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Desafios jurídicos quanto ao desenvolvimento e à aplicação das iniciativas de sustentabilidade para biocombustíveis

ISO 13069 Orientar a produção

5.1.3. Aspectos técnicos que devem ser juridicamente abordados pelos esquemas de verificação e certificação da sustentabilidade dos biocombustíveis

5.1.3.2. Requisitos Específicos

5.1.3.2.2. Requisitos Econômicos

Os principais requisitos econômicos relacionados à produção de biocombustíveis fazem referência à sustentabilidade econômica e à segurança alimentar.

a) Sustentabilidade Econômica

A sustentabilidade econômica dos biocombustíveis indica que a produção ocorre de forma renovável e eficiente, havendo lucro para o produtor e melhoras no desenvolvimento econômico local, o qual deve ser usufruído por toda a comunidade próxima ao local de produção.

Os aspectos relacionados à sustentabilidade econômica na produção de bioenergia estão diretamente atrelados à aplicação de políticas macroeconômicas nacionais e

internacionais, as quais devem garantir a inserção dessas fontes energéticas sustentáveis no mercado internacional através de uma competição justa e igualitária. As medidas mais utilizadas pelos governos para o acesso de produtos agrícolas ao mercado são: subsídios à exportação e subsídios domésticos.

O principal foro internacional sobre os subsídios aos biocombustíveis é a OMC, particularmente através do artigo XVI Do GATT, do Acordo sobre Subsídios e Medidas Compensatórias (ASMC) e do Acordo sobre Agricultura (AsA). Nesse sentido, os requisitos quanto à sustentabilidade econômica dos biocombustíveis devem ser desenvolvidos em conformidade com os preceitos da OMC, particularmente no que diz respeito à transparência quanto aos subsídios recebidos.

Os subsídios à exportação são definidos pelo AsA como aqueles que estão diretamente relacionados ao desempenho exportador. O referido acordo apresenta, ainda, lista indicativa com seis tipos de medidas governamentais que se inserem nessa definição. São bons exemplos dessas medidas: (a) a venda ou exportação de estoques de produtos agrícolas a preço abaixo da média de mercado; (b) o pagamento à exportação de produtos agrícolas por meio de ações governamentais; e (c) subsídios destinados à redução dos custos com a venda dos produtos (DANTAS, 2009, p. 74):

Tais subsídios deverão ser reduzidos de acordo com os compromissos assumidos, por produtos, nas Listas de Concessões de cada Membro. A concessão de subsídios aos produtos listados é autorizada dentro dos limites anuais definidos com base no nível total de gastos orçamentários com os subsídios à exportação e na quantidade total de exportações beneficiadas por esta forma de apoio” (DANTAS, 2009, p. 74).

Já as medidas de apoio doméstico são conceituadas pelo AsA como subsídios e outras formas de pagamento ou assistência governamental concedidas aos produtores agrícolas para, por exemplo, assegurar a sua renda mínima ou garantir a segurança alimentar, dentre outros objetivos de política interna, não condicionados ao desempenho exportador (DANTAS, 2009, p. 78):

A AMS é o instrumento central do mecanismo de controle dos subsídios domésticos criado pelo AsA. Quantifica as práticas mais distorcivas, sujeitando- as aos compromissos de redução previstos na Lista de Concessões de cada Membro. (DANTAS, 2009, p. 80).

Os subsídios à exportação podem ter um papel significativo na inserção de produtos sustentáveis no mercado internacional, estimulando a inovação no combate ao aquecimento global. No entanto, há de se ter atenção ao fato de que os subsídios domésticos podem viabilizar a competitividade de uma produção não tão sustentável. Para ilustrar, pode ser citado os EUA quando subsidiavam a produção local de bioetanol, uma vez que tornavam a exportação do Brasil praticamente não competitiva, apesar das emissões de GEE evitadas serem maiores para o bioetanol da cana-de-açúcar.

Por essa razão, as iniciativas de sustentabilidade devem prever que os subsídios domésticos e os subsídios à exportação, destinados à produção e ao consumo de biocombustíveis, sejam devidamente publicados, de forma que seja indicada a natureza do benefício, seu valor, necessidade, durabilidade, nexo causal e possíveis consequências no comércio de outros Membros. É preciso, ainda, que os subsídios estejam em conformidade com os limites previstos pela Lista de Concessões de cada Membro.

b) Segurança alimentar local

O principal foro internacional sobre segurança alimentar é a ONU, particularmente por meio da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês), que a define como “a situação em que todas as pessoas, em todos os momentos, têm acesso a uma quantidade suficiente, segura e nutritiva de alimentos para satisfazer as suas necessidades dietéticas e preferências alimentares para uma vida ativa e saudável” (BNDES, 2008, p. 253). Ainda segundo essa instituição, a segurança alimentar apresenta quatro dimensões: disponibilidade, acesso, utilização e estabilidade.

A perspectiva de crescimento significativo na produção e no consumo de biocombustíveis têm aumentado os questionamentos quanto à segurança alimentar. Há preocupações quanto ao fato de que a produção de alimentos pode ser prejudicada pelos avanços na produção de bioenergia, uma vez que haveria maior competição por terras cultiváveis e por água para irrigação.

Há entendimento de que a produção de biocombustíveis em larga escala pode afetar a segurança alimentar local, particularmente de pequenos produtores e de comunidades

rurais pobres. É possível, ainda, que a competição por terras aráveis e por água traga o aumento dos custos de produção de alimentos, o que terá um reflexo no consumidor final.

Cabe ressaltar, porém, que o impacto que a produção de biocombustíveis terá na produção e oferta de alimentos varia de caso para caso e depende da matéria-prima, tecnologia utilizada e características geográficas e políticas de cada país.

As discussões em relação à produção de biocombustíveis e segurança alimentar são controversas. Não há, dessa forma, consenso científico quanto à possibilidade do cultivo da biomassa acarretar em impactos indiretos sobre a produção de alimentos.

Diante desse contexto, as iniciativas de sustentabilidade devem prever que a produção da biomassa não prejudique a produção local de alimentos. O objetivo legítimo a ser alcançado pelo referido princípio é a própria segurança alimentar. As normas que o motivam são os documentos da FAO sobre o tema.