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CAPÍTULO II – RÁDIOS COMUNITÁRIAS

II.6 Brasil: RC, a nossa realidade

II.6.9 Quem quer a ilegalidade?

Em tese, ficar na legalidade é muito mais interessante do que ficar na marginalidade. Ficar dentro da lei é ter o reconhecimento público dos poderes constituídos, é ter condições de obter recursos de operação, é poder difundir abertamente a rádio comunitária. Enfim, é não correr o risco de ser tratado como “pirata” e se submeter aos constrangimentos associados à repressão.

Supondo que os que fazem rádio comunitária preferem a legalidade, pelas vantagens que a situação ainda oferece, indaga-se porque eles parecem optar pela ilegalidade, colocando a rádio no ar, sujeitando-se à repressão violenta e cada vez mais eficiente.

Na verdade existem algumas barreiras no processo. Podemos apontar pelo menos três elementos que atrapalham aqueles que, de boa fé, optam pela legalidade:

1. A lei é restritiva

Desde a sua criação a Lei 9.612/98 é criticada por conter uma série de limitações à operação das rádios comunitárias. Até mesmo o GTI reconheceu isso: “o atual marco legal inviabiliza a sustentabilidade das rádios comunitárias”, diz o relatório do Grupo (MINISTÉRIO DAS COMUNICAÇÕES, 2005). Se é assim, para que legalizar a RC se a lei inviabiliza as rádios comunitárias?

2. A lentidão do processo no Executivo

Como foi visto, para obter a outorga a emissora pode ter que esperar até dez anos. É o caso de se perguntar se vale a pena esperar dez anos para se conseguir uma outorga de operação dentro de uma lei restritiva?

3. Interferência política no processo

Dois estudos mostram que políticos e religiosos conseguem intervir no processo e obter concessões para si ou seus apadrinhados. O primeiro é de Cristiano Lopes.

Pesquisa realizada por Lopes no Ministério das Comunicações, revela que existe um “Sistema pleitos” dentro do órgão. O sistema, de acesso restrito, abriga os pedidos (pleitos) relacionados às RCs feitos pelos parlamentares ao Ministério. O “Sistema pleitos”, portanto, reúne as solicitações de deputados e senadores para as “suas” rádios. Lopes descobriu que processos de rádios comunitárias andaram mais rápido quando havia um político por trás:

70,97% das 503 autorizações de rádios comunitárias concedidas no período (2003-2004) foram outorgadas a rádios apadrinhadas por políticos profissionais. Também comprovam que os processos apadrinhados têm 4,41 vezes mais chances de serem aprovados do que os que não contam com qualquer apadrinhamento. (LOPES, 2005a).

A existência de um “Sistema pleitos” já revela a existência de um planejamento de atendimento aos políticos. Mostra que o Estado se preparou técnica e burocraticamente para acatar as interferências políticas no MC. E, finalmente, que o Estado atendeu a esses pleitos.

Um outro estudo, dessa vez de Cristiano Lopes em parceria com Venício Lima (LIMA, V.; LOPES, 2007), mostra que, além dos políticos, também as instituições religiosas foram privilegiadas no atendimento pelo Estado. No sistema de privilégios montado dentro do Ministério das Comunicações aparecem os nomes de deputados estaduais, governadores, prefeitos e vereadores.

As conclusões do estudo:

1. Durante a gestão de pelo menos dois ministros após a edição da Lei 9.612/98, há indícios de preferência na distribuição de outorgas de interesse político do próprio ministro.

2. O Palácio do Planalto acelerou processos ou reteve outros conforme interesses políticos.

3. Há uma “intensa utilização política das outorgas de radiodifusão comunitária”. Ela se dá em dois níveis: no municipal, em que as outorgas têm um valor político localizado; e no estadual/federal, aí as rádios comunitárias são controladas por forças políticas locais que devem o “favor” de sua legalização a um padrinho político.

O estudo de Lima e Lopes mostra como a Igreja Católica tem abocanhado concessões de RCs:

No total, em 120 (5,4%) rádios comunitárias pesquisadas foi encontrado algum tipo de vínculo religioso. O domínio de vínculos pela religião católica é notável. Dessas 120 rádios, 83 (69,2%) eram ligadas à igreja católica, 33 (27,5%) a igrejas protestantes, 2 (1,66%) a ambas, 1 à doutrina espírita (0,8%) e 1 (0,8%) ao umbandismo. (LIMA, V.; LOPES, 2007).

