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Apontamentos acerca da responsabilidade civil por dano ambiental gerado por produtos agrotóxicos

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Academic year: 2021

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UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL

EVANDRO LEAL KRUEL

APONTAMENTOS ACERCA DA RESPONSABILIDADE CIVIL POR DANO AMBIENTAL GERADO POR PRODUTOS AGROTÓXICOS

Ijuí (RS) 2015

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EVANDRO LEAL KRUEL

APONTAMENTOS ACERCA DA RESPONSABILIDADE CIVIL POR DANO AMBIENTAL GERADO POR PRODUTOS AGROTÓXICOS

Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Curso - TC. UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. DCJS - Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais

Orientador : Msc. Carlos Guilherme Probst

Ijuí (RS) 2015

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Dedico este trabalho aos meus pais, pelas dádivas da educação, do apoio, do exemplo e do afeto incondicionais.

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AGRADECIMENTOS

À minha família, pelas sugestões e apoio no desenvolvimento do trabalho.

Ao orientador Carlos Probst, pelo auxílio, acessibilidade e confiança ao longo de todo o trabalho, permitindo uma verdadeira reflexão sobre a temática.

Ao Dr. Wellington Barros, pela pronta disponibilidade em viabilizar o acesso à fontes de pesquisa.

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“As convicções são inimigos da verdade bem mais perigosos que as mentiras.” Friedrich Wilhelm Nietzsche

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RESUMO

O presente trabalho de conclusão de curso faz uma análise da responsabilidade civil ambiental buscando demonstrar as suas peculiaridades quando o dano ao ambiente é ocasionado por produtos agrotóxicos. Traça a noção de meio ambiente e dano ambiental, contrastando a necessidade de desenvolvimento com o risco de dano. Investiga a relação entre o meio ambiente, a agricultura e o uso que esta faz de produtos agrotóxicos. Aborda a configuração da responsabilidade civil a partir da ótica do Direito Ambiental, mostrando sua evolução e traçando comentários acerca das duas principais teorias (integral e do risco criado) que buscam justificar e delimitar aquela responsabilidade. Estuda as peculiaridades da responsabilidade civil ambiental quando o dano é ocasionado por produtos agrotóxicos, fazendo uma breve análise dos diferentes agentes que podem ser responsabilizados pela lesão. Finaliza concluindo que o direito ambiental deve guiar-se tanto pela prevenção e precaução quanto pelo desenvolvimento sustentável, fazendo com que o uso de produtos perigosos, mas atualmente necessários, seja atento para a legislação específica da matéria, bem como que nos casos de dano ambiental gerado por produtos agrotóxicos seja inaplicável a teoria do risco integral.

Palavras-Chave: Meio ambiente. Responsabilidade civil. Agrotóxicos. Agricultura. Desenvolvimento sustentável. Risco integral. Risco criado.

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ABSTRACT

The present work of monographic research makes an analysis on the environmental civil responsibility intending to show its peculiarities when the damage to the environment is caused by agrochemical products. Traces the concept of environment and environmental damage, contrasting the need for development with the risk of damages. Investigates the relation between the environment, the agriculture and the usage that this last one makes of agrochemicals. Discusses the configuration of the civil responsibility from the point of view of the Environmental Law, showing its evolution e making comments about the two main theories (of integral and the created risk) that seek justify and define that responsibility. Studies the peculiarities about the environmental civil responsibility when the damage it’s occasioned by agrochemical products, making a brief analysis about the different kind of agents that can be responsible for the injury. Ends concluding that the Environmental Law must guide itself both for prevention and precaution as for sustainable development, making the use of dangerous products, but currently needed, tuned for the specific matter of law, and that in the case of environmental damage generated by agrochemicals remains inapplicable the integral risk theory.

Key Words: Environment. Civil responsibility. Agrochemical products. Agriculture. Sustainable development. Integral risk. Created risk.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO... 9

1 O DANO AMBIENTAL E OS AGROTÓXICOS... 11

1.1. Meio ambiente e dano ... 11

1.2 Delimitando o dano ambiental ... 16

1.3 Necessidade de desenvolvimento e potencialidade de dano ambiental ... 22

1.4. Agrotóxicos e agricultura ... 27

1.5 Agrotóxicos e dano ambiental, a regulamentação da matéria ... 34

2 A RESPONSABILIDADE CIVIL POR DANO AMBIENTAL ... 39

2.1 Da reparação do dano ambiental ... 39

2.2 Da evolução da responsabilidade civil. ... 42

2.2.1 Teoria do risco criado ... 44

2.2.2 Teoria do risco integral ... 47

2.3. Nexo causal ... 55

2.4 Peculiaridades da responsabilidade civil por danos ambientais decorrentes das diversas atividades com agrotóxicos ... 58

2.4.1 Princípio do poluidor-pagador ... 60

2.4.2 Responsabilidade do fabricante e formulador ... 61

2.4.3 Responsabilidade do profissional ... 63

2.4.4 Responsabilidade do usuário ... 64

2.4.5 Responsabilidade do Estado ... 68

CONCLUSÃO ... 72

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INTRODUÇÃO

O presente trabalho apresenta um estudo sobre a responsabilidade civil pelos danos ambientais gerados a partir do uso de produtos agrotóxicos, a fim de demonstrar o trato jurídico da matéria. É necessário que coexista a preservação ambiental com a agricultura, já que esta, além de representar importante papel na economia brasileira, possui a missão de garantir a produção de alimentos, cujo ritmo necessita ser cada vez maior em razão do aumento da demanda (expansão demográfica). Para ser possível esta produtividade, hodiernamente é necessário o uso de produtos agrotóxicos, não existindo, ainda, nenhuma tecnologia eficiente o suficiente para permitir sua substituição. Todavia, é inegável o risco que estes apresentam em ocasionar dano ambiental.

Dessa forma, o estudo da responsabilidade civil decorrente de tal espécie de dano se faz necessário para que, além gerar maior interesse pela prevenção, se distribua adequadamente o ônus de arcar com a reparação de eventual dano ambiental, evitando erros e injustiças na atribuição de responsabilidade, caso em que seria colocada em risco a própria cadeia de produção. Outrossim, uma análise mais detalhada desta modalidade de responsabilidade civil é importante em função da complexidade do dano ambiental e das regras específicas que regem os produtos agrotóxicos.

Para a realização do trabalho foram efetuadas pesquisas bibliográficas e por meio eletrônico, analisando também a legislação em vigor, a fim de demonstrar o trato eminentemente jurídico da matéria, buscando o afastamento da mera repetição de ideias e a provocação de uma reflexão sobre o assunto.

De início, no primeiro capítulo foram traçados os conceitos de meio ambiente e de dano ambiental, o momento em que este se configura e quando se torna relevante para o Direito. Em

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seguida estes danos são relacionados com a agricultura e com o uso de produtos agrotóxicos, na busca de se demonstrar o necessário equilíbrio entre a preservação ambiental e a produção agrícola, através da compreensão do princípio do desenvolvimento sustentável.

Já no segundo capítulo é analisada a responsabilidade civil emergente da ocorrência de dano ambiental. São analisadas as características desta forma de responsabilização e seus níveis de atenção ao nexo de causalidade, tratando principalmente das teorias do risco integral e do risco criado. Após, são demonstradas as peculiaridades da temática quando o dano é causado por produtos agrotóxicos, principalmente na forma de delimitação do responsável pela reparação.

A partir deste estudo se verifica que a proteção ambiental deve observar tanto o princípio da prevenção como o do desenvolvimento sustentável. Isto significa que produtos que apresentam risco ao meio, mas que são necessários, devem ter seu uso regulado pelo direito. Na ocorrência de dano, a responsabilidade civil ambiental recai sobre o poluidor independentemente de culpa, mas não dispensa a demonstração do nexo de causalidade. Quanto aos produtos agrotóxicos, a legislação específica contempla preceitos que atentam ainda mais para a(s) conduta(s) geradoras da lesão, afastando a aplicação da chamada teoria do risco integral.

