Dialogues between Martin Luther and Damião de Góis or how the impressions of an encounter
D. Fr Agostinho de Jesus (OESA) and archaeology of the episcopal entrances in
1. Reforma protestante e cerimonial episcopal
O estudo visa reflectir sobre o cerimonial como campo de construção da identidade religiosa. Em particular, pretende considerar uma específica tipologia de cerimónia pública na esfera da Igreja como as entradas dos bispos nas dioceses, centrando-se num evento solene pouco conhecido: a viagem e a entrada em Braga, em 1589, do arcebispo D. Fr. Agostinho de Jesus. O prelado bracarense, ao século D. Pedro de Castro (1537- -1609), foi recrutado na ordem dos agostinhos, à qual pertencia também Martinho Lutero, e, para além desse elemento de conjunção com o teólogo alemão, teve uma car- reira itinerante entre Roma e a Alemanha superior, antes da eleição episcopal em 1588. Também por esse motivo, analisar etapas sintomáticas que precederam a cerimónia da sua entrada na principal Igreja de Portugal constitui uma interessante proposta analítica a desenvolver no Colóquio, o qual pretende reflectir sobre o novo rosto político-religioso da Europa a seguir à difusão da Reforma Protestante.
* CHSC – Centro de História da Sociedade e da Cultura, Universidade de Coimbra. Portugal. E-mail: nestolap@ gmail.com.
Os pioneiros estudos de José Pedro Paiva, a partir de 1993, traçaram um articu- lado quadro exegético-interpretativo dessa tipologia de cerimónia pública protagoni- zada pelos bispos: um ritual de consagração e de afirmação do poder episcopal, quer nos espaços portugueses, quer no Norte e no Sul da Europa, quer, ainda, nas dioceses brasileiras entre os séculos XVI-XVIII1. Tais estudos abrangentes, com uma visão global
e integrada, forneceram um magistral modelo interpretativo desse momento-chave de reconhecimento e de auto-reconhecimento do poder episcopal em face de outros corpos sociais, que conviviam no centro urbano, bem como no espaço diocesano.
Retomando esse padrão, a morfologia do rito era desencadeada em seis momentos básicos, que compreendiam quer a fase itinerante em direcção à diocese (fase organi- zativa, recepção, encontro), quer a solene cerimónia no espaço urbano, finalizada na catedral (procissão, consagração espiritual, festejos). Para além disso, os estudos estro- boscópicos do historiador conimbricense, baseados nas mais recentes tendências histo- riográficas portuguesas, europeias ou anglófonas, evidenciaram como as entradas epis- copais correspondiam a três distintas tradições cerimoniais: os triunfos greco-romanos, a entrada de Cristo em Jerusalém, o cerimonial papal de entronização2. Estes traços
arqueológicos do ritual episcopal, conforme se tentará reconstruir, foram encenados, ou melhor, visualizados na cerimónia de entrada portuguesa de 1589, através de um sistema simbólico complexo.
Há outro aspecto que foi posto em relevo pela historiografia político-religiosa por- tuguesa na perspectiva da articulada literatura internacional: a Reforma Protestante constituiu um momento de fractura na história do ritual, nomeadamente naquele pon- tifício, que se reflectiu também na cerimónia de entrada episcopal3. De facto, conforme
evidenciou Robert Scribner, Lutero criticou muitos aspectos das liturgias papais, utili- zando uma verdadeira campanha mediática, baseada nas xilogravuras. Este era material de ampla difusão e de pouco preço, mas, ao mesmo tempo, muito efémero4. O ciclo
realizado a partir de 1521 nas oficinas de Cranach, o Velho, com o título Passional Christi
und Antichristi, insere-se nesse polémico debate. Esta polémica mediática difundia
textos visuais de pouco valor e de fácil difusão, associados aos comentários de Felipe Melâncton, nomeadamente gravuras e escritos que seguiam um esquema binário com um forte contraste visual: a linguagem de propaganda mostrava Cristo e o papa (con- siderado o Anticristo), evidenciando a oposição entre a simplicidade e a humildade do primeiro e a ostentação de fausto do segundo, bem como o seu interesse pelo dinheiro e pela guerra. Para além disso, eram criticados ainda outros elementos, considerados quase supersticiosos, e que contrastavam com a verdadeira palavra evangélica.
1 Paiva 1993, 117-146; Idem 2006, 138-161; Idem 2001, 74-93. 2 Paiva 2006, 152-153.
3 Ibidem, 159-161.
Lutero, contudo, não se opôs à destruição das imagens: no seu tratado Contra os
profetas celestes, redigido em Vitemberga em 1525 para se opor ao iconoclasmo, exortava
para que a livre imaginação estivesse sob controlo da palavra de Deus, pelo que a palavra bíblica devia extirpar as imagens do coração5. Conforme sublinhado por Hans Belting,
num capítulo centrado sobre imagem e palavra na época de Gutenberg6, Lutero esperava,
através da Palavra, purificar as imagens mentais dos fiéis para que estes não sucumbis- sem à sedução das imagens físicas que ornamentavam as igrejas. Contra este e outros ataques protestantes, que criticavam o fausto cerimonial romano, bem como as liturgias papais e os ritos sacramentais análogos, a resposta por parte da Igreja católica foi forte e rigorosa, de maneira que foi necessário (re)instituir um sistema simbólico, uma lin- guagem literária e visual que pretendia reafirmar a legitimidade doutrinal das imagens sagradas, o valor espiritual dos ritos, assim como a reflexão jurídica na reorganização do sistema jerárquico e institucional da Igreja fosse a nível central, fosse a nível periférico.
O Concílio de Trento constituiu um importante laboratório de sistematização des- sas tendências, muitas das quais foram corroboradas sucessivamente ao longo dos sécu- los XVI-XVIII, reflectindo-se também nas dinâmicas político-sócio-religiosas de terri- tórios longínquos como Portugal e seus distintos espaços7. No caso das formas litúrgicas,
o impacto dessas iniciativas reflectiu-se também na evolução ritual da entrada episcopal em três elementos básicos8:
• domesticação dos momentos de desordem ou que discordavam do decorum tridentino;
• estandardização da cerimónia de entrada, conforme o padrão de Roma, consi- derado como centro da Respublica Christiana e sede do vicário de Cristo; • intensificação barroca na ornamentação como resposta a uma maior austeri-
dade protestante.
Os refinados estudos portugueses partiram da análise de um sólido corpus biblio- gráfico-documental, centrado nas entradas episcopais luso-europeias nos séculos XVI- -XVIII, para definir um modelo comum e propor uma articulada interpretação evolutiva dessas cerimónias. Uma base epistemológica que permite centrar-se sobre um exemplo específico como é o caso da entrada de D. Fr. Agostinho de Jesus, consumada em 1589. Esta reductio ad unum é significativa: pela especificidade documental e cronológica, pelo protagonista desse ritual de integração nas estruturas periféricas de governo da Igreja católica, ainda pela dimensão e eficácia simbólica do espaço litúrgico onde foi organi- zado o rito. Com efeito, este acto terá consequências nas formas de representação dos
5 Belting 2007, 196. 6 Ibidem, 194-201.
7 Paiva 2014, 13-58; Nestola 2016.. 8 Paiva 2006, 159.
poderes político-jurisdicionais do arcebispo de Braga, assim como na própria imagem do proeminente membro da ordem dos agostinhos.