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RESTAURAR A AÇÃO COMUNICATIVA: DIALOGANDO COM

O filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas nasceu em Düsseldorf, no dia 18 de junho 1929 e é o principal responsável pela importante reformulação da ética de Kant, que passou a ser conhecida como ética discursiva. Habermas é um dos principais pensadores da Escola de Frankfurt, denominação tardia do Instituto de Pesquisa Social, fundado em 1923 pelo economista austríaco Carl Grumberg. Segundo Abrão (2004, p. 464) a principal preocupação de Habermas é a reformulação da teoria crítica aplicando o potencial teórico desta, na reflexão sobre a legitimação do Estado moderno e elaboração de uma teoria da ação comunicativa.

Uma das características fundamentais da ética proposta por Habermas é a necessidade da busca de consenso na definição das regras morais, entre estas o Direito, através do diálogo, na comunidade dos falantes, na ação comunicativa. Os falantes são os sujeitos racionais e livres que se dispõem a estabelecer um contexto discursivo que favoreça o entendimento. A criação dos contextos discursivos pressupõe uma ação política que favoreça o restabelecimento de uma opinião pública democrática e crítica. (CATANEO, 2013b).

No Livro “Conhecimento e interesse” Habermas (1982, p. 232) revela que o interesse que orienta o processo do conhecimento das ciências naturais é o interesse técnico, instrumental, de dominação da natureza. Em contrapartida, defende que o interesse que orienta o processo de conhecimento das ciências histórico-hermenêuticas, entre estas a Filosofia e o Direito, é o da comunicação.

Habermas, contudo, ressalta que ambas as formas de conhecimento, geradas pelos respectivos interesses, servem a um interesse mais fundamental, o da emancipação da espécie: o conhecimento instrumental permite ao ser humano satisfazer as suas necessidades, ajudando-o a libertar-se da natureza exterior (por meio da produção); o conhecimento comunicativo o impele a emancipar-se de todas as formas de repressão social. No dizer de Habermas há uma unidade indissolúvel entre conhecimento e interesse. O conhecimento nunca é neutro. É “um ato de auto- reflexão que altera a vida, é um movimento de emancipação”. (HABERMAS, 1982, p. 232).

Das teorias de Habermas se depreende que o caminho do Direito é o da comunicação. Como ciência essencialmente humana visa aproximar pessoas, culturas, mentalidades. Ensina a conviver com o diferente, ressaltando para tal a importância de se ter firmeza quanto aos próprios princípios e visão de mundo. Usar o Direito para a dominação é desvirtuá-lo de sua natureza, transformando-a em ideologia, visão mascarada e falsa de realidade.

Habermas constrói uma crítica à perspectiva positivista nas ciências histórico-hermenêuticas. Tal procedimento, apesar de apresentar resultados imediatos, não produz o principal interesse do conhecimento: a emancipação dos seres humanos. O mesmo se dá, quando esta perspectiva dá cores ao Estado, à moralidade e ao Direito.

Habermas, na sua análise político-cultural – crítica à cultura e ao Estado, demonstra que as decisões práticas que afetam a coletividade são agora

transformadas em problemas técnicos, resolvidos por uma minoria de experts, que têm o know-how necessário. Desta maneira, impõe-se uma despolitização das massas. A redução das decisões políticas a uma minoria tecnocrata significa um esvaziamento da atividade prática em todas as instâncias da sociedade, e a nova forma de dominação. (HABERMAS, 1968, p. 82).

A análise epistemológica, sobre a relação entre conhecimento e interesse, e a análise político-cultural, sobre as novas formas de dominação são apresentadas como os desafios contemporâneos para a emancipação dos sujeitos e base teórica da proposta de Habermas: a teoria da competência, ou do agir, ou da ação comunicativa – uma crítica da cultura e do Estado sob a ótica do discurso teórico e do discurso prático.O objetivo desse tipo de ação política é o advento de um estado de coisas tal que todos os interessados possam, finalmente, participar de contextos discursivos.

