Diagrama 1 – Parceiros em escalas
1.4 QUILOMBOS E POLÍTICAS PÚBLICAS
O reconhecimento do direito fundiário dos quilombolas pelo Estado inicia um processo de afirmação do espaço político dessas comunidades. O movimento quilombola se fortalece e se institucionaliza por meio da criação de entidades representativas - associações comunitárias e coordenações estaduais13 - iniciando os debates sobre políticas públicas
voltadas para as populações remanescentes de quilombos enquanto um processo de acesso à cidadania e ruptura com a situação de invisibilidade.
Quilombolas, assim como os povos indígenas, se caracterizam pelo manejo e uso compartilhado dos recursos naturais existentes nos territórios que habitam, pelos conhecimentos, inovações e práticas coletivas relevantes para a conservação e uso sustentado da biodiversidade (Santilli, 2005). Diante desses aspectos, as comunidades quilombolas estão cada vez mais presentes nas pautas políticas, integrando o quadro de populações assistidas por políticas e projetos de fomento às atividades produtivas sustentáveis, alternativas econômicas, comércio solidário e temáticas afins.
Ficaram previstas no Decreto 4.887/2003 que regulamenta o artigo 68, as instituições oficiais designadas a implantar o projeto político quilombola. Trata-se de um projeto político a partir do qual os quilombos passam a integrar diversas noções de direitos, não só os territoriais, mas o direito à educação, saúde, água, luz, saneamento, e demais direitos do cidadão pleno. Para tanto, se coadunam esforços de cinco ministérios – Desenvolvimento Agrário, Saúde, Educação, Cultura e Desenvolvimento Social e Combate à Fome – a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), a Fundação Cultural Palmares, Funasa e INCRA (Leite, 2008).
Desde 2004, uma ação conjunta interministerial coordenada pela Subsecretaria de Políticas para Comunidades Tradicionais da Secretaria de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), vem empreendendo o Programa Brasil Quilombola. Os objetivos do programa compreendem ações de infra-estrutura e serviços, regularização fundiária, desenvolvimento econômico e social, participação e controle social. O programa é norteado pela Agenda
13 Em todos os estados com ocorrência de quilombos há entidades representativas das comunidades
quilombolas, à exceção dos estados em processo de articulação política, a saber, Rondônia e Amazonas. O Estado de Goiás não possui coordenação estadual, mas possui uma associação representativa: a Associação do Quilombo Kalunga (AQK).
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Social Quilombola, cujos eixos de atuação centram-se no acesso à terra, qualidade de vida, direitos de cidadania, inclusão produtiva e desenvolvimento local. Para tanto, estão envolvidos o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), Fundação Cultural Palmares (FCP), Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), demais organismos do governo federal, entes federados, empresas e entidades da sociedade civil (Seppir, 2008).A inclusão produtiva e o desenvolvimento local são eixos de atuação que se destacam pelo número considerável de projetos, almejando o desenvolvimento sustentado das comunidades quilombolas beneficiadas, por meio da consolidação de cadeias produtivas da sociobiodiversidade com plena inserção no mercado nacional (Seppir, 2008).
O Ministério do Desenvolvimento Agrário possui igualmente programas setoriais direcionados às comunidades quilombolas, tais quais, a Ater Quilombola (Assistência Técnica e Extensão Rural) e os Territórios da Cidadania. A Ater Quilombola desenvolve ações de assistência técnica voltada para atividades produtivas, apóia atividades que fomentem o protagonismo das mulheres quilombolas, bem como atividades de revitalização e fortalecimento das práticas tradicionais produtivas. Os Territórios da Cidadania, por sua vez, apóiam ações de: organização sustentável da produção, saúde, saneamento e acesso à água, educação e cultura, infra-estrutura e gestão territorial.
O Ministério do Desenvolvimento Social atua nas comunidades quilombolas por meio de distribuição de cestas básicas, Programa Bolsa Família, Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), construção de Centros de Referencia da Assistência Social (CRAS).
São alguns exemplos que demonstram como os quilombos estão inseridos na agenda política de órgãos governamentais. A implementação de tais políticas, todavia, é permeada por fatores recorrentes nas ações oficiais junto às populações tradicionais, isto é, a falta de capacitação dos técnicos responsáveis no que tange à compreensão das formas próprias de cada comunidade acerca do trabalho, da produção, da sociabilidade, das relações familiares; em grande parte vão munidos de concepções pré concebidas sobre tais aspectos que compõem a vida social do grupo gerando constrangimentos, descontentamentos e, principalmente, a não continuidade da ação devido às inflexibilidades perante os objetivos almejados. Conforme já abordado por Andrade (2009), muitas ações oficiais se configuram como um ato de violência simbólica pelo fato de confrontar os modos de vida dos quilombolas, as habitações de taipa e palha são consideradas edificações impróprias e alvo de projetos coletivos que desconsideram os desejos particulares; às roças de toco se dirigem as principais críticas por conta da prática do corte e da queima, a ajuda das crianças
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aos pais nos trabalhos afins é considerada crime; e demais considerações como a falta de planejamento, de projeção, de união e de auto-estima.É incontestável que as comunidades são desejosas por melhorias nos diversos âmbitos - infra-estrutura, educação, saúde, transporte, etc -, mas melhorias que componham suas formas de organização social e não arbitradas em descompasso com as mesmas. Isso se dá pela inexistência de uma reforma institucional que dê conta das novas políticas setoriais em pauta, contrariamente, os órgãos designados para efetivar as políticas para quilombolas e demais populações tradicionais efetuam arranjos internos superficiais de modo a cumprir o que lhes competem.
A despeito de certas inadequações das políticas publicas para quilombolas, dos embates políticos, e das inúmeras dificuldades encontradas para a titulação dos territórios étnicos, são inegáveis as conquistas do movimento social quilombola, pautando sua atuação na inserção e implementação das questões e demandas quilombolas na agenda política dos órgãos governamentais. As ações do movimento numa escala de representação nacional, no entanto, se fortalecem por meio do contínuo trabalho da base, cabendo às comunidades quilombolas ampliar suas redes de articulação política de modo a construir condições para a ampla efetivação dos direitos constitucionais conquistados.