PARTE I – PROBLEMÁTICAS DO REPATRIAMENTO COLONIAL
2.1 Representações sociais
“Somente as pessoas superficiais não julgam pela aparência. O mistério do mundo está no visível e não no invisível.”
Oscar Wilde
As representações sociais, conceito fundamental da psicologia e da sociologia, são modos de interpretação e de classificação do todo que nos rodeia, segundo uma escala de valores predominantemente coletiva, pois “resultam de práticas sociais” (Potter, 2004, p. 22). De acordo com o zeitgeist cognitivo, ou ortodoxia cognitiva, base da teoria geral do comportamento humano: “i) as pessoas comportam-se de acordo com o conhecimento adquirido; ii) o conhecimento é constituído por representações mentais; iii) a atividade cognitiva consiste na manipulação destas representações, ou seja, a aplicação nestas de operações computacionais” (Shanon, 1993, p. 2).
Nos processos mentais de “manipulação” das representações, “conseguimos representar para nós próprios dois tipos de fenómenos que são distintos e opostos. Por um lado, há a ordem que prevalece no mundo” (Moscovici, 1996, p. 263), por outro, selecionam-se objetos, ou representações, que respondem a desejos pessoais e servem objetivos individuais. O binómio pessoa/coletivo está presente nos processos cognitivos de projeção, de objetificação e de ancoragem das representações sociais.
As “operações computacionais” de projeção e objetificação pressupõem que “o conteúdo mental dos indivíduos, os seus julgamentos e ideias são separados e assumem um carácter externo” (idem, p. 266), isto é, projetam-se e tornam-se ‘objetos’, formas autónomas, que povoam o mundo em que vivemos e agimos. Num posterior, e simultâneo, processo mental, ou “operação computacional”, de ancoragem, uma representação penetra e associa-se a outras, dando-lhes significado e utilidade, favorecendo “uma rede de significados (…) e a atribuição de sentidos a acontecimentos, comportamentos, pessoas, grupos, factos sociais (…). Uma representação traduz-se, neste contexto, no código de interpretação no qual ancora o não familiar, o desconhecido, o imprevisto” (Brilhante, 2000, p. 69).
Num processo de inclusão social, no qual se centra a investigação, ou seja, nas representações sociais no repatriamento e na integração dos retornados portugueses, “os modos de incorporação dos atores individuais em novos quadros de interação, em consequência de processos de mudança social e de deslocamentos intra-sistema de ordem (ciclos geracionais ou mobilidade social) ou inter-sistemas de ordem (migrações), (…) devem ser entendidos como processos em que os atores participam ativa e motivadamente, com histórias diferenciadas e poderes desiguais, acionando, e, portanto, reproduzindo ou transformando os sistemas de regras sociais estruturadoras da interação (gramáticas sociais), de forma a reparametrizarem a sua inclusão na ordem interativa” (Pires, 2003, p. 50). Estão também aqui presentes os valores culturais soberanos, as regras aceites por todos no grupo dominante, bem como os percursos pessoais e sociais do grupo minoritário repatriado.
Os “poderes desiguais” podem ter tido um papel preponderante na integração de um novo contingente populacional, em óbvia desvantagem económica e social. Assume-se o risco de “estudar um ser humano que perdeu realmente a sua sombra” (Moscovici, 1996, p. 343), ou seja, a subjetividade do individual pode ter sido condicionada por imperativos contextuais singulares: a necessidade de inclusão rápida e sem conflitos sociais significativos ou prolongados. Relembre-se que os processos de integração social “não implicam a anulação das diferenças, das clivagens e dos conflitos sociais, mas assentam na premissa de que tais circunstâncias não coloquem certos grupos ou categorias sociais fora das estruturas correntes da sociedade” (Brilhante, 2000, p. 79). Em alguns grupos as “clivagens” podem persistir, mas são minimizadas, face à urgência e desejo de integração.
Deve-se ainda ter em conta o contexto histórico pós revolução, em 1974-75, seguido de relativa estabilidade, de 1976 a 1979, um período invulgar de rutura e de alterações sociais profundas, que alteraram, adaptaram e regularam as formas e as estruturas nas interações sociais da comunidade, do todo. E tão interessante é a mudança como o pode ser a continuidade, no universo complexo das representações sociais. Um grupo social dominante em processo de mudança poderá percecionar de forma mais favorável a integração de um grupo diferente. Por sua vez, o grupo repatriado
minoritário, apesar das indiscutíveis distinções nos percursos individuais e socioculturais numa sociedade colonial, não é acentuadamente diferente, tratando-se, na sua maioria, de emigrantes de primeira geração, com fortes ligações familiares e culturais a Portugal.
