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CAPÍTULO II – DA TUTELA JURÍDICA DO SOFTWARE

20. TIPOLOGIA DO BEM INTELECTUAL

Para percebermos toda a implicação do direito à defesa da integridade do bem intelectual devemos analisar o regime do exercício de direitos sobre o programa de computador enquanto eventual obra em colaboração.

Embora a lei de autor portuguesa faça assentar num tronco comum a caracterização das obras coletivas e das obras em colaboração enquanto criações de uma pluralidade de sujeitos (art. 16º n.º 1), não as confunde. Aquelas por serem divulgadas ou publicadas em nome de uma entidade singular ou coletiva por cuja iniciativa são organizadas. Estas por serem divulgadas ou publicadas em nome dos colaboradores ou de alguns deles.

Na obra coletiva, uma entidade estranha aos criadores dos contributos individuais organiza e patrocina estas contribuições em prol de um resultado único com expressão formal criativa. Já o mais característico das

obras em colaboração é a iniciativa e organização criativa conjunta por uma pluralidade de sujeitos, com concertação criativa.

Ora, estamos perante uma obra coletiva se “organizada por iniciativa de entidade singular ou coletiva e

divulgada ou publicada em seu nome” [art. 16º n.º 1, al. b) ex vi do art. 3º n.º 1 do RJPC]. Com laconismo,

podemos dizer que coletiva é a obra realizada no âmbito da uma empresa, cabendo assim o direito ao respetivo empresário, seja ele uma entidade individual ou coletiva.

Neste tipo de bem jusautoral, a empresa surge como titular originário do direito de autor, apenas sendo atribuído direitos autónomos sobre certos componentes da obra se, em relação aos mesmos, for possível discriminar as contribuições individuais de pessoas determinadas (art. 19º n.ºs 1 e 2). A lei de autor admite, no entanto, o exercício individual dos direitos por parte dos participantes, desde que esse exercício não possa prejudicar a exploração da obra coletiva, tal como sucede para a obra em colaboração.

De modo especial, o programa de computador realizado no âmbito de uma empresa presume-se obra coletiva (art. 3º n.º 2 do RJPC). Já quando desenvolvido por empregado no exercício das suas funções, ou seja, fruto da sua relação laboral, “ou segundo instruções emanadas do dador de trabalho, ou por encomenda” pertencem ao destinatário do programa os direitos a ele relativos, salvo estipulação contrária ou se outra conjuntura resultar das finalidades contratuais (art. 3º n.º 3 do RJPC).

A obra em colaboração constitui uma modalidade especial de obra realizada por uma pluralidade de pessoas, a qual se contrapõe à obra coletiva. A situação jusautoral relativa às obras em colaboração tem origem material, não negocial. É a coautoria, entendida em sentido próprio, que justifica a determinação de alguns dos princípios que norteiam o regime de exploração deste tipo de obra, designadamente, a indissolubilidade da comunhão originária.

Se pensarmos no regime das obras em colaboração, considerados os poderes que integram a esfera jurídica dos colaboradores, parece-nos claro que a conceção que melhor se coaduna à posição jurídica destes é a que os vê como titulares de direitos que coexistem com o mesmo objeto considerando a obra em colaboração no seu todo. Nos termos do art. 17º n.º 2, estes direitos são legalmente “presumidos de igual valor” e limitam-se entre si. Deste modo, o direito de autor cabe ao conjunto de colaboradores, cotitulares em regime de comunhão sobre bem intelectual único e distinto dos contributos que o integram (art. 17º n.º 1 e arts. 1404º e 1405º n.º 1 do CCivil). Então, a titularidade do direito de autor na obra em colaboração na sua unidade pertence originariamente ao conjunto de todos os colaboradores, na medida em que o título constitutivo da comunhão de direitos é o ato material da própria criação exteriorizada. São cotitulares do direito de autor todos os que a criem em concertação de iniciativa e de ação.

Sem embargo, não podemos tomar a coautoria – enquanto imputação da paternidade da obra aos colaboradores – pela titularidade do direito de autor que lhes pertence originariamente em comunhão. A comunhão originária de direito na obra em colaboração, que justifica que o direito de autor se constitua em contitularidade na pessoa dos coautores, pressupõe que este permaneça indiviso em comunhão.

