5 RESULTADOS E DISCUSSÕES
5.2 REPRESENTAÇÃO SOCIAL PROCESSUAL E ESTRUTURAL
Os resultados obtidos a partir da triangulação de métodos e participantes prevista para captação dos elementos simbólicos representacionais e sua origem entre profissionais da área de saúde e usuários doadores de sangue estão apresentados a seguir.
Foram 62 participantes da equipe de saúde que integraram a abordagem processual realizada com os profissionais da instituição de ensino e do hemocentro, sendo 47 enfermeiros, dez técnicos de enfermagem, três técnicos em análises clínicas e laboratoriais e dois auxiliares de enfermagem e laboratório.
Eles ficaram assim caracterizados: 88% eram do sexo feminino, 72% se autodeclararam brancos, 50% possuem filhos (média de 0,67) e 48% eram solteiros. A metade dos profissionais possui no mínimo ensino superior, tendo concluído ou estava cursando suas especializações; 67% dos profissionais declararam realizar menos de cinco punções venosas periféricas/semanais. Entre as razões atribuídas para a baixa execução dos procedimentos constaram: exercício de cargos cujo perfil está afastado da assistência direto ao usuário (a exemplo dos triagistas do hemocentro, coordenador de setor no hospital), ou a delegação do procedimento aos profissionais de nível técnico e auxiliar.
Na análise dos conteúdos simbólicos emergentes na abordagem processual realizada com profissionais que puncionam veia para fins hemoterápicos nas duas instituições cenários da
investigação, foi possível identificar três categorias temáticas, explicitadas a partir do dendograma elaborado no Programa Nvivo Pro versão 11 (Figura 47).
Figura 47: Representação gráfica por dendograma das três categorias que explicitam a origem das representações sociais
para o processo de punção de vasos para fins hemoterápicos segundo profissionais que puncionam veias.
Fonte: Dendograma gerado pelo programa Nvivo. Análise feita pelas autoras.
A seguir, consta a representação gráfica obtida pela saturação dos dados nas categorias das representações sociais de profissionais sobre o processo de punção, e os valores que atestam a significância da análise categorial.
Figura 48: Representação por gráfico de círculo demonstrando a saturação dos dados contidos nos eixos temáticos da
abordagem processual das representações sociais dos profissionais.
Legenda: 1- Circunstância ou Situação 2- Comportamental e Atitudinal 3- Êxitos profissionais 4- Experiências e familiares 5- Experiência própria 6- Fracassos profissionais 7- Informativa e conhecimentos 8- Motivos atribuídos 9- Novidades e surpresas 10- Objeto representacional
11- Punções presenciadas por terceiros 12- Relação dual usuário-profissional 13- Valorativa
Fonte: Relatório geral no Programa Nvivo.
Nota das autoras: O gráfico de Círculo foi gerado a partir da similaridade de palavras segundo clusters.
Na categoria ―Experiência e comportamento próprios e com familiares‖, foram identificados três eixos temáticos, a saber: 1) Comportamental e Atitudinal; 2) Experiências próprias e 3) advindas do convívio familiar.
O eixo ―comportamental e atitudinal‖ referiu-se aos comportamentos adotados pelo binômio usuário-profissional, na perspectiva dos profissionais, diante das experiências com a execução ou vivência do processo de punção venosa. Os profissionais rememoraram experiências vivenciadas pelos participantes, nas quais eles adotaram comportamentos diante do (in)sucesso do processo de punção na ocasião em que suas veias estavam sendo puncionadas para fins hemoterápicos.
Em seus relatos, o foco está no desfecho do procedimento e nos seus sentimentos que passaram a constituir memórias revisitadas quando a temática foi abordada e quando eles se depararam com fatos semelhantes na prática clínica em ocasiões posteriores, conforme apontam os fragmentos de discurso dos participantes a seguir.
“Então, quando foi na quarta tentativa, eu já falei com ela: Olha! Eu não vou tentar de novo, eu não estou conseguindo. Ali, eu já fiquei um pouco nervosa, mas, aí, na quinta, na sexta (tentativa), eu falei „não! Não tem como eu tentar mais!‟ Aí eu fui, tentei mais uma vez, mas consegui um pouco só de sangue. Aí pedi a ela para ela voltar no outro dia, para ver se a gente conseguiria.” U01.
“Ele estava bem desidratado, aí o funcionário (colega de trabalho) falou assim até comigo: „Nossa! Mas você vai puncionar esse raminho aí?... esse filetinho?‟ Eu falei: „Deus vai me ajudar! E eu vou conseguir!‟ E eu, com aquele escalpe menorzinho possível; eu consegui!” U08.