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1 O DANO AMBIENTAL E OS AGROTÓXICOS

Neste capítulo será tratado da conceituação de meio ambiente, buscando a compreensão e delimitação acerca de que consistem os danos juridicamente relevantes ao mesmo. Também será traçada a relação que existe entre os produtos agrotóxicos e a potencialidade de dano ao meio ambiente, bem como a importância daqueles para a agricultura atual e sua regulamentação legal.

1.1. Meio ambiente e dano

Para se falar em responsabilidade civil e, consequentemente, em pretensão indenizatória, é imprescindível que se compreenda o principal elemento daquela, sem o qual não haverá dever de reparação: o dano.

O dano, em sua acepção geral, é de fácil conceituação e verificação. Ele está intimamente relacionado com interesses alheios juridicamente protegidos, visto que é com a lesão destes, através de conduta do agente causador, que o dano se concretiza. Tais interesses podem ser vistos através da ótica da posição do sujeito em relação à um bem que é capaz de satisfazer-lhe necessidades. Assim, em um sentido amplo, “dano abrange qualquer diminuição ou alteração de bem destinado à satisfação de um interesse” (LEITE, 2014, p. 97). Sob um ponto de vista mais restrito, traçando parâmetros de aferição, para Agostinho Alvim (apud GONÇALVES, 2012, p. 798) “dano é, para nós, a lesão do patrimônio; e patrimônio é o conjunto das relações jurídicas de uma pessoa, apreciáveis em dinheiro. Aprecia-se o dano tendo em vista a diminuição sofrida no patrimônio”.

Contudo, quando transportado para a esfera ambiental o conceito de dano perde a sua simplicidade e facilidade na verificação concreta. De uma maneira superficial e considerando a definição do dano comum, poder-se-ia dizer que, obviamente, o dano ambiental “é dano ao meio ambiente” (ANTUNES, 2010, p. 247). Assim, para a correta compreensão de dano ambiental e das situações em que ele se verifica, aparenta ser necessário, primeiramente, uma delimitação jurídica deste termo amplamente utilizado atualmente, cujo real significado restou demasiadamente aberto: meio ambiente. Neste sentido já é a tese defendida por José Rubens Morato Leite e Patryck de Araújo Ayala (2014, p. 98), para quem “o âmbito do dano ambiental

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está, logicamente, circunscrito e determinado pelo significado que se outorgue ao meio ambiente.”

Comumente se utiliza a expressão meio ambiente de uma forma restrita, onde ele “nada mais é do que a expressão do patrimônio natural e as relações com e entre os seres vivos. Tal noção, é evidente, despreza tudo aquilo que não diga respeito aos recursos naturais” (MILARÉ, 2011, p. 143). Contudo, esta noção não deve ser tida como correta, já que pela definição legal dada pela Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº 6.938/1981), meio ambiente é "o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas" (BRASIL, 2014). Ora, é inegável a grande abertura do conceito legal, que permite uma ampla interpretação e identificação em casos concretos do que é meio ambiente, já indicando que este não está limitado somente à seara natural.

A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 225, esboça um conceito de meio ambiente, dando à ele uma característica finalística e, ao que se depreende da leitura, antropocêntrica. Para este diploma, meio ambiente é um “bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida” (BRASIL, 2014), isto é, é ele elemento indispensável para que os homens tenham uma vida saudável. Outrossim, sendo de uso comum do povo, conforme se mostrará adiante, alguns veem no meio ambiente um bem sui generis, nem público e nem privado, mas sim de uso comum do povo, verdadeiro bem difuso, mas tal visão, apesar de respeitável, não parece estar correta.

Retomando a definição legal, meio ambiente não se confunde com os recursos naturais como popularmente se acredita, sendo o primeiro muito mais abrangente: uma grande interação, unitária e interdependente, que abriga e rege a vida em todas suas formas. Esta amplitude permite que se enquadrem como integrantes do meio ambiente, além dos elementos naturais, também os culturais e os artificiais, por exemplo.

Embora não se confundam, o conceito de meio ambiente é indissociável da noção de recursos ambientais: são os conjuntos de interações, condições e leis destes recursos que, em última análise, configurarão o meio ambiente. Segundo a Lei nº 6.938/1981, entende-se por “recursos ambientais: a atmosfera, as águas interiores, superficiais e subterrâneas, os estuários, o mar territorial, o solo, o subsolo, os elementos da biosfera, a fauna e a flora.” (BRASIL, 2014).

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Uma exegese superficial poderia gerar a impressão que os recursos ambientais são somente os naturais. Todavia, esta afirmação não se sustenta, já que

A Lei 6.938/1981, ao abrigar na definição de recursos ambientais os elementos

da biosfera, ampliou acertadamente o conceito de meio ambiente, não o

atando exclusivamente aos meros recursos naturais, levando em conta, ao revés, inclusive o ecossistema humano (MILARÉ, 2011, p. 148, grifos do autor).

Abstrai-se, assim, que todo recurso natural é recurso ambiental, mas nem todo o recurso ambiental é natural, incluindo-se também aí todos os elementos que fazem parte da biosfera, que, desta forma, podem resultar da criação humana: os artificiais (como construções urbanas) e culturais (valores históricos e tradicionais), já que, indubitavelmente, além de reger e abrigar a vida, inter-relacionam-se com o seu entorno e influem na sadia qualidade de vida.

Vê-se que o meio ambiente não é um objeto estanque, perfeitamente identificável a partir de dada matéria. Em realidade ele é um “bem autônomo, baseado justamente em sua característica relacional e ultrapassando a noção de mera soma dos recursos ambientais, sejam naturais (solo, água, fauna, flora etc.) ou artificiais” (LOUBET, 2005, p. 2), sendo que no momento em que a lei deixou de indicar os elementos corpóreos que formam o meio ambiente “considerou-o um bem incorpóreo e imaterial” (LEITE, 2014, p. 88). De maneira sintética, tendo em mente o conceito legal de conjunto de condições, leis, influências e interações que permitem, abrigam ou regem, pode-se dizer que “meio ambiente é precisamente o resultado de tais relações” (MILARÉ, 2011, p. 44, grifos do autor).

Apesar da parca qualidade técnica, tornando o meio ambiente verdadeiro “conceito jurídico indeterminando, cabendo, dessa forma, ao intérprete o preenchimento do seu conteúdo” (FIORILLO, 2013, p. 61), não foi deslize do legislador a adoção de uma definição aberta, mas sim uma medida intencional e necessária. Com efeito, restringir o conceito de meio ambiente significaria prejudicar a defesa concreta deste bem. Diante das crescentes problemáticas de degradação e esgotamento ambientais presentes no mundo contemporâneo, quando definiu meio ambiente

o legislador brasileiro teve de optar em sua conceituação e o fez de maneira correta, pois adotou uma conceituação mais atual, abarcando vários elementos culturais do ser humano, os quais não podiam ser excluídos da definição, considerando a necessidade de uma interação destes com os elementos

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naturais e artificiais. [...] Dessa forma, entende-se [...], que acertou o legislador brasileiro, pois acoplou, na sua definição de meio ambiente, uma concepção mais atual e vasta, que aceita vários elementos, em oposição ao conceito restrito de proteção aos recursos naturais (LEITE, 2014, p. 87).

Impende ressaltar que isto não significa que o meio ambiente deve possuir uma conceituação fática perante o direito. Pelo contrário, sendo o Brasil, por força constitucional, um "estado democrático de direito" (BRASIL, 2014), isto é, pautado pela ciência do direito, os preceitos legais necessitam ser respeitados para se auferir o que é meio ambiente. Conceituação aberta não significa conceituaçao livre, "meio ambiente é aquilo que for delimitado pelo direito" (BARROS, 2013, p. 121).

