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“A TRACT FOR THE TIMES” – AS REITH LECTURES DE

2.2. As Reith Lectures (1948-1960)

Quando o saturnino John Reith, então barão, escutou as Reith Lectures de Bertrand Russell, reclamou de sua voz ruim e de sua pronúncia apressada. Afirmou, não obstante, que lhe enviaria uma nota educada como agradecimento59. A opinião de Reith em relação a Russell, que ainda era lembrado por alguns no final dos anos 1940 como o intelectual radical pacifista das décadas anteriores, certamente não tinha melhorado o suficiente para que se abstivesse de uma crítica negativa, mesmo que de caráter técnico. A questão da voz no rádio, contudo, era central à telecomunicação da BBC. Existia, decerto, um aspecto técnico e não meramente estético ou político: era preciso transmitir informação de forma clara e compreensível, para regiões próximas ou longínquas, através de uma tecnologia radiofônica que nem sempre garantia uma qualidade cristalina. A “voz da BBC”, no entanto, assim como a questão da pronúncia e do sotaque na sociedade britânica em geral, vincula-se não apenas a dificuldades de sonoplastia, mas está embrenhada por uma vontade política e por um ideal cultural. Nesse sentido, a fala magistral emitida de Londres produz ela própria uma identidade nacional e impõe uma unidade formal à variedade do território britânico – nativo ou ultramarino – ao mesmo tempo em que expõe para o mundo um ideal de britanismo, calcado na verdade e na autoridade (de onde as chamadas em caso de emergência “This is the BBC from London” ou, no caso de sua transmissão internacional, “London said this

identity of modern Western people.” Cf. K. A. Appiah, Mistaken Identities: Creed, Country, Color, Culture –

Lecture IV: Culture, disponível em:

<http://downloads.bbc.co.uk/radio4/transcripts/2016_reith4_Appiah_Mistaken_Identities_Culture.pdf>, acesso em: 28/05/2017.

59 K. Willis, “Introduction”, in B. Russell, Authority and the Individual, Londres, Routledge, 2005 [1949], p. 8. Consultar também L. Taylor, Reith at 60: Episode 1 [Audio podcast], 24 maio 2008, disponível em: <http://www.bbc.co.uk/programmes/b00brvnv>, acesso em: 29/05/2017.

morning”60). Esse “discurso da razão” da BBC61 produz por obverso uma xenofobia vocálica, acentuada em períodos de conflitos nacionais (e.g. 2ª Guerra Mundial), no qual se espera que a voz escutada dentro dos lares e em situações de exaspero social seja “inglesa”, i.e., clara, racional, abstrata.

Essa linguagem transparente, no entanto, não surgiu autóctone, mas foi criada para a BBC em seus primórdios. A corporação recrutou – ao menos em seus anos iniciais, quando a formação acadêmica em mídias era inexistente – seu escalão gerencial da elite da academia britânica, em especial de Oxford. Esse quadro de funcionários superiores, parcialmente concorde ao caráter de seu diretor-geral John Reith, teria uma larga influência em aspectos fundamentais da conduta geral da BBC, em especial seu pensamento elitista, o pendor ao debate intelectual, a estrutura linguística empregada e a superioridade do texto escrito em relação ao discurso oral. Em relação à linguagem, parte dos princípios da fala radiofônica da BBC foram estabelecidos entre 1926 e 1939 pelo Spoken English Advisory Committee (SEAC), que tinha profundos laços com a Oxford University Press e com as autoridades acadêmicas – linguísticas e filosóficas – oxonianas62. Não só o léxico, a semântica e a dicção da BBC foram profundamente influenciados pela universidade de Oxford, como, em certa medida, sua própria programação. Esses mandarins da telecomunicação britânica , alumni de Oxford homens, brancos e senhoris, dominaram o Talks Department e posteriormente, o Third Programme; além disso, geraram uma cultura comum que prezava sobretudo o rigor e originalidade intelectual, a erudição e o status acadêmico63. Concorriam, apesar de seu antipopulismo desabrido64, ao ideal reithiano de elevação cultural. Uma vez que a universidade de Oxford do segundo quarto do século XX se encontrava sob a égide de seu don mais popular e influente, Maurice Bowra, a quem os alunos convergiam como a um Stefan George libertino e jocoso, muitos dos oxonianos empregados pela BBC durante esse

60 A respeito da percepção pública da honestidade da voz da BBC, o conferencista Reith de 1993, Edward Said, comenta: “as a boy growing up in the Arab world, where the BBC was a very important part of our life; even today phrases like ‘London said this morning’ are a common refrain in the Middle East. They are always used with the assumption that ‘London’ tells the truth.” Cf. E. Said, Representations of the Intellectual: the Reith

Lectures. Vintage Books, 1996 [1994], p. ix.

