CAPÍTULO II – DA TUTELA JURÍDICA DO SOFTWARE
35. REQUISITO FORMAL NO CDADC
No Direito Civil vigora, como referimos, o princípio da autonomia privada (cf. art. 219º do CCivil) embora
com certos desvios, nomeadamente, nos casos em que é exigida a observância de determinada forma como condição de validade do negócio jurídico, ao qual chamamos de negócio formal, em oposição ao negócio consensual para o qual se dispensa outro tipo de solenidade para além do consenso das partes.
No caso concreto da autorização de utilização do bem intelectual, conforme o disposto no n.º 2 do art. 41º do CDADC, esta só pode ser concedida por escrito, logo, estamos perante um negócio jurídico formal.
Efetivamente, o legislador fez pender a validade do negócio de autorização no requisito de forma, no entanto, nada disse quanto à sua inobservância, pelo que importa, como veremos adiante, a verificação de se
tratar de uma formalidade ad substantiam ou uma formalidade ad probationem, i.e., se estivermos perante uma
autorização que não obedeça àquela imposição, estamos perante uma autorização nula por vício de forma? É o que veremos. Independentemente das conclusões a que chegaremos, seguro será afirmamos que a autorização de utilização do bem intelectual é, via de regra, um negócio formal.
Quanto ao específico contrato de edição, enquanto contrato pelo qual o titular do direito de ator sobre uma obra concede ao editor o exercício das faculdades compreendidas em tal direito e o editor se obriga, por conta
própria, à reprodução da obra e distribuição de exemplares194, nos termos do disposto no art. 87º n.º 1, o mesmo
só tem validade quando celebrado por escrito, presumindo-se a nulidade, atípica, resultante da observância do
191Cf. OBSERVATÓRIO E FÓRUM DA UE PARA A TECNOLOGIA DE CADEIA EM BLOCOS (BLOCKCHAIN) – Blockchain and Digital Identity. [Em linha]. [consult.2. janeiro.2020]. Disponível na https://www.eublockchainforum.eu/sites/default/files/report_identity_v0.9.4.pdf
192COM (2018) 237 final.
193Cf. Considerando (3) da Diretiva (EU) 2019/1024 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 20 de junho de 2019 relativa aos dados abertos e à reutilização de informações do setor público (reformulação).
requisito formal imputável ao editor, invalidade apenas invocável pelo autor (cf. n.º 2 daquele preceito). Também aqui estamos perante um negócio formal.
Efetivamente, o contrato de edição pressupõe uma autorização do titular de direitos sobre a obra com vista à sua exploração económica com as menções mínimas estabelecidas no art. 86º e que só tem validade quando for celebrado por escrito, o que mais não é que uma reprodução da regra geral plasmada no art. 41º n.º 2. Não obstante, o contrato de edição não se encontra sujeito a quaisquer outras formalidades como o registo, pelo que se aplica a regra geral do art. 213º segundo a qual “o direito de autor, e os direitos deste derivados, adquirem-se independentemente de registo”.
Do mesmo modo, os contratos de representação, de recitação e execução por instrumentos e de produção
cinematográfica estão sujeitos à forma escrita, tal como previsto nos arts. 109º n.º 2, 121º n.º 2 e 87º n.º 1 ex vi
do art. 139º n.º 1. O mesmo sucede quanto ao contrato de fixação fonográfica e videográfica (art. 141º n.ºs 2 e 3), quanto à autorização para radiodifusão sonora ou visual da obra e outros processos de difusão (art. 87º n.º
1 ex vi do art. 156º n.º 1), à criação de artes plásticas, gráficas e aplicadas (art. 159º n.º 2), bem como quanto à
tradução e outras transformações (art. 169º n.º 2).
Assim, segundo o regime do contrato de edição, aplicável a outras formas de autorização de utilização (arts. 139, 147, 156, 172º), a validade deste contrato depende da sua redução a escrito, sob pena de nulidade, ou seja, o regime legal do protótipo das autorizações de utilização institui a exigência de forma escrita como
formalidade ad substantiam, não enquanto requisito probatório, sob pena de invalidade do negócio195.
