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3.3 ARRANJOS COLABORATIVOS PARA COMPARTILHAMENTO DE CONHECIMENTO

3.3.2 Redes de Conhecimento e Redes de Aprendizagem

Os objetivos das redes estão relacionados à aquisição, compartilhamento e transferência de conhecimento (KAKABADSE; KAKABADSE; KOUZMIN, 2003). Estudiosos deste tipo de arranjo colaborativo argumentam que os indivíduos têm motivações tanto sociais quanto econômicas, e que suas ações são influenciadas pelas redes de relacionamentos, em que eles são envolvidos na socialização do conhecimento (SWAN et al., 1999).

Esses arranjos também destacam as contribuições individuais de “atravessar fronteira”, ou seja, pessoas que são capacitadas em identificar conhecimento dentro de redes externas e adquirir novas idéias que podem ser compartilhadas dentro da sua própria organização (SWAN et al., 1999). Nesse sentido, existe uma ênfase nestes arranjos de identificação de idéias que a organização pode adotar para alcançar uma posição de vantagem, existindo, assim, menos ênfase em atender objetivos individuais das pessoas participantes, como nas comunidades de prática, e mais em atender aos anseios da organização (KAKABADSE; KAKABADSE; KOUZMIN, 2003).

Nos últimos 15 anos, as redes vêm ganhando crescente interesse tanto em discussões econômicas quanto em desenvolvimento organizacional, sendo que diferentes entendimentos e definições vêm sendo adotados, dependendo do contexto (BOTTRUP, 2005), sendo as mesmas chamadas de redes de conhecimento ou redes de aprendizagem. A discussão a seguir foca em aspectos relacionados a estas duas denominações de rede, que possuem propósitos semelhantes, porém apresentam algumas diferenças no que se refere à forma de trabalho para alcance dos resultados (BOTTRUP, 2005).

Genericamente, Bottrup (2005) define que o propósito em participar de uma rede é melhorar o desempenho como organização. Para tanto, um grupo de pessoas ou representante de organizações se encontram repetidamente ao longo de um período de tempo. Dependendo da natureza da rede, a mesma pode se concentrar em diferentes aspectos e formas de trabalhar, como será discutido a seguir.

Por um lado, Seufert et al. (1999) definem rede de conhecimento como uma relação social entre atores ou participantes, em que os mesmos podem ser indivíduos ou grupos, mas também o coletivo de organizações ou mesmo outras sociedades. O propósito da realização da rede é possibilitar que estes participantes acumulem e usem conhecimento visando a transferir e criar novos conhecimentos (SEUFERT et al., 1999). As relações entre participantes podem ser entendidas como derivadas da autonomia e interdependência destes participantes, da co-existência da cooperação e competição, bem como a co-existência da reciprocidade e a estabilidade (SEUFERT et al., 1999).

Como resultado final, as redes de conhecimento visam a aumentar a inovação, melhorar eficiência organizacional (SWAN et al., 1999; BÜCHEL; RAUB, 2002), e ainda aumentar a satisfação dos funcionários (BÜCHEL; RAUB, 2002). Estes mesmos autores apontam ainda que as redes podem proporcionar resultados individuais em diferentes níveis, tais como: a troca de idéias com outras pessoas que compartilham interesses e habilidades comuns, de modo a induzir a uma melhoria na satisfação e motivação no trabalho; o sentimento de pertencer a um grupo e o reconhecimento de outros; e a possibilidade de mostrar habilidades existentes e desenvolver novas habilidades através da

participação nas atividades da rede. Esta exposição também pode ser vista como meio para autopromoção na carreira.

Por outro lado, Bessant e Tsekouras (2001) definem uma rede de aprendizagem com uma rede formalmente preparada que também visa a aumentar o conhecimento e possibilitar a aprendizagem sobre um tópico específico em discussão. Para os mesmos autores, este tipo de rede é constituído por um número de organizações com necessidades comuns de aprendizagem, que em conjunto realizam um processo colaborativo que visa à aprendizagem dos indivíduos ou das organizações através do aumento da base do conhecimento. Este processo colaborativo é influenciado tanto por indutores da aprendizagem quanto por barreiras para a sua efetiva operação. A figura 5 ilustra os principais componentes de uma rede de aprendizagem de acordo com Bessant e Tsekouras (2001).

