Parte I – Enquadramento teórico
Capítulo 1- O Conhecimento profissional docente
1.3 Ensino e aprendizagem: as duas faces da mesma moeda
1.3.2 A questão de aprender
Quando se fala em aprender, a preocupação recai sobre o aluno, com o aprendente, pois as atenções devem estar viradas para ele e não para o professor, uma vez que quem foi à escola para aprender é o aluno. É o aprendiz que é o agente principal e responsável pela sua aprendizagem. Neste contexto, a preocupação do professor é procurar as melhores estratégias de ensino para levar o aluno a aprender levando em conta as necessidades e interesses de cada um. Uma vez que a tarefa do professor é promover a aprendizagem no aluno, as perguntas estarão obviamente também viradas para o aluno, como por exemplo: o que é que o aluno precisa aprender para se formar como um profissional-cidadão? Como é que o aluno aprenderá melhor? Que técnicas favorecerão a aprendizagem do aluno? Como será feita a avaliação de forma que o incentive a aprender? (Masetto, 2003). É com base nesta lógica que Luck (2009) lembra que “os alunos são as pessoas para quem a escola existe e para quem deve voltar as suas ações, de modo que todos tenham o máximo sucesso nos estudos que realizam para sua formação pessoal e social” (p. 21). A ênfase na aprendizagem defendida acima por Masetto, colheu também consenso por parte de Sant’Anna e Menegolla (2011) ao reiterarem que os procedimentos didáticos devem estar intimamente relacionados com os objetivos de ensino, com os conteúdos a serem ensinados e com as características e habilidades dos alunos, dado que o melhor procedimento é aquele que atende às características individuais ou grupais dos alunos. É com base nesta lógica que Teodoro e Vasconcelos (2005) defendem que“para repensar a aula é fundamental rever o paradigma que
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sustenta seu esquema atual e propôr outro paradigma, ou seja, substituir a ênfase no ensino pela ênfase na aprendizagem” (p.81).
Altet (2000), convergindo com a visão dos autores acima, lembra os novos papéis do professor, que passam a ser os de “profissional da aprendizagem” ou de “ gestor das aprendizagens”, na medida em que são responsáveis em promover a aprendizagem no aluno. Torna-se por isso essencial que os professores se centrem no aprendente, trabalhando a partir das representações dos alunos, procurando perceber o seu nível de conhecimento e as suas dificuldades de modo a selecionar as estratégias de ensino adequadas para levar o aluno a aprender. Nesta lógica, Perrenoud (2000) sustenta que:
O professor que trabalha a partir das representações dos alunos tenta reencontrar a memória do tempo em que ainda não sabia, colocar-se no lugar dos aprendizes, lembrar-se de que, se não compreendem, não é por falta de vontade, mas porque o que é evidente para o especialista parece opaco e arbitrário para os aprendizes. De nada adianta explicar cem vezes a técnica de desconto a um aluno que não compreende o princípio da numeração em diferentes bases (p.29).
Ainda na mesma linha de pensamento de Altet (2000), ao organizar condições de aprendizagem ativas para o aprendente, o professor vai ser levado a desempenhar um outro papel, que consiste em ajudar o aluno a aprender melhor e a tomar consciência das suas próprias estratégias de aprendizagem, isto é, de desenvolver a metacognição e de ensinar o aluno a conduzir conscientemente o seu pensamento e a torna-lo mais consciente do seu funcionamento intelectual.
Nas suas reflexões sobre o papel do professor e do aluno, Teodoro e Vasconcelos (2005) realçam que:
A ênfase na aprendizagem como paradigma para o ensino superior alterará o papel dos participantes do processo: ao aprendiz cabe o papel central de sujeito que exerce as ações necessárias para que aconteça sua aprendizagem-buscar as informações, trabalhá-las, produzir um conhecimento, adquirir habilidades, mudar atitudes e adquirir valores. Sem dúvida, essas ações serão realizadas com os outros participantes do processo: os professores e os colegas, pois a aprendizagem não se faz isoladamente, mas em parceria, em contacto com os outros e com o mundo. O professor terá substituído seu papel exclusivo de transmissor de informações para o de mediador pedagógico ou de orientador do processo de aprendizagem de seu aluno (p.83).
Por outro lado, consideramos como Ferreira (2009) que a ênfase na aprendizagem ativa vai além de simples acumulação de conhecimentos teóricos, mas importa acima de tudo desenvolver aptidões que habilitem o aluno a colocar em prática o que aprendeu. Portanto, mais importante do que saber apenas sob ponto de vista teórico, é necessário saber fazer. Torna-se necessário,
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por isso, desenvolver as habilidades comportamentais para que o aluno saiba ser e estar. Tal como sustenta Roldão (2007):
Fazer aprender pressupõe a consciência de que a aprendizagem ocorre no outro e só é significativo se ele se apropriar dele ativamente. Por isso mesmo são precisos professores. Se a aprendizagem fosse automática, espontânea e passiva, o professor seria desnecessário. Se para aprender, bastasse proporcionar informação, seria suficiente ter posto os livros nas mãos dos alunos ou disponibilizar-lhes hoje tecnologia da informação. Mas é justamente porque aprender é um processo complexo e interativo que se torna necessário um profissional de ensino – o professor (p. 47).
Ainda dentro deste contexto, Altet (2000) enfatiza que:
O professor é gestor das condições de aprendizagem, porque é o aprendente e só ele que gere a sua aprendizagem. A aprendizagem é uma apropriação pessoal, facilitada ou mediatizada pelo professor. O papel do professor consiste em suscitar condições de aprendizagem facilitadoras, em colocar o aprendente em situações de aprendizagem que desencadeiem e favoreçam a sua atividade, o interesse pela pesquisa, desenvolvam as suas iniciativas e o levem a pôr em jogo os seus mecanismos cognitivos produtivos de saber (p.173).
Ferreira (2009) dá mais ênfase ao papel do processo neste processo e enaltece que:
A constatação de que o ensino é mais eficaz quando participado levou ao aparecimento de novas metodologias e técnicas de ensino e aprendizagem. As aulas passaram a ser mais vivas e apelativas, são cruzadas com perguntas aos alunos, seguem rumos diferentes conforme as respostas e a atitude dos alunos, suscitando informação adicional. O professor assume um papel mais difícil, mas o processo de ensinar torna-se mais motivante. É como um ator que tem que improvisar. Já não pode limitar-se a “debitar” os conteúdos programáticos, tem que estar preparado para a todo momento, ter que reorientar a aula. (p. 3).
Uma vez que pretendemos estudar a formação no ensino superior onde os aprendentes são adultos, a questão da mediação do ensino assume uma vital importância, pois tal como refere Osório (2003) “os adultos têm um conceito de si como pessoas responsáveis pela sua própria vida, e portanto expressam a necessidade psicológica de serem tratados como seres capazes de tratar da sua própria auto-organização e aprendizagem, que deve ser favorecida pelos docentes” (p.93).
Formosinho, Machado e Mesquita (2014) convergem com os autores acima ao reforçar que “as pedagogias transmissivas são centradas no ensino mais do que na aprendizagem, nos conteúdos a transmitir mais do que nos processos de construção da aprendizagem e do conhecimento, isto é, mais nos meios do que nos fins da educação” (p. 20).
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