61 W. Maley, op. cit., p. 36. 62 S. Games, Op. cit., p. 248. 63 Ibid., p. 241.

período tinham sido profundamente influenciados por sua personalidade, que comportava uma certa medida de rebeldia em relação à ortodoxia acadêmica pari passu à espirituosidade intelectual e ao engenho erudito65. O paradigma Oxford, no entanto, começou a declinar após a 2ª Guerra Mundial: conceituando-o muito antiquado e recôndito, a BBC passou a empregar um número crescente de alumni de Cambridge, considerados mais conformes à tendência modernizante requerida pelo pós-guerra66. Um desses novos ingressos da BBC foi John Green, ex-presidente do clube de debates de Cambridge (Cambridge Union Society)67: inicialmente um produtor do Talks Department, atuaria entre os anos 1950 e 1960 como o controller do departamento; Green, ainda que conservador no âmbito da política, mostrou-se um produtor inovador capaz de proposições heterodoxas para os programas com os quais trabalhou68. Não obstante essa transição do perfil oxoniano para o de Cambridge, o rigor em relação à palavra e a superioridade da linguagem escrita à falada permaneceu o mesmo, senão superior69.

Essa “tirania do script” sobre a linguagem oral, que no caso das Reith Lectures impunha a submissão de textos prévios, era tanto ideológica quanto técnica. Regia o primeiro aspecto uma tradicional valorização de caráter acadêmico do saber literário em relação ao oral que, ao menos no caso de Oxford, se manifestava através de um certo desdém pela prática conferencista70; em relação ao segundo aspecto, a tecnologia de gravação e edição que permitiria o controle de um material impromptu alcançaria um desenvolvimento adequado apenas em meados da década de 195071, período em que o discurso livre passou a ser mais usual no rádio72. Nos primórdios da BBC, por exemplo, o diretor de falas era conhecido como o Director of the Spoken Word (port.: Diretor da Palavra Falada), ou D.S.W., segundo a 65 Ibid., p. 236 e s. 66 Ibid., pp. 242, 257. 67 Ibid., p. 234. 68 Ibid., p. 244. 69 Ibid., p. 257.

70 Margaret Wind comenta esse desdém oxoniano pelas práticas conferencistas em uma carta a uma ex-aluna de Wind: “You will laugh when I tell you that his Oxford appointment pleased him because lectures have never been taken seriously here. He thought he wouldn't have to bother much.... Lectures are ‘writ in water’.” M. Wind, [Carta] [S.d], [S.l.] [para] D. Frisch, [S.l.]. 1 f., in Oxford, Bodleian Library, MS. Wind 9, file 3.

71 H. Carpenter, The Envy of the World: Fifty Years of the BBC Third Programme and Radio 3, 1946-1996, Londres, Phoenix Giant, 1994, p. 122.

cultura do acrônimo da corporação, de onde se pode inferir esse predomínio do texto proferido, que em sua própria dicção deveria observar o ritmo desacelerado da palavra escrita73.

O discurso radiofônico, não obstante, era considerado de grande valor para a vida cultural da nação, de tal modo que um dos principais periódicos britânicos era o The Listener da própria BBC. A revista, editada de 1929 a 1991, publicava a transcrição dos principais programas da corporação acompanhados de imagens. Os textos de importantes intelectuais figuravam semanalmente em suas páginas, e é possível depreender do valor das cartas de seus leitores não só um elevado nível de instrução e erudição como um debate fulgurante de ideias. A respeito da qualidade desse semanário, um comentador estadunidense chegou mesmo a afirmar nos anos 1950 que seu país teria dificuldades em produzir uma publicação equivalente anual74. Devido a essa centralidade da fala na BBC, o Talks Department detinha a posição primaz entre os departamentos nas primeiras décadas da corporação. Julgava-se que a fala – ponderada, reflexiva, remissiva – era superior à mera transmissão de dados por sua capacidade de transmitir conhecimento verdadeiro; era, ademais, uma atividade fundamental da tradição epistêmica ocidental75. Compreendido à época como a quintessência da BBC, uma posição no Talks Department era considerada prestigiosa em termos de evolução de carreira na corporação76. Após a 2ª Guerra Mundial, o número de produtores emigrados da Europa central cresceu drasticamente, caso de Anna Kallin, personalidade fundamental para a produção das Reith Lectures de Wind.