Levando-se em conta o exposto, o bem ambiental pode assumir tanto uma feição de macrobem como de microbem. O primeiro seria o meio ambiente em si, bem imaterial e de uso comum do povo, não se enquadrando, para alguns, na classificação dos bens particulares ou públicos, insuscetível de apropriação e definido pela Constituição brasileira como bem de uso comum do povo, promovendo uma verdadeira “inovação revolucionária no sentido de criar um terceiro gênero de bem, que, em face de sua natureza jurídica, não se confunde com os bens públicos e muito menos os privados” (FIORILLO, 2013, p. 50, grifos do autor).

Outros, porém, não veem no macrobem ambiental um novo gênero de bem, considerando ele apenas uma das espécies de bem público. Tal entendimento deve-se ao fato de que o atributo de público conferido ao bem não tem o condão de somente inferir a dominialidade, ou seja, o domínio por parte do Estado, mas também de designar a finalidade pública daquele bem, com expressa feição difusa. Neste sentido, o macrobem meio ambiente “é bem público, não porque pertença ao Estado (pode até pertencê-lo), mas porque se apresenta no ordenamento, constitucional e infraconstitucional, como "direito de todos", como bem destinado a satisfazer as necessidades de todos.” (BENJAMIN, 2014, p. 66).

Em verdade, o próprio Código Civil brasileiro preceitua, em seu artigo 99 e inciso I, que são bens públicos “os de uso comum do povo” (BRASIL, 2014). Assim, quando a Constituição pátria define o meio ambiente como bem de uso comum do povo, não está fazendo nada mais do que enquadrá-lo em uma das classificações do bem público.

O bem de uso comum do povo [...] é o bem de domínio público que pode ser utilizado por qualquer pessoa. Ao contrário do que alguns pretendem

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classificar, não existe um bem difuso, ou da coletividade. A divisão clássica dos romanos continua atual. Sendo a dominialidade do bem de uso comum do povo do Poder Público compete a este a guarda, administração e fiscalização. Ou em conceito econômico, a gestão. (BARROS, 2013, p. 137).

A lógica desta classificação do meio ambiente como bem público de uso comum do povo, inexistindo nova categoria de bem, parece ser a que melhor se coaduna com uma interpretação sistemática do ordenamento. De qualquer forma, não são necessárias maiores considerações acerca da divergência de entendimentos para que proceda ao desenvolvimento do tema.

Voltando à classificação entre microbem e macrobem, no sentido deste último o meio ambiente não se confunde

com esta ou aquela coisa material (floresta, rio, mar, sítio histórico, espécie protegida etc.) que o forma, manifestando-se, ao revés, como o complexo de bens agregados que compõem a realidade ambiental [...] Uma definição como esta de meio-ambiente (sic), como macrobem, não é incompatível com a constatação de que o complexo ambiental é composto de entidades singulares (as coisas, por exemplo) que, em si mesmas, também são bens jurídicos: é o rio, a casa de valor histórico, o bosque com apelo paisagístico, o ar respirável, a água potável (BENJAMIN, 2014, p. 76).

Estas entidades singulares citadas (recursos ambientais) inserem-se na acepção de microbem ambiental, que será o elemento que compõe o meio ambiente, o qual “pode ter o regime de sua propriedade variado, ou seja, pública e privada, no que concerne à titularidade dominial” (LEITE, 2014, p. 91). Exemplificativamente, na acepção de microbem uma floresta ou um prédio de valor histórico podem ser tanto bens públicos quanto privados, sujeitos aos respectivos regimes jurídicos, mas serão também de interesse público, dada sua influência no macrobem meio ambiente.

Dessa forma, há que se ter nítida a diferença entre meio ambiente (bem unitário, e autônomo, macrobem) e recursos ambientais (microbens), possuindo cada um o seu regime jurídico próprio. O meio ambiente é bem de uso comum, imaterial, resultante da integração relacional dos elementos que o compõem, essencial à sadia qualidade de vida. É, em suma, “um macrobem autônomo em relação aos demais recursos ambientais, não se confundindo com estes e possuindo regime jurídico e tutela própria” (LOUBET, 2005, p. 3).

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Já em relação aos recursos ambientais, conforme referido, a legislação não tratou da sua definição, mas sim de elenca-los de forma ampla como sendo os elementos da biosfera, os quais podem assumir o regime jurídico de bens públicos ou privados, conforme legislação específica de cada um. É a integração e a inter-relação dos recursos ambientais que compõem o meio ambiente. Nos dizeres de Loubet (2005, p. 4), “recursos ambientais são bens jurídicos naturais, artificiais ou culturais, corpóreos ou incorpóreos, que integram ou tenham qualquer relação, influência ou interação com o meio ambiente.”

Outra característica interessante do meio ambiente é que a Constituição Federal, ao defini-lo como bem essencial à sadia qualidade de vida, também reconhece que o equilíbrio ambiental proporciona um maior quilate à qualidade de vida humana, já que, além de explorador, o homem também é um integrante da grande inter-relação ambiental, podendo-se dizer “que foi erigido pelo texto maior como direito fundamental de cunho social, o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado.” (PRADO, 2011, p. 3)

Assim, além de ser compreendido como bem relacional, consoante a disposição legal, o meio ambiente também deve ser analisado sob o prisma da função desempenhada por ele, intimamente relacionada à capacidade de proporcionar uma sadia qualidade de vida e também abrigo para esta.

1.2 Delimitando o dano ambiental

Traçado o conceito de meio ambiente e de bens ambientais, é inegável a tamanha margem interpretativa dos mesmos, restando ao intérprete delimitar, diante de situações concretas e em conformidade com os parâmetros traçados pela lei, o conteúdo de meio ambiente. Segundo Paulo de Bessa Antunes (apud MILARÉ, 2011, p. 1117-1118, grifos do autor), esta tamanha indeterminação do conceito, que permite as mais variadas interpretações, resulta nas

[...] dificuldades que a moderna literatura tem encontrado para definir dano

ambiental, o que se justificaria em razão de a própria Constituição não ter

elaborado uma noção técnico-jurídica de meio ambiente. Ora, se o próprio conceito de meio ambiente é aberto, sujeito a ser preenchido casuisticamente, de acordo com cada realidade concreta que se apresente ao intérprete, o mesmo entrave ocorre quanto à formulação do conceito de dano ambiental.

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O dano ambiental, como já referido, é muito mais complexo e de difícil conceituação do que o dano clássico. Uma vez que a própria concepção de meio ambiente é abrangente, a de dano ambiental, por lógica, também o será. Com efeito, a legislação brasileira não define no que consiste o dano ambiental. Apesar disto, a Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (6.938/1981) contempla preceitos importantes para que se compreenda no que consiste tal espécie de dano, devendo sempre ser relembrado o conceito de meio ambiente e de recursos ambientais, já que, obviamente, é sobre estes que ocorre o dano ambiental. Um dos preceitos da legislação referida é a conceituação de degradação ambiental, sendo esta “a alteração adversa das características do meio ambiente” (BRASIL, 2014). Isto significa que qualquer modificação prejudicial nas características do macrobem ambiental será qualificada como degradação.

Outrossim, como o meio ambiente (macrobem) é bem unitário, resultante da relação entre todos os elementos que o constituem (microbens, recursos ambientais), a alteração adversa nas características de qualquer deles será degradação ambiental. Isto devido ao fato de que na prática, mesmo que seja prejudicada diretamente somente a essência de determinado recurso ambiental, indiretamente a inter-relação que consubstancia o meio ambiente será alterada. Sob esta lógica, pode-se definir o dano ambiental como a lesão causada “aos recursos ambientais, com consequente degradação – alteração adversa ou in pejus – do equilíbrio ecológico e da qualidade de vida” (MILÉRE, 2011, p. 1119, grifos do autor).

