2.5 BIBLIOTECAS DIGITAIS MUSICAIS
2.5.2 Representação do objeto informacional musical e as
No âmbito da representação musical, percebe-se uma evolução das proposi- ções. Nos anos 1990, Selfridge-Field (1997) e McLane (1996), apresentaram algu- mas alternativas de representação da música, analisando as linguagens de trata- mento musical mais usadas na época e propondo algumas idéias para sistemas de recuperação de informação musical. A seguir, Downie (2003) e Byrd (2007, apud
78 http://variations2.indiana.edu/ acessado em 28/11/2010
79 http://www.dlib.indiana.edu/projects/vfrbr/schemas/1.0/index.shtml. Acesso em 30/10/2011.
80 Extensible Markup Language (XML) é um arquivo no formato de texto simples, muito flexível que foi originalmente concebido para enfrentar os desafios de publicação eletrônica em grande escala, o XML também está desempenhando um papel cada vez mais importante na troca de uma ampla variedade de dados na Web e em outros ambientes (http://www.w3.org/XML/).
CRUZ, 2008) e discutiram questões relativas à completude representacional (repre- sentational completeness). Downie (2003) propõe avanços em relação à representa- ção musical, procurando caracterizar: (i) artefatos musicais como objetos manipulá- veis por sistemas de processamento e recuperação de informações, dando uma a- bordagem associativa aos princípios da Ciência da Informação e (ii) as dimensões da música como facetas capazes de conter informação musical (pitch, temporal, harmônica, timbral, editorial, textual e bibliográfica).
Downie e Cunningham (2002, apud CRUZ, 2008) abordam os elementos con- textuais, emocionais e sociais envolvidos nas buscas musicais, caracterizando-as como algo que está além da simples vontade de ouvir. Os autores sugerem o apro- fundamento do entendimento desses elementos pela recuperação de desejos musi- cais em outros espaços, como programas de radiodifusão onde os ouvintes pedem por uma determinada música.
Nos estudos sobre necessidades de informação geralmente há três entidades implícitas envolvidas nas discussões relacionadas: (i) a informação musical, (ii) o comportamento informacional e, conectando essas entidades, (iii) o usuário da in- formação. Isso levou, nas duas últimas décadas, a uma revisão da noção de infor- mação musical, migrando da perspectiva de expressão artística para a de um recur- so informacional, buscando compatibilizá-la com as novas Tecnologias da Informa- ção e Comunicação.
Esse jeito novo de tratar a música parece ter começado com Selfridge-Field (1997 apud CRUZ, 2008) e McLane (1996 apud CRUZ, 2008), a partir das constata- ções de subjetividade da música e, posteriormente, foi reforçado por Downie (2006 apud CRUZ, 2008), com as definições de informação musical associadas as propri- edades como o pitch, o timbre e outros elementos básicos. Na análise de dados des- ta pesquisa foi identificada a necessidade de se rever a definição de informação mu- sical, por conta das demandas dos usuários leigos. Nesse caso, foi encontrado que a música possui as facetas estabelecidas por Downie (2003 apud CRUZ, 2008), mas a sua estrutura incorpora elementos adicionais que permitem defini-la como um ob- jeto informacional musical mais amplo, dotado de conteúdo – atributos internos e metadados descritivos – e, de contexto – associações com outros objetos musicais e não musicais, e com situações ou eventos em que este objeto musical está inserido.
Com relação ao comportamento informacional, existe uma corrente de pen- samento, liderada por Bates (2002 apud CRUZ, 2008), que o considera algo que
ocorre “durante todo o ciclo de vida do indivíduo e refere-se a toda a informação percebida, e não apenas nos momentos quando ele ativamente busca informação”. Portanto, as necessidades de informação passam a ter um sentido maior e não liga- do apenas à natureza objetiva e baseada em problemas que têm sido explorados na literatura (WILSON, 1997; 1999 apud CRUZ, 2008). Sob este aspecto, as buscas informacionais podem ser direcionadas, não direcionadas, ativas e não ativas, con- forme está apresentado no Quadro 3 (BATES, 2002 apud CRUZ, 2008).