Resulta do exposto que, quer estejamos no regime geral, quer estejamos numa autorização nominada, o legislador impôs o requisito formal como condição de validade do contrato de licença.
Um aspeto generalizado na doutrina quanto aos vários contratos de direito de autor é o de que se tratam de
negócios formais196, não valendo para estes a regra do artigo 219.º do CCivil. Os contratos de direito de autor
quer se tratem de transmissões, onerações ou licenças, devem ser sempre reduzidos a escrito. Regra que decorre dos artigos 41.º n.º 2, 43.º n.º 2 e 44.º, todos do CDADC, onde o grau de exigência aumenta consoante o ato de disposição em causa. Daqui resulta a solenidade como traço comum aos vários atos de disposição do conteúdo patrimonial do direito de autor.
Segundo BESSA197, o facto de o legislador ter inserido esta exigência na parte geral do direito contratual
de autor indica que as licenças inominadas têm de seguir esta forma, não podendo ser atribuídas sem ser através de documento escrito. Já no caso das licenças nominadas, previstas na parte especial do CDADC, é o próprio regime de cada uma que acaba por determinar o seu caráter formal, pelo que a norma genérica do artigo 41.º n.º 2 apenas reforça a sua formalidade.
Com efeito, as licenças de exploração da obra assumem, via de regra, a forma escrita, sendo nestes termos
um negócio solene, não obstante, a este propósito levantam-se algumas questões198.
195 DIAS PEREIRA, Alexandre Libório – Direitos de autor e liberdade de informação. p. 449.
196 MOTA PINTO, Carlos - Teoria Geral ... op. cit. p. 392; VICTÓRIA ROCHA, Maria - Questões de Forma nos Contratos e Exploração de Direitos de Autor e Direitos Conexos em Portugal. pp. 769-795.
197 BESSA, Tiago - Direito... op. cit. pp. 1152, 1184-1185.
198Cf. AKESTER, Patrícia - Código do direito de autor... op. cit. p. 124. Nos termos do n.º 2 do artigo 41.º do CDADC, as exigências de forma só se aplicam às autorizações previstas no n.º 1 que apenas se refere às autorizações para divulgar, publicar, utilizar ou explorar a obra. Indagaríamos se a exigência de forma é apenas para estes casos ou se também deve abranger outras licenças. Ainda assim deixamos este tema para mentes mais eruditas.
Aludimos ao facto de as autorizações de utilização de direito de autor estarem sujeitas a uma regra de
interpretação restritiva (in dubio pro auctore). As licenças de direito autoral são negócios formais devendo
constar das autorizações escritas as utilizações consentidas e condições, bem como local e preço (art. 41º n.º 3). Deste modo, e enquanto contratos formais, a declaração de vontade não pode ter um sentido que não tenha um mínimo de correspondência nas palavras do documento, ainda que imperfeitamente expresso, a menos que corresponda à vontade real das partes e as razões de formalização do contrato não se lhes oponha (art. 238º do
CCivil)199.
36. REGIME ESPECIAL PARA OS PROGRAMAS DE COMPUTADOR
Como vimos, no RJPC não encontramos qualquer disposição sobre a formação, a forma ou requisitos de eficácia do contrato de licença. Nessa medida, aplicamos, supletivamente as disposições gerais que regulam os
contratos, nomeadamente o princípio da liberdade formal (art. 219º CCivil ex vi do art. 11º n.º 1 do RJPC),
caso não se verifique uma disposição que regule o disposto no regime com que ofereça semelhanças ao concreto conteúdo de cada licença.
Ora, o maior significado do referido preceito legal está no que ele não diz e se conclui por via de
interpretação a contrario: ao remeter para os referidos artigos do CDADC, e apenas para esses, a lei afasta
tacitamente a aplicação dos restantes preceitos do CDADC relativos a negócios de disposição de direito de autor.
No que às licenças de software diz especificamente respeito, merece destaque o afastamento do regime
das autorizações de utilização previsto nos artigos 41º e 42º, especialmente a obrigação de forma escrita bem como da especificação de certos aspetos de conteúdo.