Por este ponto de vista o dano ambiental seria aquela lesão que, apesar de atingir determinado recurso ambiental, seja ele público ou privado, em razão de sua gravidade tem a consequência de alterar o equilíbrio do meio ambiente. Poderiam as lesões serem classificadas, portanto, como dano ambiental em sentido amplo, quando se está fazendo referência ao atingimento do macrobem meio ambiente, ou como dano ambiental em sentido estrito, quando se aduz ao prejuízo causado no microbem, recurso ambiental. Em suma, “dano ambiental em sentido amplo é aquele que atinge o meio ambiente como bem autônomo [...] e dano ambiental em sentido estrito é aquele que atinge algum recurso ambiental.” (LOUBET, 2005, p. 7).

Todavia, inobstante a classificação adotada, só haverá dano ambiental, tecnicamente falando, quando lesionado o bem jurídico meio ambiente. Isto em razão de que, uma vez atingido o recurso ambiental, poderá o equilíbrio do meio ambiente restar prejudicado, dada a sua qualidade de bem relacional, resultante da inter-relação de seus componentes (recursos ambientais).

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Interessante notar que ao lado do dano ambiental a doutrina também identifica o dano ambiental privado ou por ricochete. Ele ocorreria quando o dano, além dos impactos usuais ao meio ambiente, acaba por atingir, indiretamente, interesses de uma certa pessoa ou de um grupo individualizável, seja material ou moralmente. Aqui, além do impacto à coletividade, sofrido pelo bem de uso comum do povo, também existe uma lesão à interesses particulares. Como exemplo, imagine-se a situação de um grande vazamento de óleo ocasionado por uma embarcação aquática em uma região cuja base da economia seja a pesca. Além do dano sofrido pelo recurso ambiental (mar, lago, etc.) e, consequentemente, pelo meio ambiente (inter-relação entre aquele e fauna, flora, atmosfera, costumes locais, etc.), os pescadores, grupo perfeitamente identificável, sofrerá um dano reflexo, vendo sua atividade profissional sustada e sofrendo abalos materiais e psicológicos, também sendo vítimas, portanto, do dano ambiental. Este último é o chamado

Dano individual ambiental ou reflexo, conectado ao meio ambiente. Que é, de fato, um dano individual, pois o objetivo primordial não é a tutela dos valores ambientais, mas sim dos interesses do próprio lesado, relativos ao microbem ambiental. O bem ambiental de interesse coletivo estaria, desta forma, indiretamente ou, de modo reflexo, tutelado, e não haveria uma proteção imediata dos componentes do meio ambiente protegido. (LEITE, 2014, p. 99).

Para tornar clara a distinção entre os danos, convém apresentar a classificação dada por Milaré (2011, p. 1120-1121, grifo do autor):

(i) o dano ambiental coletivo ou dano ambiental propriamente dito, causado ao meio ambiente globalmente considerado, em sua concepção difusa, como patrimônio coletivo; e (ii) o dano ambiental individual, que atinge pessoas certas, através de sua integridade moral e/ou de seu patrimônio material particular. O primeiro, quando cobrado, tem eventual indenização destinada a um Fundo, cujos recursos são destinados à reconstituição dos bens lesados. O segundo, diversamente, dá ensejo à indenização dirigida à recomposição do prejuízo individual sofrido pelas vítimas.

Impende ressaltar que o exposto não significa que toda e qualquer degradação ambiental será dano ambiental, sendo este último, na verdade, espécie da primeira. Em realidade, sob o prisma jurídico o dano ambiental está intimamente relacionado à consequente responsabilidade pela reparação do mesmo, sendo então imprescindível que exista uma figura ou uma entidade a partir da qual tenha emanado conduta que ocasionou a lesão. Esta figura é materializada pela lei na pessoa do poluidor, já que, conforme estabelecido pelo artigo 14 §1º da Lei nº 6.938/1981,

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“é o poluidor obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade” (BRASIL, 2014).

Tem-se, assim, que para que exista dano ambiental deve haver poluição. Esta última é mais restrita do que o conceito de degradação ambiental, sendo em realidade um resultado dela e, nos dizeres da legislação, é caracterizada quando se verifica

a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente:

a) prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população; b) criem condições adversas às atividades sociais e econômicas; c) afetem desfavoravelmente a biota;

d) afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente;

e) lancem matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabelecidos. (BRASIL, 2014)

Tomado o exposto, apesar de toda poluição ser uma degradação ambiental, nem toda degradação ou alteração adversa do meio ambiente será poluição, bem como que só se falará em obrigação de reparação (responsabilidade civil) quando existir um provocador de poluição. Do mesmo modo, dada a caracterização da poluição, “não é possível asseverar que qualquer ato de degradação provoque obrigação de reparar, considerando que quase toda ação humana pode, em tese, provocar deterioração do meio” (LEITE, 2014, p. 106). Para haver dano ambiental a lesão deve ser de tal gravidade que escape à normalidade, que tenha como consequência o abalo ao equilíbrio ambiental, à qualidade de vida e à capacidade de aproveitamento do meio ambiente.

pode-se concluir que o dano ambiental deve ser compreendido como toda a lesão intolerável causada por qualquer ação humana (culposa ou não) ao meio ambiente, diretamente, como macrobem de interesse da coletividade, em uma concepção totalizante, e indiretamente, a terceiros, tendo em vista interesses próprios e individualizáveis e que refletem no macrobem. Observe-se que, sob esta ótica, fica claro que o meio ambiente pode ser lesado diretamente, mas, ao final, ainda pode atingir valores individuais reflexos com o meio ambiente. (LEITE, 2014, p. 108, grifos do autor).

Em outras palavras, o limite entre a tolerabilidade da degradação ambiental e a anormalidade desta, ensejando, assim, dano ambiental, toma como parâmetro justamente o conceito de poluição. Para haver alteração prejudicial relevante para o direito para fins de gerar obrigação de reparação (dano ambiental), deve configurar-se uma ultrapassagem dos limites de segurança traçados pela lei, resultando em nocividade e perda do equilíbrio do meio ambiente.

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Assim, o dano ambiental juridicamente relevante para fins de responsabilidade civil nada mais é do que a poluição resultante da degradação significativa ou grave do meio ambiente. Isto significa que o dano ambiental é gerado a partir de uma atividade que altera adversa e consideravelmente as características do meio ambiente e que, direta ou indiretamente, 1) prejudica a saúde, a segurança ou o bem-estar da população; 2) cria condições adversas às atividades sociais e econômicas; 3) afeta desfavoravelmente a biota, as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente ou; 4) lance matérias ou energia em desacordo com os padrões legais. Vê-se, portanto, que as consequências da poluição tornam intuitiva a possibilidade de que sujeitos individualizáveis sofram abalos em interesses jurídicos próprios que possuam sobre algum recurso ambiental, caracterizando o dano reflexo ou por ricochete.

Somado a isto, há estreita relação entre o equilíbrio do meio ambiente e sua essencialidade para a sadia qualidade de vida com a configuração do dano ambiental. O dano geral, relembrando, quando conceituado em sentido amplo, ocorre sobre um bem ou direito protegido juridicamente. Ora, no caso do dano ambiental, o equilíbrio do meio ambiente e sua essencialidade ao homem são direitos da pessoa assegurados constitucionalmente, como já salientado.

Partindo destas premissas “o bem jurídico violado por ocasião do dano ambiental é o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e que proporciona aos homens a sadia qualidade de vida” (LIMA FILHO, 2014, p. 71-72, grifos do autor). O referido autor inclusive busca o conceito do dano ambiental nestas características do meio ambiente de equilíbrio e essencialidade, afirmando que dano ambiental é “qualquer prejuízo juridicamente relevante relacionado ao direito pessoal, individual ou coletivo, ao meio ambiente ecologicamente equilibrado que proporciona aos homens a sadia qualidade de vida” (LIMA FILHO, 2014, p. 77). Além de guardar sintonia com o exposto acima, a partir deste ponto de vista é possível clarear o que é a dita alteração adversa significativa ou grave do meio ambiente, característica do dano juridicamente relevante e geradora da responsabilidade civil.

