CAPÍTULO 1 ESTABELECIMENTO EMPRESARIAL
1.5 Reflexos do estabelecimento virtual
1.5.2 Reflexos na seara trabalhista
Na seara trabalhista muito se tem apontado para a diminuição dos postos de trabalho, pois a estrutura necessária para se manter um estabelecimento virtual, diferentemente de um estabelecimento tradicional, é mínima, pois não são necessários vendedores para realizar o negócio, devendo apenas o site especificar de forma clara as características do produto, algumas fotos, preço, formas de pagamento, garantia, sem necessidade de acompanhamento algum por parte de um vendedor.
Porém, ao mesmo tempo em que se perdem as vagas de vendedores, abrem-se vagas para profissionais ligados à tecnologia da informação e ao telemarketing, principalmente. Entende-se também que estas empresas deveriam habilitar linhas de telefone 0800, para que se desse um atendimento mais próximo para o cliente, nos casos de dúvidas e
problemas, o que acabaria por criar mais postos de trabalho, assim como, nesta linha pessoal, para atendimento online.
Porém, o que se observa, na realidade é a falta de pessoal qualificado na área de TI, sendo que, segundo o IPEA a carência de trabalhadores qualificados para funções de tecnologia da informação (TI), é um "fator importante", que limita o desenvolvimento do comércio eletrônico.284
Luis Claudio Kubota, pesquisador do instituto, afirma que, na média, o setor de compras on-line emprega menos mão de obra qualificada que a indústria. "E-commerce não é passe de mágica. Para colocar um site de compras no ar é necessária toda uma retaguarda de tecnologia da informação para atender o usuário, além da questão logística",285 afirmou, em
entrevista coletiva realizada em Brasília e transmitida pela internet.
Saliente-se também, que o atual ponto nevrálgico do comércio eletrônico, a logística, será um campo que empregará muitas pessoas, pois os atuais postos, de forma explícita, não estão dando conta do volume de serviços crescente, acabando por prejudicar a imagem do estabelecimento virtual para com o consumidor.
O próprio Correios com a atual falta de funcionários abrirá mais de 5.000 vagas somente para carteiros, em concurso público, tudo isso como decorrência da perda de 7.000 funcionários em um programa de demissão voluntária de 2009, mas também pelo aumento de demanda, pois no total contratar-se-ão 10 mil funcionários, isso somente no Estado de São Paulo.286
Assim, as empresas que realizam este serviço também terão de aumentar seu quadro de funcionários, com a possibilidade do surgimento de novas empresas.
Anote-se que para o crescimento dessas empresas de transporte, haverá indiretamente o crescimento do setor de segurança, que também empregará mais pessoas, pois
284 D’ANDRADE, W. Falta de profissionais de TI afeta comércio eletrônico. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/agencia/index.php?option=com_content&view=article&id=8735>. Acesso em: 12 jun. 2011.
285 Ibid.
286 FALTA de funcionários nos Correios causa atraso nas entregas. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=kGz1GdEw93s>. Acesso em: 29 jun. 2011.
enquanto não forem tomadas medidas públicas eficazes contra os crimes nas rodovias, o empresário do setor de transportes terá de se proteger assim como se fazia na Idade Média, para que os salteadores não atacassem as caravanas.
Tudo isso somado permite entender que haverá uma migração dos postos de trabalho, porém, como se sabe também não será algo imediato, pois dificilmente as lojas de varejo, as grandes empresas desse ramo, que possuem muitas vezes mais de uma loja em algumas cidades, empregando muitas pessoas, fecharão suas portas, ainda mais em um momento em que o comércio eletrônico se encontra em crise, necessitando de uma reestruturação na questão logística e de pós-venda.
Ao se observar os grandes números do comércio eletrônico, muitas empresas começaram a se questionar segundo o IPEA sobre o aumento da produtividade do trabalho sobre essa modalidade de comércio, tanto no varejo como no atacado no Brasil. Como se pode observar, esta não é uma questão fácil de ser respondida, mas o que se pode perceber é que a adoção desse tipo de tecnologia será afetada pela capacidade de produção da firma, assim, as empresas que produzirem mais, terão mais possibilidade de aderir ao e-commerce.
