Desafios jurídicos quanto ao desenvolvimento e à aplicação das iniciativas de sustentabilidade para biocombustíveis
ISO 13069 Orientar a produção
5.1.3. Aspectos técnicos que devem ser juridicamente abordados pelos esquemas de verificação e certificação da sustentabilidade dos biocombustíveis
5.1.3.2. Requisitos Específicos
5.1.3.2.1. Requisitos Sociais
Os principais requisitos sociais referentes à produção de biocombustíveis estão atrelados à necessidade de respeito aos direitos humanos, aos direitos trabalhistas e o acesso à terra.
a) Proteção aos Direito Humanos
O principal foro internacional sobre direitos humanos é representado pela Organização das Nações Unidas, especificamente através da Declaração Universal de Direitos Humanos. Tal documento reconhece a dignidade como direito inerente, igualitário e inalienável de todos os seres humanos e como a base para a liberdade, justiça e paz mundial. A ideia é promover o respeito universal aos direitos humanos.
Infelizmente, as atividades agrícolas, entre as quais a produção de biocombustíveis, nem sempre estão em conformidade com os direitos humanos, o que tem causado preocupações na comunidade internacional sobre o tema. As iniciativas de sustentabilidade para biocombustíveis devem se conscientizar sobre essa questão e fazer referência explícita à Declaração Universal sobre Direitos Humanos da ONU.
O princípio de proteção aos direitos humanos deve ter como objetivo legítimo justamente a promoção dos direitos humanos. A norma internacional que motiva a criação desse princípio é a própria Declaração Universal de Direitos Humanos da ONU.
Certamente, haverá causalidade entre o princípio aplicado e o objetivo proposto. Isso porque o risco temido é devidamente justificado, visto que a população local próxima ao cultivo da biomassa nem sempre tem acesso a condições humanas básicas. A imposição do referido princípio pode contribuir para eliminar ou minimizar as más condições de vida da população rural.
Vale ressaltar, ainda, que os requisitos referentes aos direitos humanos devem ser aplicados de maneira não discriminatória, isto é, devem ser equitativamente impostos a produtos similares.
Finalmente, quanto ao rigor de medida, cabe destacar que o combate às condições sociais precárias não é algo fácil de ser feito. Muitos países em desenvolvimento
reconhecem a necessidade imediata de agir, porém nem sempre têm as condições necessárias para combater as suas desigualdades sociais. A eliminação das condições humanas precárias requer um longo procedimento, o qual envolve aspectos estruturais diversos, tais como: políticas públicas de assistencialismo, presença do sistema de ensino e de saúde no setor rural, acesso à terra, à energia elétrica e ao saneamento básico, entre outros.
Resta claro, pois, que muitas das ações sociais necessárias são de obrigação do governo e não podem ser inteiramente demandadas como um requisito técnico para a produção de biocombustíveis. De toda forma, as iniciativas de sustentabilidade devem estimular o combate às condições desumanas da população rural, exigindo que os produtores de biocombustíveis sustentáveis se atenham à questão e busquem sempre o aprimoramento no respeito aos direitos sociais e estimulem os governos a se aterem ao caso.
Nesse contexto, nem sempre os requisitos sociais sobre os direitos humanos podem ser exigidos da mesma forma para países em diferentes estágios de desenvolvimento. É óbvio que as condições da população rural dos EUA são completamente diferentes das condições da população rural nos países africanos. Por essa razão, não é viável fazer as mesmas exigências em situações tão diferentes. As iniciativas de sustentabilidade devem estar atentas a essa questão e devem prever em seus requisitos técnicos a equidade na aplicação dos mesmos, sempre em busca do aprimoramento contínuo.
b) Direitos trabalhistas
A produção de biocombustíveis muitas vezes se encontra associada a condições de trabalho precárias no cultivo da matéria-prima. Por essa razão, grande parte das iniciativas de sustentabilidade para biocombustíveis dão ênfase à necessidade de respeito aos direitos trabalhistas e impõem requisitos sobre o tema.