Estabelecidos estes pontos, na contextualização do dano ambiental deve-se sempre primar pela cautela de evitar a fuga dos parâmetros legais de meio ambiente, poluição e degradação, para que sejam identificados como dano aqueles casos que realmente escapam à normalidade e tolerabilidade, visto que

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existe um quê de excitação coletiva no sentido de se outorgar dimensões catastróficas a qualquer dano ao meio ambiente como se ele fosse novo, único e definitivo. [...] Que isso seja verberado por redes de comunicação muitas vezes mais preocupadas com o olho da audiência do que no próprio fato e no consequente retorno que isso proporciona na venda dos espaços para propaganda e também por entidades que têm como finalidade a defesa desmedida desse bem social, e nisso são encontráveis as mais esdrúxulas, é até compreensível. O que é criticável é que esse messianismo global contagie aqueles que lidam com o direito, especialmente no âmbito do direito brasileiro, porque o conceito de meio ambiente não é fático, mas jurídico já que estruturado em dispositivos legais, como ocorre com o meio ambiente artificial.[...] Feita esta prospecção jurídica evidentemente crítica, deve se concluir que só se pode afirmar que houve um dano ao meio ambiente se e quando este meio ambiente foi antecipadamente contextualizado dentro daquilo que a lei estabeleceu e o dano dimensionado com exatidão (BARROS, 2013, p. 205-206).

Não deve ser esquecido jamais que o ambiente é dinâmico, está em constante alteração, mesmo que o homem não desempenhe qualquer papel nessa transformação. Além disto, sendo o homem parte integrante da natureza, não é qualquer alteração provocada por ele que será considerada uma degradação e um dano ambiental. Para existir este último, a atenção deve ser voltada para as características do meio ambiente: equilibrado e essencial à sadia qualidade de vida.

Equilíbrio nada mais é do que “uma igualdade, absoluta ou aproximada, entre forças opostas” (MACHADO, 2012, p. 66), isto é, não há como sustentar que a Constituição brasileira vedou toda e qualquer interferência do homem no meio ambiente. Pelo contrário, sendo bem de uso comum, autoriza, obviamente, o uso, desde que a intensidade desta atividade não quebre o equilíbrio assegurado.

Conforma-se o entendimento, portanto, de que a sociedade pode e deve interferir no meio em que vive, tudo em consonância e respeito ao próprio dinamismo das relações naturais que permitem a evolução dos seres. Não pode jamais, entretanto, impedir o equilíbrio existente entre as múltiplas relações biológicas, cabendo ao Direito intervir de modo a regular esta relação homem-meio, sob risco de ele próprio, ser humano, ser obrigado a habitar um meio ambiente que não permita sua existência, evolução e desenvolvimento. (LIMA FILHO, 2014, p. 68).

A alteração do meio ambiente pode ser vista como normal, inerente à inter-relação que o consubstancia. Quando esta alteração é prejudicial, toma forma a figura da degradação ambiental que, por sua vez, poderá resultar em poluição, de acordo com sua gravidade e

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consequência para o equilíbrio do meio ambiente e demais funções, caracterizando o dano ambiental. Destarte, o grande problema está na análise, frente ao caso concreto, de se determinar se certa alteração poderá ou não ser considerada prejudicial (degradação) ao equilíbrio do meio ambiente e à sadia qualidade de vida proporcionada por ele. Nesta toada, o estado de equilíbrio “não visa à obtenção de uma situação de estabilidade absoluta, onde nada se altere. É um desafio científico, social e político permanente aferir e decidir se as mudanças ou inovações são positivas ou negativas” (MACHADO, 2012, p. 66).

Diante disto, para que se permita o contraditório, na imputação à alguém da prática de dano ambiental é necessário que se indique, especifique e quantifique o dano, esclarecendo de que forma o meio ambiente foi atingindo e apontando elementos que permitiram esta constatação.

Portanto, mesmo que haja dúvida a respeito do que seja exatamente meio ambiente, ao imputar-se a alguém a prática de um dano a esse meio ambiente, é preciso que seja especificado que dano foi praticado sobre que meio ambiente. Tudo isso porque não se pode olvidar que o poder público que efetivamente o administra tem como um dos princípios de resguardo e de ação o respeito à prévia legalidade, conclui-se, dessa forma, a que a imputação danosa ao meio ambiente precisa ser especificada em lei. (BARROS, 2013, p. 121-122, grifos do autor).

Destarte, quando do trato de fatores que, por sua própria natureza, possuem o condão de alterar o meio ambiente, como, por exemplo, a indústria, a agricultura, a urbanização ou o próprio aumento populacional humano, ganha especial importância o delineamento da tênue linha que separa a alteração do dano ambiental. No caso da agricultura, por trabalhar diretamente sobre o meio ambiente natural, é de inegável destaque a figura dos produtos agrotóxicos utilizados por ela.

1.3 Necessidade de desenvolvimento e potencialidade de dano ambiental

Sendo o dano ambiental de difícil constatação, reparação e identificação dos responsáveis, a regra é que seja buscada sempre a prevenção de sua ocorrência. Ademais, reconhecida a importância do meio ambiente para o homem, tanto no sentido de ser indispensável à vida como ao avanço econômico, sua adequada proteção é albergada pelos princípios da prevenção e da precaução. Este são dois dos princípios basilares do direito ambiental, com a função de fornecer a proteção do meio ambiente na sociedade moderna.

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Embora possam parecer sinônimos, cada um dos princípios citados refere-se a situações diferentes. No Brasil, o princípio da precaução foi expressamente reconhecido através da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, na chamada Rio 92. Segundo o Princípio 15 desta,

Com o fim de proteger o meio ambiente, o princípio da precaução deverá ser amplamente observado pelos Estados, de acordo com suas capacidades. Quando houver ameaça de danos graves ou irreversíveis, a ausência de certeza científica absoluta não será utilizada como razão para o adiamento de medidas economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental. (ONU, 2014).

A invocação do princípio da precaução, de acordo com a disposição acima, serve para aquelas oportunidades onde o conhecimento científico é insuficiente para determinar se certa atividade causará ou não impactos danosos ao meio ambiente, mas que é eficiente em constatar indícios suficientes de que os efeitos de tais atividades são potencialmente perigosos ao bem ambiental.

Diferente é o caso do princípio da prevenção. Este trata de risco conhecido e auferível, mensurável pela ciência. Aplica-se à atividades que são efetiva, e não potencialmente, perigosas ao meio ambiente. A finalidade do princípio da prevenção é, em última instância, “impedir a ocorrência de danos ao meio ambiente, através da implantação de medidas acautelatórias antes da implantação de empreendimentos e atividades consideradas efetiva ou potencialmente poluidoras” (MILARÉ, 2011, p. 1071).

O estudo de impacto ambiental foi uma ferramenta eleita pelo legislador constituinte que serve de exemplo de instrumento para se permitir a aplicação prática tanto do princípio da prevenção como o da precaução. A Carta Política, em seu artigo 225, §1, inciso IV aduz que é incumbência do Poder Público “exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental” (BRASIL, 2014).

Em realidade a prevenção e a precaução militam lado a lado na defesa do meio ambiente, mas referem-se a situações diferentes:

a prevenção trata de riscos ou impactos já conhecidos pela ciência, ao passo que a precaução se destina a gerir riscos ou impactos desconhecidos. Em

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outros termos, enquanto a prevenção trabalha com o risco certo, a precaução vai além e se preocupa com o risco incerto. Ou ainda, a prevenção se dá em relação ao perigo concreto, ao passo que a precaução envolve perigo abstrato. (MILARÉ, 2011, p. 1069).

Porém, a observância dos princípios referidos não resulta na conclusão de que qualquer atividade que gere risco, concreto ou abstrato, ao meio ambiente seja considerada inviável e descreditada pela sociedade e pela lei. Note-se que as definições principiológicas citadas em nenhum momento vedam, em qualquer hipótese, a instalação de atividades que geram risco ao meio ambiente. Na realidade elas apenas estipulam que, antes de ser autorizada a instalação ou a prática de determinada atividade que traga risco ao meio ambiente, sejam tomadas as medidas acautelatórias adequadas para de prevenir o dano ambiental, sendo que estas medidas poderão ser identificadas através de instrumentos como o previsto pela Constituição, o estudo de impacto ambiental, por exemplo. Apesar da definição dada aos princípios citados, muitas vezes eles são utilizados como argumento para se defender uma defesa absoluta e irrestrita ao meio ambiente.

