TRABALHO EXEGÉTICO EM JOÃO 20, 11-
Lucas 24:1-12 E no primeiro dia
1.7. Estrutura do Texto
1.7.1. Subdivisão do Texto
Em nosso texto, podemos analisar a construção permeada por uma relação de seme- lhança. Além disso, várias outras formas de estruturas estão presentes e serão possíveis perce- ber. Vejamos primeiro o texto:
11 Maria estava chorando do lado de fora e abaixou-se para o Sepulcro 12 E viu dois anjos de branco sentados um junto a cabeçeira e o outro junto aos pés onde tinha estado o corpo de Jesus. 13 E eles disseram a ela: Mulher, por que choras? Respondeu a eles: Tiraram o meu Senhor, e não sei onde o puseram. 14 Tendo dito isto voltou-se para a trás, e viu Jesus em pé e não sabia que era Jesus. 15 Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? A quem pro- curas? Ela pensando que ele era o jardineiro disse-lhe: Senhor, se tu o levaste, diga-me onde o puseste, e eu o levarei. 16 Disse-lhe Jesus: Maria. Voltando-se ela disse-lhe em hebraico: Raboni (o que quer dizer Mestre). 17 Disse-lhe Jesus: Não me segures, pois ainda não subi
para o pai; mas vai para os meus irmãos e dize-lhes: Subo para o meu pai e vosso pai e Deus meu e vosso Deus. 18 Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: Vi ao Senhor, e as coisas que ele disse a ela.
Em nosso primeiro quadro e mais especificamente no verso 11, podemos considerar a idealização de uma estrutura simétrica. A construção pretendida pelo autor, e a idealização imagética do seu texto, pressupõe a mesma realidade retórica que foi iniciada por Isócrates “que apresentou um equilíbrio perfeito entre as diferentes partes do discurso” (ROHDEN, 2010, p.32). É possível perceber, além de um espaço de discussão teológica, vemos também o quiasmo que se apresenta. Quando nos detemos no verso 12, a estrutura tem uma alteração importante, mas que era comum à literatura judaica, ou seja, o verso tem de forma menos perceptível uma correlação que chamamos na exegese de “paralelismo culminativo” (WEG- NER, 2007. p.91), pois parece desenvolver uma linha sucessiva de ideias até chegar ao clí- max. Aqui o que percebermos seria apenas o que o texto deixa subtendido, diante de tudo que a perícope anterior já havia apresentado, vejamos as duas construções em nossa primeira sub- divisão:
a) 20.11-12
1. Maria junto ao Sepulcro - fora chorava (olhar de fora)
2. Enquanto chorava encurvou-se para o sepulcro (olhar para dentro)
3. E vê dois anjos em branco sentados um junto a cabeça e um junto aos pés onde tinha estado o corpo de Jesus.
Após essa visualização vemos como ficou mais claro o que entendemos desse verso, o quiasmo aponta para as duas formas diferentes de ação diante do sepulcro. Primeiro ela está junto ao sepulcro chorando, mas do lado de fora, e depois mesmo chorando ela encurva-se, ou abaixa-se para olhar para dentro do sepulcro. Nessa mudança de ação onde ela muda a direção do seu olhar, o autor tenta passar a seus leitores outro espaço, com nova perspectiva e esperança, ainda que o personagem não entenda o que está acontecendo.
No verso seguinte temos uma aparente sincronização paralela onde de acordo com nossa análise o autor construiu esse verso poético em forma de paralelismo culminativo, ou seja, o texto se desenvolve de forma crescente, contendo termos sucessivos até chegar ao seu ponto crucial.
Devemos então, observar nessa imagem, os anjos dispostos um em cada lado do sepul- cro, sem o corpo do Cristo. Tudo isso denota que no local não há morte, pois existem seres celestiais, sem a presença de um corpo físico. Como nesse verso a evidência é menos formal, podemos então entender essa relação, apenas se analisarmos o quadro proposto a partir de uma leitura de análise narrativa “mostrando o que ele faz (showing)”. (MARGUERAT, BOUR- QUIN, 2009, p. 88). O próprio Marguerat afirma que essa forma de escrita, e interpretação não é originária dos autores do Novo Testamento, mas remonta ao período platônico, onde ele ainda cita a literatura muito conhecida se não a maior delas que é “A República”.