Na sua construção teórica, Habermas parte do pressuposto de que a barbárie não se afirma no contexto cultural e político de forma absoluta nem tampouco representa caminho único e irreversível. Sempre permanece como possibilidade histórica um núcleo universal de comunicação entre os homens, por ser este o telos, a finalidade da linguagem. E apresenta, para a efetivação da ação comunicativa, o necessário processo de entendimento mútuo entre o mundo e o mundo da vida:

O mundo da vida constitui, pois, o contexto da situação de ação; ao mesmo tempo ele fornece os recursos para os processos de interpretação com os quais os participantes da comunicação procuram suprir a carência de entendimento mútuo que surgiu em cada situação de ação. Porém, se os agentes comunicativos querem executar os seus planos de ação em bom acordo, com base numa situação de ação definida em comum, eles têm que se entender acerca de algo no mundo. [...]. Os atos de fala não servem apenas para a representação (ou pressuposição) de estados ou acontecimentos, quando o falante se refere a algo no mundo objetivo. Eles servem ao mesmo tempo para a produção (ou renovação) de relações interpessoais, quando o falante se refere a algo no mundo social das interações legitimamente reguladas, bem como para a manifestação de vivências, isto é, para a auto representação, quando o falante se refere a algo no mundo subjetivo a que tem um acesso privilegiado. (HABERMAS, 1989, p. 167).

Habermas (1989) apresenta o agir comunicativo como um processo circular onde o falante traz consigo, como cenário da sua fala o mundo da vida, que fornece os contextos e os recursos para o processo de entendimento mútuo.

(HABERMAS, 1989, p. 166). O que possibilita o diálogo e o consenso é a possibilidade de encontrar, no mundo da vida e na subjetividade explicitada dos falantes, pontos de aproximação e de interesse mútuo que possam diminuir ou até mesmo eliminar o distanciamento, indiferença ou aversão, provocados pelo evento litigioso.

No paradigma retributivo de aplicação de justiça o distanciamento entre vítima, ofensor e comunidade raramente é superado pois prevalecem os interesses individuais e os atores buscarem ter sucesso na sua causa considerando a outra parte como adversário a ser vencido. O agir comunicativo não acontece.

Na medida em que os atores estão exclusivamente orientados para o sucesso, isto é, para as consequências do seu agir, eles tentam alcançar os objetivos de sua ação influindo externamente, por meio de armas ou bens, ameaças ou seduções, sobre a definição da situação ou sobre as decisões ou motivos de seus adversários. A coordenação da ação de sujeitos que se relacionam dessa maneira, isto é estrategicamente, depende da maneira como se entrosam os cálculos de ganho egocêntricos. O grau de cooperação e estabilidade resulta então das faixas de interesses dos participantes. (HABERMAS, 1989, p. 164).

O que Habermas propõe como agir comunicativo é o agir orientado para o entendimento mútuo no qual o falante (ego) considera o ouvinte (alter) na ressignificação do seu mundo e percepção dos fatos.

[...] falo em agir comunicativo quando os atores tratam de harmonizar internamente os seus planos de ação e de só perseguir suas respectivas metas sob a condição de um acordo existente ou a se negociar sobre a situação e as consequências esperadas. [...] o modelo estratégico de ação pode se satisfazer com a descrição de estruturas do agir imediatamente orientado para o sucesso, ao passo que o modelo do agir orientado para o entendimento mútuo tem que especificar condições para um acordo alcançado comunicativamente sob as quais Alter pode anexar suas ações às do Ego. (HABERMAS, 1989, p. 165).

Por isso, ele apresenta a sua teoria da ação comunicativa como uma situação ideal na qual:

- Homens de boa vontade buscam de alguma forma o diálogo para solução de problemas cada vez mais comuns;

- Aceitando que prevalecerá entre eles sempre o melhor argumento, construído dialogicamente, ou seja, numa “discussão livre” na qual os pontos de vista iniciais podem e devem sofrer revisões, durante o embate discursivo;

- E que, se curvarão diante das consequências das posições assumidas processualmente no debate de idéias e posições políticas, mudando suas formas de agir socialmente. Vê-se desta forma que não se trata de mera utopia, pois Habermas não deixa de afirmar suas intenções práticas.