O princípio da precaução é um dos mais difundidos princípios do direito ambiental e que, no entanto, tem sido evocado, especialmente por organismos ambientais não governamentais, de forma extremada e sem o devido sopesamento com os demais princípios que norteiam o novo direito, como, por exemplo, o princípio do desenvolvimento sustentável. (BARROS, 2013, p. 61).

A ideia central deste princípio do desenvolvimento sustentável é que o desenvolvimento em si, o progresso e o avanço tecnológico da humanidade são fatores indispensáveis à vida social e merecedores de estímulo, mas, dada a finitude dos recursos e da qualidade ambiental, devem ser adequados à preservação ambiental para as gerações vindouras. Diante disto pode-se retirar a ideia de que o meio ambiente equilibrado é indispensável tanto à saúde e à vida quanto ao próprio desenvolvimento, desde que utilizado no limite da sustentabilidade, evitando seu esgotamento.

A Declaração do Rio de 1992 também tratou da matéria do desenvolvimento sustentável. Em seu Princípio 1 estabelece que “Os seres humanos estão no centro das preocupações com o desenvolvimento sustentável. Têm direito a uma vida saudável e produtiva, em harmonia com a natureza”, além de reconhecer que os países são portadores do “direito soberano de explorar seus próprios recursos segundo suas próprias políticas de meio ambiente e de desenvolvimento” (ONU, 2014).

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Outrossim, o princípio do desenvolvimento sustentável já era palpável na Constituição Federal brasileira, antes mesmo da Conferência de 1992, sendo reconhecida a ligação existente entre o desenvolvimento e a preservação do meio ambiente:

Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:

[...]

VI - defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação (BRASIL, 2014).

Nesta seara, partindo do pressuposto que meio ambiente e desenvolvimento econômico não são antagônicos, mas sim complementares, quando se está tratando de prevenção, precaução e desenvolvimento sustentável, um princípio não deve anular o outro, mas coexistirem de forma equilibrada, sempre evitando interpretações e aplicações desproporcionais de qualquer deles. Segundo preceitua o Princípio 4 da Declaração do Rio (ONU, 2014), “Para alcançar o desenvolvimento sustentável, a proteção ambiental deve constituir parte integrante do processo de desenvolvimento, e não pode ser considerada isoladamente deste”, ou seja, o desenvolvimento e a proteção ambiental são, em realidade, interdependentes, somente podendo ser efetivos se mutuamente respeitados.

O ordenamento jurídico brasileiro, como se percebe, em nenhum momento eleva o meio ambiente à qualidade de intocável, inatingível, superior ao próprio homem e seu direito fundamental ao desenvolvimento econômico, muito pelo contrário, reconhece a importância e a relação entre ambos. Mas, infelizmente,

isto é o que se observa na vida jurídica ambiental brasileira. É perceptível um certo maniqueísmo na defesa de um ambiente utópico ou ideal, ufanado através de uma base aleatória e midiática do politicamente correto muitas vezes propalado sem o devido lastro científico. Como ação política educativa implementada pelo Poder Público para a difusão da essencialidade do meio ambiente é até admissível. O preocupante é que essa defesa intransigente possa contaminar os estudiosos desse novo direito levando de roldão princípios jurídicos fundamentais e instituidores do próprio País que, no campo do meio ambiente, optou pelo desenvolvimento sustentável. Ou seja, o meio ambiente deve ser respeitado, mas seu uso deve ser adequado à necessidade de desenvolvimento do País (BARROS, 2013, p. 15, grifos do autor).

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Proteção do meio ambiente e desenvolvimento não devem ser vistos como institutos incompatíveis, mas sim complementares. Sem meio ambiente, a espécie humana, integrante dele, extinguir-se-á. Sem desenvolvimento, a sociedade é insustentável, ocorrendo o sacrifício da espécie, do meio ambiente cultural e o do trabalho em prol do natural. Assim, o meio ambiente deve, sem sombras de dúvidas, ser protegido, mas de uma forma que guarde harmonia com o desenvolvimento, que, por sua vez, só será realmente eficaz se fizer uso do meio ambiente de maneira sustentável.

Defender a proteção absoluta do meio ambiente é atentar contra o princípio do desenvolvimento sustentável, comprometendo a sobrevivência e expansão do homem. Pugnar pelo desenvolvimento desmedido, irracional e predatório é contrariar os princípios da precaução e prevenção, além de olvidar-se da importância do meio ambiente equilibrado para permitir a vida, inclusive a humana. Neste sentido de ponderação entre princípios, convém colacionar a lição de Celso Antônio Bandeira de Mello (2009, p. 949):

Violar um princípio é muito mais grave que transgredir uma norma qualquer. A desatenção a um princípio implica ofensa não apenas a um especifico mandamento obrigatório, mas a todo o sistema de comandos. É a mais grave forma de ilegalidade ou inconstitucionalidade, conforme o escalão do princípio atingido, porque representa a insurgência contra todo o sistema, subversão de seus valores fundamentais, contumélia irremissível a seu arcabouço lógico e corrosão de sua estrutura mestra.

Destarte, parece equivocado condenar somente o explorador predatório do meio ambiente, já que o defensor absoluto e irracional da preservação, que eleva o ambiente a algo próximo do divino, intocável ao homem e imune de qualquer ingerência que vise o desenvolvimento sustentável, também está cometendo ilegalidade, contrariando princípios consagrados pelo ordenamento jurídico. Assim como se respeita o defensor ambiental que prima pela razoabilidade, que trava embates contra aquelas causas que realmente desrespeitam qualquer parâmetro de sustentabilidade, também merece reconhecimento o usuário de recursos ambientais que tem consciência tanto da importância da sua atividade como da preservação do meio ambiente, agindo de maneira sustentável e em conformidade com a lei.

Apesar disto, o próprio Direito Ambiental muitas vezes é folcloricamente visto como o regramento que protege o meio ambiente a qualquer custo, impossibilitando que qualquer utilidade ou proveito seja extraído dele para fins de desenvolvimento, principalmente se este

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for de natureza econômica. Mas, na realidade, a árdua e justa função do Direito Ambiental é nada mais do que

buscar um equilíbrio entre os diferentes aspectos que compõem o sistema de proteção legal do meio ambiente. Privilegiar qualquer um dos diferentes componentes do Direito Ambiental é esvaziar sua principal característica que é, exatamente, a de efetivar uma ponderação entre valores que, aparentemente, são contraditórios. (ANTUNES, 2011, p. 5).

É justamente dentro desta visão de Direito Ambiental e de ponderação e equilíbrio entre prevenção, precaução e desenvolvimento sustentável que deve ser compreendida a utilização de produtos que tem como característica a alteração do ambiente, como os agrotóxicos.

1.4. Agrotóxicos e agricultura

A conjunção destes termos pode parecer redundante já que, pelo nome dado, gera a impressão de que químicos desta natureza tem sua utilização restrita àquela atividade, pintada por muitos como inimiga do meio ambiente. Todavia, o uso de químicos equiparados aos agrotóxicos é feito por toda a sociedade moderna, inclusive a urbana.

Portanto, para o desenvolvimento do tema é imprescindível delimitar no que consiste o agrotóxico. A Lei nº 7.802, de 1989 (BRASIL, 2014), é o principal diploma no ordenamento jurídico brasileiro no tratamento da matéria, conceituando agrotóxicos e afins como

a) os produtos e os agentes de processos físicos, químicos ou biológicos, destinados ao uso nos setores de produção, no armazenamento e beneficiamento de produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de florestas, nativas ou implantadas, e de outros ecossistemas e também de ambientes urbanos, hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a composição da flora ou da fauna, a fim de preservá-las da ação danosa de seres vivos considerados nocivos;

b) substâncias e produtos, empregados como desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores de crescimento.

