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2 MARCO A-TEÓRICO

3 CONSIDERAÇÃO METODOLÓGICAS PARA UMA VIAGEM A CONSTITUINTE

3.2 AS ETAPAS DO PERCURSO METODOLÓGICO ANT

3.2.2 Rastreamento dos mecanismos de estabilização

A segunda etapa é o rastreamento dos mecanismos de estabilização do social. Se para a ANT o social é continuamente transformado pela mutação sucessiva de mediadores e por cada nova associação, como então, explicar a existência de conexões permanentes e a constância de determinados padrões, tais como a manutenção de assimetrias sociais e de grupos de poder?

“Devem existir vínculos duráveis, mas isso não é prova de que sejam constituídos de matéria social – bem ao contrário. Agora já podemos trazer para o primeiro plano os meios práticos de preservar os laços, a engenhosidade constantemente investida na busca de outras fontes de vínculos e o preço a ser pago pela extensão de uma interação qualquer. (...) Quando o poder é exercido duradouramente, isso ocorre porque não é feito de laços sociais; quando precisa confiar unicamente em laços sociais, não dura muito. (...) Justamente por ser muito difícil preservar assimetrias, entreter de maneira durável relações sociais e consolidar desigualdades é que tanto esforço se investe na tarefa de substituir laços frágeis e decadentes por laços de outros tipos.” (p.101-102)

Nesta segunda fase, o lema “siga os atores” se torna “siga os atores enquanto enveredam pelo meio das coisas que acrescentaram às habilidades sociais para tornar mais duráveis as interações em perpétua mudança” (Latour, 2012, p.104). Latour não nega que haja estabilização do social ou que as assimetrias existem e se perpetuam. No entanto, a estabilização e a inércia são o que deve ser explicado, pois são elas que compreendem a exceção. Para uma assimetria ser conservada, um conjunto de associações, conexões, precisa ser continuamente cultivado, um trabalho extra precisa ser empreendido, de forma a produzi-la e mantê-la.

Por isso é tão importante sustentar que o poder, como a sociedade, constitui o resultado final de um processo e não um reservatório, um estoque ou um capital capaz de fornecer uma explicação. Dominação e poder precisam ser produzidos, feitos, compostos. Não há como negar que as assimetrias existem; mas de onde vem e de que são constituídas?”(Latour, 2012, p.98)

Para a nossa pesquisa, um infraconceito que denota o resultado dos procedimentos de estabilização, será essencial: a noção de caixa-preta.

“A expressão caixa-preta é usada em cibernética sempre que uma máquina ou um conjunto de comandos se revela complexo demais. Em seu lugar, é desenhada uma caixa preta, a respeito da qual não é preciso saber nada, senão o que nela entra e o que dela sai. (...) Ou seja, por mais controvertida que seja sua história, por mais complexo que seja seu funcionamento interno, por maior que seja a rede comercial ou acadêmica para a sua implementação, a única coisa que conta é o que se põe nela e o que dela se tira.” (Latour, 2000, p.14)

Nos estudos de ciência e tecnologia, Latour usa este termo para denotar toda estabilização da qual não se aborda mais o complexo e controvertido processo de construção. Se abordarmos um fenômeno que já se tornou caixa-preta, dele não se apresenta a historicidade, autoria, correlações, etc. Uma caixa-preta apresenta-se como dada, segura e eficaz. Funciona como um intermediário, apenas transportando forças. Latour dá um exemplo da construção dos computadores.