Nesta proposta, o contexto discursivo é o espaço de exercício do agir comunicativo onde o agir estratégico (para atingir determinados fins) permite aos falantes explicitar a sua pretensão de verdade, quando são observados três critérios: que seja uma verdade proposicional; com correção normativa; com veracidade subjetiva. (HABERMAS, 2000, p. 74).

Na ação comunicativa, falante e ouvinte buscam o entendimento e para tanto é necessário a compreensão do significado expresso pela fala, bem como, o assentimento racional motivado, por parte do ouvinte, desta como verdadeiro:

[...] “para que possa haver acordo na coisa é preciso que um ouvinte o sele, de certo modo, voluntariamente, através do reconhecimento de uma pretensão de validade criticável [...] fins ilocucionários (ato de fala completo) não podem ser atingidos por outro caminho que não seja o da cooperação” [...] (HABERMAS, 2000, p. 68).

Cataneo (2013b, p. 73-74) explica assim cada uma das pretensões de validade presentes na comunidade ideal de comunicação, nos termos dos parágrafos que seguem.

A pretensão de inteligibilidade demonstra o objetivo de ser entendido, de falar algo que pode ser conhecido pela inteligência do ouvinte, pela razão que acompanha o argumento porque este está inserido em um sistema de significações ou relações lógicas já conhecidas pelos participantes do contexto discursivo. A pretensão de inteligibilidade é, portanto, uma condição de todo e qualquer diálogo comunicativo pois todo discurso, para possibilitar a comunicação, dever ser inteligível.

A pretensão de verdade demonstra que cada um dos participantes do discurso comunicativo deve se comprometer a apresentar conteúdos fáticos verdadeiros nos seus discursos, assumir o compromisso de falar a verdade.

A pretensão de correção implica no compromisso e no cuidado de dizer sempre o que é normativamente correto, segundo as normas da lógica e da linguagem como instrumento comunicativo da realidade.

E conclui Cataneo (2013b, p. 74) que, estas três pretensões, quando presentes na intencionalidade e na fala dos participantes dos contextos discursivos, geram uma quarta, condicional e cumulativa pretensão: a pretensão de sinceridade. Esta é a pretensão de veracidade. Na pretensão de sinceridade todos os pontos de vista serão igualmente considerados e os participantes devem expressar de forma honesta os argumentos que apresentarem e possuírem boa-fé, acreditando nas possibilidades e necessidade de sua escolha como representativa do consenso do grupo.

A Justiça Restaurativa, nos seus princípios e práticas, pressupõe as pretensões de validade explicitadas por Habermas na comunidade ideal de comunicação. Isto se manifesta na importância dada para os encontros preparatórios para as práticas restaurativas quando se dá a necessária conscientização dos participantes, vítima, agressor e comunidade, sobre as disposições necessárias para a participação no processo restaurativo. Os princípios e valores da Justiça Restaurativa exige de todos o compromisso de se expressarem através de um discurso inteligível, veraz e correto. Visam construir um círculo comunicativo no qual todos possam manifestar boa vontade, disposição para o diálogo, respeito às regras estabelecidas, compromisso com a mudança de opiniões e condutas.

5 CONCLUSÃO

Estamos vivendo um tempo de transformação das concepções e práticas no Direito. Neste trabalho buscamos conhecer e apresentar a Justiça Restaurativa como um movimento de mudança, em contraposição à hegemônica concepção de justiça punitiva-retributiva, uma prática da justiça que não restaura as relações e o tecido social rompido pelo conflito.

Vimos que, diferentemente do paradigma de justiça meramente retributiva, na Justiça Restaurativa o delito é visto como uma violação à pessoa e às relações interpessoais e a justiça busca nos seus procedimentos a restauração do estado de coisas anterior ao conflito que motivou a lide. O binômio “violação-pena” é substituído pelo binômio “violação-restauração”, favorecendo a retomada do equilíbrio perdido, e da paz social.

Concluímos que é possível substituir a retribuição pela restauração. E para tanto é preciso conhecer e apoiar as práticas emergentes que despontam de norte a sul do nosso país.