Será entendimento firme da lei só permitir a aplicação das normas do CDADC ao software nas situações
aí previstas. Contudo, embora se afigure muito difícil definir à partida a totalidade das regras de natureza jurídico-autoral aplicáveis aos programas de computador, parece claro que a lei pretende afastar os referidos
preceitos do CDADC200.
Relativamente às autorizações de utilização do programa de computador, enquanto negócios atípicos livres
da exigência formal201, uma vez que o n.º 2 do art. 11º do RJPC remete expressamente para determinados
preceitos do CDADC excluindo explicitamente aquele art. 41º, uma vez compulsado aquele artigo, somos da convicção que esta disposição não lhes é aplicável, logo, o caráter formal dependerá do regime aplicável ao contrato em que a concreta autorização sobre o bem informático ofereça maior analogia.
É exigida forma escrita para as licenças de propriedade industrial (art. 32º n.º 3 CPI)202 e para as
autorizações de direito de autor (art. 41º 2), enquanto desvio ao princípio geral da liberdade de forma. Todavia, a jurisprudência só para as primeiras pondera tratar-se de requisito de validade, pois que para as segundas
199 Neste sentido DIAS PEREIRA, Alexandre Libório – Direito da Propriedade Intelectual… op. cit. pp. 258, 259. 200 DIAS PEREIRA, Alexandre Libório – Direito da Propriedade... op. cit. pp. 257-258, 400-401.
201 PAIS DE VASCONCELOS, Pedro – Teoria Geral ... op. cit. p. 630.
202 Ac. do STJ de 15.5.2013, no âmbito do proc. n.º 7860/06, em que é relator Dr. Gregório Silva Jesus considera uma formalidade
ad susbtantiam. De modo diverso vd. ac. do TRL de 5.5.2011, no âmbito do proc. n.º 975/09.4TYLSB-A.L1-2, em que é relator Dr. Vaz Gomes.
entende ser mera formalidade probatória203. Por outro lado, no que respeita especificamente às licenças de
software, o RJPC, a nosso ver, exclui, por argumento a contrario, a exigência de forma escrita.
Portanto, o contrato relativo à autorização de utilização do software (livre) não deve revestir a forma
exigida para os contratos de bens intelectuais tipificados no código.
De facto, o contrato em questão foi construído a partir do tipo social do contrato de licença, logo, não deve a exigência legal de forma escrita ser aplicada ao contrato em questão. A licença de software livre, enquanto contrato de licença de uso de bem incorpóreo, é um contrato legalmente atípico, embora socialmente típico, sem, no entanto, beliscar a autonomia privada e sem termos de admitir a nulidade formal. Qualquer solução conducente à nulidade do contrato esbarra com a vontade negocial das partes e sacrifica a autonomia privada
e o princípio do favor negotti.
Por força dos princípios da legalidade e da segurança jurídica, a introdução de exceções é da competência do legislador, pelo que na ausência de uma previsão legal específica a autorização de utilização de software (livre) não está sujeita a qualquer requisito formal. Ora não sendo esse requisito especialmente previsto, não
poderia o intérprete impor tal formalidade na lei do software. Se o direito de autor português regula
determinadas matérias, assumindo que não lhe falta, ao legislador, competência para o efeito, a partir desse momento o intérprete perde autonomia para criar normas (requisitos) que contrariem o disposto pelo direito português. Dá-se, por assim dizer, um efeito de preempção de correspondências, a criação de uma exceção (requisito) formal para a autorização de utilização seria tarefa do legislador, cabendo-lhe igualmente definir os respetivos termos de regime. O que sucederia justamente através daquele artigo 11º da lei especial.
Nestes termos, concluímos que o contrato relativo à autorização de utilização do software (livre) não deve
revestir a forma exigida para os contratos de bens intelectuais tipificados no código, i.e., não está sujeito à forma escrita.
Na mera hipótese académica de considerarmos que aquela autorização de utilização deva revestir forma especial, a questão que se coloca é a de sabermos se pode ser provada por confissão, ou seja, se o requisito formal pode ser verificado por outro meio de prova.