Para os autores, essa forma de distribuição de outorgas de rádios comunitárias é “um comportamento que remonta ao velho Estado patrimonialista, no qual não havia limite entre o público e o privado e os patrimônios do Estado e do governante terminavam por se misturar”. Foi visto que:

Dos 1.106 casos detectados em que havia vínculo político, exatos 1.095 (99%) eram relativos a um ou mais políticos que atuam em nível municipal. Além disso, todos os outros 11 casos restantes são referentes a vínculos com algum político que atua em nível estadual ou candidatos derrotados a cargos de nível federal. Não houve nenhum caso detectado de vínculo direto entre emissoras comunitárias e ocupantes de cargos eletivos em nível federal. (LIMA, V.; LOPES, 2007, grifo dos autores).

Finalmente, os autores pedem a cassação dessas outorgas:

Os dados revelados por esta pesquisa permitem, portanto, que se iniciem ações legais para o afastamento dos dirigentes das associações e fundações que cometem essas ilegalidades ou até mesmo para a cassação das respectivas outorgas. (LIMA, V.; LOPES, 2007).

Com o objetivo de averiguar se procedem as conclusões do estudo de Lima e Lopes, analisamos três casos de rádios comunitárias autorizadas pelo Estado. Escolhemos uma do Sudeste (Rio de Janeiro), uma do Centro-oeste (Taguatinga), uma do Nordeste (Paraíba). Nossa pesquisa foi focada numa questão: se o endereço consignado no site do Ministério das Comunicações para a associação que ganhou a concessão tem relação com instituições religiosas, e se a programação da emissora diz algo parecido. Constatamos o seguinte:

1. Sudeste/RJ

Processo nº 53770.000456/99. Licença Definitiva para a “Associação Comunitária Nossa Senhora de Copacabana”, localizada na rua Hilário Gomes, 36, Copacabana, Rio de Janeiro. No local funciona a Igreja Nossa Senhora de Copacabana.

2. Nordeste/PB

Processo nº 53730.000060/99. A autorização foi atribuída à “Associação Diamantense de Radiodifusão Comunitária”, instalada na Rua Abílio Sérvulo, 50, município de Diamante, Paraíba. Seu nome fantasia era “Rádio Comunitária Diamante FM”. Posteriormente, conforme o blog da emissora67, mudou seu nome

fantasia para “Rádio Comunitária Paullus FM”, e também sua razão social, para

“Associação Paulina de Comunicação e Cultura para a Evangelização”.

A emissora, diz o seu site, surge...

com uma missão específica: assumir concretamente a missão de São Paulo, compartilhando em diferentes graus, sua espiritualidade e vida apostólica, especificamente no anúncio da Boa Nova através dos meios de comunicação social68.

Diz ainda o blog da emissora:

Por fim, a Rádio Comunitária Paullus FM continua com os mesmos propósitos desde o seu nascedouro, enquanto Rádio Comunitária Diamante FM, acrescentado a estes, nossa missão específica: viver e anunciar Jesus Cristo na cultura da comunicação seguindo os passos de São Paulo, que encarnou as palavras do Mestre: "Ide pelo mundo e anunciai o Evangelho a toda criatura" (Mc. 16,15)69. (grifo do autor)

Conclusão: embora autorizada, a rádio está sob o comando da Igreja Católica.

3. Centro-Oeste/DF

Processo nº 53000.000210/00. Autorização concedida à “Associação de Assistência Social Casa da Benção”, localizada, de acordo com o MC, à Área Especial 5 - Setor F Sul Taguatinga Sul, Distrito Federal. A Catedral da Casa Bênção funciona no mesmo endereço, com o nome de fantasia de “Rádio ondas da bênção”70.

Conclusão: embora autorizada, a rádio está sob o comando da Igreja evangélica Casa da Bênção.

67 http://radiopaullusfm.blogspot.com/p/nossa-historia.htm Acesso em 13/09/2010. 68 Idem.

