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2.3 Responsabilidade social

2.3.5 Responsabilidade social e a crise do trabalho – A aprendizagem

O art. 170 da Constituição Federal de 1988 estabelece que “a ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social”, tendo por princípios a função social da propriedade, a busca do pleno emprego, a redução das desigualdades regionais e sociais, dentre outros.

No entanto, apesar de a valorização do trabalho humano ter sido erigida à categoria de fundamento constitucional, a realidade brasileira mostra que o pleno emprego é algo cada vez mais difícil de ser alcançado e, conseqüentemente, o ideal de justiça social também se distancia da concretização.

Parece não haver dúvidas de que, na Era do Conhecimento, a educação exerce um papel fundamental no sentido de outorgar aos estudantes as competências necessárias para o trabalho, contexto em que o nível educacional se apresenta como um fator de peso a influenciar as possibilidades de futura inserção no mercado de trabalho.

No entanto, como adverte Abdala (2004, p. 127)

alguns jovens podem se adaptar a este tipo de nova sociedade e outros não: as credenciais, as destrezas, as aptidões, o perfil atitudinal e comportamental exigidos para ingressar nos segmentos modernos de trabalho são quase exclusivos dos jovens das classes favorecidas. As classes com alto índice de inserção se beneficiam da expansão do emprego, ao absorver os melhores trabalhos. Possuem e desfrutam da moratória, no sentido de poderem conquistar a plena maturidade, com acúmulo de anos de instrução, de busca vocacional, de ensaio-erro, de amplas experiências de socialização, sem o constrangimento do ingresso ao emprego precário e de baixa qualidade, indispensável para a sobrevivência dos jovens mais pobres, que, conseqüentemente, precisam abandonar a educação e a capacitação formais.

Assim, cria-se um círculo vicioso, fazendo com que os jovens oriundos de famílias de baixa renda, embora sendo os que mais precisam trabalhar, não consigam colocação no mercado, que exige níveis cada vez maiores de escolaridade e qualificação, já que foram

levados a abandonar os estudos, ante a necessidade de trabalhar e contribuir para a renda familiar.

Além disso, o abandono prematuro dos sistemas de formação educacional reduz as probabilidades do jovem adquirir as competências básicas exigidas pelas novas estruturas de emprego, tais como auto-estima, criatividade, capacidade para identificação e resolução de problemas, responsabilidade, interesse na aprendizagem permanente, boa comunicação, eficiência, projetos a longo prazo, participação ativa, disposição para mudanças e para o trabalho em equipe. A aquisição dessas competências básicas, segundo Abdala (2004, p. 127), “seria favorecida pela compreensão abrangente de leitura e escrita, alto nível de abstração e antecipação, com formulação de modelos lógico-analíticos e aplicação de matemática aos problemas concretos”.

Ao discorrer sobre o conceito de empregabilidade, registrou-se que ela se relaciona à necessidade do indivíduo investir em sua própria qualificação e auto-desenvolvimento, mas que somente isto não basta para assegurar a sua colocação no mercado de trabalho. É necessário o estabelecimento de parcerias entre o Estado, as empresas e as organizações sociais, viabilizando ações efetivas que possam contribuir para a reversão dos crescentes níveis de desemprego.

Trevisan (2004) enfatiza que a oferta educacional, tomada como componente isolado de ação social, é estratégia insuficiente para conter a explosão do desemprego nas faixas etárias entre 15 e 24 anos, sendo uma ilusão perigosa imaginar que o roteiro educacional formal basta para garantir a inserção no mercado de trabalho.

Para o referido autor, as políticas públicas que implicam atividades estratégicas de indução para a inserção do jovem no mercado de trabalho são mais eficientes. Ou seja, políticas que proporcionem aos jovens a oportunidade de adquirir e comprovar qualificação e experiência, que possa servir como credencial para acesso no mercado de trabalho.

Analisando os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizada pelo IBGE no ano de 2001, Ramos (2005, s.p.) chegou à conclusão de que o desemprego entre os jovens “é a manifestação dos custos (econômicos e sociais) da transição entre o sistema escolar e o mundo do trabalho”, influenciada por vários fatores, dentre os quais destaca os seguintes:

a) os indivíduos tendem a sair do sistema escolar com habilidades e conhecimentos muito genéricos, e a tarefa de transformar essas habilidades em conhecimentos valorados ou utilizados na empresa só pode se realizar mediante a experiência;

b) a exigência, pelo mercado, de referências ou experiência anterior (que o jovem não possui), destinadas a aferir outras qualidades do indivíduo tais como honestidade, assiduidade, pontualidade, etc;

c) o pouco conhecimento que os jovens possuem do funcionamento do mercado de trabalho, não conseguindo se portar com a atitude esperada; e

d) indefinição do próprio jovem quanto às suas aspirações, levando-o a uma certa rotatividade de ocupações, até amadurecer suas preferências profissionais.