A ambição da BBC de transmitir conhecimento original de nível acadêmico é, contudo, anterior às Reith Lectures: remonta a 28 de fevereiro de 1929, quando o poeta laureado Robert Bridges produziu uma fala transmitida do Magdalen College, Oxford, naquela que seria a primeira das National Lectures. Essa comunicação, concorde aos ditames literários da BBC, foi publicada no The Listener e, posteriormente, como um livro de tipo

73 Ibid., p. 522.

74 S. Games, op. cit., p. 23. 75 A. Briggs, op. cit., v. 4, p. 530. 76 S. Games, op. cit., loc. cit.

panfleto77. Conforme à tradição das lectures anglo-saxãs de apresentar uma contribuição ao conhecimento por um intelectual de prestígio, as National Lectures tinham por modelo as Romanes Lectures de Oxford e as Rede Lectures de Cambridge78. Foram inicialmente concebidas pela BBC em 1928 e ambicionavam afirmar a capacidade das telecomunicações (e da corporação em particular) de produzir um conteúdo de alto calibre intelectual, assim como convencer os intelectuais a considerar com seriedade a nova mídia radiofônica. As National Lectures, transmitidas de duas a três vezes ao ano, deveriam exceder o limite comum de vinte minutos das falas regulares e abordar tópicos diversos das ciências, humanidades e artes. Inicialmente definidas por uma comissão consultiva, passaram ao encargo do General Advisory Council da BBC quando da fundação desse órgão em 1935. Em meados de 1938, a existência dessas radioconferências foi posta em questão por membros da própria BBC, pois julgavam que o interesse público era relativamente baixo, que seu padrão de qualidade oscilava e que elas não eram suficientemente distintas das falas intelectuais regulares79. Em dezembro desse mesmo ano, sugeriu-se que as National Lectures, ao invés de serem extintas, deveriam ser restritas a apenas uma edição por ano80. A última dessas radioconferências ocorreu, no entanto, em outubro de 193881, sendo possível presumir que sua descontinuidade no ano seguinte tenha ocorrido em decorrência da irrupção dos conflitos europeus em setembro. Não obstante as críticas a essas conferências e seu ocaso em 1938, a vontade de reavivar seu propósito no pós-guerra fundamentou a criação das Reith Lectures82.

Em uma reunião do Talks Department no final de janeiro de 1945, onde se discutiu a possibilidade de uma série de falas sobre a biografia de indivíduos notáveis, conversou-se também sobre “as velhas National Lectures, que todos na reunião concordaram que eram

77 “The National Lectures”, in The B.B.C. Year-Book 1930, Londres, BBC, 1930, pp. 229 e s. Uma segunda National Lecture foi proferida no mesmo ano pelo professor de astrofísica de Cambridge, A. S. Eddington. 78 “It was intended that the National Lectures should be of such a standard as to bring within the reach of every

British household pronouncements of a quality not inferior to the Romanes and Reid [sic] lectures at Oxford and Cambridge respectively.” Cf. ibid., p. 229.

79 Programme Board (Talks Dpt.), BBC Broadcasting House, Minutes of a Meeting held in the Council Chamber. 9 jun. 1938, in BBC Written Archives Centre (WAC), National Lectures, 1934-45.

80 Director of Talks (D.T.), [Memorando] 12 dez. 1938, Londres [para] Controller of Programmes (C.(P.)), Londres. 1 f., in BBC Written Archives Centre (WAC), National Lectures, 1934-45.

81 A última National Lecture foi proferida pelo arquiteto inglês Harry S. Goodhart-Rendel em 4 de outubro de 1938. Intitulava-se “Architecture in a Changing World”.

82 D. L Steinberg, Genes and the bioimaginary : science, spectacle, culture, Farnham, Ashgate Publishing, 2015, p. 53.

populares e que deveriam ser reestabelecidas”83. Esse desejo, no entanto, concretizar-se-ia apenas dois anos depois, quando o controller do Talks, R. A. Rendall, propôs ao diretor-geral da BBC, Sir William Haley, a reelaboração das National Lectures. Crítico dessas radioconferências anteriores, Rendall notou que seu sucesso mediano resultava do pouco investimento e do pouco tempo ofertado para os conferencistas se prepararem, resultando em programas de qualidade intelectual mediana que não “se estabeleceram como equivalentes das Romanes ou das Rede Lectures” e tampouco “produziram contribuições originais ao conhecimento”; comentou, além disso, que “com pouquíssimas exceções, não eram transmissões notavelmente boas […] é duvidoso que tenham atraído audiências em massa”84. Em relação a este segundo ponto, Rendall argumentou que os desenvolvimentos técnicos, a recente familiaridade de muitos intelectuais com a fala radiofônica e o prestígio pós-guerra da BBC teriam resolvido a questão, o que facilitaria o convite de figuras notórias para a produção de radioconferências85. Notou, além disso, que o ideal seria uma série de conferências e não apenas uma. Estava convencido que se fosse oferecido tempo e dinheiro o suficiente, “algumas das melhores mentes” devotariam “uma parte significativa de seu tempo em prol de um trabalho original, cujo resultado seria comunicado ao mundo pela primeira vez em uma série de falas radiofônicas e, posteriormente, reeditado para a publicação em formato de livro”86. Sugeriu, finalmente, que “‘National Lectures’ era um título absolutamente ruim em ambas suas partes […] O resultado poderia vir a ser conhecido como ‘The Reith Broadcasts’”87. Dois meses depois, em 22 de abril de 1947, Haley concordou com a proposta