69 Ibidem.

Notamos que o processo de outorga de RC está submetido às interferências políticas e religiosas em duas instâncias de tramitação no Executivo: no Ministério das Comunicações (MC) e no Palácio do Planalto.

Essas as duas instâncias são autônomas. Uma emissora pode ser apadrinhada e receber a autorização no MC, mas isso não basta para que a outorga seja concedida. Ela vai precisar de um novo “empurrão”, “um jeitinho”, quando chegar ao Palácio do Planalto. Esse “empurrão” deve ser dado pelo político ou pela igreja interessada. Enquanto isso não acontecer o processo pode esperar bastante tempo antes de ser encaminhado ao Congresso Nacional.

As interferências políticas no Ministério das Comunicações se tornaram práticas comuns no Executivo. Mas não se limitam às rádios comunitárias. Conforme Girardi e Jacobus os parlamentares têm até cota de rádio/TV:

Na média, um em cada três congressistas (deputados e senadores) é dono ou testa de ferro de emissora de rádio e/ou TV. É por isso que, a cada duas rádios comunitárias outorgadas, uma sai através da chamada “cota parlamentar”. Mas, na mídia comercial, a situação é ainda pior. Todas as rádios e TVs comerciais conseguem suas licenças com a intermediação de algum político. Portanto, e apesar das conquistas já alcançadas, as regras que regulam as telecomunicações no Brasil ainda apresentam muitos problemas e precisam de mudanças. (GIRARDI; JACOBUS, 2009, p. 29)

O relatório final do Grupo de Trabalho Interministerial (GTI) observa que, se no Ministério das Comunicações um processo demora em média 26 meses, no Palácio do Planalto o tempo médio entre a entrada e saída de um processo é de 14 meses (MINISTÉRIO DAS COMUNICAÇÕES, 2005, p. 17). Este tempo de espera no Planalto mostra como um trâmite burocrático foi transformado em balcão de “negócios políticos”. Considere-se que, em tese, cabe ao Planalto apenas “carimbar” o processo e encaminhá-lo para o Congresso Nacional. Essa demora na liberação de rádios comunitárias corresponde ao tempo de negociação com os poderes envolvidos. E, claro, se uma rádio não conta com padrinhos políticos, se não aparece ninguém para negociar por ela, por melhor que seja seu projeto de RC está condenada a uma espera que pode chegar à dezena de anos.

Mas porque as interferências políticas e religiosas ocorrem em duas instâncias de tramitação (MC e Planalto) dentro do Estado? Uma só não bastaria?

Nossa hipótese é de que isto acontece por causa de disputas políticas dentro do Governo. Se o Palácio do Planalto é domínio do Partido dos Trabalhadores (PT), o Ministério das Comunicações foi historicamente controlado pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). No interior do Brasil, os aliados do PT nem sempre são aliados do PMDB. Por isso, rádios autorizadas pelo MC (instância do PMDB) podem estar sendo boicotadas quando chegam ao Palácio do Planalto (instância do PT). O Planalto, portanto, faz uma “peneira” do que foi aprovado pelo MC, ajustando a liberação de RCs aos seus “negócios políticos”71. Andam mais

depressa as outorgas de rádios comunitárias ligadas a vereadores ou prefeitos aliados.

Essa “peneira política” feita no Palácio do Planalto toma uma importância maior porque, na prática, é a última instância antes da rádio ser aprovada. “Aprovado” no Planalto, o processo de outorga da emissora é enviado para o Congresso Nacional (que tem três meses para se pronunciar). Acontece que, desde a promulgação da Lei 9.612/98, o Congresso Nacional não vetou uma só RC72.

De qualquer modo, de acordo com o Ministério das Comunicações, atualmente existem 4.020 rádios comunitárias autorizadas73. Considerando que a tramitação dos

processos é contaminada por influências políticas e religiosas, estimamos que, no máximo, 10% dessas rádios sejam comunitárias “de qualidade”74. A maioria das

rádios autorizadas pelo Estado pertenceria às igrejas ou empresários, seriam emissoras comerciais disfarçadas, ou estariam subordinadas a prefeitos, vereadores ou deputados.