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2.4 Peculiaridades da responsabilidade civil por danos ambientais decorrentes das

2.4.5 Responsabilidade do Estado

Da mesma forma que os particulares, o Estado também tem o dever de zelar pela preservação do meio ambiente, respondendo objetivamente pelos danos ocorridos que guardem nexo causal com sua conduta, seja ela comissiva ou omissiva. Esta conclusão é atingida mediante a análise conjunta do §1º do artigo 14 da Lei nº 6.938/81, com os artigos 37, §6º e 225 da Constituição Federal, todos já referidos.

A responsabilidade estatal por dano ao meio ambiente é tanto comissiva como omissiva. Por ação de seus agentes ou por omissão. Embora de forma geral essa responsabilidade sofra algumas contestações, isso é afastado porque, por força do art. 225, caput, da Constituição Federal, a ação do Estado quanto ao meio ambiente não é apenas repressiva, mas antes de tudo preventiva. Assim, não exercendo com plenitude seu poder de polícia ambiental, responde pelo que vier a acontecer. (BARROS, 2012, p. 209, grifos do autor).

Diante de toda a importância reconhecida ao meio ambiente, palpável através de nortes que primam pela prevenção, pelo desenvolvimento sustentável e pela reparação integral, não há como admitir que o Estado seja imune à responsabilização por danos ocorridos ao meio. “Com efeito, percebe-se que todas as atividades de risco ao meio ambiente estão sob controle do Estado” (LEITE, 2014, p. 202), além de este possuir interesse algumas destas atividades, como é o caso daquelas que envolvem produtos agrotóxicos, casos em que sua responsabilidade fica ainda mais evidente.

Na atividade relegada ao Estado de registrar e fiscalizar produtos agrotóxicos (potencialmente perigosos ao meio) está implícita sua obrigação de velar pela preservação ambiental. Quando permite o registro de produto totalmente incompatível com o meio ambiente, que cause dano sob condições normais de uso, por exemplo, está cometendo conduta que permite que o produto concretize a lesão. Da mesma forma quando deixa de cumprira a sua obrigação de fiscalização ambiental. Todavia, ainda nestes casos

é possível ao Estado evocar em sua defesa a responsabilidade concorrente do particular responsável pela atividade que causou o dano ambiental ou mesmo a ocorrência de casos fortuitos ou de força maior. Tome-se como exemplo da primeira situação o dano ambiental causado por poluidor pessoa física ou jurídica privada detentor de licença ambiental perfeita e que sofre permanente fiscalização. Na segunda situação tem-se um dano ambiental sem qualquer responsabilização do estado ou do particular, como é o caso da cheia de um rio proveniente de chuvas intermitentes. (BARROS, 2012, p. 209).

Aqui, a defesa da responsabilidade ambiental mediante o risco integral figura ser, também, descabida. Como já se demonstrou, o que a legislação brasileira contemplou como fundamento à responsabilização objetiva foi a teoria do risco. Desse modo, independentemente da qualificação que se queira dar a tal risco (criado, integral, administrativo, risco-proveito, etc.), não pode ser restringida a análise do plano da causalidade pelo Poder Judiciário. Diante do caso concreto caberá a este, por meio das provas produzidas, concluir se a conduta do agente

guarda ou não relação de causalidade com o dano, considerando as peculiaridades das lesões ambientais e regramentos daí advindos. Pondera Yussef Said Cahali que

deslocada a questão para o plano da causalidade, qualquer que seja a qualificação que se pretenda atribuir ao risco como fundamento da responsabilidade objetiva do Estado – risco integral, risco administrativo, risco-proveito -, aos tribunais se permite a exclusão ou atenuação daquela responsabilidade quando fatores outros, voluntários ou não, tiverem prevalecido na causação do dano, provocando rompimento do nexo de causalidade, ou apenas concorrendo como causa da verificação do dano. (apud LIMA FILHO, 2014, p. 112).

Logo, é nítido que nos casos de danos ambientais envolvendo agrotóxicos, diante de toda a cadeia de agentes inerentes à estes químicos (fabricantes, poder público na qualidade de fiscal e autorizador, comerciantes, transportadores, técnicos, aplicadores, etc.) e contraste técnico e econômico entre eles, optou o legislador pela análise mais atenta ao nexo de causalidade, não sendo pertinente a utilização da teoria do risco integral. Em causas desta natureza,

o juiz deve se ater à observação do caso in concreto, julgando com eqüidade (sic), sufragando o direito coletivo de viver em meio ambiente sadio, sem com isso desfavorecer a atividade econômica, sendo mais do que provado a possibilidade de harmonia entre os dois. (SILVA, 2015, p. 13).