Vimos que se faz necessário revisitar as raízes históricas e fundamentos filosóficos da nossa formação cultural. Com o pensamento filosófico clássico vimos que para o desejo do ser humano é viver bem; e para viver bem necessita conviver, viver na coletividade, viver na cidade. O pensamento clássico faz do “animal racional” um “animal político”, e da Justiça, a realização plena da polis: local onde o “ser” do indivíduo e o “dever ser” do cidadão se encontram, na justa medida de cada um, para o bem de todos. Nasce a ideia da lei como expressão da vontade de uma coletividade, o espaço público no qual surge “a palavra” como direito de cada cidadão, um pensamento e um discurso públicos que todos podem compreender e discutir. Eis, na filosofia de Aristóteles, os fundamentos do projeto societário ocidental.

E Aristóteles também nos ensinou que a justiça precisa ser compreendida na perspectiva da permanência e na perspectiva da mudança. Ela é ato, porque rege as relações entre os indivíduos na sociedade, e é potência, porque estamos sempre buscando realizá-la mais e melhor. A justiça não é ela está sendo, sempre se fazendo. E, como virtude, pode e deve ser adquirida e desenvolvida pelo exercício, pelo hábito, por meio de nossa autonomia racional de escolher o que fazer

e do hábito de praticar boas ações, ações justas. A Justiça é uma virtude integral, porque compreende todas as outras. A Justiça é uma virtude perfeita, porque quem a possui pode utilizá-la não só em relação a si mesmo, mas também em relação aos outros, e como tal, desejável e necessária para a vida política.

Vimos que os pensadores e doutrinadores modernos, ao se debruçarem sobre o conceito de Justiça, indicam um paradoxo, uma vez que o conceito se apresenta como absoluto, mas, ao mesmo tempo, revela-se como um conceito relativo, que depende do tempo, do espaço e da opinião das pessoas, sofrendo contínuas mudanças. No qual se encontram o que está em conformidade com o direito, bem como a virtude de dar a cada um aquilo que é seu; a ordem das relações humanas ou a conduta de quem se ajusta a essa ordem;a razão de ser ou o fundamento da norma, e os fins que legitimam sua vigência e eficácia; um direito de alguém, e um dever de todos de respeitá-lo.

As diferentes concepções de Justiça nos colocam diante do desafio de compreender a norma como uma orientação para as nossas condutas e não como objetivo e finalidade última do Direito. O Direito é mais do que norma, é fato, é valor. E a Justiça, como realização do Direito, visa produzir a igualdade nas relações humanas. O que implica, muitas vezes, por atenção ao fato e ao valor em tratar desiguais de forma desigual para restabelecer a igualdade possível.

Compreendemos a Justiça como uma qualidade possível e necessária de uma ordem social, que se realiza através do Direito. O que não implica em uma relação direta de causa e efeito – a positivação de um direito não garante a sua observância. E podemos perceber que sob o primado da dignidade da pessoa humana e da garantia dos direitos fundamentais, muito embora expressem o viés que se preocupa com “o fazer justiça”, é possível identificar na Constituição e na legislação infraconstitucional oportunidades para que outras práticas venham se somar à ação penal no sistema jurídico brasileiro.

No decorrer do trabalho podemos perceber que este é o objetivo da Justiça Restaurativa: considerar tais avanços, prospectar oportunidades, propor novidades que visem a idealização de um modelo mais humano de realização da Justiça, legítimo e democrático, alicerçado na proteção dos direitos fundamentais, bem como na construção de uma sociedade livre e solidária.

Procuramos apresentar a Justiça Restaurativa como um movimento que surgiu no início dos anos 1970, em diversas partes do mundo, buscando ampliar o acesso aos meios de solução de conflitos estabelecidos pelos meios jurídicos começa a despontar, provocando uma aproximação entre os meios jurídicos e a sociedade. No Brasil, surgiu formalmente no ano de 2005.

Identificamos a crise e o ocaso do paradigma retributivo, no qual as respostas da sociedade ocidental às ações criminosas focadas na punição e na vingança patrocinada pelo Estado, não tem mais a capacidade de resolver os conflitos e restabelecer a paz social. Mostramos o surgimento do termo Justiça Restaurativa, como agregador das críticas ao sistema penal vigente e de um novo paradigma para pensar o crime e o castigo.

