CAPÍTULO 3 PRESTAÇÃO DE CONTAS
3.4 RECURSOS E SUSTENTABILIDADE
Olak e Nascimento141, após analisarem as contribuições de diversos autores, identificam como principais as seguintes características específicas das entidades que compõem o Terceiro Setor:
[...] o lucro não é a sua razão de ser, mas um meio indispensável para afiançar prosseguimento e execução de seus propósitos institucionais;
140 Ibidem.
141 OLAK, Paulo Arnaldo; NASCIMENTO, Diogo Toledo do. Contabilidade para Entidades sem Fins
seus propósitos institucionais, qualquer que sejam suas inquietações especiais, objetivam provocar modificações sociais; o patrimônio cabe à sociedade como um todo ou segmento dela, não cabendo aos seus membros ou mantenedores quaisquer parcelas de participação econômica no mesmo; as contribuições, doações e subvenções constituem-se, normalmente, nas centrais fontes de recursos financeiros, econômicos e materiais dessas entidades. (grifo nosso)
Assim, uma das principais características das ONGs é a forma como é financiada sua sobrevivência. Dessemelhante das empresas e cooperativas, as entidades sem fins lucrativos não são dotadas de estrutura e muito menos têm a finalidade de produzir bens voltados para o comércio; também não podem cobrar impostos ou taxas da população, como faz o Estado; não administram grandes somas financeiras, como as fundações; não cobram taxas sindicais; não recebem “dízimo” ou dinheiro de seus membros, como em várias igrejas. Portanto, é facilmente perceptível a grande dificuldade existente para obterem recursos financeiros.
Portanto, conforme a ABONG142, o modelo aceitável de financiamento das ONGs se fundamenta no recebimento de doações oriundas de indivíduos e de outras organizações que podem ser empresas, fundações, órgãos estatais nos três âmbitos, organismos bi e multilaterais e agências internacionais de cooperação.
Dentro desse panorama, um dos grandes desafios encarados pelas instituições que atuam no Terceiro Setor tem a ver com a aquisição de recursos para a sustentação de ações e consumação de projetos que procuram alcançar os fins para os quais foram designadas. A procura pela autossustentabilidade, como conjetura da conquista da autonomia destas instituições, tem provocado uma grande
142 ASSOCIACÃO BRASILEIRA DE ORGANIZACOES NÃO-GOVERNAMENTAIS (ABONG). ONGs
revolução na política de gestão e conquista de recursos para o Terceiro Setor no Brasil143.
Para superar esses desafios, a captação de recursos no Brasil precisa derrubar algumas barreiras que impedem seu desenvolvimento, tais como: barreiras culturais, em que as técnicas de marketing não podem estar restritas tão somente ao Primeiro e Segundo Setor, mas também às instituições sem fins lucrativos, pois proporcionam efeitos bastante positivos ao abrangerem questões de interesse da sociedade, como a prevenção ao câncer de mama e à AIDS, o incentivo ao uso de camisinha etc.; e o contato das ONGs com o mundo empresarial, que vem crescendo nos últimos anos, principalmente com o aumento das empresas cidadãs ou socialmente responsáveis, contudo, isto requer investimento e técnica para render resultados favoráveis.
É claro que nesse contexto a contabilidade não pode ser esquecida, pois, conforme enfatiza Araújo144 acerca da gestão das entidades sem fins lucrativos que:
[...] a gestão das organizações do Terceiro Setor, por mais diversificadas que seja seu campo de atuação, necessita da contabilidade como elemento fornecedor de informações, posto que, não se pode conceber que uma organização que se utilize de recursos escassos para a consecução de seus objetivos não possua um sistema contábil para proceder à gestão do patrimônio.
Segundo Peter Drucker145, a busca pelas fontes de recursos tem se transformado de forma sintética. Não é desejável apenas se ter doadores; a
143 FONSECA, Luzia Viana de. O Estado, o Terceiro Setor e o mercado: uma tríade complexa: In:
CONGRESSO BRASILEIRO DE CONTABILIDADE, 16. 2000, Goiânia. Anais... Brasília: CFC, 2000.
144 ARAÚJO, Osório Cavalcanti. Contabilidade para organizações do Terceiro Setor. São Paulo:
empresa deve transformá-los em colaboradores/companheiros, por meio da identificação de tais doadores, do eficiente uso dos recursos e da apresentação dos efeitos advindos dos recursos doados aos doadores. Este processo solicita a profissionalização das organizações que demandam doações.
De acordo com Valarelli146, uma estratégia bem formada de captação de recursos que aumente e diversifique as fontes de captação colabora para aumentar a autonomia das organizações frente às transformações e cobranças das fontes de financiamento, dando a elas maior capacidade de manutenção da sua identidade, sem precisar abrir mão de sua incumbência e valores que são bem requisitados pelas entidades doadoras, conseguindo assim manter a independência frente aos interesses dos investidores.
Para que exista uma constante entrada de recursos, é importante o balanceamento entre acolher as probabilidades e a reivindicação dos doadores em relação à aplicação dos recursos (financeiros ou não) e atender aos beneficiários com serviços de qualidade e que verdadeiramente preencham suas necessidades e agradem aos doadores. Certamente, o sucesso na captação de recursos depende do relacionamento que se forma com os doadores que são pessoas ou instituições que, na maioria das vezes, participam da missão, valores e objetivos da organização147.
Entendemos, em quaisquer segmentos administrativos, que a comunicação é uma das principais ferramentas do marketing. As empresas com fins lucrativos
145 Citado pelo GUIA DE BOA CIDADANIA CORPORATIVA. Revista Exame, São Paulo, ano 34, ed.
728, n° 24. São Paulo: Abril, 2000.
146 VALARELLI, Leandro Lamas. Gestão do Terceiro Setor: uma noção ampliada de captação de
recursos. Disponível em: <http://www.rits.org.br>. Acesso em: 23 nov. 2009.
utilizam a comunicação para aumentar as vendas, motivar consumidores, melhorar a imagem de sua marca junto ao público em geral e envolver os distribuidores.
As organizações do chamado Terceiro Setor, da mesma forma, podem utilizar as ferramentas de comunicação com diversas finalidades, dentre elas, a captação de novos parceiros e doadores, recrutamento e estímulo ao voluntariado, informação para conselheiros e outros parceiros sobre o andamento das atividades, aumento do envolvimento dos beneficiários e de suas famílias, além da prestação de contas à sociedade sobre como estão investindo os recursos que recebem, e outras148.