Desafios jurídicos quanto ao desenvolvimento e à aplicação das iniciativas de sustentabilidade para biocombustíveis
ISO 13069 Orientar a produção
5.1.3. Aspectos técnicos que devem ser juridicamente abordados pelos esquemas de verificação e certificação da sustentabilidade dos biocombustíveis
5.1.3.2. Requisitos Específicos
5.1.3.2.3. Requisitos Ambientais
a) Redução das emissões de Gases de Efeito Estufa
O principal benefício ambiental associado à produção e ao uso de biocombustíveis está associado à capacidade dessas fontes alternativas em reduzirem as emissões de GEE quando comparadas ao seu equivalente fóssil.
Nesse sentido, é essencial que as iniciativas de sustentabilidade para biocombustíveis apresentem um requisito técnico referente ao tema. O objetivo legítimo para a imposição desse requisito técnico é o combate ao aquecimento global. As normas motivadoras são a CQNUMC e o Protocolo de Quioto.
Em tese, há um nexo causal entre esses requisitos e o objetivo buscado, uma vez que as mudanças climáticas fundamentam os riscos temidos pelos países, bem como pelo fato de que os biocombustíveis são fontes de energia renovável e podem contribuir para a redução das emissões de GEE.
Vale destacar, ainda, que os requisitos quanto à redução das emissões de GEE não devem ser desenvolvidos de forma discriminatória, devendo apresentar o mesmo tratamento para produtos similares.
Há de se ter atenção especial quanto ao rigor da medida. Alguns estudos anteriores para a estimativa das emissões devidas a ILUC prejudicaram a produção do etanol de cana- de-açúcar no Brasil e, eventualmente, poderiam dar vantagem a outros biocombustíveis não tão favoráveis ao combate ao aquecimento global. Isso se deveu principalmente à limitação dos modelos econômicos utilizados e às hipóteses consideradas na modelagem. Essa característica pode desconfigurar o nexo causal da medida.
É possível que, com base no princípio da precaução (consagrado pelo direito internacional do meio ambiente), haja a imposição de default values conservadores. Isso quer dizer que, ainda que reconhecida a incerteza científica, é possível que, em razão da necessidade de precaução, sejam adotados os menores valores já estimados para a contabilização das emissões relacionadas a ILUC, desde que estes não sejam, em consenso, considerados absurdos20.
Por essa razão, é essencial que os modelos para a contabilização das emissões de GEE associadas à produção de biocombustíveis sejam desenvolvidos através de uma abordagem científica que inclua todo a ciclo de vida dos biocombustíveis e que seja capaz de se adaptar as peculiaridades de cada caso concreto.
b) Conservação da Biodiversidade
A biodiversidade, que hoje está presente na agenda da comunidade internacional, consiste em uma das propriedades fundamentais da natureza responsável pelo equilíbrio e a estabilidade dos ecossistemas, e fonte de imenso potencial econômico. A biodiversidade pode ser definida como a diversidade das formas de vida, os papéis ecológicos que desempenham a diversidade genética que contém, abrangendo a genética, as espécies, os habitats e a paisagem (GRANZIERA, 2011, P. 141).
A proteção da biodiversidade se destaca por ser uma preocupação atual e complexa, que envolve várias divergências entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento. O principal foro internacional sobre a proteção ambiental é a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB). As últimas decisões no âmbito da Convenção ocorreram na Coréia do
20 Os default values são a abordagem mais simples. Alguém calcula, baseado no melhor conhecimento
Sul, em outubro de 2014, através da COP 12. O tema referente aos biocombustíveis também foi abordado pelo evento, uma vez que a CDB reconhece que a produção de bioenergia deve ser capaz de reduzir as emissões de GEE e de fomentar o desenvolvimento econômico e social próximos ao local de produção, sem promover a degradação à biodiversidade.
Nesses termos, a CDB entende que a produção e o uso de biocombustíveis podem ter efeitos positivos e negativos em relação à proteção da biodiversidade. A COP 12 determinou que é dever das Partes desenvolver e implementar políticas que promovam os impactos positivos e minimizem ou evitem os impactos negativos relacionados aos biocombustíveis (COP 12, 2014).
A CDB reconhece também a competência da legislação nacional em identificar as áreas apropriadas para a expansão da produção de biomassa, bem como em classificar as áreas ambientalmente protegidas, de acordo com os seguintes requisitos: (a) os terrenos ricos em biodiversidade, (b) os ecossistemas em estado crítico e (c) os territórios vinculados ao desenvolvimento econômico e social das comunidades locais e dos povos indígenas (COP 12, 2014).
Por essa razão há apenas duas ferramentas cabíveis aos programas de sustentabilidade quanto à proteção da biodiversidade: (a) exigir que os países Partes cumpram o que foi acordado no âmbito da CDB e, dessa forma, (b) determinar que a produção de biocombustíveis não ocorra sobre áreas sensíveis e sobre terrenos ambientalmente protegidos pela legislação interna do país produtor.
c) Água
A água, considerada o bem mais precioso do século XXI, está ameaçada de escassez, em escala mundial, o que constitui um dos principais problemas da atualidade. A distribuição de água no mundo, longe de ser homogênea, evidencia a necessidade de políticas nacionais e internacionais de gerenciamento, racionalidade e controle de seu uso (GRANZIERA, 2011, p. 257).