83 “Another thing discussed was the old National lectures, which everybody at the meeting maintained had been popular, and wanted to see re-established.” G. Grigson, (Talks Department), [Memorando] 31 jan. 1945, [S.l.] [para] Director of Talks, [S.l.], 1 f., in BBC Written Archives Centre (WAC), National Lectures, 1934-45. 84 “(a) they did not succeed in establishing themselves as equivalents of the Romanes or the Rede Lectures; (b)

they did not produce any original contributions to learning (for instance, few of the published lectures are likely to have any permanent value, though some may appear amongst the collected papers of their authors); (c) with few exceptions they were not notably good broadcasts (d) it is doubtful if they gained mass audiences.” Cf. R. A. Rendall, (Controller of Talks), [Memorando], 26 fev. 1947, [S.l.] [para] W. Haley, (Director-General), [S.l.], 2 f., in BBC Written Archives Centre (WAC), National Lectures, 1947.

85 Ibid.

86 “It can only be done, I suggest, if we offer enough space and enough reward to make it worth while for some of the best minds to devote a substantial part of their time to original work, the product of which will in the first instance be communicated to the world in a series of broadcast talks and thereafter re-edited for publication in book form.” Cf. ibid.

87 Ibid. Embora o nome finalmente adotado tenha sido ligeiramente diferente, a sugestão de Rendall de homenagear John Reith foi ulteriormente aceita: “We have decided to call these the Reith Lectures, as a tribute, in this the Silver Jubilee year of the BBC, to the great work that Lord Reith did for broadcasting during the

de Rendall, afirmando que o conferencista e o tema deveria ser decididos entre eles e G. R. Barnes (o Director of the Spoken Words de então)88.

Conforme a esse caráter mais ambicioso das Reith Lectures em relação às suas antecessoras, seu modelo seriam as Gifford Lectures escocesas, que se diferenciavam das Rede e das Romanes por serem seriadas e exigirem um cometimento de tempo e esforço maior do conferencista encarregado. Desse modo, as Reith Lectures foram inicialmente concebidas como uma série de seis a oito conferências de 45 minutos; englobariam, portanto, um período de cerca de dois meses89. Deveriam ser a epítome das ambições epistêmicas radiofônicas da BBC, que visavam o “alargamento e enriquecimento da vida privada, conectando-a com a esfera público e seus discursos, ampliando horizontes, estendendo informalmente a educação dos membros da família e providenciando-os com novos tópicos de conversação”90. Em suma, o indivíduo privado, no conforto de seu lar, deveria se ver confrontado com um discurso ao mesmo tempo compreensível, mas inquietante, que o instigasse a confrontar suas preconcepções familiares vis-à-vis à sua função pública como cidadão. Nesse sentido, as Reith Lectures seriam de fato uma das principais homenagens da BBC a Reith (não que tenham necessariamente agradado ao seu saturnino patriarca91). Uma Reith Lecture ideal deveria, portanto, (1) ser provocadora no conteúdo e na forma, (2) resultar de uma pesquisa original ou da vivência pessoal de uma figura de destaque em sua área, (3) ser capaz de se engajar com o discurso público, tanto informando quanto gerando ideias; (4) tratar de um assunto contemporâneo – científico, político, econômico, humanista ou artístico – a partir de um ponto de vista abrangente, mas não genérico. Essa questão da contemporaneidade das Reith Lectures exige, quando da análise de suas edições, uma contextualização de seu discurso. Esse deve ser compreendido à luz de sua época, uma vez que sua formulação era essencialmente uma resposta a questões que lhe eram coetâneas (e

sixteen years of his charge of it.” Cf. W. Haley (Director-General), [Carta] 5 dez. 1947, [S.l.] [para] R. Robinson, Oxford. 3 f., in BBC Written Archives Centre (WAC), Reith Lectures Advisory Panel.

