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Recurso Extraordinário 80.004 – teoria paritária

No documento HELOISA HELENA DE ALMEIDA PORTUGAL (páginas 107-111)

2.3 Os posicionamentos do STF na aplicação de tratados internacionais de direitos humanos no

2.3.1 Recurso Extraordinário 80.004 – teoria paritária

O Supremo Tribunal Federal, desde o final dos anos setenta, por meio do Recurso Extraordinário nº 80.004, em 1977, posicionou-se em acolher o sistema paritário que equipara juridicamente o tratado internacional à lei ordinária federal. De tal decisão detrai-se que ocorrendo a ausência de uma norma

constitucional que atribua prevalência ao tratado internacional sobre a lei interna, deve-se dar valor ao entendimento firmado no Poder legislativo.

De tal sorte que as normas constitucionais que conflitassem com disposições do pacto internacional prevaleceriam a priori, além do que eventuais conflitos entre normas internacionais e normas internas ordinárias seriam resolvidos por meio das regras da temporalidade (lex posterior derogat priori) e da especificidade (lex posterior generalis non derogat priori specialis.

O sistema paritário encontra justificativa na interpretação da alínea “b”, inciso III, do art. 102 da Constituição Federal, em que está disposto que compete ao STF, julgar, mediante recurso extraordinário, as causas decididas em única ou última instância, quando a decisão recorrida “declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal”. Assim, a interpretação é no sentido de que a conjunção alternativa “ou” tornou claro o entendimento de que lei infraconstitucional e tratado encontram-se num mesmo patamar hierárquico.

Este entendimento foi consagrado no precedente do julgado por ocasião do R. Extraordinário 80.004, de 1977, retromencionado:

Convenção de Genebra, lei uniforme sobre letras de câmbio e notas promissórias - aval aposto a nota promissória não registrada no prazo legal - impossibilidade de ser o avalista acionado, mesmo pelas vias ordinárias. Validade do decreto-lei nº 427, de 22.01.1969. Embora a convenção de Genebra que previu uma lei uniforme sobre letras de câmbio e notas promissórias tenha aplicabilidade no direito interno brasileiro, não se sobrepõe ela às leis do país, disso decorrendo a constitucionalidade e consequente validade do dec-lei nº 427/69, que institui o registro obrigatório da nota promissória em repartição fazendária, sob pena de nulidade do título. Sendo o aval um instituto do direito cambiário, inexistente será ele se reconhecida

a nulidade do título cambial a que foi aposto. Recurso extraordinário conhecido e provido.190

Nota-se que tal compreensão, vigorou no Brasil por cerca de trinta anos e, nitidamente inadequado do STF, deu-se também pelo fato dos tratados internacionais serem recepcionados no âmbito interno por meio de Decretos Legislativos sendo que, em uma interpretação restrita e desatenta aos postulados de ampla proteção aos direitos humanos, deu-se a essas convenções internacionais

status de mera lei ordinária.

Salienta, ainda Francisco Resek:

De setembro de 1975 a junho de 1977 estendeu-se, no plenário do Supremo Tribunal Federal, o julgamento do RE 80.004, em que ficou assentada, por maioria, a tese de que, ante a realidade do conflito entre tratado e lei posterior, esta, porque expressão última da vontade do legislador republicano deve ter sua prevalência garantida pela Justiça – sem embargo das consequências do descumprimento do tratado, no plano internacional.191

O posicionamento do Brasil, em matéria de tratados internacionais, congrega mesmo algumas peculiaridades, pois, contraditoriamente a esse julgado que finalizou em 1977, o STF tinha posição pelo primado do direito internacional, o que revela um entendimento tradicionalmente cambiante do órgão supremo do Judiciário no país em relação ao tema da recepção dos tratados internacionais de direitos humanos na ordem jurídica interna.192

190 BRASIL. Supremo Tribunal Federal - STF , Relator: Min. XAVIER DE ALBUQUERQUE, Data de

Julgamento: 01/06/1977, Tribunal Pleno

191 REZEK, Francisco. Direito Internacional Público: curso elementar. São Paulo: Saraiva, 1991,

p.106.

192 PIOVESAN, Flávia. Direitos Humanos e o Direito Constitucional Internacional. 14. ed. rev. e atual.

Em 1995, posteriormente a Constituição Federal de 1988, o STF reiterou o entendimento de pareamento hierárquico do tratado internacional de direitos humanos e da lei federal, ao se deparar com o conflito entre a prisão civil por dívida do depositário infiel e o artigo 7º, VII, da CADH, que permite a prisão civil por dívida somente no caso do devedor de alimentos. Em sede de habeas corpus (HC 72.131-RJ), o Supremo consignou que:

(...) a circunstância do Brasil haver aderido ao Pacto de São José da Costa Rica – cuja posição, no plano da hierarquia das fontes jurídicas, situa-se no mesmo nível de eficácia e autoridade das leis ordinárias internas – não impede que o Congresso Nacional, em tema de prisão civil por dívida, aprove legislação comum instituidora desse meio excepcional de coerção processual.193

A crítica principal à paridade normativa instaurada após o julgamento do RE 80.004-SE se funda nas consequências danosas que o descumprimento do tratado, com a chancela do STF, traz para o Estado no plano internacional, revelando um desrespeito e desconsideração em relação aos acordos feitos voluntariamente com os demais Estados contraentes.

Nesse diapasão, nota-se a lição de Flávia Piovesan:

Acredita-se que o entendimento firmado a partir do julgamento do Recurso Extraordinário 80.004 enseja, de fato, um aspecto crítico, que é a sua indiferença às consequências do descumprimento do tratado no plano internacional, na medida em que autoriza o Estado parte a violar dispositivos da ordem internacional – os quais se comprometeu a cumprir de boa-fé. Esta posição afronta, ademais, o disposto pelo art. 27 da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados, que determina não poder o Estado parte invocar posteriormente disposições de direito interno como justificativa para o não cumprimento de tratado. Tal dispositivo reitera a importância, na esfera internacional, do princípio da boa-fé, pelo

193 Voto do Min. Celso de Mello no HC nº 72.131/RJ, BRASIL. Supremo Tribunal Federal - STF - HC:

72131 RJ , Relator: MARCO AURÉLIO, Data de Julgamento: 23/11/1995, Tribunal Pleno, Data de Publicação: DJ 01-08-2003 PP-00103 EMENT VOL-02117-40 PP-08650.

qual cabe ao Estado conferir cumprimento às disposições de tratado, com o qual livremente consentiu.194

Assim, após a aprovação do tratado pelo Congresso Nacional e a sua ratificação pelo Presidente da República, devem os três Poderes cumprir a parte que lhes cabe no processo, nomeadamente: ao Legislativo cabe aprovar as leis necessárias à concretização do tratado, abstendo-se de votar as que lhe sejam contrárias; ao Executivo fica a tarefa de bem e fielmente regulamentar os tratados e cumpri-los no que lhe competir; ao Judiciário, por sua vez, incumbe o papel de aplicar os tratados internamente, bem como as leis e os regulamentos que lhe dão concretude, afastando-se da aplicação de leis nacionais que lhes sejam contrários.

2.3.2 Tratado versus constituição anterior - caso da Convenção 158 da

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