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2.6 O cotidiano versus rotina

2.6.4 Relatando duas experiências... entre outras

2.6.4 Relatando duas experiências... entre outras

Durante os primeiros dias da pesquisa empírica, observei que as crianças, na

minha visão, quase não brincavam com brinquedos que traziam elementos do faz de

conta, como casinha, papai e mamãe. Na sala, não havia um ambiente com livros de

literatura infantil. Acreditava que com a disponibilidade de novos brinquedos poderia

surgir novos contextos para minha pesquisa. Então, construí com sucata um fogão,

comprei panelas, jarra de suco com copos, ferro de passar, aparelho de telefone usado,

aparelho de telefone celular quebrado, óculos de vários tipos, kit médico com

estetoscópio, aparelho de injeção, toca, máscara e ainda confeccionei cavalos de pau

com garrafa pet, e ainda uma coleção de livros infantis. Organizei-os no tapete para que

as crianças por si só tocassem e se dirigissem aos brinquedos que mais as apraziam.

Figura 12 – Modelo de atividade Fonte: CEIM

Logo que as crianças chegaram à sala houve choro e disputa por alguns

brinquedos como óculos e cavalo de pau. Pude observar que algumas crianças

assumiam papel de mamãe, outros se encantavam com os livros, outros no fogão, enfim,

havia uma rotatividade nos brinquedos.

No meio das crianças, tirando fotos dos brinquedos, ouvia os adultos – na figura

de professores e assistente, dizendo: “Renan, deixa as panelas no fogão”, “só tem que

proteger também” (proteger os brinquedos das crianças).

A partir das falas acima, percebemos que a nossa proteção é tamanha e não

permitimos às crianças tocarem, manusearem, experienciarem os brinquedos, os livros

com medo que irão estragar. Nota-se que como as crianças não tinham acesso aos livros

e alguns brinquedos, elas não sabiam manusear, compartilhar com os colegas e até

mesmo brincar. As crianças brincaram por um determinado tempo e depois a professora

substituta guardou os brinquedos e ‘ministrou’

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sua aula. É interessante pontuar que o

51 Quando digo ‘ministrou’, trago uma alusão à forma como a professora conduziu a aula no sentido de destacar os aspectos escolarizantes na educação infantil.

Figura 13 - Crianças brincando de faz de conta. FONTE: Eliana Maria Ferreira.

livro de literatura, durante a pesquisa, foi visto e lido pelas crianças no período

vespertino com as assistentes

52

. O fogão permaneceu o tempo todo em cima do armário

e alguns brinquedos ficaram dentro da caixa de brinquedos. Os cavalos feitos em garrafa

pet não foram mais vistos. (Diário de campo, 23/03/2011).

Passados alguns dias, organizei a sala para brincarmos com sucata. Antes, porém

selecionei e lavei as embalagens. Ainda providenciei cola quente, linha, lã, canetas

coloridas, fitas coloridas, tampas de garrafa, ou seja, materiais que auxiliassem na

construção dos brinquedos. Disponibilizei a caixa em cima da mesa. As crianças já

estavam sentadas e curiosas para saberem o que faríamos.

52 Cabe destacar as reflexões acerca da concepção de cuidado e educação que professores e assistentes revelam nas práticas educativas. Neste sentido, observamos que os assistentes pedagógicos, mesmo não tendo uma formação voltada para a educação infantil, como no caso de uma das assistentes, demonstram sensibilidade com as práticas de leitura e contação de histórias, o que não ocorre com os profissionais com formações específicas para a educação infantil.

Figura 14 – Crianças brincando e elaborando brinquedos com sucatas.

Quando cheguei com a caixa, alguns falaram que era presente. Larissa perguntou

se íamos fazer bolo – ela viu uma caixa de ovos vazia. Até a assistente e a recreadora

perguntaram o que íamos fazer, se íamos pintar. Então eu disse: “Vamos fazer o que a

nossa imaginação quiser”! Bruno rapidamente pegou dois rolos de papel higiênico

colocou um em cima do outro e falou: Tia, nós vamos fazer assim... Eliana: Éh pode

fazer assim... (concordando com ele) e continuei tirando as sucatas de dentro da caixa.