88 THORP, L. [Nota] 23 abril 1947, [S.l.] [para] BARNES, G. R. [S.l.]. 1 f. In BBC Written Archives Centre (WAC), National Lectures, 1947.

89 Cf. W. Haley (Director-General), [Carta] 5 dez. 1947, [S.l.] [para] R. Robinson, Oxford, 3 f., in BBC Written Archives Centre (WAC), Reith Lectures Advisory Panel.

90 P. Scannell; D. Cardiff, op. cit., p. 168.

não se pretendia, portanto, como uma análise de cunho memorial e analítico de temas supra- históricos ou em relação aos quais o período era relativamente indiferente). Esse conjunto de exigência dificultava sobremaneira o processo de escolha dos palestrantes, figuras que deveriam se destacar pela capacidade de análise crítica do estado presente de suas áreas cotejando-a com a situação presente da sociedade em suas diversas esferas.

Embora Sir William Haley tenha inicialmente afirmado que a escolha do tema e do conferencista das Reith Lectures seria feita por ele, Rendall e Barnes, decidiu-se entre setembro e outubro de 1947 pela formação de um conselho consultivo ex officio92. Este era constituído pelos presidentes da Royal Society e da British Academy, pelo mestre do Trinity College de Cambridge, pelo prefeito do All Souls College de Oxford e pelo presidente do conselho de governadores da BBC93. Esse comitê, formado por acadêmicos egrégios reconhecidos tanto por suas contribuições ao conhecimento quanto pelo seu status profissional, deveria aconselhar a escolha do tema e conferencista de cada Reith Lecture; para tal efeito, encontros anuais foram planejados. Coube-lhes a decisão dos conferencistas de 1948 a 1951, uma vez que comitê fora concebido por um período probatório de quatro anos. Findo esse quadriênio, a BBC julgou o modelo insatisfatório, pois seus membros não necessariamente possuíam um bom juízo sobre quem tinha uma capacidade radiofônica satisfatória e, além disso, devido à sua natureza ex officio, era possível que houvesse um desequilíbrio de representatividade 94 . Alguns dos próprios membros do conselho consideravam-no pouco adequado para sua função95. Adotou-se doravante um modelo interno à corporação, que iniciava com as sugestões dos programadores do Talks Department com o

92 Ver, por exemplo, B. E. Nicolls, (Senior Controller), [Memorando] 10 set. 1947 [S.l.] [para] W. Haley, William (Director-General), [S.l.], 1 f., in BBC Written Archives Centre (WAC), Reith Lectures Advisory Panel. Os documentos seguintes no mesmo arquivo continuam a discussão.

93 Estes eram à época Sir Robert Robinson (químico inglês, ganhador do prêmio Nobel, presidente da Royal Society), G. M. Trevelyan (historiador inglês, Master of Trinity Coll., Cambridge), Sir Harold Idris Bell (papirologista inglês especializado no Egito romano, ex-guardião (Keeper) do British Museum, presidente da British Academy), B.H. Sumner (historiador inglês, Warden of All Souls College, Oxford) e Ernest Emil Darwin Simon, presidente do conselho de governadores da BBC.

94 “I note that Sir Charles Webster is your successor at tee British Academy. The period of appointment of the original members of the Panel comes to an end next year, and the Governors will then wish to consider whether future appointments should be on an ex officio basis, the disadvantages of this method for such a small panel being that a majority of members may belong to one subject.” G. Barnes (D.S.W.), [Carta], 5 set. 1950 [para] H. I. Bell, Aberystwyth, 1 f., in BBC Written Archives Centre (WAC), Reith Lectures Advisory Panel.

95 C. Webster [Carta] 14 mar. 1952, Londres [para] W. Haley, (Director-General), Londres, 1 f., in BBC Written Archives Centre (WAC), Reith Lectures Advisory Panel.

conselho esporádico de outros consultores, ascendendo para os controllers e para alguns diretores de área, passando para o crivo do diretor-geral da BBC até a decisão final do conselho de governadores e, em particular, de seu presidente.

Em ambos os modelos existiram queixas quanto à escolha dos conferencistas – processo considerado extremamente difícil tanto pelos acadêmicos do conselho consultivo quanto pelos produtores do Talks – devido ao conjunto de qualidades exigidas, que tornavam o sujeito ideal uma avis rara96. O conferencista Reith ideal era quase um oximoro: deveria possuir uma mente madura e ter o tempo ocioso necessário para produzir um pensamento original, mas deveria ser jovem o suficiente para que suas ideias fossem desafiadoras e ainda pouco conhecidas; seu pensamento deveria ser inovador, mas não ao ponto de ser