Além de ser essencial a todos os serviços ecossistêmicos e seres vivos, a água é um recurso indispensável ao crescimento de qualquer tipo de biomassa. No que concerne à
produção de bicombustíveis líquidos baseados em culturas agrícolas, a água desempenha um papel central em todas as etapas da produção (FACHINELLI, 2013, p. 28).
Vale ressaltar que durante a fase industrial, a captação de água e a disposição de efluentes têm diminuído substancialmente ao longo dos últimos anos a partir da adoção de prática sustentáveis pela indústria sucroalcooleira, tais como: reutilizações, fechamentos de circuitos e redução da lavagem da cana.
Já a fase agrícola é responsável pela maior demanda hídrica da cadeia produtiva dos biocombustíveis, devido à grande quantidade de água evapotranspirada pelas culturas.
Os princípios, critérios e indicadores relacionados ao tema da água devem ter como preocupação o comprometimento quantitativo e qualitativo dos recursos hídricos ao longo de toda a cadeia produtiva dos biocombustíveis. Isso porque a crescente demanda por biocombustíveis leva a uma expansão de áreas para o cultivo de culturas energéticas e, consequentemente, ao uso de grandes quantidades de água para a produção da biomassa (FACHINELLI, 2013, p. 29).
Quanto aos impactos na qualidade hídrica, esses estão relacionados a descargas de efluentes e ao uso de fertilizantes e químicos pelas indústrias dos biocombustíveis. Por isso, as culturas agrícolas devem ser monitoradas.
d) Solo
O solo é produto da desagregação das rochas da superfície da Terra. Os efeitos do sol, o resfriamento pelas chuvas e a ação dos ventos são fatores do fenômeno denominado intemperismo, responsável pela fragmentação das rochas que são reduzidas a partículas pequenas, e pela alteração das propriedades físico-químicas do solo (GRANZIERA, 2011, p. 293).
Considerando que o solo abriga ou faz parte integrante dos ecossistemas, a sua proteção diz respeito à manutenção do equilíbrio ambiental, assim como ao desenvolvimento sustentável, na medida em que o seu uso deve perpetuar-se para as gerações futuras, pois é do solo que a humanidade retira grande parte de seu sustento.
O uso de fertilizantes e agroquímicos na produção de biocombustíveis podem ter impactos significativos na qualidade do solo. Por essa razão, é necessário que as iniciativas
de sustentabilidade para biocombustíveis desenvolvam princípios, critérios e indicadores que demonstrem que o cultivo da biomassa tem desenvolvido mecanismos para intervir cada vez menos na qualidade do solo.
A menor utilização desses defensivos se dá a partir de procedimentos de combate a doenças focados no melhoramento genético e em métodos biológicos de controle de pragas. Já os fertilizantes são substituídos pela fertirrigação com a vinhaça, a qual reduziu significativamente a necessidade de aporte de potássio, e pela complementação com as águas do processo industrial e as cinzas das caldeiras, as quais ampliam as ofertas de nutrientes para os canaviais (BNDES, 2008, p. 189).
e) Qualidade do ar
O ar é um bem de que os seres vivos necessitam permanentemente. O lançamento de poluentes na atmosfera, em índices muito acima da capacidade natural de diluição e depuração, vem causando sérias preocupações, pois são fontes de doenças, principalmente nos centros urbanos, mas algumas vezes também em áreas rurais próximas a atividades de produção agrícola e industrial (GRANZIERA, 2011, p. 334).
O poluente atmosférico pode ser definido como “qualquer forma de matéria ou energia com intensidade e em quantidade, concentração, tempo ou características em desacordo com os níveis estabelecidos, e que tornem ou possam tornar o ar: (a) impróprio, nocivo ou ofensivo à saúde; (b) inconveniente ao bem-estar público; (c) danoso aos materiais, à fauna e flora; e (d) prejudicial à segurança, ao uso e gozo da propriedade e às atividades normais da comunidade” (Resolução CONAMA nº 5/89, artigo 1º).
A produção de biocombustíveis, principalmente através da queima prévia da cana- de-açúcar e das emissões nas chaminés das caldeiras, pode ter fortes impactos na qualidade do ar próximo ao local de cultivo da biomassa, afetando as cidades localizadas nas regiões canavieiras (RIBEIRO, 2010, p. 02).
Tanto no Brasil quanto no exterior, têm sido realizados estudos que buscam avaliar os efeitos da queimada da cana-de-açúcar na saúde da população que vive em seus arredores. Destacam-se, no Brasil, as pesquisas de Arbex et al. (2000), Cançado (2003) e Lopes & Ribeiro (2006), que indicaram que, em períodos de queima de cana, há maior
quantidade de visitas hospitalares, inalações e internações hospitalares por doenças respiratórias em cidades próximas. Nos Estados Unidos, pesquisa de Boopathy et al. (2002) também indicou aumento de tendência de hospitalizações por asma nos meses de queima de palha de cana, no Estado de Louisiana, onde a prática existe.
Por esses motivos, as iniciativas de sustentabilidade para biocombustíveis devem sempre estar atentas ao tema, prevendo que a produção de bioenergia não afete a qualidade do ar nos locais próximos ao cultivo da biomassa. A solução se dá através da mecanização da colheita (que está próxima a 75% da área colhida, no estado de São Paulo), sempre que as características de inclinação do terreno permitirem, e através da introdução de caldeiras modernas nas usinas (BNDES, 2008, p. 183).
5.2. Desafios jurídicos quanto à aplicação das iniciativas de sustentabilidade para