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6 DO EXPERIMENTAL AO EXPERIENCIAL

6.3 Relato do Experimento Principal

Ainda que conscientes das limitações desse tipo de avaliação, escolhemos re- alizar um experimento de caráter qualitativo através de uma observação participante, em que a observadora participa ativamente das atividades desenvolvidas (MERRIAM, 2009). Foi selecionada uma turma do 2o ano do ensino fundamental I de uma escola

particular da cidade do Recife com 16 alunos, que assistiram a uma aula de educação tecnológica usando Billie e seus amigos, ministrada pela pesquisadora, com uma du- ração aproximada de 1 hora, e o acompanhamento da professora da própria turma. Aqui, teria sido possível optar por deixar a professora da turma ministrar a aula e ter a pesquisadora enquanto simples observadora, porém, nesse caso, perderíamos a oportunidade de utilizar todo o aprendizado adquirido ao longo do processo de expe- rimentação inicial dos artefatos e também não poderíamos capturar a opinião da pro- fessora da turma enquanto uma observadora neutra. Vale salientar que aqui também entra a questão do desejo e do envolvimento da pesquisadora, enquanto designer, com o objeto em desenvolvimento, como colocado no item 4.1.

As métricas selecionadas para esse experimento foram as seguintes: primeiro, pedir aos alunos, ao final da aula, para julgar, numa escala de 0 a 10, o quanto eles haviam gostado e, logo depois, perguntar quantos gostariam de ter uma segunda aula como aquela, pedindo para que colocassem seus nomes em uma lista; depois, os objetos utilizados foram deixados à disposição até que eles fossem liberados para o parque na tentativa de capturar o interesse dos alunos mesmo após finalizada a aula; e, por fim, foram registrados em vídeo, tanto o processo como um todo, quanto o depoimento da professora da turma que acompanhou o experimento62. Escolheu-se

comunicar os resultados do experimento realizado através de uma “análise narrativa”,

62 Os vídeos com os registros do experimento e também o depoimento da professora estão disponíveis

uma técnica que se dá pelo relato de histórias. Essa estratégia se baseia no fato de que a questão central da narrativa é representar a forma como os indivíduos experi- enciam o mundo, como colocam Connelly e Clandinin (1990 apud MERRIAM, 2009), e foi escolhida por ser a que melhor poderia expressar a subjetividade dos dados co- lhidos durante o experimento, que extrapolaram as métricas definidas a priori: expres- sões faciais e comentários despretensiosos de crianças envolvidas em um processo de descobrimento.

Com o experimento iniciado, Billie e seus amigos foram apresentados e a turma logo se dividiu em três grupos menores para brincarem livremente com os extraterres- tres, como mostra a Figura 6.2. A professora da turma, que acompanhava tudo, apre- sentou uma participação ativa no processo e esteve durante todo o tempo ajudando um dos grupos, que contava com um aluno especial – inclusive entrou na brincadeira junto com eles. Nesse primeiro momento, o posicionamento da pesquisadora, en- quanto mediadora, foi de criar um ambiente propício para a magia, explicando quem seria Billie, de onde ele havia vindo e qual o objetivo dele ao visitar o planeta Terra, por fim demonstrando o seu funcionamento.

Figura 6.2 Alunos em grupos interagindo com os artefatos63.

Após alguns minutos de descobertas e de formulação de hipóteses sobre como aquele novo objeto funcionava, os alunos começaram a expressar suas opiniões. Nesse momento, a mediadora assume um papel de instigadora, estimulando a curio- sidade e lançando mão de questionamentos para que os alunos sigam uma linha de raciocínio que os leve a entender minimamente os conceitos tecnológicos por trás do funcionamento do artefato apresentado e experienciado. “Acho que o som vem da- quela mochila!” – disse um menino, apontando para uma mochila no canto da sala. “Já sei, é um motor!” – sugeriu uma menina, no que outro menino retrucou – “Não pode, senão ele sairia ‘zuuum’”. “É um chip.” – disse, categórica, outra menina, sem que nem ao menos essa palavra houvesse sido mencionada durante a aula. Depois disso, ao serem perguntados sobre a localização do chip, logo apontaram para a placa Arduino e afirmaram: “É o azul”. E, por fim, ao serem questionados sobre o alto-fa- lante, responderam da seguinte maneira: “Isso é o barulhinho”. A Figura 6.3 mostra o momento de interação com os alunos, no qual as perguntas foram feitas.

Figura 6.3 Turma do 2o ano interagindo com o Bend64.

Ao final da aula, perguntou-se primeiro sobre quem gostaria de ter uma se- gunda aula igual àquela e foi pedido que, quem quisesse, voluntariamente dissesse o nome para que fosse colocado em uma lista. Foram 16 alunos inscritos de 16 presen- tes naquele dia. Então perguntou-se sobre a nota que dariam à aula, numa escala de 0 a 10. A resposta veio com animação: “Dez! Dez! Mil! Mil! Mil!”. E, enquanto os nomes iam sendo anotados, perguntou-se se queriam brincar mais e disseram que sim, então foram deixados à vontade. A professora acompanhou todo o experimento e inclusive participou ativamente dele, como é possível observar na Figura 6.4. Ao final, ela deu o seu depoimento e destacou a questão de como o Billie inspira uma problematização, despertando a curiosidade mesmo sem precisar dizer muito.

Figura 6.4 Professora interagindo com os alunos durante o experimento65.

“Eles ficaram extremamente curiosos quando viram, mas não sabiam por que, para que, o que que ia acontecer com tudo aquilo. E, assim, se a parte do interesse, se o que você queria chegar era no interesse, você conseguiu.” E critica: “[...] apesar do tempo, né, que eu acho que a gente tinha que ter mais tempo, para descobrir mais coisas, para parar e explicar, mostrar, abrir, para que eles entendessem, até por conta

da idade, 7 anos.” A professora conclui falando sobre os desdobramentos que ela imagina para a atividade: “E eu acho que seria muito interessante mostrar como foi feito, por que, onde encontrar aquele tipo de material, se eles sozinhos iam conseguir fazer, se podiam fazer com a ajuda da família, seria um trabalho bem interessante”.

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