Aristóteles nasceu em Estagira, situada na Calcídia, nordeste da Grécia e limítrofe da Macedônia, em 384 a.C., cidade de fundação e cultura jônica. Era filho de Nicômano (médico da corte de Filipe da Macedônia) e de Aminta. Em Atenas, desde 367 a.C., foi, durante 25 anos, discípulo de Platão. Com a morte do mestre (347) instalou-se em Asso, na Eólia, e depois em Lesbos, até ser chamado por Filipe da Macedônia, em 343, para participar da educação de Alexandre. Quando voltou para Atenas, em 333, Aristóteles fundou o Liceu – nome oriundo da proximidade com o templo de Apolo Lício –, dedicando-se ao ensino – o fazia caminhando e à produção filosófica. Morreu em Cálcis, na ilha Eubéia, em 322 a.C.
Na filosofia de Aristóteles a realidade do homem e as exigências da vida na cidade dão conteúdo às ideias e forma ao mundo, elegem valores, definem condutas, moralidades e leis. Por isso é considerado por muitos como o primeiro pensador científico do Ocidente. Para Aristóteles o que existe é o mundo real e concreto dos indivíduos. E, fazer filosofia é pensar as coisas concretas que a experiência da vida nos oferece. E quando a realidade se apresenta sem sentido, não devemos buscar um sentido num outro mundo, mas reconstruí-la.
É o que se dá com o movimento da Justiça Restaurativa. O movimento da Justiça Restaurativa nasce da constatação empírica de que o paradigma retributivo na aplicação da justiça se esgotou e se faz necessário reconstruí-la sobre bases novas. Aristóteles tem muito a contribuir com esta reconstrução. Neste escopo, escolhemos apresentar o conceito aristotélico de equidade, de fundamental importância para a compreensão da justiça em sentido lato, para além do que está estabelecido, normatizado, positivado.
A equidade é uma virtude, uma espécie de meio termo entre o vício pelo excesso de justiça e o vício pela falta de justiça. A igualdade por si só não garante a realização da justiça. Para tanto, deve ser acompanhada da equidade, para não incorrer no vício, pela sua falta, a injustiça, ou pelo seu excesso, a opressão.
A virtude é, pois, uma disposição de caráter relacionada com a escolha e consistente numa mediania, isto é, a mediania relativa a nós, a qual é determinada por um princípio racional próprio do homem dotado de sabedoria prática. E é um meio-termo entre dois vícios, um por excesso e outro por falta; pois que, enquanto os vícios ou vão muito longe ou ficam aquém do que é conveniente no tocante às ações e paixões, a virtude encontra e escolhe o meio-termo. (ARISTÓTELES, 1991, p. 33).
Ao tratar da equidade, Aristóteles a compara com a justiça, e conclui que são “a mesma coisa, embora a equidade seja melhor. O que cria o problema é o fato de o equitativo ser justo, mas não justo segundo a lei, e sim um corretivo da justiça legal”. (ARISTÓTELES, 1996, p. 212). É disto que se trata a equidade: uma possibilidade de realizar plenamente a justiça, reestabelecendo a igualdade, quando a falta desta ameaça descaracterizar a justiça como virtude, pelo seu excesso ou pela sua falta.
Fica bem claro, pois, que em todas as coisas o meio-termo é digno de ser louvado, mas que às vezes devemos inclinar-nos para o excesso e outras vezes para a deficiência. Efetivamente, essa é a maneira mais fácil de atingir o meio-termo e o que é certo. (ARISTÓTELES, 1991, p. 38).
Ao nos debruçarmos sobre a história, conceito e princípios da Justiça Restaurativa nada do que vimos corrobora com qualquer proposta ou iniciativa de abolicionismo penal ou descrença nas instituições que administram a justiça. O que ser quer – tal qual a relação estabelecida por Aristóteles entre justiça e equidade, é a realização plena da justiça.
Aristóteles considera a equidade como uma forma virtuosa de justiça e, o que faz dela uma virtude completa, é o fato de que a justiça com equidade considera a lei e o próximo, favorecendo o reestabelecimento das relações sociais. E ela é a virtude completa no pleno sentido do termo, por ser o exercício atual da virtude completa. É completa porque aquele que a possui pode exercer sua virtude não só sobre si mesmo, mas também sobre o seu próximo, já que muitos homens são capazes de exercer virtude em seus assuntos privados, porém não em suas relações com os outros.
