2 A ESTRUTURA DO ENSINO METAFÍSCO COMO CAPACITAÇÃO ÉTICA
2.2 A subjetividade como responsabilidade
2.2.1 Responsabilidade: heteronomia e liberdade refém
Interpretada à luz de uma nova conceitualização e traduzida numa linguagem diferente, a subjetividade aparece-nos neste contexto filosófico estruturada a partir de uma heteronomia que não é nem fonte de alienação, nem pretexto para uma demissão fatalista108. A identidade deixa-se definir pela alteridade na medida em que a toma a seu cargo, na medida em que passa a definir-se pelo Outro, num para-o-Outro. Como se o Outro entrasse, definitivamente, na nossa própria pele. O uso da metáfora visa aqui justamente reconduzir- nos à condição de um ser sensível e compassivo, não indiferente. Um ser como corpo a partir do qual vive a fome, a sede e a dor e a partir do qual sente, também, a fome, a sede e a dor do Outro, procurando para essas necessidades a devida satisfação.
O recurso ao superlativo da hipérbole para designar as relações ontológicas, e lógicas, decorrentes desta concepção de subjetividade justifica-se pelo sentido ético ligado à vinculação ao rosto. O Outro da heteronomia é Outrem. Só pela sua presença, esse Outro dá testemunho de um começo totalmente estranho ao começo do Eu. A remissão para esta anterioridade anárquica impede que a consciência possa repousar em si mesma, auto- comprazendo-se numa atitude de quietude e de indiferença.
A alteridade de Outrem não pode ser apreendida na viagem pelo mundo como um qualquer alimento. Não pode ser assumida num presente. Provocando um ensinamento sem forma ou conteúdo, essa alteridade motiva um permanente movimento de relação. Dissemos já a propósito da hospitalidade, que a presença do Outro no Mesmo, implica um ser posto em questão, colocado em situação de conflito com a sua identidade, exatamente como um perseguido.
108 Esta passividade sofrida na proximidade por meio de uma alteridade em mim, esta passividade da
recorrência a si que, sem dúvida, para Levinas, não é a alienação de uma identidade traída. Ou seja, “não é alienação uma vez que o Outro no Mesmo é minha substituição do outro conforme a responsabilidade enquanto insubstituível, pelo qual eu estou encarregado. Por o outro e para o outro, mas sem alienação, senão que inspirado. Inspiração que é psiquismo, mas um psiquismo que pode significar esta alteridade no mesmo sem alienação, ao modo de encarnação, como ser-na-sua-pele, como ter-o-outro-em-sua-pele” (LEVINAS, 1987, p.
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A positividade da transcendência do infinito manifesta-se no traço marcado no rosto de Outrem como um rastro (vestígio) impossível de fixar ou de seguir porque é sinal de “aquele que deixou vestígio ao apagar os seus vestígios, nada quis dizer ou fazer por meio dos vestígios que deixa. Perturbou a ordem de uma forma irreparável. Passou em absoluto. Ser na acepção de deixar um vestígio é passar, partir, absolver-se” (LEVINAS, 1999, p. 242). Presença do invisível que, antes de reclamar a busca racional, pede resposta, convocando assim o exercício de uma “responsabilidade anterior a qualquer intenção saída de uma liberdade” (LEVINAS, 1987, p. 56). Neste sentido, o sujeito fica cativo na medida em que por mais que faça, nunca faz o suficiente. A responsabilidade é, nesta medida, inalienavelmente pessoal e infinita109. Ninguém poderá substituir, tomar o lugar do Eu que foi eleito. O que, representando um privilégio, uma soberania, traduz também numa experiência de subordinação.
