CAPÍTULO 5 CONDIÇÕES E MOBILIZAÇÕES DOS/AS ARTESÃOS/ÃS:
5.1 Nordestinadas dos/as Artesãos/ãs
5.1.2 A religiosidade como fonte de sentido para a dor e para a criatividade
A religiosidade faz parte do imaginário social rural, isto é, a vida é referendada à transcendência divina, alcançando um papel preponderante nas interpretações do conjunto da existência dos seus sujeitos. Esta presença mostra-se significativa no calendário anual – dias santos, servindo também como elemento inspirador das festas tradicionais dos padroeiros locais, invocados como protetores e guias espirituais77.
Os/as artesãos/ãs invocam todo tempo a presença divina em termos de benção para protegê-los e livrá-los de doenças, de pestes, de invernos “pesados”, de malefícios dos casamentos desfeitos e dos acidentes nas estradas.
A invocação de Deus ou dos santos protetores por parte dos/as artesãos/as além do sistema de proteção é associada também à inspiração para elaboração de obras criativas, mais buriladas e que exigem maior poder de concentração e de originalidade.
Ademais, que a religiosidade herdada dos pais e do ambiente nascedouro em que viveram e interpretaram os acontecimentos da vida, eles/as trouxeram-na como algo inegociável, gerando até barreiras com pessoas de outros credos religiosos ou caracterizadas como céticas e ateias. Estas pessoas são malvistas, situadas como perigosas, como não merecedoras de confiança por parte dos ceramistas.
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Os colaboradores desta pesquisa atribuem a Deus os seus talentos artísticos, leitores e de intervenção social. A atitude de desconhecer esta referência sagrada como origem de tudo que eles já alcançaram em suas histórias de vida significa reconhecerem-se ingratos, culpados e pretensiosos.
A religiosidade também serve de anteparo consolador para os sofrimentos, as agruras que estes ceramistas experimentam exercendo ora funções de consolação espiritual, tocando as raias de um devocionismo conservador e imobilizador, ora como uma fonte restauradora de forças recursivas, inspiradoras para mobilizar iniciativas e empenho para dinamizar a arte e para administrar as questões desafiantes nos âmbitos domésticos, intersubjetivos e comunitários.
Podemos analisar a religiosidade entre os/as artesãos/ãs como um aspecto que atravessa as leituras de mundo, incluindo desde os recônditos afetivos e do interior das casas até os movimentos da rua, da luta pela sobrevivência e pelo reconhecimento social. Constitui-se numa chave de leitura indispensável para eles/a, por diversos motivos: a presença do sagrado tem notoriedade no imaginário rural, atravessado pela visão cíclica da vida e pelo contato imediato com as forças e dádivas da natureza, donde retiram seu sustento material; a lógica artística que envolve as intersecções entre o real e o imaginário, a subjetividade e a objetividade, nas quais as explicações de matriz racional mostram-se insuficientes para esclarecer e dar sentido aos “mistérios” da criatividade que brotam das mãos e mentes criativas deles/a; outrossim, atribuir o sentido da vida à divindade pode servir de aspecto garantidor da infinitude da criatividade artística, de algo jamais estancável. Também expressa o cultivo da virtude da humildade, prevenindo a armadilha da autossuficiência e, paradoxalmente, podendo gerar o açulamento comprometedor da autoestima individual dos ceramistas, tornando esmaecidas as suas próprias habilidades artísticas e sócio-culturais.
Vejamos extratos das suas falas:
Eu ouvia falar num santo poderoso que era o Espírito Santo e, num certo dia, eu fui pró quarto e chamei por ele e pedi o dom da compreensão, da inteligência da sabedoria e do entendimento prá ler e entender a bíblia e passar pros outros...Não fui a oficina, nem escola, nem nada. É dom de Deus, vem do alto e do interesse... (Manoel Bernardo).
Quando eu comecei falar, foi a comunidade inteira me ouvindo com atenção. Foi Deus que fez isto comigo... Eu sei que quem me moveu
foi Deus e foi os sonhos de eu sair daquela vida que eu tinha. (Severino Luís).
Uma pessoa sem Deus não é nada, não é ninguém...a gente pode sofrer, mas com Deus a gente vence. Tudo isso é passageiro. (Regilda Pereira).
Mestre Vitalino, muitas pessoas tão copiando suas peças e o senhor vai deixar? Ele respondeu: “Deus deu prá todos. Copiar também é uma arte” (Severino Barbosa).
As marcas religiosas nos discursos e nas atitudes diárias dos ceramistas do Alto do Moura manifestam ambivalências, denotando inspirações de alcances recursivos, como também de paliativos, de bálsamo para as situações incontroláveis, imprevisíveis da vida. A sensibilidade religiosa atravessa o quadro interpretativo do conjunto da existência, não podendo ela ser desconsiderada ao tratar do imaginário destes ceramistas que pensam, sentem e desenvolvem a vida sob as lentes dos mistérios e da intervenção divinos.
Por outro lado, a transcendência mostra-se descrita como presença que reveste de sentido as suas ações, porém, não substitui ou anula a atuação dos sujeitos. Estes invocam a presença divina como fonte de inspiração e de mobilização: ... é dom do Deus, vem do alto e do interesse; ...quem me moveu foi
Deus e foi os sonhos de eu sair daquela vida que eu tinha; ...com Deus a gente vence. Estes sujeitos reúnem as forças mobilizadoras da fé religiosa e as iniciativas
individuais focadas na realização dos seus sonhos. A fé que eles/a experimentam não dispensa a utilização de mecanismos e de movimentos concretos com vistas à superação. Ações humanas e divinas cruzam-se e revestem-se reciprocamente. O cotidiano destes ceramistas, exigente em termos de criatividade em seu labor diário, faz-lhes experimentar os medos, as inseguranças, as alegrias e os „mistérios‟ do ato de criar. Portanto, eles/a estão lidando com algo que atravessa suas mentes, sentimentos e mãos que ora conseguem dar conta através de mecanismos práticos, ora de forma intuitiva, combinatória, entre ideia e forma, manuseio das mãos e adaptação da argila. Deste modo, os processos da criatividade artesã são atribuídos pelos seus sujeitos como tributos divinos e humanos que se somam e se articulam.