De certa forma, dentro do espaço diegético do texto, ou seja, a narrativa, antes do diá- logo, se apresenta a imagem sem dar maiores explicações, mas que deixa claro essa manifesta- ção. Temos então o choro pela morte e perda. Consideramos certa similaridade com Cântico dos cânticos 3,2 “Levantar-me-ei, pois, e rodearei a cidade; pelas ruas e pelas praças buscarei aquele a quem ama a minha alma; busquei-o, e não o achei”. Segundo Mateos e Barreto, pode- mos também entender que os anjos são guardiões do leito e testemunhas da ressurreição, e suas vestes brancas a cor da glória divina, e sua presença já é anúncio de vida e ressurreição. (MA- TEOS; BARRETO, 1989, p. 821). Apesar disso, entendemos que podemos avançar em novas perspectivas para essa visão, onde também percebemos o sentido de espaço celestial com as figuras angélicas, dando sinal de um local de intermediação entre céu e terra.
b) 20.13
1. E dizem a ela aqueles: Mulher, por que choras? Diz a eles: Tiraram o meu Senhor, e não sei onde o puseram.
Após a primeira imagem do texto, sem nenhum diálogo, podemos contemplar apenas a cena descrita e o olhar como única relação de contato. O cenário agora acrescenta a fala dos anjos e a resposta da mulher. O interessante é que parece que eles perguntam em sincronia sobre o seu choro, além de ser a primeira manifestação angelical onde eles são personificações reais, segundo a narrativa. Pois, nos três versos anteriores (1,51; 5,4; 12,29) foram apenas mencionados como símbolos gloriosos da presença de Deus na vida de Jesus, e que finalmente se manifestam no sepulcro.
Os anjos se apresentam na literatura bíblica e são mencionados nela diversas vezes, desde o Gênesis até o Apocalipse. Para cada texto temos uma forma e ação, além de diversas
descrições dos anjos, ora como Anjo do Senhor, ora como ser humano. Em muitos textos temos esses seres aparecendo no NT, mas aqui a dinâmica é outra. O texto compõe uma tra- dição comum de “sizígia”, onde dois elementos podem representar tanto o mundo mítico, celestial ou histórico. Em nosso caso o mundo místico celestial está representado por essa dupla angelical.
Entretanto, queremos antes apresentar algumas possibilidades e formas de aparição, pri- meiro, temos relatos que representam a aparição de dois anjos no AT, nos momentos em que Abrão vê no carvalhal de Manre três homens que são descritos durante o texto como sendo Iavé e dois anjos, no caminho para destruição de Sodoma e Gomorra (Gn 18,1-33). Nesse momento, Iavé antes de ir para a cidade, promete um filho a Sarah, lembrando que isso acon- tece antes, dos anjos partirem para ir destruir as cidades pecadoras.
Em outro momento, vemos a imagem de anjos sobre a arca da aliança, onde eles estão sobrepostos guardando a arca, e dentro dela temos os símbolos sagradas de Israel. (Maná, as leis, e o cajado de Aarão). Como aponta (FLETCHER-LOUIS), Aarão é o grande Sumo sa- cerdote de Israel, apresentado por Sirac 45,6-8, e, é denominado como aquele que é seme- lhante a Moisés, estabelecido em uma aliança eterna, na qual o cingiu com uma veste gloriosa, e revestiu de uma magnificência perfeita, (2000, p. 293). Podemos considerar que todos esses adjetivos, revelam-se no processo de angelomorfia do Sumo sacerdote, e que nesse sentido, Jesus parece estar relacionado, a ser o verdadeiro Sumo Sacerdote de Deus em João.
E por último, dentro do contexto religioso, e não necessariamente nas sagradas escritu- ras, vemos duplas de anjos, sendo os guardiões dos homens importantes, profetas, reis, sacer- dotes, sendo escoltados para uma viagem celestial, até o reino dos céus. Nesse contexto, po- demos também relacionar a construção literária joanina.