A recorrência do si mesmo na responsabilidade para com os outros, obsessão perseguidora, percorre caminho contrário ao da intencionalidade, de modo que a responsabilidade para com os outros jamais poderá significar vontade altruísta, instinto de “benevolência natural” ou amor. Na passividade da obsessão (...) a responsabilidade para com os outros chega até a substituição. O sujeito é refém. Cercada de responsabilidade (...) a subjetividade é a rejeição de si: acusada do que fazem ou sofrem os outros, responsável do que fazem ou do que sofrem. A unicidade de si é o próprio fato de conduzir à falta do outro. Na responsabilidade para com o outro a subjetividade é tão só esta passividade ilimitada de um acusativo, que não é consequência de uma declinação que houvesse sofrido a partir do nominalismo. Acusação que só pode se converter em passividade do Si mesmo enquanto perseguição, mas também perseguição que se torna expiação (LEVINAS, 1987, p. 180).
Como responsabilidade, a subjetividade continua a ser uma subjetividade de carne e de sangue, com tudo o que isso implica em termos de sensibilidade, de vulnerabilidade e de capacidade de afecção. A responsabilidade refere-se ao modo de ser para o Outro que procede qualquer diligência da vontade. Ela é anterior a qualquer um dos seus começos possíveis. Ou seja, ela requer a passividade absoluta, a liberdade refém110. Mas até que ponto faz sentido defender uma responsabilidade que não começa no sujeito? Ao fazer depender a relação intersubjetiva sempre da iniciativa de um outro absolutamente exterior, Levinas não
109 Sem nenhuma falta cometida, sem qualquer gesto da sua liberdade que o justifique, o indivíduo é colocado
em questão, obrigado a interrogar-se aquém de toda a verdade construída ao longo da aventura que consolida a sua condição de existente. É neste sentido que o filósofo faz subordinar a obra da verdade a uma exigência moral. A liberdade colocada em questão, chamada ao questionamento, não é uma liberdade fracassada no seu processo de busca racional, mas uma liberdade que se realiza no próprio movimento de se realizar, nunca descansando em si mesma, assumindo inteiramente a exigência de uma busca sem fim.
110 A solicitação de Outrem lembra essa exigência, desperta-a, mantém-na viva. E é aqui que reside a
valorização da hospitalidade enquanto primeiro movimento da consciência. A interrupção traumática provocada pela presença do Outro precede o em si da ipseidade. Como cedência de prioridade que não significa submissão, mas entrada numa esfera de liberdade que transcende qualquer capacidade de iniciativa.
estará a comprometer a assunção pessoal da responsabilidade? Se, como pretende Levinas, a responsabilidade requer da parte do Mesmo uma passividade absoluta, como pode o sujeito responder realmente?
O laço que assinala este encontro pessoal traduz-se numa obediência incondicional ao mandamento do rosto, ou responsabilidade111. O Outro, absolutamente Outro, Outrem, não limita a “liberdade do Mesmo. Chamando-o à responsabilidade, implanta-a e justifica-a. A relação ao outro enquanto rosto cura da alergia, é desejo, ensinamento recebido e oposição pacífica do discurso” (LEVINAS, 2000, p. 176). A autoridade desse mandamento mergulha as suas raízes numa anterioridade imemorial, num tempo infinito e descontínuo que os relógios são incapazes de medir. Na fenomenologia levinasiana o rosto, as rugas simbolizam precisamente o atraso inevitável com que chegamos ao encontro da outra pessoa. Confrontar outra pessoa significa entrar em relação com outra história de vida, com outras memórias, outras mágoas, outros sonhos. Significa, afinal, estar perante um mundo interior que começa e acaba num ser próximo, mas absolutamente separado.
O sujeito perde toda a ilusão de autonomia na resposta à dupla expressão do rosto que, em simultâneo, dá conta de uma fragilidade e de uma exigência. Dirigido ao si mesmo, o olhar de Outrem convoca os poderes do sujeito, constituindo pela força do seu imperativo uma eleição. Mas esta eleição não funciona como privilégio no sentido comum do termo. Ela não vem isentar o sujeito de deveres ou obrigações. Pelo contrário, existe eleição na medida em que existe uma chamada pessoal à responsabilidade, em que existe uma notificação a partir da qual a inocência é impossível.