Esta visão de rede de aprendizagem também é compartilhada por outros autores (TELL; HALILA, 2001; FLORÉN; 2003; BOTTRUP, 2005). Para Tell e Halila (2001) e Flóren (2003), uma rede pode ser vista como um método para desenvolvimento permitindo a aprendizagem de conhecimento tácito entre gerentes e funcionários. Estes autores discutem que os principais resultados em termos de aprendizagem utilizando estas redes são: fonte de inspiração e apoio durante o processo de implementação; reflexão, pois a discussão e as troca não se restringem a identificar somente sobre o “como fazer” (ciclo simples de aprendizagem), sendo também motivadas e emergidas as discussões dos porquês (ciclos duplos de aprendizagem); e identificação de novas perspectivas.

Processo colaborativo estabelecido formalmente para compartilhar informações

Estrutura de apoio, regras de operação e meios para o aprendizado

Grupo de empresas com uma necessidade

comum de aprendizagem Barreiras para a efetiva operação Aumento da base de conhecimento e capacidade para fazer

alguma coisa nova ou diferente

Figura 5 Principais elementos de uma rede de aprendizagem (adaptado de Bessant e Tsekouras, 2001)

A partir da definição das redes de conhecimento e das redes de aprendizagem observa-se que o ponto comum entre elas é a finalidade de ser um meio em que as pessoas e organizações podem acumular conhecimentos através da colaboração. Observa-se também que as mesmas são arranjos complementares, na medida em que as redes de conhecimento focam-se nos resultados que as empresas individualmente podem alcançar, tais como melhorar a eficiência, inovar, satisfazer os funcionários, enquanto as redes de aprendizagem enfatizam o aprendizado conjunto do grupo e o desenvolvimento de capacidade das pessoas do grupo de modo que as mesmas possam promover as mudanças necessárias nas empresas. Neste sentido, o presente trabalho entende que as redes de conhecimento e as redes de aprendizagem podem ser estudadas como um único tipo de arranjo colaborativo.

Büchel e Raub (2002) classificam as redes em quatro tipos principais com base em duas dimensões: redes que focam principalmente nos benefícios para os indivíduos versus aquelas que focam em benefícios para as organizações; e redes que são auto gerenciadas versus aquelas que são apoiadas pelos gerentes, conforme mostra a figura 6.

As redes de Hobby e de Aprendizagem Profissional são focadas no indivíduo, baseadas em interesses pessoais, e o maior benefício é o desenvolvimento individual e a satisfação dos funcionários. Por outro lado, as Redes de Melhores Práticas e de Oportunidades de Negócio visam a contribuir para a organização (BÜCHEL; RAUB, 2002). De acordo com os referidos autores, os benefícios que podem ser obtidos através das redes de Melhores Práticas são, principalmente, a eficiência organizacional e a replicação ou institucionalização de conhecimento existente, enquanto que nas redes de Oportunidade de Negócio os benefícios podem alcançar a criação de novos conhecimento e inovação de produtos ou serviços. Ambos os tipos de redes podem ser tanto intra-organizacionais quanto interorganizacionais.

Quantidade de apoio gerencial Rede para “Aprendizagem Profissional” Rede de “Melhores Práticas” Rede para “Oportunidade de Negócio” Rede de “Hobby” Nível de Benefício apoiada organizacional individual auto gerenciada

Bessant e Tsekouras (2001) também listam outros tipos de redes além daquelas apresentadas acima, tais como:

a) redes setoriais, formadas por associações de classe com interesses comuns para desenvolvimento do setor;

b) redes regionais, que visam a aumentar o conhecimento de determinados temas de interesse regional;

c) redes de fornecedores, que visam a aprender alcançar padrões de melhores práticas em dimensões como qualidade, entrega e redução de custos;

d) redes promovidas por governos para fornecer atualizações em capacidades, como tecnologia e marketing; e

e) redes de apoio a tarefas, que são similares a redes profissionais que visam a compartilhar e desenvolver conhecimento sobre uma particular tarefa.