1.3 o direito penal como instrumento de dominação
1.3.2 Ralf Dahrendorf: uma teoria conflitual funcionalista [!]
PAVARINI diz que em RALF DAHRENDORF podem ser encontradas as
formulações mais avançadas das interpretações conflitivas.209 Assim, B
ARATTA diz que, para
DAHRENDORF, os sistemas sociológicos funcionalistas se baseiam em modelos de equilíbrio e
transmitem, por isso, a ideologia acerca da justiça correspondente; que esses sistemas são utópicos,210 totalmente inadequados à compreensão da realidade social contemporânea; por
isso, DAHRENDORF proclama a necessidade de uma revolução copernicana no campo do
pensamento sociológico: o câmbio e o conflito devem deixar de ser entendidos como desvios de um sistema «normal»; seria necessário reconhecer que as sociedades e organizações sociais existem e se mantêm, não à mercê de um consenso ou um acordo universal, senão por causa da coação e pressão de umas sobre as outras. Câmbio, conflito e dominação seriam os três elementos concorrentes à formação do «modelo sociológico do conflito», que se contrapõe ao do equilíbrio e da integração; a relação de domínio cria o conflito, o conflito cria o câmbio.211
208VIRGOLINI, Julio. La Razón ausente: ensayo sobre criminología y crítica política. Buenos Aires: Del
Puerto, 2005, p. 116 e s.
209
PAVARINI, Massimo. Control y dominación: teorías criminológicas burguesas y proyecto hegemónico. Trad. Ignacio Muñagorn. Buenos Aires: Siglo Veintiuno, 2002, p. 191.
210Daí o nome do seu primeiro artigo sobre a questão: Out of Utopia: Toward a Reorientation of
Sociological Analysis, publicado em 1958, em The American Journal of Sociology, 64: 2, pp. 115-127.
211BARATTA, Alessandro. El Modelo sociológico del conflicto y las teorías del conflicto acerca de la
Com efeito, DAHRENDORF concorda com a afirmação de R. DUBIN de que o
conflito pode ser visto como meio destrutivo da estabilidade social ou, ainda, como evidência da quebra do controle social e, portanto, seria um sintoma de uma instabilidade subjacente à ordem social; mas não hesita em expressar sua preferência pelo conceito que reconhece o conflito como uma característica essencial da estrutura social; e que, se o conflito não é «funcional», é absolutamente necessário para o processo social.212
A perspectiva de DAHRENDORF quanto ao conflito, como uma
consequência das relações políticas de domínio, é criticada por alguns autores, pois desviaria a atenção do conteúdo material do conflito, em direção à questão do puro domínio, tornando equivalentes mudanças estruturais e mudanças de governo. Nesse sentido, em trabalho especialmente crítico daquelas teses, SÉRGIO ADORNO disse:
… no cerne da “demanda por ordem” [de Dahrendorf] está paradoxalmente a reivindicação de “mais legalidade”, porém, no contexto de aguda crítica ao Estado democrático de Direito. Na verdade, o que se reivindica não é a lei como princípio de limitação do poder arbitrário ou de instrumento de garantia de direitos: contudo, a lei como veículo de imposição autoritária da ordem, numa palavra, de punição.213
Por isso, DAHRENDORF recebeu forte reproche de determinado setor da
criminologia crítica, como a de BARATTA:
Resulta singular o fato de autores como Dahrendorf e Coser, que tem o cuidado de guardar certa distância do marxismo, concluam em uma estranha concepção do direito e do Estado, segundo a qual estes são instrumentos que passam das mãos de um grupo dominante ao seguinte, o que, por uma ironia da história, os converte em portadores da representação grosseira e mecanicista própria de uma tradição do marxismo vulgar: «a do direito de classe», denominação esta que resulta inadequada para representar tanto a concepção de Marx acerca do direito e do Estado, como para compreender a natureza e a função de uma sociedade industrial avançada.214
Portanto, nada obstante sua interpretação sociológica baseada na ideia de conflito, relativamente ao direito penal, as ideias de DAHRENDORF não se coadunam com os
demais autores aqui agrupados, mais se aproximando à chamada «criminologia administrativa», que inspirou programas do tipo do Tolerância Zero, do que à criminologia 212DAHRENDORF, Ralf. Class and class conflict in industrial society. Stanford (EUA): University of
Stanford, 1959, p. 206.
213ADORNO, Sérgio. Conflitualidade e violência : reflexões sobre a anomia na contemporaneidade. Tempo
Social. Revista de Sociologia da USP, São Paulo, v. 10, n. 1, 1998, p. 32.
crítica. São suas as seguintes palavras:
Falei de lei e de ordem. Uma de suas condições é a validez das normas, e esta somente resta garantida se se eliminam as no-go areas, os paraísos legais, como poderíamos chamá-las, por analogia com a expressão «paraísos fiscais». [...] Por extensão, também poderíamos chamar paraísos legais as vastas áreas de atividade ilegal. A economia submergida é uma destas áreas, mas também o é a pequena delinquência, a qual se dá pouca importância e apenas se acossa. O pequeno delinquente começa quebrando vidraças, depois realiza pequenos furtos e assaltos de rua, e finalmente comete roubo com violência. Não obstante ser a responsável pela maioria dos atos delitivos, a juventude se converteu em um grande paraíso legal. Estas no-go areas legais minam as instituições e com elas os vínculos que unem a sociedade. Nestas circunstâncias, ou há que se modificar a lei ou há de se aplicá-la com vigor nas áreas protegidas.215
DAHRENDORF fala de anomia, de utilização da pena como fator de coesão
social, de lei e ordem, de reforço das instituições: “A resposta ao problema da lei e da ordem pode resumir-se em uma expressão: construção de instituições. [...] Só mediante um esforço consciente de construção e reconstrução das instituições podemos ter esperanças de assegurar nossa liberdade frente à Anomia.”216
Por tudo isso, concordo com a conclusão de GARCÍA-PABLOSDE MOLINA de
que a análise de DAHRENDORF difere ostensivamente do pensamento crítico, aproximando-
se, em alguns extremos, à perspectiva funcionalista.217