Por essa mesma razão, se diz que somente a justiça, entre todas as virtudes, é o “bem do outro”, visto que se relaciona com o nosso próximo, fazendo o que é vantajoso a um outro, seja um governante, seja um associado. Ora, o pior dos homens é aquele que exerce a sua maldade tanto para consigo mesmo como para com os seus amigos, e o melhor não é o que exerce a sua virtude para consigo mesmo, mas para com um outro; pois que difícil tarefa é essa. (ARISTÓTELES, 1991, p. 82).
É interessante registrar que na sua reflexão sobre a equidade como complemento e realização da justiça, Aristóteles considera a equidade um importante instrumento a disposição dos juízes e magistrados que, diante de uma injustiça ou desigualdade, poderá contar com a lei e a equidade para buscar restabelecer a igualdade.
[...] a justiça nas transações entre um homem e outro é efetivamente uma espécie de igualdade, e a injustiça uma espécie de desigualdade [...] sendo esta espécie de injustiça, de desigualdade, o juiz procurará iguala-la [...] Eis aí porque as pessoas em disputa recorrem ao juiz; e recorrer ao juiz é recorrer à justiça, pois a natureza do juiz é ser uma espécie de justiça animada; e procuram o juiz como um intermediário, e em alguns Estados os juízes são chamados de mediadores, na convicção de que, se os litigantes conseguirem o meio-termo, conseguirão o que é justo. O justo, pois, é um meio-termo, já que o juiz o é. (ARISTÓTELES, 1991, p. 86).
A Justiça Restaurativa vai ao encontro dos ensinamentos aristotélicos quando espera que o judiciário restabeleça a igualdade, dando aos litigantes, na medida do possível, a restituição do que lhes pertence, retirando a diferença que estabeleceu o litígio.
Na reflexão aristotélica a política é a virtude desejada na cidade. E, cabe à política realizar mais do que a igualdade, buscar a equidade. Pois esta, diferentemente da igualdade – matematicamente mensurável, exige uma análise e deliberação constante dos cidadãos, pesos e contrapesos, flexibilização, tolerância ou mesmo exceção que se justificam ao tornarem a igualdade justa – na justa medida, equitativa.
Os critérios postos na sociedade política para mensurar a igualdade, através da moralidade e da lei, não conseguem prever todas as possibilidades da realidade e do fato concreto, por isso, precisam ser revistos e calibrados pela equidade, “dizendo o que o próprio legislador se estivesse presente, e o que teria incluído em sua lei se houvesse previsto o caso em questão”. (ARISTÓTELES, 1991, p. 96).
Nas leis positivadas pelo direito, o caráter de generalidade destas implica em uma incapacidade de responder, objetivamente, às peculiaridades de toda a possibilidade de casos e situação. Ao propor o princípio da equidade, Aristóteles aponta para a necessidade da ação política na aplicação da lei. Esta é a função do equitativo: a correção da lei, para a sua maior e mais perfeita aplicação. E nada melhor do transformar este conceito em imagem, como faz Aristóteles no que segue, ao se referir a régua de chumbo de Lesbos:
Por isso o equitativo é justo, superior a uma espécie de justiça — não justiça absoluta, mas ao erro proveniente do caráter absoluto da disposição legal. E essa é a natureza do equitativo: uma correção da lei quando ela é deficiente em razão da sua universalidade. E, mesmo, é esse o motivo por que nem todas as coisas são determinadas pela lei: em torno de algumas é impossível legislar, de modo que se faz necessário um decreto. Com efeito, quando uma situação é indefinida a regra também tem de ser indefinida, como acontece com a régua de chumbo usada pelos construtores em Lesbos; a régua se adapta à forma da pedra e não é rígida, e o decreto se adapta aos fatos de maneira idêntica. (ARISTÓTELES, 1991, p. 96-97).
Cabe-nos olhar para o direito pátrio e considerar o caráter genérico e abstrato da atividade do legislador e compreender a equidade, como a possível e necessária adequação da lei ao caso concreto e as suas peculiaridades. Tal pressuposto nos leva a enfatizar a ponderação proporcional da norma à situação fática, sempre que as leis forem invocadas para solucionar conflitos e restaurar a paz.