Quadro 3. Comportamentos possíveis para busca de informação musical
Busca Ativa Passiva
Direcionada searching Monitoração
Não direcionada browsing estar consciente
Fonte: Bates (2002 apud CRUZ, 2008)
Enquanto na visão tradicional a busca informacional é gerada por uma neces- sidade eminente e direcionada a solução de problemas, parece que no caso da mú- sica as buscas obedecem às proposições de Bates (1989; 2002 apud CRUZ, 2008) e as necessidades que fazem emergir essa busca não são objetivas, mas são parte da vida do indivíduo e dos seus relacionamentos sociais. Por outro lado, Huron (1999 apud CRUZ, 2008) argumenta que a relação entre os seres humanos e a mú- sica vai além das necessidades objetivas do indivíduo e sugere que a afinidade com a música é algo inato e que as necessidades de informação musical são vinculadas às características cognitivas, afetivas e até fisiológicas dos seres humanos. Portan- to, a música teria efeitos perceptuais para além da simples audição, com caracterís- ticas funcionais, fisiológicas, culturais, idiomáticas e uma série de outras (BYRD, 2007-b apud CRUZ, 2008). Da mesma forma, Bates (2002 apud CRUZ, 2008) argu- menta que os estudos de usuário, no caso da música, para serem completos, preci- sam observar outros níveis de compreensão humana, além do aspecto cognitivo.
Portanto, considerando o contexto e as necessidades básicas do indivíduo, pode-se dizer que os objetos musicais informacionais são alvo de busca constante e o interesse por eles varia em função da afinidade entre as propriedades perceptuais desses objetos e as necessidades básicas e de contexto do indivíduo. Nesse caso, a visão de busca informacional não direcionada a problemas, citada por Bates (1989; 2002 apud CRUZ, 2008), parece compatível com o que foi percebido na relação en- tre os usuários leigos e a música.
De fato, há resultados que mostram que os usuários utilizam mecanismos pa- ra ouvir música que se alternam entre os quadrantes de busca listados na Quadro 3. Por exemplo, ouvir música em lugares públicos ou perceber uma música interessan- te enquanto se está no ônibus ou se conversa descompromissadamente parece re- lacionado a uma pesquisa passiva e não direcionada. Da mesma forma, a busca não direcionada por músicas em prateleiras de lojas de discos se encaixa dentro do con- ceito de “navegação” ou browsing definido por Bates (2002 apud CRUZ, 2008).
Kuhlthau (1991 apud CRUZ, 2008) e Taylor (1968 apud CRUZ, 2008) perce- bem o comportamento informacional como um processo interativo e variável no tem- po e que muda em função do contexto do usuário. Essa mudança de comportamen- to também foi percebida por Cruz (2008), a partir dos cruzamentos realizados com as variáveis de perfil. Por exemplo, identificou-se que usuários leigos realizam um comportamento informacional diferente em relação a um usuário que possui maior domínio musical. Dessa forma, um usuário leigo em música pode atuar mais em buscas não direcionadas e passivas enquanto um usuário com um pouco mais de conhecimento pode atuar mais em buscas ativas não-direcionadas e os que possu- em bom domínio musical podem preferir as buscas ativas. Com relação ao uso da informação, a premissa de dependência do nível de conhecimento também é válida e os atributos exigidos para um usuário com mais domínio são mais complexos do que os exigidos por usuários com menor domínio musical.
Presume-se que o comportamento informacional de usuários leigos ocorre ao longo da vida e que eles viajam por entre objetos informacionais musicais. Nessa viagem, eles se sentem atraídos ou repelidos pelas características intrínsecas e ex- trínsecas do objeto musical, as quais se assemelham às características internas bá- sicas (necessidades cognitivas, afetivas e fisiológicas) e contextuais do indivíduo. Portanto, considerando o contexto e as necessidades básicas do indivíduo, pode-se dizer que os objetos musicais informacionais são alvo de busca constante e o inte- resse por eles varia em função da afinidade entre as propriedades perceptuais des- ses objetos e as necessidades básicas e de contexto do indivíduo.
Mais recentemente, alguns estudos de usuário mostraram que as melhores respostas às necessidades de informação musical são supridas por sistemas que consideram (i) associações do usuário com as pessoas de seu relacionamento ou de sua confiança, (ii) situações vividas e (iii) informações extra-musicais (CRUZ, F. W., 2008).
A maior parte dos estudos de usuário realizada na década de 2000 sugere que as relações sociais são essenciais para a busca por informações musicais, com especial implicação para sistemas de recomendação musical (CUNNINGHAM et al., 2007; LEE e DOWNIE, 2004; HYPEMACHINE, 2003; CRUZ, 2008).
Os números que traduzem a importância das relações sociais no contexto musical se mantêm independentes do nível de conhecimento musical do sujeito- autor da recomendação. A principal razão para isso é que essas pessoas conhecem os gostos musicais de seus pares e, portanto, podem prover recomendações rele- vantes. Para Duarte e Mazzotti (2006 apud CRUZ, 2008), esse fenômeno "está rela- cionado a uma representação social que promove conhecimento em grupo e que concorre para a construção de uma realidade comum do grupo social. Diz-se aqui que o grupo social exerce influência e tem um papel preponderante no desenvolvi- mento de preferências musicais”.