Nos debruçamos sobre a obra “Trocando as Lentes”, de Howard Zehr. Obra capital para conhecer o movimento, princípios, fundamentos e práticas da Justiça Restaurativa. Se, Howard Zehr, define a justiça comunitária, as práticas de justiça locais, que perduraram no ocidente até o surgimento do Estado Moderno, como raízes e marcos do movimento chamado de Justiça Restaurativa; a obra de Zehr pode ser considerada como raiz e marco para as reflexões, práticas e reflexões sobre as práticas emergentes, incipientes e significativas – pois carregadas do novo, no campo da Justiça Restaurativa. O movimento da Justiça Restaurativa visa retomar as experiências de justiça comunitária, que nós perdemos com a revolução jurídica da modernidade, quando o poder de realizar a justiça passou das mãos dos círculos e organizações comunitárias para o Estado e para o Direito. Com isto, “fazer justiça” deixou de ser a restauração dos vínculos e pacificação social para se resumir a “dizer o direito” e determinar a punição.

Mostramos que Howard Zehr, na sua obra, promove e inspira uma ressignificação da cultura do conflito que passa a ser visto como as lentes restaurativas. A experiência do crime, passa a ser vista com quebra, ruptura, ofensa e afronta ao que está social e juridicamente estabelecido como comportamento desejável, justo e bom. As novas lentes se voltam para as necessidade, obrigações e responsabilidade que este evento traumático traz para a vítima, ofensor e sociedade.

Assim, abre-se a possibilidade da restauração das relações e vínculos rompidos pelo fato delituoso. Apresenta-se uma forma eficaz de tratar a questão criminal voltada para a reparação do dano causado às vítimas e à reconstrução das relações humanas afetadas pelo delito. O crime passa a ser visto fundamentalmente como a ofensa de um indivíduo a outro ou à comunidade, surgindo daí necessidades que devem ser apuradas e atendidas a fim de restaurar a relação afetada e alcançar a paz social.

Neste escopo, vimos que, com a Justiça Restaurativa, se afasta a ideia da punição para substituí-la pela reparação do dano mediante a responsabilização ativa do ofensor. A preocupação primeira e primordial se volta para a satisfação das necessidades da vítima, restaurando e corrigindo, na medida do possível, que o crime violou.

Podemos perceber que a proposta da Justiça Restaurativa tem como ponto fulcral para o sucesso das suas iniciativas, o “empoderamento” das partes. Estas ocupam o lugar de protagonistas na busca da reparação e solução do conflito, suas necessidades são consideradas, suas histórias são ouvidas. Este protagonismo redefine os papeis das partes que deixam de serem adversários em um campo de batalha e buscam traços comuns ao invés de ressaltar as diferenças.

Ao longo dos estudos e produção textual, também podemos perceber que, diferentemente do que ocorre no sistema retributivo de justiça, na qual um dano social é cumulado com outro dano social, no paradigma restaurativo, o dano praticado pelo ofensor é contrabalanceado pelo bem realizado pelo ofensor. O equilíbrio nas relações rompido pelo conflito é alcançado com o soerguimento da vítima e não com o rebaixamento do ofensor, o que permite a reparação, evitando- se a retribuição do mal feito, através de castigos e penalidades – o que explica, em parte, a indiferença da sociedade para com as condições ambientais dos cárceres.

Mas ressaltamos aqui que as resoluções e iniciativas institucionais da ONU e do CNJ também acendem um sinal de atenção, para que a normatização da Justiça Restaurativa e das práticas restaurativas pelos órgãos internacionais e pátrios de salvaguarda ou aplicação do Direito não signifiquem um enquadramento, apropriação ou cooptação de um movimento que tem origens comunitárias e é muito mais amplo do que o viés dos eventos caracterizados pelo conflito com a lei. A

Justiça Restaurativa busca resinificar a cultura do conflito, e só o fará com o empoderamento dos sujeitos e da comunidade, com a criação de espaços de interação e diálogos restaurativos diferenciados, não podendo ficar à mercê, ou limitada aos interesses de gestão ou de autoridade dos que, nos tribunais, dizem o direito. Há que se empreender esforços para que a Justiça Restaurativa não se restrinja a uma política de determinada gestão dos tribunais, atomizada, com

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