c) 20.14
1. Estas coisas tendo (ela) dito voltou-se para trás, 2. e vê Jesus em pé e não sabia que é Jesus.
A ideia central está motivada pela falta de compreensão de Maria. Apesar de não estar em nossa perícope, ela reflete um problema ainda maior do que a perícope anterior e posterior, onde nem Pedro e Tomé respectivamente conseguem entender o que havia acontecido. (MA- TEOS e BARRETO), entendem que Maria, bem como Tomé, tem na morte um fato definitivo
e por isso é difícil crer (1989, p.823), corroborando assim diretamente na declaração do dis- cípulo amado, com uma fé superior, fortalecendo a autoridade da comunidade. “Assim como Marta não via no irmão mais do que cadáver (11,39-40), assim também agora Maria com Jesus. Não crê na força da vida nem na imortalidade do amor” (MATEOS; BARRETO, 1989. p.822). Esse verso, parece também uma construção para apenas fazer uma ponte entre os temas anteriores e posteriores. Outro fato importante, é o verbo theoreo que mais uma vez evidencia a falta de compreensão de Maria sobre o que contempla, deixando claro, que essa comunidade, não é capaz sozinha de ter entendimento da revelação.
b) 20,15-16
1. 15 Diz a ela Jesus: Mulher, por que choras? A quem procuras? Aquela pensando que é o jardineiro diz a ele: Senhor, se tu levaste a ele, diz a mim onde o puseste, e eu a ele levarei.
2. 16 Diz a ela Jesus: Maria. Voltando-se ela diz para ele em hebraico: Raboni (o que quer dizer Mestre).
O diálogo é composto por contradição e reafirma o que o texto tem demonstrado tanto na perícope anterior como se afirmará na perícope posterior, e assim como nelas, aqui também é a visão que abrirá a mente das comunidades cristãs, que não conseguem acreditar apenas na visão periférica, como o cenário vazio do sepulcro, mas necessitam do próprio Cristo como sinal do milagre. A pergunta idêntica a dos anjos recebe um acréscimo A quem procuras? “- em diversos sentidos – que começou em 1,38 passando por 7,34; 8,21; 13.33; 18,4.7.8, está prestes a ser concluída; o leitor/ouvinte, já está instruído, lembra-se da resposta pascal: “Ressuscitou, não está aqui” (MC 16,6 par.)” (KONNINGS, 2005. p.350). Além disso, ao mencionar o jardi- neiro, temos novamente o tema do jardim, podendo remeter à procura da amada pelo seu noivo, relatado no cântico dos Cânticos, e podemos também acrescentar o tema do Jardim do Éden, o novo Adão e o encontro com Eva.
Segue-se também a fala de Jesus que a chamou de Mulher (como a nova esposa), ela confusa respondeu com o termo Senhor (Kyrios) pois não o reconheceu, termo que serve tanto para um Deus, ou marido. Tudo isso, é a ironia joanina. Depois da confusa interpretação da mulher, Jesus chama-a pelo nome, conforme o tema do bom pastor (10,3), e é nesse momento que ela descobre quem ele é. Diríamos que ela o reconhece pela voz, e não pelo olhar. Esse é o tema que aparece no Cântico dos Cânticos “Eu dormia, mas meu coração velava e ouvi o meu
amado (lit. “voz do meu amado”) que batia: ‘Abre, minha irmã, minha amada!” (5, 2; cf. 2,8 hebr., LXX). (MATEOS; BARRETO, 1989. p.823).
A sua reverência finalmente é representada, pelo termo “Raboni”, onde muitos justifi- cam o uso para confirmar a presença de estrangeiros na comunidade, ou seja, gregos e outros. A nova fase da comunidade é ser animada a reconhecer seu mestre, e não mais permanecer na confusão, afinal muitos mestres faziam muitas ações parecidas como as que ele fazia, mas ne- nhum veio da morte para apresentar a vida.
a) 20.17. 18
1. 17 Diz a ela Jesus: Não me segures, pois ainda não subi para o pai; mas vai para os meus irmãos e dize a eles: Subo para o meu pai e vosso pai e Deus meu e Deus vosso.
2. 18 Vêm Maria Madalena anunciando aos discípulos: Vi ao Senhor, e estas coi- sas (ele) disse a ela.
Por fim, o Cristo acaba de se revelar como Senhor, e não pode ser detido. Ordena a Maria que inicie seu modelo missionário aos apóstolos, evidenciando que o único que não pre- cisa dessa pregação é o discípulo amado, pois desde à primeira vista já lhe foi revelado pela fé. Com isso é feito um contrapondo assim a própria anunciante.