Durante a criação e produção da máquina estão em jogo, conectados, diversos fatores que produzem em conjunto objetivos, possibilidades e resultados. A construção de um novo computador envolve: a capacidade de investimento de uma empresa, opiniões e decisões da cúpula de empresários que, por sua vez, levam em conta avaliações de custo-benefício, opiniões e relatórios dos departamentos de marketing, financeiro, etc.; avaliações de mercado, subsídios do governo, a competência técnica e criativa dos profissionais, os avanços tecnológicos e de pesquisa, credibilidade de fornecedores e os prazos relacionados a todos eles. Quando se encontra uma solução satisfatória a todas estas variáveis (e esse é o trabalho próprio dos atores, neste exemplo, dos empresários), este conjunto de fatores é estabilizado, um novo computador é produzido e colocado no mercado. Para um usuário qualquer, aquela máquina funciona com caixa-preta. Na sua utilização, não são levados em conta todas as controvérsias, discussões, encruzilhadas e problemáticas com as quais se envolveram os heterogêneos agentes de sua fabricação – pesquisadores, empresários, políticos, chips, placas metálicas, demais materiais, designers e marqueteiros. O usuário apenas sabe, e apenas quer saber, o que no computador entra e o que dele sai, função esta, bem informada idoneamente nas cartilhas de divulgação e manuais de usuário. O computador funciona como um intermediário, caixa-preta, do qual foi isolado a rede de sua produção e as controvérsia inerentes a ela. (Latour, 2000). Agora, imaginemos que este computador, colocados no mercado e adquirido por um valor justo, porém elevado, pelo nosso usuário, veio a falhar na primeira semana de uso.

O personagem usuário, que antes tinha se preocupado somente com a credibilidade do fabricante e sobre quais facilidades a maquia poderia oferecer no seu dia-a-dia; passa a colocar em questão a reputação da empresa e dos empresários, a qualidade das máquinas, chips, e do desenvolvimento tecnológico, as legislações de direito dos usuários, as disputas e jogos de interesse entre empresas, órgãos representativos de direitos do usuário e o Estado. A caixa-preta é reaberta e o computador, antes intermediário estável e eficaz, passa a mediador multifacetado e controverso.

Um outro exemplo de caixa-preta, mais próximo do nosso trabalho, é o fato científico. Para Latour, uma afirmação ou conclusão de pesquisa científica, se torna fato quando consegue reproduzir-se sem modificações, perpetuando-se ao longo do tempo e sendo aceita sem controvérsias. O autor mostra como acontece a construção de um “fato científico” analisando a seqüência de citações pelas publicações científicas, da conclusão de uma pesquisa determinada. Ao longo do tempo, se a conclusão à qual nos referimos, é aceita e reproduzida sem modificações em diversos outros textos de cunho científico, a afirmação termina por tornar-se fato. Não mais se discute a sua construção: o experimento que a produziu, a instituição, as limitações do estudo, o credibilidade do autor, o órgão de financiamento, etc.. A discussão está encerrada, foi criada uma caixa preta.

“(...) um fato é algo que é retirado do centro das controvérsias e coletivamente estabilizado quando a atividade dos textos ulteriores não consiste apenas em crítica ou deformação, mas também em ratificação. (...) O controle do hormônio do crescimento pelo hipotálamo [que no início era uma afirmação de um estudo primeiro] pôde ser discutido, como foi e será; mas para isso, o discordante não estará diante de uma afirmação em um artigo, mas de algumas afirmações incorporadas em centenas deles. Não é impossível em princípio, mas tremendamente difícil na prática.” (Latour, 2000, p.72)

A máxima que Latour toma como norte é a de que “Quando as coisas se sustentam, elas começam a se transformar em verdade” (Latour, 2000, p.28). Para tornar a tarefa de abrir uma caixa preta praticável, devemos ter a flexibilidade de nos movimentar no tempo e no espaço, trazendo novamente as condições de produção de sua estabilização. Trata-se de reabrir as controvérsias e incertezas anteriores a seu fechamento como caixa preta, tal como descrevemos no item anterior.

Os meios de estabilização do social, de determinado grupo ou assimetria podem, então, serem rastreados considerando-se os meios práticos, graças aos

quais inércia, durabilidade, assimetria, extensão e domínio são produzidos (Latour, 2012).