Observei que algumas crianças empilhavam os objetos um em cima do outro, tentavam

encaixar, desenroscar as tampas, Renan, que estava com uma caixa de suco, fazia de

conta que colocava dentro do copo até emitia o barulho do suco caindo no copo: thich...

É interessante notar a exploração, o tatear dos objetos sob as mais diversas

possibilidades. Depois os cones de papel viraram baquetas (de bateria) que ao bater nos

objetos produziam som. Depois os rolos de papel higiênico viraram binóculos feitos por

Felipe. Eles puderam manusear as sucatas. Esse momento foi ocasionado para que eles

pudessem vislumbrar algumas possibilidades de uso dos materiais. Então, sugeri que

fizéssemos um robô com caixas de leite. Fiz isso para que as crianças visualizassem

também outras possibilidades. Depois que montei o robô, praticamente sozinha, pois as

crianças estavam brincando com outros objetos, Marcos disse que o robô parecia o

palhaço Pimpão. Então perguntei às crianças se podia ser um palhaço, elas responderam

que sim.(Diário de campo, 3/08/11).

É oportuno pontuar que cada criança interage de uma forma, elas significam os

materiais. Pude perceber que alguns objetos foram utilizados para fazerem parte de uma

composição maior, ou seja, um meio para se produzir algo, outros foram utilizados

como um fim nas brincadeiras de faz de conta das crianças. O importante foram as

possibilidades de experiência que podem suscitar nas crianças a oportunidade que cada

uma tem de se expressar de formas diferentes, com resultados diferentes.

As duas experiências acima foram citadas para que se possa compreender que

mesmo com recursos escassos podemos proporcionar às crianças e nos proporcionar

também uma experiência rica, e que os elementos criativos puderam surgir da maneira

como a criança constrói seus desejos e sua imaginação, e assim puderam expressar suas

capacidades criativas.

Entre essas experiências, desenvolvi outras que serão apresentadas em

momentos oportunos.

A forma como metodologicamente me apresentei às crianças, a minha ação, a

relação com o outro (crianças e adultos) no momento inicial da chegada, sentei ao lado

delas, nas brincadeiras, na hora da refeição, nos momentos em que as toquei e as

abracei, o ‘olhar’, os espaços físicos e o ambiente e a sua composição, enfim, são

formas representativas de papéis sociais. Entretanto, não pude me despojar da pessoa

adulta e pesquisadora. Sem a pretensão de esgotar o assunto, no capítulo a seguir,

apontarei alguns caminhos que possibilitem a participação efetiva das crianças em sua

própria educação a partir das falas e manifestações delas e dos adultos.

CAPÍTULO III

A PARTICIPAÇÃO DAS CRIANÇAS NA SUA PRÓPRIA EDUCAÇÃO

O objetivo deste capítulo é apresentar algumas indicações das perspectivas de

análise colhidas na pesquisa de campo, que visa compreender as relações entre adultos e

crianças nas práticas educativas. Nele trago alguns aspectos que nos propusemos a

pesquisar, considerando que “analisar muitas vezes envolve a decomposição e

fragmentação das partes consideradas fundamentais na composição do todo”.

(OLIVEIRA, 2011, p.18)

Neste capítulo intitulado A participação das crianças na sua educação, Tonucci

(1988) nos leva a refletir o que pensam as crianças acerca do universo da educação

Figura 15 – O primeiro dia de escola... A apresentação. Fonte: Frato, 1988.

infantil, como constituem esse espaço? Em contrapartida, numa mesma imagem o que

pensam os adultos das crianças. Nesse viés, trago as falas e manifestações de crianças e

adultos na seguinte estrutura: