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3. RESPONSABILIDADE CIVIL

3.1. Risco e Precaução

3.1.1. Reflexões sobre o conceito de risco

Até agora, o presente trabalho abordou várias vezes a questão sobre risco e a consequente precaução que deva ser adotada mediante a possibilidade de tal risco, especialmente no que tange às pesquisas clínicas com crianças e adolescentes. Entender o conceito do que vem a ser risco nessas situações, portanto, é de extrema importância para os fins desta análise, inclusive no que concerne às conclusões expendidas quanto à responsabilidade civil.

Como já se pôde abordar, vive-se atualmente em um mundo de constante evolução científica e tecnológica, que conduz o homem, entendido de forma generalizante, a fronteiras antes desconhecidas. Somos capazes de vislumbrar coisas até então inimagináveis, como o controle de nosso código genético, a criação e reconstrução de partes humanas e a troca de informações de maneira instantânea. O atual momento de grande desenvolvimento tecnológico, iniciado com a Revolução Industrial no século XVIII, difere muito da antiga visão de técnica. Isso porque, no desenvolvimento vigente antes deste período:

[h]á uma diferença principal, indicada na denominação 'tecnologia', em que a técnica moderna é uma empresa e um processo, enquanto a anterior era um poder e um estado. Se o conceito 'técnica', grosseiramente descrito, denomina o uso de ferramentas e dispositivos artificiais para o negócio da vida, junto com seu invento original, fabricação repetitiva, melhoramento contínuo e, ocasionalmente, também adição ao arsenal existente, tão reflexiva descrição serve para a maior parte da técnica empreendida ao longo da história da humanidade (da mesma idade que ela), mas não para a moderna tecnologia. Isto porque, no passado, o inventário de procedimentos e ferramentas existentes costumava ser bastante constante e tender a um equilíbrio reciprocamente adequado, estático, entre fins reconhecidos e meios apropriados. Uma vez estabelecida esta relação, mantinha-se como um “optimum” de competência técnica sem mais exigências. É certo que se produziram revoluções, no entanto mais por casualidade do que por intenção221.

221

104 Pode-se afirmar, nessa esteira, que o risco sempre esteve presente na civilização humana. Todavia, a concepção era mais pessoal, ligada individualmente àqueles poucos que se lançavam a novas descobertas. Não estavam espraiados sobre toda a sociedade, ou seja, não tinham repercussão direta global e constante, como se vê hoje. Conforme relata Ulrich Beck, “[n]aquele período remoto, a palavra risco tinha uma nota de bravura e aventura, não de medo de auto-destruição de toda vida na Terra”222.

Há na perspectiva do risco, como entendido hoje, uma criação humana. É o homem quem cria a ideia de risco, de acordo com algum parâmetro (risco às gerações futuras, risco à vida) frente ao novo. O risco pode, inclusive, ser potencializado dentro da psique dos indivíduos na medida em que se forneçam informações exageradas ou equivocadas acerca da sua potencialidade/previsibilidade223.

O atual estado tecnológico pressupõe que cada nova descoberta abra um leque para novas experimentações, novas buscas, em um movimento incessante, que não provoca, pois, a estabilização da ciência e das técnicas implementadas por ela. O avanço tecnológico é constante e quase inesgotável, sendo que “[a] relação entre meios e fins neste campo não é linear em só sentido, mas circular em sentido dialético” 224.

A noção de risco é, dessa maneira, originária do processo de modernização, estando ligada ao avanço tecnológico contínuo e às consequências que isso pode acarretar para a existência saudável da sociedade como um todo e de seus componentes

empresa y un proceso, mientras la anterior era una posesión y un estado”. Si el concepto 'técnica', burdamente descrito, denomina el uso de herramientas y dispositivos artificiales para el negocio de la vida, junto con su invento originario, fabricación repetitiva, continua mejora y ocasionalmente también adición al arsenal existente, tan reposada descripción sirve para la mayoría de la técnica a lo largo de la historia de la humanidad (de la misma edad que ella), pero no para la moderna tecnología. Porque en el pasado el inventario existente de herramientas e procedimientos solía ser bastante constante y tender a un equilibrio recíprocamente adecuado, estático, entre fines reconocidos y medios apropiados. Una vez establecida tal relación, se mantenía durante largo tiempo como un 'optimum' de competencia técnica sin más exigencias. Cierto, se produjeron revoluciones, pero más por causalidade que por intención). JONAS, Hans. ob. cit. p. 16.

222

“(In that earlier period, the word 'risk' had a note of bravery and adventure, not the threat of self- destruction of all life on Earth). Risk Society. Towards a New Modernity. Trad. para o inglês Mark Ritter. 1ª ed em inglês. 7ª reimpr. London: SAGE Publications, 2007. p. 21.