A condição de perseguido, que caracteriza o sujeito segundo a expressão levinasiana, significa precisamente essa impossibilidade de inocência. Uma impossibilidade que Levinas recusa associar à ideia de um pecado original, preferindo antes remetê-la para a ideia de uma bondade original. A anterioridade anárquica refere-se ao primado absoluto de uma alteridade transcendente que coloca o sujeito na posição de criatura, no lugar de alguém que não pode ser causa primeira de si próprio. Na presença do rosto, a consciência fica sem tempo para regressar reflexivamente a si, refém do mandamento que, questionando-a, a orienta, numa direção absolutamente nova. Ancorada na transcendência, definida como inadequação absoluta, “a responsabilidade não pode ser finita, mensurável, regulamentável, suscetível de
111 O respeito pela sua unicidade, pela sua incomparabilidade, torna obrigatória a comparação e a tematização,
convocando o saber como dito, consagrado como filosofia, como ciência e como história. Contudo, reconhecida como significação ética, a passividade do refém representa a radicalidade do questionamento, a
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uma escolha ou de uma decisão circunstancialmente determinada” (LEVINAS, 1993b, p. 56).
Por outro lado, a responsabilidade não pode ser alienada a pretexto da sua incondicionalidade ética. Nesta medida, carece de determinação histórica e do constrangimento da lei moral. Sendo irrecusável, a responsabilidade não pode permanecer ao nível abstrato do apelo, vazia. Ou seja, por ser imperativamente incondicional, a responsabilidade não pode estar acima das leis objetivas que a tornam efetiva, ela precisa torna-se condicionada no plano histórico onde é posta à prova.
Defendemos que, como outras competências éticas, a responsabilidade ocupa um lugar essencial no âmbito das tarefas sociais. Entre estas, privilegiamos as que se referem à exigência de decisão e de ação que sublinham a condição do sujeito ético enquanto sujeito capaz. Compreender a subjetividade como hospitalidade e responsabilidade, uma subjetividade fundada na heteronomia, permite-nos evidenciar essa condição112.
Não existe verdadeiro poder de decisão fora da prova do indecidível. Se a decisão se limita ao que está ao alcance do nosso saber e do nosso poder, se ela não é mais do que o nosso possível, então não chega a ser decisão. A decisão ética não é um simples ato de soberania racional, apoiado apenas na autoridade do saber e do poder do sujeito, ela decorre da aceitação do que aparece sem ser esperado e calculado. Assim, ela institui-se como verdadeiro poder. Justamente ao afirmar-se como decisão passiva. Indissociável do reconhecimento da fundação ética dos laços sociais, a sociabilidade corresponde ao espaço de afirmação de um agir responsável, desenvolvido num quadro de proximidade humana que não se confunde com qualquer sistema de princípios, ou verdades, sobre a proximidade, mas os requer.
Seja qual for o espaço e o tempo da sua afirmação, quando consideramos a soberania do sujeito falamos sempre de uma liberdade que, necessitando de justificação, não se encontra em si mesma, na sua boa consciência, ou no plano racional da certeza e da incerteza. Não a encontra, portanto, na afirmação de si mesmo.
112 A situação ética da responsabilidade, em Levinas não se compreende a partir da ética tradicional.
Certamente, “procede de uma experiência não filosófica e que são eticamente independentes. (...) As figuras da linguagem ética aparecem como adequadas para certas estruturas da descrição, no sentido em que a aproximação se projeta sobre o saber, no sentido do rosto que se lança sobre o fenômeno. (...) Tematizar tal relação significa já perdê-la, sair da passividade absoluta de si. A passividade que está mais aquém da alternativa passividade-atividade, mais passiva que qualquer inércia, se descreve mediante termos éticos como acusação, perseguição, responsabilidade pelos outros” (LEVINAS, 1987, p. 191-192).