Os resultados obtidos por meio de análises estatísticas serão apresentados em duas seções com a finalidade de sistematizar sua discussão. Na primeira seção, estarão as médias e os desvios-padrão de bem-estar subjetivo (BES) e de bem-estar no trabalho (BET) e as suas correlações. Na segunda seção, serão apresentadas as análises comparativas das dimensões de BES e BET entre o grupo de professores de Educação Física que atuavam em escolas e o grupo de academias.
5.1. Estatísticas descritivas das variáveis do estudo
A Tabela 2 apresenta as médias, os desvios-padrão e as escalas de resposta das medidas de BES e BET obtidos da amostra total de professores (n=124). Para o construto BES, nota-se que tanto a satisfação geral com a vida (média=3,62; DP=1,27) quanto os afetos positivos (média=3,85; DP=0,50) possuem valores próximos ao ponto média da escala de resposta. Por outro lado, os afetos negativos contêm um valor abaixo do ponto médio (média=1,68: DP=0,50). Conforme os resultados acima descritos, os professores de Educação Física parecem manter um quadro psicológico geral de BES composto por índices medianos de componentes positivos (satisfação geral com a vida e afetos positivos) e índices baixos dos componentes negativos (afetos negativos). Portanto, a sensação de bem-estar vivenciada ao longo do percurso de vida pessoal desses profissionais sinaliza que eles não mantêm em altos níveis o seu BES, podendo ser consideradas pessoas relativamente felizes com sua vida pessoal.
Tabela 2 - Médias e desvios-padrão para BES e BET em professores de educação física (n=124).
Médias Desvios-padrão Escala de respostas Dimensões de bem-estar subjetivo
Afetos negativos 1,68 0,50 1 a 5
Afetos positivos 3,85 0,50 1 a 5
Satisfação geral com a vida 3,62 1,27 1 a 5
Dimensões de bem-estar no trabalho
Envolvimento com o trabalho 4,52 1,27 1 a 7
Satisfação no trabalho 4,60 0,69 1 a 7
Os resultados de BET são semelhantes aos de BES. Nota-se que envolvimento com o trabalho (média = 4,52; DP = 1,27), satisfação no trabalho (média = 4,60; DP = 0,69) e comprometimento organizacional afetivo (média = 3,68; DP = 0,73) possuem valores medianos. Assim, os professores de Educação Física revelaram uma avaliação mediana sobre seu BET, quer seja acerca de seus vínculos com o trabalho (envolvimento e satisfação), quer seja acerca de sua vinculação à organização onde trabalham (comprometimento organizacional afetivo).
Referente a BES, os resultados obtidos não corroboram estudos como o realizado por Vieira, Mascarenhas e Jesus (2006), envolvendo 151 professores de ambos os sexos, de áreas científicas diferentes e atuantes em escolas públicas no Brasil e Portugal. Nesse estudo os docentes portugueses apresentaram níveis de bem-estar subjetivo mais elevado do que os participantes do presente estudo. Por outro lado, os resultados obtidos por esses pesquisadores com professores brasileiros revelaram índices baixos de BES, corroborando os do presente estudo.
Corbi e Menezes-Filho (2006) investigaram os determinantes empíricos da felicidade no Brasil por meio de dados retirados da Pesquisa Mundial de Valores (World Values Survey) e os resultados mostraram que pessoas com renda superior à média populacional e com emprego têm mais oportunidade de serem felizes. Tais achados não parecem condizer com os encontrados nesse estudo, visto que os seus participantes estavam todos empregados e, contrariamente, revelaram índices medianos de BES.
No que concerne às três dimensões de BET, essa avaliação mediana em professores de Educação Física, especialmente no que diz respeito à dimensão satisfação no trabalho, não corrobora o resultado obtido no estudo realizado por Soriano e Winterstein (1998), quando foram comparados os graus de satisfação e significação do trabalho do professor de Educação Física com o de professores de outras áreas. Os resultados indicaram que existe uma diferença significativa (t = 2,01; p = 0,05) nos escores de satisfação, apontando uma tendência de maior satisfação no trabalho dos professores de Educação Física em relação aos docentes de outras áreas.
Ferraz (2006) investigou o BET em 30 professores da rede pública. As médias obtidas para envolvimento com o trabalho (média = 3,90; DP = 1,41), satisfação no trabalho (média = 4,00; DP = 0,67) e comprometimento organizacional afetivo (média = 3,17; DP = 0,92) se situaram em patamares médios das escalas de respostas. Os resultados desse estudo mostram semelhança nos indicadores de BET de professores da rede pública e de professores de Educação Física.
A Tabela 3 contém os índices de correlação entre BES e BET em professores de Educação Física. Para obter essa correlação, foi utilizado o Teste estatístico r de Pearson que, segundo Dancey e Reidy (2006) “[...] mostra a magnitude e o grau de relacionamento e a probabilidade de tal relacionamento ocorrer devido ao erro amostral, dado que a hipótese nula seja verdadeira” (p. 179).