A pesquisa revelou que uma maior permanência dos jovens no sistema escolar não reduz o desemprego, uma vez que as taxas médias de desemprego dos jovens com escolaridade média são largamente superiores às dos analfabetos. Segundo os dados da PNAD/2001, a taxa média de desemprego dos jovens na faixa dos 20 anos, com um ano de estudo, é de 8,8 %, ao passo que com 10 anos de estudo, esse percentual sobre para 25%.

Assim, conclui Ramos (2005), se o objetivo é reduzir a taxa de desemprego, a alternativa não parece estar no nível absoluto da educação, apesar dos benefícios que ele

possa representar em outras situações. E aponta a articulação entre a escola e as empresas como uma alternativa que merece ser explorada pelas políticas públicas, por meio de estágios, alternância entre a formação teórica nas escolas e a formação prática nas empresas, etc.

Por outro lado, a pesquisa mostrou que a transição entre o sistema escolar e o mundo do trabalho é ainda mais difícil para os setores mais vulneráveis da população. Aos 18 anos, a taxa média de desemprego é de 25,04% entre os jovens das camadas mais pobres da população, e de 23,94% entre aqueles com renda familiar elevada, ou seja, os percentuais são muito próximos. Contudo, aos 22 anos, a taxa média de desemprego, no primeiro caso, é de 19,30%, enquanto que no segundo ela cai para 8,63%, indicando que os indivíduos que convivem em ambientes de rendas elevadas rapidamente se integram no mercado de trabalho, ao contrário daqueles com menor nível de renda per capita. E na medida em que essa integração econômica e social via mercado de trabalho se torna difícil, o jovem resvala para a integração via circuitos sociais marginais (tráfico de drogas, prostituição, etc).

Por este motivo, Ramos (2005) recomenda que as políticas públicas devem privilegiar os jovens oriundos das camadas mais pobres, que são os que apresentam as maiores dificuldades na sua inserção no mercado de trabalho.

O reconhecimento da importância do trabalho dos jovens e a preocupação com os níveis crescentes de desemprego na faixa etária dos 15-24 anos, levaram o Brasil, nos últimos oito anos, a implementar uma série de programas e projetos de qualificação e/ou inserção profissional focalizados nesse público.

Mais recentemente, tais ações foram consolidadas na forma da Lei 10.748, de 22 de outubro de 2003, que instituiu o Programa Primeiro Emprego (PPE), com foco na criação de oportunidades de ocupação e renda para os jovens, principalmente aqueles oriundos das camadas menos favorecidas da população.

O Programa Primeiro Emprego aproveita a capacidade de mobilização da sociedade civil e conta com estrutura própria para sua execução e acompanhamento, fornecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego, com coordenação política a cargo da Presidência da República. Trata-se, pois, de um instrumento de consolidação da parceria governo-sociedade.

O Programa Primeiro Emprego atua em várias frentes, sendo a principal delas por meio dos chamados Consórcios Sociais da Juventude, que já se encontram em atividade na maioria das capitais brasileiras. Tais consórcios são formados por entidades e/ou movimentos sociais e/ou organizações da juventude legalmente constituída há no mínimo um ano e, quando possível, por instituições do poder público, do setor empresarial, e/ou organismos de financiamento e cooperação. O Ministério do Trabalho e Emprego firma convênio com uma entidade do Consórcio, identificada como entidade-âncora, que poderá subcontratar outras entidades para a execução das ações previstas no Plano de Trabalho. Os jovens recebem aulas de ética, cidadania e meio-ambiente, inclusão digital, noções de empreendedorismo e apoio à elevação da escolaridade, além de freqüentarem uma oficina de capacitação profissional. Têm direito ao recebimento de uma bolsa de R$ 150,00 por mês e, em contrapartida, prestam serviços comunitários. São fixadas, pelo Ministério do Trabalho e Emprego, metas de inserção dos jovens no mercado de trabalho, ao fim do curso.