Explicita o autor do artigo do IPEA que:
O teste de diferença de médias da produtividade do trabalho das firmas que utilizam o e-commerce, comparada com a hipotética produtividade média que estas firmas teriam se não o utilizasse, indica que, controlando-se os efeitos de simultaneidade e viés de seleção, a adoção de e-commerce contribui positivamente para a produtividade das firmas que optaram pelo comércio eletrônico. De modo análogo, o teste de diferença de médias da produtividade do trabalho das firmas que não adotam o e-commerce seria maior na hipotética situação de que utilizassem o comércio eletrônico.287
A Casaleggio Associati, observando esta mesma preocupação no território italiano explicita, que:
Il numero di persone impiegate nelle società e-commerce (o nel grupo dedicato all’e-commerce per società hce vendono ache off line)è diretamente correlato al fatturato e-commerce. Sotto i 5 milioni di euro le società sono piccole e non
287 IPEA. Vendas on-line no Brasil: uma análise do perfil dos usuários e da oferta pelo setor de comércio. Brasília, DF, 2011. p. 13.
superano in media le 10 persone. Le società più strutturate superano le 100 persone e fanno parte dei settori Assicurativi e del Tempo libero.288
Outra situação que o estabelecimento virtual criou foi a desintermediação, ou seja, os fornecedores através deste começaram a vender seus produtos diretamente para o consumidor final, sem a necessidade de intermediários.
Porém, ao mesmo tempo, criam-se vagas para novos tipos de intermediários, sendo estes as empresas que ofertam serviços de vendas e de conteúdo, permitindo a condução do negócio na internet de forma mais simplificada, pois identificam oportunidades e preenchem as lacunas. Estes intermediários trazem benefícios tanto para o consumidor, quanto para o produtor, pois para os primeiros assiste na busca e avaliação dos produtos, adequando-os à necessidade do consumidor, reduzindo riscos e cuidando da entrega, enquanto para o segundo grupo permite a divulgação do produto, a influência na compra dos clientes, o fornecimento de informações sobre os clientes, redução da exposição ao risco e diminuição dos gastos nos degraus de negociação, por terem sido feitos de forma direta.289
No entanto, a maioria das empresas não conseguirá eliminar todos os intermediários através do estabelecimento virtual, pois os da logística persistirão, sendo extremamente necessários.
Com relação especificamente ao direito trabalhista, acredita-se que em um primeiro plano não haverá necessidade de alteração alguma, nem de especificação, em virtude até mesmo da análise realizada no presente trabalho não ser focada no direito trabalhista, impedindo uma análise mais profunda, mas o que se pode observar é a migração dos postos de trabalho, havendo necessidade sim, da criação de políticas públicas que permitirão a qualificação e remanejamento dos profissionais que poderão perder seus postos atuais, mas que poderão migrar facilmente para esta outra área.
288 CASALEGGIO ASSOCIATI. E-commerce in Italia 2011. Disponível em:
<http://www.casaleggio.it/pubblicazioni/Focus_e-commerce_2011-web.pdf>. Acesso em: 16 jul. 2011. p. 18. Tradução livre do excerto: “O número de pessoas empregadas na sociedade e-commerce (ou no grupo dedicato ao e-commerce por sociedade que vendem também off-line) é diretamente correlato ao faturamento do e-commerce. Abaixo de 5 milhões de euros as sociedades são pequenas e não superam, em média, 10 pessoas. As sociedades mais estruturadas superam 100 pessoas e fazem parte dos setores securitários e de previdência.”
289 WINDHAM, L. Dead ahead: the web dilemma and the new rules of business. New York: Allworth Press, 1999.
Cabe lembrar, porém, que isto demorará, pois atualmente o comércio eletrônico corresponde a apenas 1% do gasto no comércio varejista290, mas está em franco crescimento,
devendo sempre se estar atento às suas novas exigências profissionais.