Laplante e Downie (2011) destacam que, tanto quanto obter resultados, du- rante uma tarefa de busca de informações musicais, os usuários valorizam o quão "prazerosa" foi tal tarefa; se esta proporcionou a aquisição de conhecimento musical que não o objetivo principal da tarefa de busca. Para os autores, a satisfação, no contexto de busca por informação, pode assumir diferentes formas, tais como ouvir alguns trechos de música ou ter acesso a opiniões de outros usuários. Percebe-se, na intenção e nos achados dessa pesquisa, um olhar, indo além do cartesiano de obter uma informação musical específica, considerando seus resultados colaterais. Isto reforça o que Capra já dizia em 1996: "As decisões humanas nunca são comple- tamente racionais, estando sempre coloridas por emoções, e o pensamento humano está sempre encaixado nas sensações e nos processos corporais que contribuem para o pleno espectro da cognição." A esta mesma conclusão chegou o já mencio- nado autor
2.5.3 Discussão
As bibliotecas em geral, enfrentam grandes desafios. Desde 1972, Kilgour (apud ROSA et al., 2007) defendia que:
[...] para continuar a ser vital para a sociedade, uma biblioteca deve adotar novos objetivos. Em particular, ela deve esforçar-se para participar com os indivíduos em suas atividades culturais; já não é suficiente atuar de forma passiva e oferecer um serviço despersonalizado.
Aliado a estes desafios, as BD enfrentam vários outros problemas de ordem técnica que afetam a sua potencial utilização, entre os quais destacam-se (ALVARENGA, 2001): (i) a organização do enorme potencial de documentos dispo- níveis na Web; (ii) a modelagem e arquitetura de dados que viabilizem um melhor acesso dos usuários da rede digital, em meio à massa exponencialmente crescente de recursos.
A incorporação dos incontáveis recursos, exponencialmente crescente, dispo- níveis na Web, e que precisam ser organizados e disponibilizados, é um trabalho hercúleo. Todo este recurso, para se tornar um objeto informacional e fazer parte de um acervo bibliográfico, necessita passar por um processo de registro e análise con- ceituais. Esta era uma das atividades inerentes aos bibliotecários/catalogadores. Há muito, as bibliotecas, para superarem este problema, vêm utilizando sistemas de classificação automática de documentos, com resultados bastante limitados (ALVARENGA, 2001).
No atual ecossistema da informação e comunicação, os usuários não mais atuam somente como consumidores, mas também como produtores e geradores de informação. Atualmente, na Web, os bibliotecários são minoria no processo de “cata- logação” desses recursos. Assim, ao adaptar um modelo de dados para uma BDM alinhada ao atual ecossistema da informação e comunicação, o usuário pode ser visto como um prosumer81, um indivíduo que pode assumir o papel de “auxiliar de catalogação”, atividade que já exerce na rede e fora do ambiente bibliográfico82.
Para a Online Computer Library Center - OCLC83 (ROSA et al., 2007): (i) os
usuários se mostram confiantes e se sentem mais confortáveis utilizando os recur-
81 Termo cunhado por Alvin Toffler em 1980 - em seu livro A Terceira Onda - como uma mistura de produtor e consumidor. Foi utilizado para descrever um tipo de possível de consumidor, que também pode se envolver na concepção e fabrico de produtos, ou seja um tipo de consumidor não passivo que é parte de determinado processo criativo (http://www.worldwidewords.org/turnsofphrase/tp- pro4.htm|)
82 Pode parecer pretensão atribuir a tarefa de catalogação para usuários leigos mas lembremos que estamos no início de uma revolução. Pode-se comparar tal situação àquela encontrada depois da introdução dos “tipos moveis” promovida por Gutenberg. Aconteceu uma profusão de publicações que reduziu a qualidade média daquilo que era publicado, mas depois, por outro lado, tornou possível o surgimento de romances, jornais e publicações científicas que influenciaram, naquela época, a as- censão da Europa. (SHIRKY, 2011 p. 46 e 47).