“Primeiro, há o contexto e a mediação, os quais definem as características estruturais do sistema cognitivo. Estes fatores referem-se à teoria: especificam as características elementares, inerentes ao sistema cognitivo. Depois há três fatores com base nos quais o mundo é constituído – corpo ou organismo, o mundo e o ‘outro’ - e ainda as denominadas faculdades não-cognitivas. Estes definem o ambiente no qual se desenvolve a cognição” (Shanon, 1993, p. 280). Enquanto o corpo, o mundo e o ‘outro’ correspondem ao mundo exterior no qual se interage, o afeto e a motivação, propriedades não-cognitivas, são do domínio interno. As representações sociais, de acordo com os sete fatores de Shanon, dependem também do contexto, das dinâmicas relacionais, de domínio ou de dependência, a título de exemplo, bem como das variáveis emocionais, de âmbito pessoal. Num contexto de repatriamento, o facto de “nos identificarmos com uma nação (…) determina o modo como julgamos e somos julgados na sociedade” (Scudder, 2009, p. 2) e a questão da identidade nacional não era problemática no caso dos retornados portugueses, embora se pudessem considerar “portugueses de África”, percecionando as colónias como uma extensão de Portugal.
Uma breve abordagem teórica do conceito de representação social não pode ignorar a sua correlação com as noções de estereótipo e de preconceito: são fenómenos sociais, ocorrem em teia social, entrecruzam-se e assumem o papel simultâneo de condicionalismo e de resultado, de causa e de consequência, e a sua origem e evolução são claramente influenciadas e interdependentes.
As representações sociais dominantes estão na origem dos estereótipos: a formação, o reforço e a mudança de estereótipos ocorrem sempre em contexto social. A palavra compõe-se por dois elementos de origem grega: stereos (rígido) e tipos (tipo, traço) e o conceito, complexo, e amplamente discutido no ramo da psicologia social, pode ser abordado nas dimensões cognitiva/emocional, individual/social e ainda normativa/errónea (Farinha, 2005).
O estereótipo reúne um conjunto de crenças, enquanto o preconceito traduz um afeto ou avaliação negativa que pode ou não conduzir à discriminação, à falta de igualdade no tratamento. O estereótipo ‘oferece’ uma realidade social organizada em pequenas ‘gavetas’, impregnada do conforto e da segurança na perceção e compreensão do todo, numa estratégia cognitiva de “economia na perceção da realidade, visto que uma composição semântica preexistente, geralmente muito concreta e imagética, organizada em redor de alguns elementos simbólicos simples, substitui ou orienta imediatamente a informação objetiva ou a perceção real” (Bardin, 2007, p. 47). Simplificações da realidade que podem ser exteriorizadas no preconceito, o qual, apesar da inegável dimensão coletiva, depende também de um percurso, controlo e ação individuais, mas “é uma verdade inquestionável que, quando nos juntamos e formamos um grupo, algo muda radicalmente. Pensamos e sentimos de forma muito diferente do que pensaríamos e sentiríamos como indivíduos. Podemos discutir o significado desta diferença, mas não podemos negar a sua existência” (Moscovici, 1996, p. 4).
Na formação de estereótipos, a categorização em grupos distintos, as identidades sociais, produz uma acentuação nas diferenças. Os consequentes conflitos de interesses entre grupos, bem como a suposta ameaça do exogrupo, conduzem à deterioração das imagens mútuas e aos correspondentes estereótipos negativos.
A transformação dos estereótipos pode ocorrer ao nível temporal quando “a mudança é associada a acontecimentos históricos e sociais, por exemplo, a mudança de estereótipos nacionais como resultado de alianças e conflitos internacionais. O conteúdo do estereótipo mantém-se, mas aumenta ou diminui o grau de acordo grupal” (Farinha, 2005, s.p.). Observa-se também a mudança pelo contacto intergrupal, sob as seguintes “condições: i) Os membros dos dois grupos têm estatutos semelhantes; ii) As características dos membros do exogrupo não confirmam o estereótipo desse grupo; iii) A situação de contacto exige a cooperação entre os membros dos dois grupos; iv) A situação de contacto permite que os grupos se conheçam de forma pessoal; v) Existem normas sociais, tanto nos grupos como na situação, que favorecem o igualitarismo intergrupal” (idem, s.p.). No processo de mudança dos estereótipos influem os fatores contextuais e relacionais, externos e internos, individuais e coletivos que já tinham
participado na sua formação, fixação e ordenação.