O Programa Primeiro Emprego também estimula a captação de vagas junto a empresas parceiras, que pode se dar através de subvenção econômica, ou seja, com o governo concedendo incentivo financeiro de R$1.500,00 por ano a cada vaga oferecida pelas empresas, ou simplesmente estimulando a responsabilidade social e a parceria dessas empresas em ações voltadas para a formação profissional dos jovens selecionados pelos Serviço SINEs, DRTs e Consórcios Sociais, ou diretamente pelas instituições apoiadoras. Essas instituições tem o seu compromisso reconhecido publicamente pelo Ministério do Trabalho e Emprego, por meio do selo Empresa Parceira do Programa Primeiro Emprego.

Outro segmento de atuação do PPE é o Serviço Civil Voluntário (SCV), que é um programa de capacitação, formação para a cidadania e prestação de serviços comunitários, voltados para jovens oriundos do sistema penal ou de instituições sócio-educativas. O SVC atua por meio de convênios firmados principalmente com governos estaduais e municipais, para a criação de oportunidades de profissionalização e elevação do nível de escolaridade desses jovens. Tem duração de 600 horas distribuídas em 6 meses, e oferece bolsa de R$150,00 por mês, orientação profissional e encaminhamento ao mercado de trabalho.

Outra linha de ação é o Proger Jovem Empreendedor, realizado em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), que visa estimular o desenvolvimento de pequenos negócios, mediante projeto de capacitação dos jovens, aliado ao financiamento com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), em três linhas de crédito: auto-emprego, micro e pequenas empresas, e cooperativas e associações.

Foi também implantado, com grande sucesso, o Projeto Soldado Cidadão, em parceria com o Ministério da Defesa, o Exército, a Fundação Cultural Exército Brasileiro, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) ea Confederação Nacional do Comércio (CNC). O Soldado Cidadão está ligado ao Programa de Desmobilização de Militar Temporário e inclui aqueles que estão prestando o serviço militar inicial. O objetivo é oferecer aos militares a oportunidade de acesso a cursos de capacitação e formação profissional, criando melhores condições de competir no mercado de trabalho.

E, finalmente, o Programa Primeiro Emprego também contempla ações de incentivo à aprendizagem profissional, com suporte no Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069, de 13 de julho de 1990), e na Lei 10.097, de 19 de dezembro de 2000, que introduziu substancial modificação no capítulo da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) que trata da proteção do trabalho do menor, compatibilizando-a com as exigências da Constituição Federal.

A Lei 10.097 de 2000, também conhecida como “Lei da Aprendizagem” abriu caminho para o engajamento das empresas e também para que as instituições sociais passassem a promover cursos profissionalizantes, aumentando a oferta desses cursos e reduzindo o problema da falta de qualificação entre os que buscam seu primeiro emprego. A referida lei determina que todas as empresas de médio e grande porte são obrigadas a disponibilizar no mínimo 5% e no máximo 15% de vagas para aprendizes, proporcionalmente ao número de trabalhadores do estabelecimento cujas funções demandem formação profissional.

Estabeleceu-se, assim, uma política nacional para ações envolvendo a aprendizagem profissional. A aplicação prática da Lei 10.097/2000 veio a regularizar o trabalho de adolescentes de 14 a 18 anos incompletos e, sobretudo, se mostra importante instrumento para a inclusão social dos jovens, principalmente daqueles em situação de vulnerabilidade pessoal e social.

A Constituição Federal proíbe qualquer trabalho aos menores de 16 anos de idade, salvo na condição de aprendizes, a partir dos 14 anos (art. 7º, XXXIII). A aprendizagem profissional, antes de ser um trabalho, é um processo educativo por meio do qual o jovem pode adquirir conhecimento teórico e prático, além de referências concretas sobre o quotidiano da atividade objeto de aprendizado, capacitando-se de forma mais plena para o exercício daquela profissão. O aprendiz é, pois, o adolescente que trabalha e, ao mesmo tempo, recebe uma formação técnico-profissional, por meio de atividades práticas e teóricas inerentes à profissão na qual está se capacitando.

A “pedagogia do trabalho”, na expressão utilizada por Leite (2004, p. 142), congrega lições, as mais variadas, e que vão muito além das técnicas inerentes ao ramo de profissionalização escolhido. Mesmo as ocupações mais simples permitem aprendizados sobre técnicas, habilidades e atitudes, que são transferidos para a vida familiar, os estudos, as

relações sociais e outros trabalhos futuros. Aprendem, sobretudo, as “regras do jogo”, da realidade das empresas e do mercado, que nenhuma escola pode ensinar com tanta propriedade.

