7 PROPOSTA DE INTERVENÇÃO: ADAPTAÇÃO DA METODOLOGIA DE
8.1 Fase 1: entrevistas
8.1.3 Relação corporal consigo mesma e com o filho
Acerca da “Relação corporal consigo mesma e com o filho”, inserimos, nesta categoria, dois tópicos significativos: “Sentimento em relação ao corpo” e “Brincadeiras com o corpo e o movimento”.
Sentimento em relação ao corpo
A subcategoria sentimentos com relação ao corpo revelou que as mães entrevistadas de ambos os grupos esqueceram de si e do próprio corpo por conta dedicação de tempo integral aos cuidados, rotinas e necessidades dos filhos.
QUADRO 10 - Sentimento em relação ao corpo
Mães grupo 1 Mães grupo 2
Sentimento de deformidade
Corpo não é prioridade
Cansaço, envelhecimento
Esquecimento do corpo em meio as rotinas com o filho
Descoberta do próprio corpo junto imobilidade do filho
Consciência Corporal
Vaidade cuidados com o corpo
Autoestima com a dança
Esquecimento do corpo temporariamente
Aumento de peso
Auto/ cuidado com Pratica de dança do ventre
Sobrecarga cansaço físico/ irritação
Esses sentimentos em relação ao corpo puderam ser verificados em relatos, conforme os apresentados abaixo:
Ichi agora é o ponto fraco né eu (próprio nome) como mulher eu acho que eu morri junto no parto às vezes eu me sinto muito deformada... além do meu peso que eu não consegui mais retomar eu tenho um problema muito sério comigo eu me sinto deformada mas evito pensar nisto porque não é minha prioridade. (MÃE A1)
aos padrões de beleza predefinidos como ideais pode constituir-se em grave fracasso, levando à perda da autoestima e à insegurança (CURY, 2005). A dependência da autoestima feminina na aparência torna as mulheres mais vulneráveis à imagem corporal negativa e aos seus efeitos consequentes (CASTILHO, 2001).
Para as mulheres que são mães, neste caso mães de crianças com deficiência, esta perda de autoestima relacionada à aparência pode agravar-se, visto que muitas não têm a atenção e o tempo necessários para cuidados estéticos, práticas de atividades físicas, entre outros, devido à atenção de tempo integral dispensada à criança, o que pode levar ao esquecimento e à negação deste corpo e da sua relação com o movimento, nota -se ainda que a maioria das instituições especificas voltadas para o público com deficiência possuem programas voltados para as crianças e poucos ou nenhum programa voltado para mães e pais o que agrava esta condição de estar apenas dedicada ao filho nestes momentos conforme apontado pelas mães A1, C1, A2 e C2, descritos abaixo:
Meu corpo ficou esquecido com a rotina de tantas escolas e terapias e com a correria da dinâmica dele de ir para um lado e outro. (MÃE
C1)
Hoje eu me sinto muito bem, mas durante muitos anos eu me abandonei, a minha vida era quase toda em função dela e eu deixava muito pouco tempo ou quase nada para mim. (MÃE A2)
Olha agora que a gente vai ficando mais velha a gente vai ficando com mais dificuldade porque sou só eu que faço tudo com ela então chega uma hora que dá umas travadas de vez em quando a gente fica meio irritada porque a gente faz tudo... (MÃE E2)
Em meio a essa conjuntura, o discurso da mãe C1 destacou a prática da dança e expressão corporal enquanto atividade realizada juntamente com seus filhos como contribuinte ao desenvolvimento da sua consciência corporal e melhora da autoestima:
A minha relação com meu corpo é totalmente diferente eu descubro através da passividade do P (nome do filho) outras oportunidades de trabalhar meu corpo como a dança e a gente junto busca um equilíbrio entre corpo mente e coração eu me considero mais consciente do meu corpo do que há dez anos atrás. (MÃE C1)
Neste sentido, Bernabé (2008, p.227) assegurou que a dança age por meio dos movimentos, despertando sensações e sensibilizações, canais onde se abrem as portas da percepção corporal. De acordo com a autora, o corpo do dançarino pode construir, organizar e transformar seus limites sem fronteiras. O dançarino pode, utilizando o espaço aberto pela leveza que a dança proporciona, convidar o corpo a rever mitos, refazer seus caminhos próprios, íntimos e criar o momento apropriado ao encontro consigo mesmo, o que pode se dar ao mesmo tempo em que se retiram de cena traumas, complexos ou mitos impostos por informações imprecisas sobre o corpo. Isto é compreendido pela explanação da mãe C1 sobre a sua relação com a dança, pois ao reconhecer e aceitar as limitações físicas do filho, a mãe dançarina adquiriu uma percepção diferenciada de si mesmo, ressignificando suas crenças e sua relação com seu corpo.
As falas das mães E1 e F1, respectivamente, também enfatizaram que sentimentos positivos em relação ao corpo, como melhoria na autoestima, autoconfiança e maior percepção corporal, haviam sido conquistados com o ato de dançar e participar de atividades e espetáculo com seus filhos:
Com relação ao meu corpo, eu sinto assim eu sempre fui muito tímida, mas depois que eu comecei a fazer dança com a (nome da filha) eu perdi a vergonha e a gente dança se apresenta em vários lugares acabo me dedicando e não fico mais travada e aí a gente começa a se envolver e eu vejo a alegria dela e a gente participando de tudo que eu não fico mais preocupada se alguém está reparando no meu corpo como eu pensava antes.
Ah eu me sinto bem com esta correria continuo magrinha e ainda danço e isto ajuda na minha autoestima na minha expressão do corpo da gente se descobrir e isto me faz muito bem.
Neste sentido, segundo Kleinubing, Saraiva e Melo. (2012, p. 175), a dança é uma linguagem corporal que permite ao sujeito expressar sentimentos e sensações por meio de um movimentar-se intencional, expressivo e singular. A dança como possibilidade de todos os corpos, se sustenta na singularidade e sensibilidade de cada corpo que dança.
Brincadeiras com o corpo e o movimento
visualizamos os seguintes itens:
QUADRO 11 - Brincadeiras com o corpo e o movimento
Mães grupo 1 Mães grupo 2
Música.
Brincadeiras corporais em família.
Dança e criação de coreografia em família.
Dança e utiliza o corpo para fazer movimentos que o filho não pode realizar.
Hábito de cantar sem contato corporal.
Poucas oportunidades de explorar o corpo em movimento.
Dessa forma, percebemos nos relatos das entrevistadas neste estudo que as mães do grupo 1 que já praticavam a dança com seus filhos incorporaram brincadeiras com o corpo em movimento e criações de coreografias no contexto doméstico e familiar muitas vezes envolvendo outros membros da família, enquanto as mães do grupo 2 possuíam o hábito de cantar sem a interação corporal, revelando poucas oportunidades de explorar o movimento com seus filhos.