No repatriamento da África portuguesa, verifica-se uma desigualdade de poderes, face à vulnerabilidade emocional e económica dos retornados, embora a fragilidade financeira fosse partilhada com a maioria da população da metrópole, também carenciada, o que produzirá uma representação negativa dos retornados como ‘privilegiados’.
O contexto de repatriamento tem revelado “um conjunto de situações que determinam a exclusão do acesso aos recursos disponíveis na sociedade recetora e à capacidade de participar plenamente nas atividades sociais. (…) O carácter subsidiário da cidadania é tanto mais enraizado quando este, não constituindo um grupo homogéneo e coeso, é incapaz de se organizar num movimento social com o objetivo de reivindicar os seus direitos específicos” (Brilhante, 2000, p. 88). A dispersão regional dos retornados, quando a maioria regressa às terras de origem, facilitou o contacto intergrupal, mas impossibilitou a coesão do grupo minoritário, bem como a satisfação das suas reivindicações.
As normas sociais favoreceram o igualitarismo intergrupal, sendo os repatriados “filhos de Portugal”, “nossos irmãos”; o contacto intergrupal intenso permitiu que os grupos se conhecessem e cooperassem, especialmente ao nível familiar e comunitário; e a perceção das características do exogrupo, “trabalhadores” e “dinâmicos”, não confirmou os estereótipos atribuídos a esse grupo, fatores que contribuíram para a mudança dos estereótipos e para uma integração rápida e pacífica. Todavia, nos primeiros tempos de integração, os retornados foram alvo de preconceito.
O preconceito pode ser entendido como “atitude negativa em relação a grupos desfavorecidos e aos seus membros, enquanto a discriminação é o comportamento injusto ou tratamento desigual relativamente a outros, com base na pertença a um grupo ou evidência de algum traço arbitrário” (Dion, 2002, p. 2).
Na perspetiva da vítima, ou alvo do preconceito, o fenómeno produz efeitos negativos: stress e sintomas psicológicos ou psiquiátricos. “Os que se encontravam em situação de preconceito revelavam mais comportamentos agressivos, tristeza, ansiedade e menor autoestima” (idem, p. 4). A suscetibilidade individual é variável, de acordo com
capacidades intrínsecas de resposta positiva e de superior consciência de si próprio. Para alguns grupos, ou indivíduos dentro desses grupos, o preconceito pode oferecer uma oportunidade para reforçar a autoestima, em resposta ao feedback negativo da maioria ou dos membros do grupo dominante. “A consciência do preconceito e da discriminação também contribui para a dinâmica da ação social corretiva, como o protesto e a militância e correspondentes respostas coletivas” (idem, p. 9). A reação positiva traduz-se num superior laço comunitário com a minoria alvo de preconceito, num crescente sentimento de pertença e de identidade, por oposição ao outro: “em vez de se afirmar uma identidade pela imaginação, a identidade é aqui construída pela negação, através da diferenciação mútua entre duas comunidades” (Scudder, 2009, p. 6). No repatriamento dos pieds-noirs, a dinâmica associativa, de contestação, de encontro ou cultural, conjetura uma resposta positiva de estreitamento de laços no grupo minoritário, não se verificando, principalmente nos primeiros anos de integração, interação significativa com o grupo dominante que os recebeu de forma pouco calorosa. Ainda hoje “os pieds-noirs revelam uma solidariedade excessiva e quase exclusiva que se manifesta no quotidiano pela procura do médico repatriado, do padeiro repatriado, do dentista repatriado (…) com o qual podem (…) evocar o passado” (Jordi, 2002, p. 21).
Nos retornados esse regresso ao passado parece ocorrer principalmente nos núcleos familiares, observando-se uma aparente integração plena no grupo de acolhimento. No entanto, os efeitos negativos de stress ou os sintomas psicológicos e psiquiátricos associados à receção hostil, tendo sido alvo de estereótipos e de preconceito, não foram ainda explorados, assim como a influência na sua integração.
