TRABALHO EXEGÉTICO EM JOÃO 20, 11-
Lucas 24:1-12 E no primeiro dia
1.9. Comentário Exegético
1.9.1. Interpretação do texto
1.9.1.5. Quinta parte Vr 17-
17 Diz a ela Jesus: Não me segures, ainda, pois, não subi para o pai; mas vai para os meus irmãos e dize a eles: Subo para o meu pai e vosso pai e Deus meu e Deus vosso. 18 Vêm Maria Madalena anunciando aos discípulos: Vi ao Senhor, e estas coisas (ele) disse a ela.
Jesus com imperativo de ordem diz, para não o segurar, e continua ordenando para que ela vá anunciar aos seus irmãos. Aqui os termos “patera” “theon” pate,ra;. qeo,n (Pai; Deus) duplicado, mostra a intimidade do Pai com o filho cf. (17,21), e o termo “kurion” ku,rio,n (Se- nhor) usado para fechar a estrutura do texto, amarra-os com seu contexto.
Com essa estrutura final, podemos entender melhor o que João pretendia com esses dois versos finais. Ele apresenta a santidade do Cristo, que ao ressuscitar por si mesmo, é maior que qualquer ser humano, ultrapassando assim, qualquer autoridade, inclusive Moisés, como vimos na perícope anterior, onde o véu foi deixado (20,7), e Cristo pôde manifestar a sua glória.
Por isso ao usar o termo “apto” a[ptw (Tocar, relação sexual, deter, incendiar); dentro desse texto vemos que a referência, ao toque, deve estar ligado a “aptomai” aptomai, que é segurar/deter (RIENECKER, ROGERS, 1995, p. 191). 14 Ela não deve impedir a exaltação,
glorificação do Senhor, que vai ser assumida com o termo “anabaino” avnabai,nw (subir, ascen- der) aqui será diferente da expressão idiomática Subir ao coração (1 Co 2,9), como já havíamos comentado, na interpretação de (GINGRICH; DANKER, 1984.p.19). Algo que ninguém pu- desse imaginar que aconteceria. Diante do nosso texto, a subida do Senhor é algo extraordinário, mas o termo refere-se à subida aos céus de um corpo natural. Aqui há uma nova percepção teológica em relação ao Senhor humano visto na terra que sobe ao céu, de forma diferente de Elias, e que sobe por suas próprias forças. Em nossa opinião, essa referência joanina, já está situada na cruz sinal do princípio de sua exaltação, que vem sendo articulada dentro do tema de (3,13) e culmina aqui.
A ordem de Jesus, usando o termo no imperativo, “poreúomai” poreu,omai (Vai, ir) “sair de um lugar e indo a outro”, seguir também a uma certa distância. Sair, ir embora, podendo ser usado em sentido de forma de vida, ou seja, viver, andar ou caminhar de uma forma de vida.
14Com isso mesmo não identificando o termo mais difícil e improvável, ou seja das relações sexuais, poderia ser
que algum pensamento pudesse levar em conta a ideia de impureza da mulher e o encontro com os anjos, em toda história antiga como em Gn 6,2, o que não nos parece o caso aqui. Assim outro termo interessante seria incendiar, que é ligado a diversos outros textos bíblicos, com as palavras derivadas desse termo como “apsantes, periapto” respectivamente (at 28,2; Lc22,55; etc).
Também pode ser considerado um sinônimo de “peripatéo”. Em nosso texto pode designar avisar, ensinar, ou explicar a sua visão. Ou seja, nesse momento o Senhor, aplica a sua autori- dade para que toda a comunidade seja receptora da novidade da ressurreição.
O sinal que foi visto, precisava ser compartilhado com a comunidade e assim ela deveria avisar seus irmãos (avdelfo,j), “irmãos ligação familiar”. Esse termo também poder ser relacio- nado à ligação entre pessoas de grupos religiosos, nesse caso essa é a nova família de Deus.
Fica também evidenciado que o redator propõe a unidade do grupo (17,21), tratando a todos como uma só comunidade. Ainda que pela primeira vez Jesus trate seu grupo como irmãos usando o pronome pessoal genitivo (mou ), ou seja, ele demonstra o sentido de posse, ou pertença dessa nova constituição familiar e religiosa. Fazendo, com que, quem aderisse a fé, seria irmã ou irmão de Jesus, e todos filhos de Deus (Pai).
O verso 17 tem o seguinte paralelismos: Ainda não subi para meu Pai,
Mas vai para meus irmãos,
Meu pai e vosso pai Meu Deus e vosso Deus
Com o uso do paralelismo sinônimico, João enfatiza a qualidade da intimidade de Jesus com o Pai, e da comunidade com Jesus, lembrando assim que o termo Pai, nesse verso refere- se única e exclusivamente aos discípulos e nunca aos de fora. Jesus não encarou a paternidade divina como algo natural, apenas na esfera da Basileia (JEREMIAS, 2008.p.271).