A responsabilidade objetiva (independentemente da modalidade de risco) tem condições de proporcionar a adequada defesa do meio ambiente, sem necessidade de idealizarem-se formas agravadas da mesma, não contempladas pela lei. Por meio desta responsabilização, não se nega ao acusado a possibilidade de produção de prova de excludentes de responsabilidade, mas, de uma certa forma, inverte-se o ônus da prova do nexo causal após a demonstração de que o dano possui relação com a atividade de risco do agente: é gerada a presunção (relativa) de configuração do nexo causal. Através do risco integral, esta presunção é absoluta e, portanto, fora da razoabilidade. Conforme as palavras de SILVA (2015, p.7), “para a caracterização das excludentes, deve o juiz fazer uma análise ao caso concreto”, levando em conta que nos casos que envolvem meio ambiente “os cuidados devem ser acima da média, devendo ser analisado os benefícios da atividade e o desenvolvimento de capacidade preventiva”.

Em síntese, a diferença entre as teorias do risco criado e do risco integral é de “visão essencialmente processual, a responsabilidade civil objetiva tem como princípio a inversão do

ônus da prova. Mas não a afastou como ocorre com a responsabilidade integral” (BARROS, 2012, p. 207). O que se deve ter ciência, especialmente em casos que envolvem atividades indispensáveis mas que geram riscos ambientais, como as que utilizam agrotóxicos, é que a proteção e restauração do meio ambiente são de suma importância, mas não podem ser atingidas mediante o atropelo da lei e dos fatos. Havendo disposições legais expressas que repartem a responsabilidade entre as atividades ligadas aos agrotóxicos e que vinculam, de maneira geral, a responsabilidade civil ambiental ao nexo causal entre a atividade perigosa e o dano, descabe a teoria do risco integral nas hipóteses de dano ambiental originado a partir de agrotóxicos.

CONCLUSÃO

A temática ambiental vem ganhando cada vez mais espaço no mundo moderno. Mudanças climáticas, esgotamento de recursos, expansão demográfica, industrial e tecnológica, pesquisas científicas e conscientização da população fizeram com que a preocupação com o meio ambiente se tornasse, acima de uma realidade, uma necessidade para garantir adequadas condições de vida às presentes e futuras gerações.

Esta consciência e atenção ao meio ambiente proporcionaram a criação de normas e princípios específicos do tema: o direito ambiental, que se destaca pelo reconhecimento do interesse coletivo na preservação do meio ambiente saudável e na tentativa de conciliar tal proteção com o desenvolvimento.

A lei trata o meio ambiente como um bem público autônomo dos recursos que o compõem, sendo essencial à sadia qualidade de vida. É um bem imaterial resultante de todas as interações, leis e influências que permitem, abrigam ou regem a vida em todas as suas formas. Assim, haverá dano ambiental quando uma degradação significativa ou grave acabe por afetar o equilíbrio existente naquela complexa interação, maculando o bem autônomo. A mera alteração não pode ser confundida com o dano ambiental.

Ciente da importância e da fragilidade do equilíbrio ambiental, o ordenamento contempla princípios ambientais específicos, como os da prevenção, precaução e desenvolvimento sustentável, a fim de guiar a criação da lei e a aplicação do direito.

Ocorre que praticamente todas as atividades humanas, sem contar a própria existência do homem, interferem de alguma forma no meio, sendo que algumas delas se destacam por guardarem maior proximidade e interação com o seu ambiente. Todavia, estas atividade não

podem simplesmente deixar de serem exercidas em prol da preservação ambiental, sob pena de tornar insustentável o convívio social ou a própria vida humana. Assim, devem coexistir o equilíbrio ambiental e o desenvolvimento humano através da observância dos princípios ambientais acima referidos.

Com relação ao meio ambiente natural, é inegável a expressiva ligação existente entre ele e as atividades agrárias, as quais pressupõem relacionamento entre homem, trabalho e natureza, e que tem como missão a produção de bens tendentes à satisfação das necessidades humanas, principalmente alimentares.

Apesar de a atividade agrária ser necessária em função seus aspectos econômicos, sociais e produtivos, é inerente à ela interferir no meio ambiente, sendo que tal relação nem sempre será benéfica ao último. Um dos ramos desta atividade, a agricultura, é alvo de atenção e crítica em razão do potencial de alteração e degradação ambiental que possui, principalmente através dos chamados produtos agrotóxicos (também chamados de defensivos agrícolas ou agroquímicos) que utiliza para tornar possível um nível de produtividade que acompanhe o crescimento da demanda.

O choque é evidente: o uso dos químicos propicia melhores produtividades e condições de sobrevivência do homem, mas, por outro lado, sendo explorado de maneira irracional gera o grande e inegável risco de danos ao meio ambiente e, consequentemente, riscos à saúde e perpetuação da espécie. Aqui, nenhum dos lados pode ser lavado a extremos. A proporcionalidade deve servir como a balança; os princípios da prevenção, precaução e desenvolvimento sustentável como pesos.