“Deu certo, certíssimo! Tanto que ele ficou: „ai, está vendo o que eu te falei? Foi bom, né?‟ Ele ficou todo satisfeito, entendeu?” U33.
“Assim, foi bom para mim justamente por isso! Algo que eu nunca tinha feito e que eu consegui fazer! E consegui ter êxito no que eu fiz, porque consegui manter o paciente tranquilo! E foi um procedimento muito tranquilo!” U38.
“Mas assim, puncionando a veia... eu não conseguia. Eu tremia demais, tremia muito! E aí, lá em casa, todo mundo virou minha cobaia. Namorado, meu marido, minha irmã, meu pai, todo mundo tinha que puncionar veia! Chegou um ponto que eu estava puncionando veia de mim mesma, para ver se eu conseguia perder aquele medo. Só que aí eu perdi o medo em casa, e não perdi dentro do hospital.” H55.
O hospital, enquanto espaço simbólico do cuidado do corpo, foi mencionado pelo participante U55 como sendo gerador de apreensão para si e lócus de expressão de sua incapacidade de
superação da imagem desse local construída ao longo da vida. Do ponto de vista profissional, foi possível identificar que indiretamente as imagens simbólicas construídas sobre esse espaço se expressaram, dificultando a superação dessa limitação quando em atuação profissional, pois mencionarem que ainda não foi vencido este obstáculo: ―não perdi (o medo) dentro do hospital‖.
As características das veias dos usuários, aliadas às próprias experiências profissionais e ao (in)sucesso na realização do procedimento técnico, justificaram a ocorrência de comportamentos/atitudes emergentes entre os participantes diante do processo de punção de vasos. Outros fatores intervenientes referem-se à capacidade de lidar com frustração e o tipo de personalidade do profissional, fazendo emergir sentimentos/sensações diante do desfecho e a tomada de decisão de insistir em/desistir de repuncioná-lo206.
O êxito na realização da punção de vasos, em situações que envolvem dificuldade na execução do procedimento, gerou entre os participantes uma sensação autoconfiança para se inserirem na realização do procedimento em situações posteriores, conforme mencionado pelo participante U08.
O insucesso do profissional na execução da punção para fins hemoterápicos pode ser originado em atividades de punções para fins terapêuticos, podendo estas experiências se tornarem marcantes a ponto de serem rememoradas quando ocorre a punção para a infusão de hemocomponentes.
“Por extravasamento de solução, de medicamento, a criança teve que ser acompanhada pelo serviço de plástica, do serviço da cirurgia plástica porque infiltrou, feriu o local. Aí teve que ficar um tempo maior internado! Foi ruim pra mãe, foi ruim pra criança! Foi ruim para o profissional que no dia estava com a criança, que apareceu a bolha.” U15.
“Ele avaliou e falou que tinha como puncionar. Ele tentou puncionar e não conseguiu! Me chamou; eu tentei reposicionar e não consegui! O local não ficou com hematoma. Não ficou com nenhum sinal de que realmente extravasou o vaso e a gente não conseguiu encher a bolsa. Isso foi frustrante para mim, porque geralmente a minha conduta sempre é: eu olho o vaso. Eu olho o acesso e eu quero ter sucesso na hora que eu vou puncionar!” H39.
O comprometimento com os usuários e o êxito nas ações laborais pode se tornar tão marcante para o profissional que punciona veias, que pode ser interpretado como um insucesso pessoal e um desafio capaz de gerar frustração. O fragmento do discurso do participante U39 exemplifica isso.
O conhecimento científico do profissional de enfermagem sobre a terapia intravenosa contribui para a efetividade do cuidado prestado, favorecendo a tomada de decisão do enfermeiro diante da
ocorrência de complicações em sua execução207, sendo capaz de influenciar o comportamento do
executor da punção. Tal comportamento, segundo a concepção de Watson, pode ser analisado na perspectiva da exigência imposta pelo profissional à sua ação laboral como capaz de gerar um desequilíbrio energético e, por conseguinte, causar impactos nos usuários143.
Na tentativa de buscar uma solução para acessar o conteúdo sanguíneo ou mantê-lo pérvio, ações como reposicionamento do cateter podem ser empregadas, a fim de impedir o colabamento da ponta da agulha na parede do vaso e reajustar o posicionamento da agulha ao fluxo sanguíneo local. Tal fato foi identificado na prática clínica do hemocentro e da instituição de ensino com documentação advinda do diário de campo e da coorte, conforme exemplificado na imagem da Figura