João também faz uso da tradição bíblica do Antigo Testamento, em referência a (Rt 1,16), além da lembrança da Aliança (“eu serei Deus para eles”: cf Ex 29,45; Lv 26,12; Jr, 31,33; Ez 36,28 etc). (KONINGS, 2005.p.353).
Vemos também que esse texto é ligado ao E1, parece que as divisões já eram evidentes no início do escrito, com isso podemos obviamente ver outros fatores importantes, entre eles, as relações tempestuosas com os judeus, e os batistas, que já haviam sido desenvolvidas em outros textos, podem representar aqui, as divisões que já estavam influenciando outros mem- bros, e por isso a ênfase na unidade após a ressurreição forçou o reconhecimento do Senhor em chama-los de irmãos.
Maria segue a instrução de seu Senhor, “erxomai” e;rcomai (vem), mover-se de um lugar para o outro, tanto ir, quanto vir, podendo também ser “ficar”, acontecimento dirigido a
alguém. Pode também ser usada em algumas expressões idiomáticas, para chegar a uma ques- tão. Mas em nosso caso ela obedece e “angello” avgge,llw (Anunciar), contar, mensagem ou notícia. Contar algo que é desconhecido, essa palavra se une a evangelho, termo que é conhe- cido como boa notícia. Assim essa perícope se encerra com a notícia que os discípulos precisa- vam conhecer.
Conclusão
Após nossa análise sobre a perícope, temos como fundamentação teológica, as discussões entre os grupos. Acreditamos que Maria Madalena representa comunidades periféricas com certa dificuldade para entender a fé em Jesus. Temos a igreja mãe, (uma forma de representação, já que nesse período não existia uma igreja como entendemos atualmente) representada por Pedro que, mesmo sendo levada à revelação primeira, também não foi capaz de observar o mistério da ressurreição. Essas discussões mostram que as comunidades no final do primeiro século, dentro e fora do círculo joanino, haviam grandes tensões com a religiosidade do mundo antigo.
Em primeiro lugar, a comunidade acredita ser a detentora da revelação completa de Deus e que já vive a escatologia realizada, por isso ela já está no escathon. Por outro lado, ela precisa manter a unidade, e, suas relações com grupos dissidentes trouxeram desconfiança sobre comu- nidades importantes, por isso ela procura estabelecer as verdades da sua fé. Nesse aspecto ve- mos que a exaltação e glorificação de Jesus no evangelho será reformulada, e o primeiro mo- mento da construção literária, ou seja, o E1, não deram conta desse imaginário. O E2, por sua vez, procura por uma ordem de estrutura do texto, mas é no E3 que João estabelece a exaltação do Cristo, assim a glorificação de Jesus mostra-se desde o primeiro capítulo, onde os anjos são usados como recurso literário para apresentar Jesus como filho de Deus, e filho do Homem. Nesse aspecto a alta cristologia joanina, se encarregará de promover Jesus a uma divindade.
A imagem no sepulcro tem em nossa opinião uma forte identidade para o grupo desde o início da fé comunitária, e como ela vive em relação as culturas religiosas de seu tempo uma relação dialética, procurando debater e manter a fé em Jesus. Assim mesmo na primeira
construção literária os anjos são encarregados de representar dentro do sepulcro um espaço de acesso, ou imagem aberta para a subida aos céus, onde o humano e o celestial a partir de agora terão livre acesso a adoração.
Por fim, esse mesmo espaço passa de afirmação de que a comunidade tem no sepulcro a revelação da ressurreição, e não existe mais a separação humana com Deus. Mas agora, o sinal do tabernáculo aberto e o cristo não mais morto, poderia representar a manifestação gloriosa do Senhor, e o acesso livre da comunidade joanina com o culto celestial.
É possível compreender, que o culto dominical será o acesso direto ao céu por meio da celebração já que o sepulcro se tornou sinal da revelação, mas não lugar de adoração, é por esse motivo que Jesus não aparece para Maria no sepulcro, mas fora dele no jardim. A imagem que deixa transparecer é do novo Éden, o novo mundo da fé, e esse local é aonde a comunidade se encontra. Já o cenáculo, ou seja, as casas estão destinadas ao espaço centralizado no culto co- mum dentro da comunidade, onde houver um grupo de cristãos joaninos reunidos ali estará representado a comunidade de Deus, assim, ou por esse motivo, o sinal do culto (oito dias) aparece duas vezes no final do capítulo 20. Portanto, o Éden como também o cenáculo, são os símbolos do culto joanino, lugares que podemos vivenciar o culto perfeito.