223

Cf. SUSTEIN, Cass. “Para além do princípio da precaução”. In: Interesse Publico, Ano VIII, nº 37. Porto Alegre: Notadez Informação, 2006. pp. 119-171. pp. 123-127. Este autor, em texto crítico ao princípio da precaução, enumera algumas razões que estão ligadas à percepção, pelas pessoas, da existência ou não dos riscos envolvidos em alguma atividade.

224

“(La relación entre medios e fines en este campo no es lineal en un sólo sentido, sino circular en sentido dialéctico). JONAS, Hans. ob. cit. pp. 18-19.

105 considerados individualmente.

Trata-se de uma tentativa humana de controlar o futuro, de racionalizar, por métodos exatos, as probabilidades de ocorrência de prejuízos frente a novas tecnologias que nos tragam alguma utilidade225. É derivação imediata da própria natureza do homem voltada a justificar a tomada de um caminho em detrimento de outro que seria também viável. Consubstancia-se, além disso, em inegável manifestação do instinto de sobrevivência ínsito à existência da pessoa humana, ainda que muitas vezes haja a opção por alternativas que pareçam contrariar tal afirmação.

Analisam-se os danos individuais por óbvio, entretanto, são considerados também em uma dimensão geral. Isso significa que é preciso também estabelecer, em contínua reflexão, a proporção em que devam ser pautadas as atitudes tendentes a mitigar os possíveis efeitos da eventual e concreta efetivação de tais riscos, bem como o modo de distribuição dos resultados alcançados.

O avanço tecnológico, dentro da concepção apresentada, aumenta o arcabouço de situações que possam acarretar riscos, o que torna mais difícil o cálculo destes. Esse processo representa, pois, um contínuo caminho rumo ao novo, ao desconhecido, tocando áreas antes não atingidas, ou agravando os problemas em outros âmbitos de atuação humana226.

Avaliando-se o incessante projeto de evolução tecnológica na área farmacêutica e

225

“O risco deve ser avaliado dentro dos parâmetros risco/utilidade e custo/benefício”. LOPEZ, Teresa Ancona. Princípio da precaução e evolução da responsabilidade civil. Tese(Concurso de Professor Titular da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo). São Paulo, 2008. 232 p. p. 33.

226

Hans Jonas, após destrinchar as causas que entende serem as principais e mais palpáveis, mas não únicas, para esse impulso infindável da ciência e da tecnologia frente a novas descobertas, indica assim como tais a constante pressão por competência exercida sobre os profissionais desenvolvedores destas técnicas, a questão da escassez material, frente ao avanço populacional, a ideia utópica instilada nas pessoas de busca incessante por uma vida cada vez melhor, aduz que a verificação dessas causas, individualmente ou conjuntamente, não explicaria o assunto de maneira adequada, o que só poderia ser efetuado entendendo que “todos compartilham uma premissa sem a qual não poderiam fazer seu trabalho a longo prazo: a premissa de que pode haver um progresso ilimitado, por que sempre há algo novo e melhor para encontrar. (todos comparten una premisa sin la cual no podían hacer su trabajo a la larga: la premisa de

puede haber un progreso ilimitado, porque siempre hay algo nuevo e mejor que encontrar)”. E conclui,

aduzindo que “[a] convicção complementar é, então, que uma tecnologia adaptada a uma natureza e uma ciência com tais horizontes abertos desfruta da mesma abertura, sempre renovada no momento de transformá-los em conhecimento prático de tal modo que cada um de seus passos inicia o seguinte e nunca se produz uma quebra por esgotamento interno das possibilidades. (La convicción complementaria es entonces que una tecnología adaptada a una naturaleza y una ciencia con tales horizontes abiertos disfruta de la misma apertura, siempre renovada, a la hora de transformarlos en conocimiento práctico de tal modo que cada uno de sus pasos inicia el siguiente y nunca se produce un parón por agotamiento interno de las posibilidades)”. ob. cit. pp. 21/22.

106 médica, pode ser percebido que a busca pela quimera da saúde perfeita incorpora ainda mais o objetivo entre os atuantes nessa área. O fato é perigoso, tendo em vista poder estabelecer procedimentos de experimentação sem qualquer tipo de limites, cuja motivação e base justificadora utilizadas serão exatamente estas duas premissas, que acabam se retroalimentando de maneira perene: o caráter absoluto do valor saúde e a não limitação das possibilidades de alcance do conhecimento científico e do progresso técnico227.

Desse modo, ganha relevante papel em uma sociedade baseada no risco a aferição da probabilidade de sua ocorrência e a concretização dos critérios que sirvam à legitimação daquilo que pode ou não ser assumido, bem como de que maneira se dará essa eventual assunção. Ou seja, é necessário esclarecer que não basta uma análise das intenções, das finalidades, dos possíveis benefícios, sendo inexorável também que se faça um enfoque crítico dos meios utilizados.

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