Sobrevindo dano ambiental a partir da utilização de produtos agrotóxicos, a responsabilidade civil surge como ferramenta para reparar este dano. Não há qualquer dúvida de que a responsabilidade civil ambiental é objetiva, ou seja, prescinde da existência de culpa do agente. Todavia, a dificuldade técnica em delimitar o dano ambiental e seus causadores faz com que surja a discussão de quão objetiva seja esta responsabilidade: se guiada pela teoria do risco integral ou do risco criado.

Na aplicação prática, sustenta-se que diferença entre ambas as teorias reside na análise do nexo de causalidade: de acordo com a teoria do risco criado, será responsável pelo dano

advindo de sua atividade todo aquele que houver criado ou potencializado o risco de dano. Já pelo risco integral, serão responsáveis todos aqueles que desenvolvam atividade de risco que seja conexa ao dano, relativizando a configuração do nexo de causalidade (não cabem excludentes de responsabilidade civil). Enquanto uma exige que o dano derive da atividade (seja ela ação ou omissão, direta ou indireta), para a outra basta a potencialidade de dano gerada pela atividade, independentemente de conduta.

Ocorre que as teorias acima referidas servem apenas como base de fundamentação da responsabilização objetiva, isto é, explicam o motivo pelo qual a responsabilidade deve se dar independentemente da ocorrência de culpa. Todavia, em nenhum momento a lei permite que se atribua à alguém a responsabilidade de reparar um dano independentemente de nexo de causalidade. É justamente para a dispensa velada deste requisito que serve a adoção da teoria do risco criado na aplicação (e não na fundamentação) da responsabilidade civil objetiva.

Embora a teoria do risco integral não dispense, expressamente, a configuração do nexo causal, na realidade é justamente isto que ocorre, visto que, para ela, basta a verificação do dano e da existência de atividade (no sentido de empreendimento, não de conduta) potencialmente capaz de gerar aquele dano, sem qualquer atenção aos fatos que podem quebrar o nexo de causalidade, como imprevisibilidade (caso fortuito ou força maior) ou fato de terceiro.

Embora a jurisprudência possua uma simpatia pelo risco integral nos casos de danos ambientais, o problema é que a difusão da aplicabilidade desta teoria pode acabar tendo como consequência o desestímulo ao empreendedor da adoção de práticas e tecnologias mais seguras ao ambiente, já que estas medidas não evitarão que ele seja responsabilizado por um dano ambiental que não derivou de sua atividade, mas sim da do seu vizinho, por exemplo.

Não são necessários saltos hermenêuticos mediante teorias que supostamente fundamentam a responsabilidade objetiva e tratam o cabimento, ou não, de circunstâncias que desconstituem o nexo de causalidade para que se proteja e repare o meio ambiente danificado. Diante da dificuldade em se mensurar, identificar responsáveis e reparar o dano ambiental, se prescinde do socorro em variadas teorias quando o ordenamento já contempla solução ao problema.

O fato é que a legislação ambiental brasileira adota a responsabilidade objetiva como parâmetro de reparação dos danos ambientais, independentemente de riscos ou teorias, exigindo para sua configuração nexo de causalidade entre o dano e determinada atividade ou conduta. Somente com esta dispensa da culpa já é possível dirigir eventual ação de responsabilização civil em face de todos aqueles cuja atividade relaciona-se, mesmo que indiretamente, com o dano, sendo bastante dificultosa a demonstração, por estes, de que determinado evento pode ser considerado como excludente do nexo causal em relação a ele. Em casos concretos, basta uma reflexão da configuração do nexo de causalidade de acordo com as normas e princípios ambientais aplicáveis, buscando a partir daí a conclusão sobre a capacidade de eventual excludente elidir, ou não, naquele caso específico, o dever objetivo de cuidado imposto para que não se produza dano ambiental. Há que se ter cuidado para que, na compreensível ânsia de preservar o meio ambiente, não se atropele a lei, os fatos e a razoabilidade.

Ademais, quando o dano ambiental ocorre através de produtos agrotóxicos, esta conclusão pela inaplicabilidade, quiçá inexistência, da teoria do risco integral como parâmetro de aferição do nexo causal, é ainda mais acentuada. A lei claramente distingue, dentre todas as atividades que podem ser consideradas causas pela teoria do risco integral, aquelas que são verdadeiramente relevantes para a identificar o responsável pela lesão ambiental. Aqui, a causa não pode ser confundida com a simples existência de empreendimento considerado poluidor, sendo necessária uma análise mais apurada do caso. Condições e causas são contrastadas. Destarte, a discussão do nexo causal, inclusive mediante a alegação de excludentes, é plenamente possível quando o dano ambiental é gerado a partir de produtos agrotóxicos.

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