As principais normas que motivam a imposição de requisitos trabalhistas são as Convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O objetivo da OIT é regular as condições de trabalho, bem como consagrar os direitos fundamentais do trabalhador, tais como: (a) liberdade para a associação coletiva e ao direito de greve, (b) erradicação de
qualquer trabalho compulsório, (c) abolição do trabalho infantil, (d) não discriminação quanto à ocupação ou carreira.
As convenções do trabalho são classificadas como acordos internacionais e são adotadas através da Conferência Geral da OIT. Diversas convenções foram firmadas no âmbito da OIT para assegurar boas condições no trabalho rural. Especificamente quanto ao caso dos biocombustíveis, algumas das principais convenções são: (a) 29 e 105, sobre a abolição do trabalho forçado, (b) 141, referente a organizações de trabalhadores rurais, (c) 182, quanto à eliminação do trabalho infantil, e (d) 184, relacionada à saúde e segurança na agricultura.
Apesar dessas normas internacionais assegurarem os direitos trabalhistas, nem sempre elas são devidamente respeitadas pelos países. Particularmente quanto à produção de biocombustíveis, a comunidade internacional tem uma série de receios quanto às condições de trabalho precárias no cultivo da biomassa, que já são verificadas em atividades agrícolas. Todos esses receios justificam o desenvolvimento de requisitos técnicos quanto às condições de trabalho. Tendo em vista que as convenções da OIT são o principal foro internacional sobre o tema, todos os princípios, critérios e indicadores sobre as questões trabalhistas devem estar em conformidade com as mesmas.
Resta claro que os requisitos técnicos sobre as condições de trabalho no cultivo da biomassa devem ser desenvolvidos para alcançar um objetivo legítimo, qual seja: a proteção aos direitos fundamentais dos trabalhadores. Esses requisitos são devidamente motivados pelas convenções da OIT sobre o tema.
Deve haver causalidade entre esses instrumentos e o objetivo proposto. O risco temido pode ser devidamente reconhecido, uma vez que há condições precárias de trabalho no cultivo da biomassa e os requisitos trabalhistas são capazes de contribuir para eliminar ou diminuir essas práticas. Vale ressaltar, ainda, que os requisitos trabalhistas devem ser desenvolvidos de forma não discriminatória.
O desenvolvimento de requisitos trabalhistas é uma tarefa um tanto quanto complexa, em que a tendência é impor o cumprimento da legislação local, e o cumprimento dos acordos ratificados pelo país, o que implica aceitar as diferenças que há entre os países. Assim, o ideal é que as iniciativas de sustentabilidade prevejam a possibilidade da aplicação dos requisitos trabalhistas através da equidade e do respeito às legislações (locais
e internacionais), sempre em busca do aprimoramento contínuo em cada caso concreto. Ao mesmo tempo, é preciso estimular os governos a criarem medidas (legislações internas e políticas públicas) para garantir os direitos dos trabalhadores rurais.
c) Acesso à terra
O acesso à terra aos trabalhadores rurais é essencial para assegurar a sustentabilidade social da produção de biocombustíveis. A grande restrição que recai às iniciativas de sustentabilidade para biocombustíveis para tratar sobre o tema é a competência exclusiva dos Estados para regular o acesso à terra em seu território.
A ONU, principalmente através da FAO, muitas vezes se manifesta sobre a existência de inúmeros latifúndios improdutivos no mundo e a importância do acesso à terra por parte dos trabalhadores rurais como uma forma de assegurar a segurança alimentar. No entanto, não há regulação internacional sobre o tema.
Há, pois, dois aspectos importantes a serem destacados por esse princípio: (a) a biomassa deve ser cultivada em terra com a devida autorização dos proprietários; e (b) a biomassa deve ser cultivada em terra que cumpra a sua função social.