Por conseguinte, a atribuição originária do direito de autor, ou das faculdades neste compreendidas a terceiros deverá compreender a transferência da globalidade de direitos na comunhão por ato conjunto dos colaboradores.

Ainda que a obra feita em colaboração resulte de diversos atos de criação de vários autores, estes conjugam-se para a formação de uma única obra. Deste modo, a obra feita em colaboração atribui o direito de

autor, na sua unidade, a todos os que nela tiverem colaborado, aplicando-se ao exercício em comum desse

direito as regras da compropriedade (art. 17º nº 1), nomeadamente, as disposições dos arts. 1403º e ss. do

CCivil, das quais resulta que, em princípio, os litígios entre os titulares devem ser resolvidos pela maioria das quotas (art. 1407º n.º 1).

Presume-se, salvo declaração escrita em contrário, que são de valor igual as partes indivisas dos autores na obra feita em colaboração (art. 17º n.º 2). No entanto, se a obra feita em colaboração for divulgada ou publicada apenas em nome de algum ou alguns dos colaboradores, presume-se também, na falta de designação explícita dos demais em qualquer parte da obra, que os não designados cederam os seus direitos àquele ou àqueles em nome de quem a divulgação ou publicação é feita (art. 17º n.º 3).

Certos autores96 entendem estarmos perante uma presunção ilidível nos termos do art. 350º n.º 2 do CCivil).

Contudo, devemos atender ao facto do exercício individual dos direitos pelos autores se encontrar subordinado à exploração comum, não podendo aquele prejudicar esta.

Como vimos, enquanto a já citada disposição do art 17º n.º 1 prevê o exercício destes direitos em regime

de cotitularidade segundo as regras da compropriedade (arts. 1403º e ss. – máxime art. 1404º – todos do

CCivil), o art. 18º n.º 1 remete a resolução de litígios entre os colaboradores – também quanto ao exercício de direitos na obra no seu todo para as regras da boa-fé.

Não obstante esta aparente contradição, a exploração da obra em colaboração no seu conjunto segue, com as devidas adaptações, o regime geral de administração da coisa comum na indivisão, nomeadamente, os poderes de exploração da obra em colaboração na sua unidade cabem originariamente a todos os coautores (art. 17º n.º 1 do CDADC e arts. 1407º n.º 1 e 985º n. º1 do CCivil).

Sem descurar, a lei de autor portuguesa estabelece o recurso à boa-fé (art. 18º n.º 1) como critério geral para a solução de litígios quanto à exploração da obra em colaboração.

Ora, as obras em colaboração são obras criadas por várias pessoas, quer sejam divulgadas em nome de uma delas, de várias ou de todas, possam ou não se discriminar nelas os contributos individuais [art. 16º n.º 1, al. a)].

O direito de autor nas obras em colaboração, consideradas no seu todo, pertence originariamente a todos os coautores e exerce-se segundo as regras da compropriedade (art. 17º n.º 1). Se divulgada apenas em nome de alguns colaboradores, presume-se que os não designados como colaboradores cedam os seus direitos aos demais, renunciando ao exercício dos seus direitos, ainda que tal ato seja revogável. (art. 17º n.º 3).

O prazo de vigência do direito de autor conta-se a partir da morte do colaborador, que ainda seja titular do direito porque não o cedeu, que falecer em último lugar, ou seja, daquele, entre os que assumiram a paternidade da obra, que morrer em último lugar, e dura até 70 anos depois (arts. 31º e 32º n.º 1 do CDADC e art. 36º do RJPC). O prazo de proteção do direito de autor sobre as contribuições criativas individuais na obra em colaboração que sejam discrimináveis segue a regra geral, contando-se o prazo separadamente para cada uma, por aplicação analógica do art. 32º n.º 3.

Sem embargo, as obras em colaboração também não comungam da estrutura genética das obras coligadas. Nas situações de coligação de duas ou mais obras criadas com independência, há uma “conexão” para uma utilização conjunta que tem origem voluntária.

Por outro lado, quando duas ou mais pessoas se concertam para criar uma obra, colaboram na produção do resultado final único, onde a concertação criativa para um resultado unitário revela-se elemento essencial das obras em colaboração.

A obra em colaboração distingue-se, assim, quer da conexão de obras quer da obra coletiva, pelo facto de ser a única em que a iniciativa empreendimento e organização são verdadeiramente “de uma pluralidade de sujeitos”. A única das três em que podemos com propriedade falar de criação plural, de concertação criativa,

que o espírito do software livre tanto almeja.

