos a saber: descrição, redução fenomenológica e compreensão (MERLEAU-PONTY, 1999). É importante destacar que, embora sejam momentos distintos, não existe uma separação concisa destes procedimentos, visto que a observação sempre parte do ponto de vista do sujeito que observa o fato investigado.
Após a apresentação do Espetáculo, iniciou-se uma roda de conversa, a fim de que o público54 descrevesse como é a experiência de assistir a um espetáculo sem o recurso visual e se é possível a apreciação
estética de um espetáculo teatral sem o agenciamento da visão”.