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QUEM GANHA A CORRIDA DO FORO PRIVILEGIADO?

No documento O Supremo e o processo eleitoral (páginas 174-177)

Luiz Fernando Gomes Esteves 28 | 05 | 2018

Ao contrário do que possa parecer, a disputa pelo foro privilegiado não terminou.

A decisão do plenário do Supremo sobre foro privilegiado não eli- minou todas as incertezas163 sobre a aplicação das regras processuais

às autoridades: a regra seria aplicável a todas as autoridades com foro no STF – ou em outros tribunais? As autoridades reeleitas manterão o foro no Supremo? Para além dessas dúvidas sobre o que foi deci- dido – e, consequentemente, sobre o escopo do foro privilegiado164

– surge uma questão prática: quem irá eliminar todas essas dúvidas? A resposta banal seria: o próprio Supremo, conforme for chamado novamente para revisitar e esclarecer sua decisão.

Entretanto, não existe um único STF, mas sim vários. Quem estabe- leceu as diretrizes gerais do foro privilegiado foi o plenário do tribunal, por 7 votos a 4. O resultado mostrou que uma minoria de 4 ministros não concordou com a restrição do foro defendida pela maioria de

163 ALMEIDA, Eloísa Machado de. Decisão do STF sobre foro deixa lista infindável de dúvidas. Folha de São Paulo, 4 maio 2018. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/05/decisao-do-stf-so- bre-foro-deixa-lista-infindavel-de-duvidas.shtml>. Acesso em: 11 fev. 2019.

164 ARGUELHES, Diego Werneck; RECONDO, Felipe. Foro privilegiado: incerteza ou imobilismo? JOTA, 8 maio 2019. Disponível em: <https:// www.jota.info/stf/supra/foro-privilegiado-incerteza-08052018>. Acesso em: 11 fev. 2019.

7. Porém, esse grupo de ministros só é “minoria” no plenário. Nas turmas, e nas numerosas decisões monocráticas, o cenário é outro.165

Considere, por exemplo, a 2ª turma. Dos cinco ministros que a com- põem, três fazem parte da minoria do plenário. Minoria no plenário, maioria na turma. Na semana seguinte à decisão do plenário, esta turma decidiu manter o foro privilegiado para o caso de congressistas eleitos.166 Uma incerteza a menos, mas dessa vez decidida por uma

minoria – a mesma que ficou derrotada no plenário.

O problema se agrava se considerarmos que cada ministro do Supremo é responsável por gerir, com grande liberdade, seu gabinete e seus processos. Aqui, também, pequenas decisões aparentemente burocráticas poderão redefinir a amplitude da decisão do plenário. No mesmo dia em que participou do julgamento da segunda turma, o ministro Gilmar Mendes, vencido no plenário, disse que manteria no seu gabinete “[…] processos que estão encaminhando para o final, até para dar alguma racionalidade a esse processo.”167 Ou seja:

um ministro, sozinho, interpreta a decisão do plenário da forma que entende ser mais adequada, ainda que vencido, na gestão dos processos que estão no seu gabinete.

Há mais. Apesar da intervenção federal vigente, o Congresso Nacional se movimenta para aprovar suas próprias regras sobre o foro privilegiado, por meio de modificação da Constituição. No dia 29 de maio, por exemplo, a Câmara realizará audiência pública para discutir o tema.168 Ainda haverá incerteza quando a Câmara decidir?

165 ARGUELHES, Diego Werneck; RIBEIRO, Leandro Molhano. MINISTROCRACIA: O Supremo Tribunal individual e o processo democrático brasileiro. Novos estudos CEBRAP, v. 37, n. 1, p. 13-32, jan./abr. 2018.

166 CASADO, Letícia. Turma do STF decide manter foro especial para caso de congressista reeleito. Folha de São Paulo, 8 maio 2018. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/05/turma-do-stf-de- cide-manter-foro-especial-para-caso-de-congressista-reeleito.shtml>. Acesso em: 11 fev. 2019.

167 CARNEIRO, Luiz Orlando; TEIXEIRA, Matheus. Gilmar quer tran- sição para novo foro e diz ‘eu avisei’. JOTA, 8 maio 2018. Disponível em: <https://www.jota.info/stf/gilmar-transicao-foro-decisao-desastro- sa-08052018>. Acesso em: 11 fev. 2019.

168 Sobre informações da audiência pública, ver: CÂMARA DOS DEPUTADOS. CÂMARA DOS DEPUTADOS - COMISSÕES.

O SUPREMO E O PROCESSO ELEITORAL

O Supremo aceitará as modificações pretendidas pelo Congresso? E será mesmo o Supremo a se pronunciar – ou serão decisões mono- cráticas de seus ministros – talvez até de um daqueles que ficaram vencidos no plenário?169 Esse cenário é um terreno fértil para que

ministros com as mais variadas posições lancem mão de seus vastos poderes individuais170 para fazer valer sua visão sobre qual o alcance

ideal do foro privilegiado.

Quem influencia o que. Além disso, o quando desempenha um papel importante. A resolução de dúvidas, ainda que provisória, trans- mite mensagens para os destinatários do foro. Hoje, um parlamentar acredita que, se for reeleito em 2018, manterá o foro privilegiado, por conta da decisão da segunda turma. O tempo consolidará ainda mais tal interpretação, independentemente de quem tenha decidi- do a questão. Depois de consolidada, o ônus para decidir de forma diferente será maior. Uma coisa é decidir na ausência de regra clara; outra é decidir superando a regra já estabelecida.

A conjunção de todos esses fatores pode levar a uma corrida pelo foro privilegiado, criando incentivos para que o ministro vencido no plenário se apresse para diminuir o impacto da decisão atuando individualmente ou na turma em que é maioria. Ou para que o Congresso agilize os trâmites do processo legislativo para mandar aos juízes mensagens de que está cuidando do assunto. Ao contrário do que possa parecer, a disputa pelo foro privilegiado não terminou. O plenário do STF chegou primeiro e deu um passo importante, mas ainda não pode ser considerado vencedor.

Disponível em: <https://www.camara.leg.br/internet/ordemdodia/or- demDetalheReuniaoCom.asp?codReuniao=52799>. Acesso em: 11 fev. 2019.

169 ARGUELHES, Diego Werneck; FALCÃO, Joaquim. Onze Supremos: todos contra o plenário. JOTA, 1 fev. 2017. Disponível em: <https://www. jota.info/especiais/onze-supremos-todos-contra-o-plenario-01022017>. Acesso em: 11 fev. 2019.

170 ARGUELHES, Diego Werneck; RIBEIRO, Leandro Molhano. MINISTROCRACIA: O Supremo Tribunal individual e o processo democrático brasileiro. Novos estudos CEBRAP, v. 37, n. 1, p. 13-32, jan./abr. 2018.

O REAJUSTE DOS JUÍZES: O

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