Importa ainda uma breve distinção entre obra compósita e obra derivada.

Nos termos do n.º 1 do art. 20º, é compósita a obra “que incorpore, no todo ou em parte, uma preexistente, com autorização, mas sem a colaboração do autor desta”, ou seja, quando se incorpora em obra própria obra alheia preexistente.

O direito de autor na obra compósita pertence exclusivamente ao que incorpora outra obra na sua, “sem prejuízo dos direitos do autor da obra preexistente” (art. 20º n.º 2).

A obra compósita distingue-se da obra derivada, porque nesta há uma efetiva transformação da obra original, enquanto na obra compósita ocorre apenas a incorporação de uma outra obra, sem que a original seja de algum modo transformada. Naturalmente que a incorporação só será permitida, em relação a obras protegidas, se existir autorização do autor da obra a incorporar.

A obra derivada é elemento diferente. Nesta, confronta-se uma transformação de uma obra preexistente,

v.g., pela tradução, para a criação de obra nova [art. 3º n.º 1, al. a)], coexistindo o direito do autor que cria a

obra derivada e o do autor da obra original transformada ou compilada.

A obra derivada é, então, a que resulta da transformação de uma obra pré-existente, a qual pode ou não ser uma obra protegida, tendo em qualquer caso um grau de criatividade inferior ao da obra original.

Como a proteção conferida à obra derivada não prejudica os direitos reconhecidos ao autor da correspondente obra original (art. 3º n.º 2), exige-se naturalmente ao autor da obra derivada a autorização do autor da obra preexistente.

Efetivamente, entre as faculdades atribuídas ao autor da obra, encontramos a de permitir a criação de obras derivadas a partir desta. Tal é expressamente reconhecido para várias categorias de obras derivadas no art. 169º. O autor da obra preexistente pode ainda exercer perante o autor da obra derivada os direitos morais de revindicar a paternidade da obra preexistente e assegurar a genuinidade e integridade (art. 56º). Assim, o art. 169º n.º 3 estabelece o dever de o beneficiário da autorização respeitar o sentido da obra original, acrescentando o n.º 4 que só podem ser introduzidas modificações que não desvirtuem a obra.

Do mesmo modo, tratando-se de obra protegida, os direitos concedidos sobre a obra derivada em nada prejudicam os direitos reconhecidos aos autores da correspondente obra original (art. 3º nº 2). De facto, os direitos existentes sobre a obra anterior apenas são afetados na medida da autorização concedida para a criação da obra derivada, podendo o autor daquela continuar a fazer livre utilização da obra preexistente para outros fins.

Complexa é a questão de saber se o software livre – aqui amplamente entendido como livre ou de código

Consabidamente, os programas de computador beneficiam de “proteção análoga à das obras literárias” (art. 1º n.º 2 do RJPC), logo, gozam de proteção nos termos gerais de direito de autor (art. 3º n.º 1 do mesmo diploma). Contudo, se desenvolvido no âmbito de uma empresa, presume-se obra coletiva (art. 3º n.º 2 RJPC). Neste seguimento, se o programa de computador for obra coletiva e o direito for originariamente atribuído a pessoa coletiva este extingue-se 70 anos após a divulgação (art. 36º n.º 2). Se for obra de um criador singular,

o direito caduca 70 anos após a morte do criador (art. 36º n.º 1 do CDADC)97.

Ainda que, numa versão final seja claramente obra derivada, o software livre mostra-se figura distinta,

pelo que sugerimos uma análise mais profunda ao desenvolvimento deste específico bem informático. De facto, o programa de computador livre socorre-se do método colaborativo para o seu aperfeiçoamento e acabamento onde o titular coloca umas linhas de código disponíveis em rede para a colaboração dos utilizadores no desenvolvimento do programa. Seria, assim, tentador considerarmos o programa de computador enquanto obra em colaboração e as suas alterações obras derivadas.

Ora, o software livre pauta-se pela transformação imediata, global e constante com a inserção de linhas de

código por utilizadores a uma escala mundial, pelo que impera a questão de sabermos se efetivamente se trata de uma obra original terminada ou se obra em constante desenvolvimento.

Aqui chegados, propendemos para considerar o software livre (e de código aberto), pela natureza do objeto,

uma obra em colaboração suis generis.