A oportunidade dada aos adolescentes de iniciar sua profissionalização como aprendizes condiz com a tendência, em escala mundial, de se criar políticas eficazes de educação e formação profissional que estimulem a capacidade do jovem de transformar sua realidade pessoal e social. Como enfatiza Abdala (2004), “o trabalho para os jovens representa uma oportunidade de inserção social e de realização, desde que sejam trabalhos de boa qualidade e que favoreçam a socialização. Enquanto o trabalho não chega ou é de má qualidade, a vida se impregna de fortes sentimentos de postergação e frustração.”

Esse tipo de aprendizado também é importante porque se realiza em uma fase crucial da construção da identidade do jovem, uma etapa da vida marcada por “rápidas construções e desconstruções.” Assim sendo, pode contribuir positivamente para o amadurecimento de sua personalidade, estimulando o jovem a se reconhecer como pessoa e cidadão (LEITE, 2004).

Para os empregadores é a oportunidade de praticar uma ação efetiva de responsabilidade social, assumindo o papel de educadores dispostos a contribuir para a melhoria da qualidade de vida das comunidades onde se inserem, construindo a justiça e a segurança social, considerada a importância do trabalho para as relações sociais, a construção da identidade, a participação na vida comunitária e a perspectiva de vida. Não oferecer essa oportunidade pode custar caro para toda a sociedade: é o custo da violência, da discriminação e do desvio dos jovens para a criminalidade e para a insegurança social.

O desenvolvimento, pelas empresas, do programa de aprendizagem previsto na Lei 10.097/2000, ocorre em parceria com entidades convenentes, ou seja, instituições voltadas para o ensino profissionalizante e assistência ao adolescente (escolas técnicas ou ONGs com propósitos educacionais, registradas no Conselho Municipal da Criança e do Adolescente).

A aprendizagem profissional parte do pressuposto de que é importante a convivência do jovem nas organizações empresariais e em outras dimensões da vida coletiva, onde poderá ampliar seus conhecimentos e assimilar novas atitudes pela troca de experiências, no convívio diário com outras pessoas fora do seu círculo familiar, na comunicação com o público e na relação da empresa com as demais instituições de sua comunidade.

Assim, como ressalta Leite (2005, p. 137),

a escola e o trabalho transformam-se em espaços interligados de sociabilidade e de constituição da identidade juvenil, de inclusão, de possível quebra do círculo vicioso da pobreza – além de fonte de renda e acesso ao consumo, valores também cruciais para a construção do que é ‘ser jovem’na sociedade moderna.

Estima-se que a implementação da lei 10.097/2000 pode beneficiar entre 650 mil e 2 milhões de jovens em todo o Brasil, segundo estatística do Ministério do Trabalho e Emprego. No entanto, esse número representa menos da metade dos cerca de 4 milhões de jovens entre 14 e 17 anos, que aguardam uma oportunidade de ingresso no mercado de trabalho.

A Lei n. 11.180, de 23 de setembro de 2005 veio a ampliar para 24 anos a idade- limite para participação do jovem nos programas de aprendizagem, estabelecendo, ainda, que esta idade máxima não se aplica aos jovens portadores de deficiência. Esta alteração encontra- se em consonância com o entendimento das Nações Unidas, que recomendam como definição do grupo juventude a população entre 15 e 24 anos (ABDALA, 2004).

A referida Lei também instituiu o Projeto Escola de Fábrica, no âmbito do Ministério da Educação, como parte integrante da política nacional para a juventude, com o objetivo de prover formação profissional inicial e continuada a jovens de baixa renda, mediante cursos ministrados em espaços educativos específicos, instalados no âmbito de estabelecimentos produtivos urbanos ou rurais.

É importante, ainda, registrar a advertência de Abdala (2004, p. 130), no sentido de que “sendo o Estado responsável por oferecer oportunidades, é imprescindível evitar a

instabilidade das intervenções sociais que sofrem modificações a cada mudança de governo, evitando, assim, o prejuízo do vínculo com os setores que demandam qualificação.” Neste aspecto, somente com a conscientização e compromisso de toda a sociedade organizada, é que se poderá assegurar a permanência e efetividade das políticas públicas atualmente implementadas.

Várias empresas se tornaram parceiras do governo na gestão do Programa Primeiro Emprego, conscientes de que a educação profissional ministrada por meio desse projeto, poderá ser uma importante ferramenta para promover a empregabilidade de jovens potencialmente excluídos do mercado de trabalho: pobres, muitos deles vivendo em áreas de risco (como favelas), e que facilmente poderão resvalar para a criminalidade, caso não encontrem uma ocupação capaz de elevar sua auto-estima. Uma dessas empresas é a Caixa Econômica Federal, como se verá mais adiante.

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