A formação do preconceito, como fenómeno ligado aos conceitos de cultura e de valores sociais e culturais parece óbvia: “valores sociais, em seu conjunto e na sua variedade, são assim os reguladores da existência de uma coletividade humana. Se representam características gerais de adaptação atualizada da considerável maioria da massa humana, realizam estados de equilíbrio duradouro e assegurado” (Veiga, 1949, p. 47). Os valores que regem, consciente ou inconscientemente, uma sociedade definem o ‘bem’ e o ‘mal’ e “se as oposições binárias são uma forma de simplificação, elas não se podem reduzir a este efeito: constituem um processo universal fundamental da produção
de sentido” (Sousa, 2003, p. 73) que aparta o socialmente aceitável do marginal, induzindo ao preconceito. “São as pequenas pedras que estruturam solidamente, por combinação organizada, os grandes edifícios” (Veiga, 1949, p. 110).
A cultura e os valores sociais dominantes são quase sempre impostos por uma maioria, o que nos conduz novamente ao conceito de eurocentrismo. A cultura europeia, dita moderna e mais esclarecida, especialmente a partir do grito revolucionário “Liberté,
fraternité et égalité”, defendido na Revolução Francesa, de 14 de Julho de 1789, tem-se
afirmado como um modelo de desenvolvimento humano, porém, curiosamente, “na Europa, o processo que levou à formação de estruturas de poder configuradas como Estado-nação, começou com a emergência de alguns poucos núcleos políticos que conquistaram o seu espaço de domínio e se impuseram sobre os diversos e heterogéneos povos e identidades que o habitavam” (Quijano, 2003, p. 227).
Intrinsecamente ligado ao eurocentrismo, o conceito de modernidade, numa perspetiva de saída da Humanidade de um estado de imaturidade regional ou provinciana, pode perversamente conduzir, ao denominado ‘mito da modernidade’, descrito no capítulo anterior, compreendido e aceite como justificação para uma praxis irracional de violência. “É a atitude mental de preconceito, com raízes numa visão eurocêntrica e ocidentalizada, que determina o indivíduo para a ação, não pelo conhecimento exato dos factos, mas pela convicção sentimental de que a realidade corresponde perfeitamente à situação do seu agrado, por ele imaginada e de que se sente completo senhor” (Veiga, 1949, p. 53). O preconceito no pensamento (ideologismo), na expressão (verbalismo) ou na ação (formalismo) resulta de um processo mental complexo e repleto de “induções incompletas e das deduções puramente abstratas, sem ulterior comprovação objetiva” (idem, p. 16).
Nos repatriamentos dos retornados e dos ‘pieds-noirs’ o preconceito das sociedades metropolitanas, modernas e eurocêntricas, conduz à rejeição, nos primeiros anos, de grupos de colonos ricos, grandes proprietários e exploradores dos povos indígenas, associados a um passado colonial que se pretende apagar.
Conclui-se que os conceitos de representação social, de preconceito e de estereótipo e, por inerência, o de eurocentrismo, se entrecruzam em contextos sociais e
em percursos individuais: a visão do eu e do outro é profundamente marcada por distinções e hierarquizações, coletivas e pessoais. A cristalização de estereótipos e o fenómeno do preconceito no indivíduo parecem advir de meras representações sociais que este aceita como verdades (in)questionáveis.
Os processos de mudança, em valores e atitudes sociais, caracterizam-se pela lentidão e morosidade, enquanto dependentes de toda uma cadeia social e comunicativa complexa: hesitação e reformulação na visão dominante, seguida de mudança nos estereótipos e, finalmente, de eliminação do preconceito. “Uma das sérias dificuldades que tem de vencer tanto o progresso em geral, como a acuidade de espírito, para fazerem penetrar numa sociedade qualquer descoberta subtil ou mera noção nova, como bem já notara Goethe, no começo do passado século, em suas conversas com Eckermann, é a impropriedade da linguagem tradicional para traduzi-las. E observava que tanto mais grave o problema, quanto mais consumada, estruturada e cristalizada ou imobilizada a língua” (Veiga, 1949, p. 119). É nesta discussão, sobre representações sociais e sua interação na linguagem, que se centra a secção seguinte.