Em que pese a população reconhecer na agricultura o único responsável pela utilização de agrotóxicos e afins (possivelmente em função da nomenclatura), o conceito legal é claro quando salienta que o seu uso não está circunscrito ao âmbito rural. Pensando em um exemplo simples: a utilização de cloro e algicidas para tratar a água utilizada nos centros urbanos, seriam que espécie de químicos? E quanto aos inseticidas, raticidas e mosquicidas usados em

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residências? Ora, sendo eles substâncias químicas utilizadas com a finalidade de alterar a fauna para afastar seres vivos considerados nocivos à água (microrganismos e algas) ou aos domicílios (insetos, roedores, etc.), é possível que sejam enquadrados na definição legal como afins de agrotóxicos.

Obviamente que os químicos utilizados no meio rural, como os pesticidas, herbicidas, fungicidas, desfolhantes etc. também estão inclusos no conceito legal, reconhecidos assim até mesmo pelo senso comum, mas, talvez por não estarem presentes no dia a dia da maioria das pessoas, são os únicos criticados.

O uso de agrotóxicos, como bem indica o conceito legal (ut retro), não é privativo de atividades rurais. Aliás, o emprego de agrotóxicos se encontra incrementado nos ambientes urbanos pelo uso recorrente de produtos tóxicos extremamente nocivos e perigosos, rotulados de “herbicida urbano”, “capina química”, “desfolhante agroindustrial” etc. Nos ambientes domésticos, não menos preocupante se revela o uso indiscriminado dos chamados “inseticidas domésticos”, “mata-mosca”, “mata-barata”, “mata mosquito” etc., indicativo de sérios riscos à saúde humana. Da mesma forma, os produtos tóxicos usados para “desinsetização” em ambientes de trabalho, como indústrias, escolas, hospitais, depósitos etc., alguns deles do grupo químico “organofosforados”, sabidamente nocivos à saúde humana. (BRUM VAZ, 2006, p. 23, grifos do autor).

Segundo atual matéria da revista Superinteressante (CINTRA, 2013), é notório que a regulamentação e fiscalização dos tóxicos utilizados na agricultura é mais rígida do que aqueles de cunho residencial. Todavia, os chamados inseticidas domésticos, propagandeados como simples protetores da família, podem ser mais nocivos à saúde humana do que os próprios químicos utilizados na agricultura. A matéria ainda ressalte que, embora os inseticidas domésticos tenham os mesmos princípios ativos do que aqueles utilizados na agricultura, os mesmos “não dependem da aprovação dos órgãos de agricultura e meio ambiente. O registro fica por conta apenas da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) – motivo pelo qual escapam de ser classificados e fiscalizados como agrotóxicos” (CINTRA, 2013), sendo que alguns estudos relacionam diversos tipos de leucemia infantil com tais inseticidas domésticos, quando em contato direto com a criança.

Ressalvadas as observações acima, aproveitando do senso comum e para fins de simplificar o desenvolvimento do tema, manter-se-á a expressão agrotóxicos para se referir aos

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químicos utilizados na agricultura, sendo afins a eles as substâncias químicas empregadas fora daquela atividade, mas ambos observando o conceito legal.

Até a década de 50 a agricultura brasileira teve como função primordial a geração de produtos destinados à exportação, para o próprio consumo da população residente no meio rural e para alguns poucos núcleos urbanos. A partir dos anos 60 o Brasil começou a passar por marcantes transformações: o setor industrial demonstrou franca expansão, as cidades e grandes regiões metropolitanas demonstraram crescimento marcante. A agricultura, então, teve que voltar-se, em parte, ao abastecimento das populações urbanas e fornecimento de matéria-prima para as indústrias. Para acompanhar este crescimento e as novas atribuições sobre o setor agrícola, “foi preciso promover o uso de maquinários agrícolas (utilização de tratores, arados, grades, pulverizadores, etc.), equipamentos e insumos químicos (fertilizantes e agrotóxicos), revolucionando a base técnica da agricultura” (CARRARO, 1997, p. 46). Com efeito, a modernização das técnicas agrícolas, “com a mecanização da lavoura e a utilização de insumos químicos, possibilitou a produção em larga escala” (BRUM VAZ, 2006, p. 27).

Não se pode negar que se está criando uma mentalidade nova em relação ao uso da propriedade rural: deve ser usada para a produção de mercado interno e externo. O fim da produção rural deve ser agressivo para competir no mercado internacional em grande escala; para isso não faltam meios materiais e humanos. A agricultura tradicional está se modificando economicamente, porque produz para o mercado, ou seja, se dirige para um grande processo de comercialização envolvendo aspectos industriais (...). A agricultura é, e será ainda por alguns anos, o campo de batalha onde se decidirá a sorte nacional e sua configuração jurídica e econômico-social. (OPTIZ, 2014, p. 192).

Nesta seara, a agricultura moderna já não é vista somente como o ramo responsável pela alimentação da população urbana e rural. Antes de tudo ela é vista como integrante indispensável do sistema econômico, sem a qual os setores de indústria e serviços estariam fadados à impossibilidade de se manter em atividade. Segundo a Agroanalysis, revista de agronegócios da Fundação Getúlio Vargas, além de o agronegócio ser essencial pelo desempenho econômico das cidades do interior brasileiro, criando emprego e renda nestas regiões, a agricultura também é fundamental para:

• Garantir minimamente a oferta de alimentos: segurança alimentar, assim como segurança militar e energética, é umas das três políticas mais estratégicas para qualquer nação. Países (ou bloco de países) alocam frações significativas do seu PIB justamente para tentar manter uma oferta mais estável de alimentos para a sua população.

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• Permitir maior estabilidade de preços: com oferta mais abundante ou mais estável de alimentos e de insumos agrícolas para as atividades industriais, o setor agrícola contribui positivamente para manter a inflação sob controle. • Conferir maior liberdade para a política monetária: em diversos países, as exportações agrícolas têm participação decisiva na formação das reservas. Estas reservas são fundamentais, pois, ao permitir que o governo tenha melhores instrumentos para controlar os movimentos da taxa de câmbio, conferem maior liberdade para a política monetária. (SERIGATI, 2013).

Veja-se que a agricultura possui valor não somente nela mesma, mas como integrante essencial e indissociável do setor do agronegócio brasileiro, compreendido este como a conjunção “de quatro segmentos: (a) insumos para a agropecuária, (b) produção agropecuária básica ou, como também é chamada, primária ou “dentro da porteira”, (c) agroindústria (processamento) e (d) distribuição” (CEPEA, 2013, p. 2).

Aliás, dos setores considerados para o cálculo do Produto Interno Bruto do país, o da agropecuária foi o que mostrou maior expansão nos últimos anos. Segundo dados do IBGE, publicados pelo Portal Brasil (2014), o “desempenho da agropecuária, que teve expansão de 7% em 2013, foi o maior desde 1996, quando foi adotada a atual metodologia de cálculo do PIB, atingindo R$ 234,6 bilhões”. Outrossim, demonstrando a eficiência do setor, apenas a título de exemplo, enquanto a área de plantio de soja no Brasil aumentou 11,3% no ano de 2013, a produção de tal commoditie cresceu em 24,3% (PORTAL BRASIL, 2014).

Para possibilitar uma agricultura deste porte, a tecnologia é indispensável não somente em relação aos maquinários, mas principalmente no controle químico de seres considerados nocivos à atividade, aumentando, assim, a produção. Para tal finalidade, são utilizados agrotóxicos de basicamente seis classificações: bactericidas, nematicidas, herbicidas, fungicidas, inseticidas e acaricidas (CARRARO, 1997, p. 50).