Ao empoderar vítima, agente e comunidade, a Justiça Restaurativa resgata a dimensão clássica da cultura grego-ocidental de que o ser humano nasce para a cidadania, e que esta possibilita a felicidade, a vida boa e feliz, o sumo bem, a justiça. É sobre este escopo que Aristóteles define a atividade de quem legisla com a finalidade de incutir nos indivíduos os princípios éticos que possibilitem a convivência social:
[...] os legisladores tornam bons os cidadãos por meio de hábitos que lhes incutem. Esse é o propósito de todo legislador, e quem não logra tal desiderato falha no desempenho da sua missão. Nisso, precisamente, reside a diferença entre as boas e as más constituições. (ARISTÓLES, 1991, p. 27).
Essa responsabilidade de incutir bons hábitos com as suas ações, podemos estender também aos que se ocupam da administração da justiça, da interpretação e da aplicação das leis. Dos quais se espera muito mais do que gestos mecânicos de enquadramento dos delitos aos tipos penais. A justiça, como virtude, implica na busca do justo meio, da decisão equânime, a mais adequada, em respeito à lei e as especificidades do fato em concreto. Isto porque, no dizer de Aristóteles, “os homens são bons de um modo só e maus de muitos modos”. (ARISTÓTELES, 1991, p. 33).
É o que busca fazer o movimento que aqui apresentamos, a Justiça Restaurativa. Muito mais do que aplicar a lei, busca restaurar o direito, consertar sem causar dano, realizar a justiça. Este movimento começou como uma forma diferente de abordar questões judiciais, com foco nas necessidades da vítima e nas responsabilidades do agressor e nas consequências do delito cometido para toda a comunidade, para a sociedade. Considera todos os envolvidos no acontecimento
que deu origem ao conflito como cidadãos, partícipes de uma comunidade política, portadores de direitos e de deveres. Busca caminhos alternativos para a compreensão e aplicação da lei e ao fazê-lo, não somente confirma a sua importância, mas transcende a mera letra, explicitando o seu espírito. Assim como a equidade faz com a virtude, admitindo diferentes possibilidades de mensuração e calibração do justo meio, conforme as especificidades do caso concreto.
A Justiça Restaurativa se encontra com o conceito aristotélico de equidade – superior e mais próximo da realização da justiça do que a mera igualdade, quando busca, no enfrentamento do crime e do conflito, uma abordagem diferente da mera culpabilização do agressor.
Mas até que ponto um homem pode desviar-se sem merecer censura? Isso não é fácil de determinar pelo raciocínio, como tudo que seja percebido pelos sentidos; tais coisas dependem de circunstâncias particulares, e quem decide é a percepção. (ARISTÓTELES, 1991, p. 38).
Ao tratar da felicidade como sumo bem e da justiça como realização plena da justiça, Aristóteles demonstrou que diferentes possibilidades podem ser consideradas na definição do que é o bem para o indivíduo e o bom para a sociedade, desde que apontem para o mesmo fim – a vida boa e feliz na comunidade; e isto também vem ao encontro dos objetivos da Justiça Restaurativa nas suas tentativas de cura e reparo aos danos causados pelo crime as pessoas e aos relacionamentos. O que representa uma possibilidade de pensar a justiça para além da mera retribuição ou reciprocidade.
Alguns pensam que a reciprocidade é justa sem qualquer reserva, como diziam os pitagóricos; pois assim definiam eles a justiça. Ora, "reciprocidade" não se enquadra nem na justiça distributiva, nem na corretiva, e, no entanto, querem que a justiça do próprio Radamanto signifique isso: Se um homem sofrer o que fez, a devida justiça, será feita. Ora, em muitos casos a reciprocidade não se coaduna com a justiça corretiva [...]. Mas nas transações de troca essa espécie de justiça não produz a união dos homens: a reciprocidade deve fazer-se de acordo com uma proporção e não na base de uma retribuição exatamente igual. (ARISTÓTELES, 1991, p. 87-88).
A Justiça Restaurativa se apresenta como uma possibilidade de superar a mera retribuição, a lógica primitiva do ‘olho por olho e dente por dente’, uma possibilidade de restaurar o direito, restituir à vítima e ofensor a possibilidade de reconstruir o projeto de vida, indo além da concepção distributiva e corretiva, curando sequelas restituindo o direito.