83 A OCLC é uma organização sem fins lucrativos,destinada a prestar serviços bibliotecários compu- tadorizados e de pesquisa dedicados ao propósito de facilitar o acesso à informação e reduzir os seus custos. Conta com mais de 27.000 bibliotecas em 86 países e territórios que utilizam os seus serviços para localizar, obter, catalogar, emprestar e preservar materiais de bibliográficos. Foi consti- tuída em 1967 por Fred Kilgour, e sua sede está localizada em Dublin, Ohio, EUA (http://www.oclc.org/us/en/default.htm. Acesso em 30/10/2011.)
sos informacionais oferecidos pela Internet, enquanto bibliotecas são vistas princi- palmente como um repositório de livros; (ii) o acesso on-line às BD teve um recuo de 30% para 20% entre 2005 e 2007, enquanto todos os demais serviços disponíveis na Web (blogs, serviços de busca, e-mail, ...) tiveram aumento no número de aces- sos. Nesse sentido, o autor questiona: o que está por acontecer depois do advento da Internet como fonte de informação (“Googling”)? O que motiva e inspira milhões de pessoas a passarem horas online, não em busca de informação, mas na criação de informação, na construção de conteúdo nos estabelecimento de comunidades? Isso pode ser a confirmação de que estas pessoas já não são mais somente consu- midoras, mas produtores de informação.
Fica a questão: uma BD poderia utilizar-se do excedente cognitivo destes ge- radores de conteúdos para auxiliar no registro e análise conceituais dos incontáveis recursos disponíveis na Web? Lembrando Morin (2004, p. 10-11):
O termo “formação”, com suas conotações de moldagem e conformação, tem o defeito de ignorar que a missão do didatismo é encorajar o autodida- tismo, despertando, provocando, favorecendo a autonomia do espírito. Outra dificuldade mencionada por Alvarenga (2001) é a modelagem e a arqui- tetura de dados que, anteriores à Internet, atendiam praticamente as necessidades do staff das bibliotecas. Atualmente, elas têm mais um propósito, pois impactam no resultado do atendimento das necessidades de informações dos usuários.
Modelos de dados serviam basicamente para o atendimento das necessida- des dos atores envolvidos com as atividades de catalogação no âmbito de uma bi- blioteca. Os usuários, para obterem uma informação, eram, invariavelmente, atendi- dos por bibliotecários que, utilizando-se de seus conhecimentos e expertises, inter- mediavam a conexão deles com as informações, traduzindo, para o sistema de in- formação as perguntas e adequando as respostas às necessidades e características desses usuários. Esse processo garantia a sobrevivência dos modelos de dados até então utilizados. Esse é o caso, por exemplo, do modelo MARC (Machine Readable Cataloging), concebido na década de 60 e ainda muito utilizado, pois quaisquer no- vas necessidades dos bibliotecários eram remediadas através do preenchimento de campos do tipo “coringa”84 (COYLE, 2010).
O FRBR, ao focar nas atividades exercidas pelo usuário, se constituiu numa
das primeiras iniciativas que tentou atender a essas duas e distintas necessidades: as dos bibliotecários, representada pelos registros bibliográficos, e as dos usuários. Usuários que, indo além da obtenção direta de respostas, esperam que tais siste- mas proporcionem outras formas de conhecimento com implícitos graus de satisfa- ção (LAPLANTE e DOWNIE, 2011).
Como demonstra a prática corrente, conceber novos modelos de dados para catalogação bibliográfica sempre que novas necessidades surgem, não resolve o problema, mas resultam numa profusão de modelos, no aumento da sua complica- ção, dificultando seu entendimento e sua adoção pela comunidade concernente (ZHANG; SALABA, 2007; COYLE, 2010). É isso que parece estar acontecendo com o FRBR. Por que, então, não adaptar modelos de dados já concebidos para melhor atenderem as necessidades dos usuários? Neste trabalho, tais necessidades se manifestam na expansão do objeto informacional musical com informações advindas das relações sociais dos usuários e que permitam que estes objetos se relacionas- sem com informações presentes em um contexto maior, como, por exemplo, aquelas disponíveis no âmbito do Linked Data.
Como, então, prover uma BD de serviços que aglutinem seus usuários em torno das suas atividades culturais de forma menos institucional e mais pessoal, conforme sugerido por Kilgour (1972)? No atual contexto, haja vista as tecnologias que vêm mudando o modo de utilização de nosso tempo livre e, como meio, propici- ando a criação de novas oportunidades de interação, conjumina com as necessida- des atuais das BD, em especial as BDM, representadas pelos seus desafios e pro- blemas técnicos e que a muito se vem enfrentando. Os resultados da pesquisa so- bre sites de redes sociais apresentados na seção 2.2.2, explicitam e levam, por ho- ra, a concluir que eles, em especial o Facebook, são espaços onde em geral as pes- soas confiam uma nas outras e podemos concluir que se trata de ambiente propicio para os intentos do presente trabalho.