A tônica deste início de século deverá ser a busca da compatibilização entre a necessidade de desenvolvimento econômico, especialmente de incremento da produção agrícola, porque esta atividade é fundamental à sobrevivência da espécie humana, e a obrigação, não menos vital, de se preservar os recursos naturais. Esta equação que está compreendida no princípio do desenvolvimento sustentável [...]. De rigor, as maiores preocupações da humanidade são o crescimento populacional, a necessidade de produzir alimentos e a preservação dos recursos naturais. (BRUM VAZ, 2006, p. 26).

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Tal problemática envolvendo crescimento populacional e necessidade de produzir alimentos já foi vislumbrado no ano de 1798 pelo economista britânico Thomas Malthus, quando da publicação de sua obra Um Ensaio Sobre o Princípio da População. Segundo sua teoria, enquanto a produção de alimentos aumenta em ritmo de progressão aritmética, a taxa de crescimento populacional cresce em progressão geométrica, ou seja, mais rápida que a primeira (LANDSBURG, 2014). Nesta perspectiva, não havendo diminuição na taxa de crescimento populacional ou o emprego de técnicas que permitam um maior incremento na produção de alimentos, para que esta supere o crescimento da população, a escassez de comida é questão de tempo.

Segundo publicações do Jornal O Estado de São Paulo (apud FIORILLO, 2013, p. 887 a 889), a agricultura brasileira, além de prover alimentos para o mercado interno, permitiu que o país seja hoje um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, vendendo a produção para cerca de 200 países. Ademais, com o uso de tecnologia, envolvendo maquinários, fertilizantes, agrotóxicos e práticas mais adequadas à preservação do solo, conseguiu resultados impressionantes: enquanto a área de lavouras aumentou em 25,4% entre as safras de 1999-2000 e 2009-2010, no mesmo período a produção aumentou em 79,7%, ou seja, a tecnologia empregada, inclusive com agrotóxicos, permitiu um salto de produtividade com maior preservação do meio ambiente. “Quem retrata a expansão da agricultura brasileira como um processo devastador do ambiente deve desconhecer esses dados ou ser incapaz de interpretá-los. Ou agir de má-fé” (O ESTADO DE SÃO PAULO apud FIORILLO, 2013, p. 888).

Assim, é indubitável que os produtos agrotóxicos, apesar de não serem ideais, são a melhor técnica disponível atualmente para se possibilitar uma produção agrícola que atenda à demanda da sociedade, visto que atualmente “a agricultura sem produtos químicos é apenas uma esperança. Não se logrou, até aqui, uma produção agrícola isenta de produtos químicos que seja grande o suficiente para suprir as necessidades básicas da humanidade” (ANTUNES, 2010, p. 645).

Desse modo, antes de serem tecidas somente críticas aos produtos atuais, como se a solução do problema fosse simples (proibição universal do uso de químicos na produção de alimentos) devem ser estimuladas as pesquisas tanto de agrotóxicos com potencial menos agressivo ao homem e ao meio ambiente como de técnicas alternativas a eles, que permitam uma produtividade satisfatória à demanda.

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Infelizmente não há tecnicamente, “à luz da ciência atual”, possibilidade da agricultura prescindir do uso dos agrotóxicos, soluções radicais de exclusão total e imediata da aplicação desses produtos, consideramos ser apenas uma retórica de abnegados preservacionistas. Nossa consideração é que apenas através do entendimento dos atores envolvidos é que poderemos encontrar soluções definitivas a curto, médio e longo prazo. O próprio homem do mesmo modo que desestruturou os ecossistemas agrícolas pela implantação de monoculturas, poderá encontrar os caminhos para restabelecer o equilíbrio. (LUNA, 2008, p. 17-18).

Neste sentido, quando do trato da temática de agrotóxicos na esfera ambiental, deve-se atentar sempre para a conjugação dos princípios da precaução, prevenção e do desenvolvimento sustentável. “O emprego de químicos para controlar insetos, pragas, ervas daninhas e fungos aumenta a produtividade, porém o emprego abusivo ameaça a saúde dos seres humanos e a vida de outras espécies” (COMISSÃO..., 1991, p. 138), logo, a matéria merece uma atenção com razoabilidade, sem negar a necessidade de uso, mas com o reconhecimento dos riscos do abuso dos agrotóxicos.

Segundo o relatório da Comissão Mundial sobre meio Ambiente e Desenvolvimento (1991, p. 139), o “uso de produtos químicos na agricultura não é prejudicial em si mesmo”, mas quando esta aplicação se dá de forma indiscriminada, sem a necessária moderação e cuidado, começam a surgir os riscos para o meio ambiente e para a saúde humana. Além disto, os agrotóxicos tem como característica inerente o combate a seres vivos, integrantes, portanto, da inter-relação que compõe o meio ambiente, naturalmente alterando este último.

Conforme salienta Paulo Afonso Brum Vaz (2006), alguns agrotóxicos possuem outras características, que podem contribuir para o surgimento de algum dano ambiental. Em sua maioria, os químicos citados são altamente voláteis, isto é, podem ser carregados pelo ar à longas distâncias da aplicação, podendo estender eventual impacto ambiental à limites imprevisíveis. Outrossim, determinados tipos de agrotóxicos permanecem no solo por longo período, gerando o risco de que homens e animais possam ser contaminados por ele. Mas um dos principais riscos apresentados pelos químicos parece estar nos eventuais resíduos em alimentos de origem vegetal e animal (muitas vezes resíduos de químicos aplicados na própria estocagem de alimentos) ou contaminação de recursos hídricos. Mas estes impactos não são consequência do uso correto e autorizado pela lei de produtos agrotóxicos. Na verdade eles ocorrem “principalmente em razão da inobservância do número correto de aplicações, das

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dosagens recomendadas ou dos intervalos de tempo necessários entre a aplicação e a colheita, e mesmo do uso de produtos químicos ilegais” (BRUM VAZ, 2006, p. 41).

Atentando para a necessidade de uso de agrotóxicos e ciente do poder que os mesmos tem em danificar o meio ambiente é que o ordenamento jurídico brasileiro disciplina todo seu processo de fabricação, distribuição, venda, uso e descarte, com base no princípio do desenvolvimento sustentável e atento à precaução. Caso não fosse considerado necessário ou ainda se fosse julgado perigoso em excesso se comparado com os benefícios que gera, o agrotóxico certamente seria vedado pela lei e não regulamentado como o é. Esta é inclusive a inteligência que se obtém da leitura do artigo 253 da Constituição Estadual do Rio Grande do Sul que estipula ser

vedada a produção, o transporte, a comercialização e o uso de medicamentos, biocidas, agrotóxicos ou produtos químicos e biológicos cujo emprego tenha sido comprovado como nocivo em qualquer parte do território nacional por razões toxicológicas, farmacológicas ou de degradação ambiental. (RIO GRANDE DO SUL, 1989).

Ora, sendo proibidos os agrotóxicos cujo emprego gere comprovadamente impactos ao meio ambiente, se abstrai que nem todo químico desta natureza será prejudicial se fabricado, transportado, registrado, utilizado e descartado da maneira correta. Destarte, o que deve ser combatido e vedado é a prática indiscriminada e indevida, não aquela que se coaduna com a legalidade e favorece o desenvolvimento, sob pena de se desrespeitar o ordenamento jurídico.

Reconhecendo a importância da temática, a Constituição Federal, em seu artigo 225, §1º, inciso V, atribui ao Poder Público a incumbência de “controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente.” Ademais, em seu artigo 220, juntamente com os medicamentos, trata da propaganda dos agrotóxicos, que deverão advertir sobre os malefícios que podem causar. (BRASIL, 2014).

Sob este prisma, parece indubitável que o legislador brasileiro reconheceu tanto a necessidade atual dos produtos agrotóxicos como o potencial risco que estes apresentam ao meio ambiente e à saúde se não forem tratados da maneira correta. Assim, respeitando a escorreita legalidade, relegou ao poder público a tarefa de controlar todo o processo que envolve produtos agrotóxicos, mediante regramento próprio.

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