Foram computados 15 índices de correlações, sendo 14 significativos. Dentre as três dimensões de BES, todas produziram índices significativos, variando de -0,62 a -0,40. Ressalta-se que as correlações de afetos negativos versus afetos positivos e versus satisfação geral com a vida foram negativas. Os resultados relatados sinalizam que o acúmulo de experiências negativas no percurso de vida poderia reduzir a vivencia de experiências positivas e de avaliações positivas sobre a vida em geral e vice-versa. Nesse estudo, pode-se constatar as previsões de Diener (1984) de serem os afetos negativos inversamente proporcionais aos afetos positivos e satisfação geral com a vida.
Tabela 3 – Índices de correlação (r de Pearson) entre as dimensões de BES e BET em professores de educação física (n=124).
Variáveis 1 2 3 4 5 6
1. Afeto Negativo
2. Afeto Positivo -0,40**
3. Satisfação Geral com a Vida -0,62** 0,45**
4. Envolvimento com o Trabalho 0,03 0,23** 0,24**
5. Satisfação no Trabalho -0,37** 0,43** 0,55** 0,35**
6. Comprometimento Organizacional Afetivo -0,33** 0,31** 0,26** 0,36** 0,60**
**p < 0,01.
Para o construto BET, foram obtidas três correlações positivas e significativas, revelando que a satisfação no trabalho cresce na medida em que também crescem o vínculo com a organização empregadora e o envolvimento com o trabalho. Tais resultados demonstraram que satisfação no trabalho, envolvimento com o trabalho e comprometimento organizacional afetivo são interdependentes, sustentando o pressuposto de Siqueira e Padovam (2004) acerca da estrutura do conceito de BET.
Dentre as nove correlações contidas na Tabela 3 produzidas pelas interações entre as dimensões de BES e BET, oito se revelaram significativas. Observa-se que apenas entre afetos negativos e envolvimento com o trabalho não ocorreu correlação significativa (r = 0,03; NS). Os resultados mostram que os professores, ao relatarem níveis elevados de bem-estar em sua vida pessoal, tendem a apresentar níveis elevados de bem-estar no trabalho.
Tais achados corroboram os do estudo realizado por Siqueira et al. (2005), com o objetivo de investigar as relações entre BES e BET em trabalhadores de empresas da Grande São Paulo. Nesse estudo, segundo seus autores, em que os dados dos dois construtos foram submetidos a análises fatoriais e de regressão linear, eles se configuraram como aspectos psicológicos relacionados, mas que guardavam distinção entre si, sendo o primeiro antecedente do segundo, revelando que indivíduos que relatam níveis elevados de bem-estar em sua vida pessoal (BES) são pessoas que tendem a apresentar níveis elevados de bem-estar no trabalho (BET). Em outro estudo desenvolvido por Chiuzi (2006), em que foi analisada a interdependência das dimensões de BES e BET, o autor obteve índices semelhantes ao do presente estudo. Portanto, já existem evidências na literatura de que o bem-estar na vida pessoal se mostra relacionado ao bem-estar no trabalho.
5.2. Comparações de BES e BET entre professores de escolas e academias
A Tabela 4 contém as comparações, por meio de análise de variância (ANOVA), das médias de BES de professores de escolas e de academias. ANOVA, segundo Dancey e Reidy (2006), “[...] analisa as diferentes fontes de variação que podem ocorrer em um conjunto de valores. Procura verificar se existem diferenças nas médias dos grupos. Isso é feito determinando a média geral e verificando o quão diferente cada média individual é da média geral” (p. 302). No caso desse estudo, que analisará a variação entre médias de dois grupos de professores – escolas e academias.
Os resultados obtidos para BES demonstram que ocorreram diferença significativa entre as dimensões de afetos negativos (F = 4,28; p < 0,05) e satisfação geral com a vida (F = 4,92; p < 0,05) dos dois grupos de professores. Para a dimensão afetos positivos, a diferença não foi significativa (F = 3,21; NS). Os professores que atuavam em academias obtiveram médias significativamente maiores de afetos negativos (média = 1,73) do que os de escolas (média = 1,52). Por outro lado, a média de satisfação geral com a vida (média = 3,82) dos professores de escolas foi significativamente superior à dos que atuavam em academias (média = 3,55), demonstrando que estes vivenciaram mais experiências negativas do que os que trabalhavam em escolas e que os professores de escola eram mais satisfeitos com sua vida do que os de academias.
Com as médias de afetos positivos e afetos negativos, pôde-se calcular o balanço (BA) entre os dois afetos para os professores de escolas e academias, o que permitiu uma análise
específica sobre a dimensão emocional de BES. Para esse cálculo, foi verificada a diferença entre afetos positivos (AP) e afetos negativos (AN).
Tabela 4 – Comparações das médias (ANOVA) das três dimensões de BES e do balanço (AP – AN) entre professores de escolas (n = 34) e de academias (n = 90).
Escolas (n = 34) Academias (n = 90) F Dimensões de bem-estar subjetivo
Afeto negativo 1,52 1,73 4,28*
Afeto positivo 3,93 3,82 3,21
Satisfação geral com a vida 3,82 3,55 4,92*
Balanço 2,41 2,09 4,14*
*p<0,05.
O cálculo do BA produziria um escore positivo se AP fosse maior que AN; seria negativo caso AN fosse superior a AP. Conforme indicado na Tabela 4, o BA foi positivo tanto para os professores de escolas (BA=2,41) quanto para os de academias (BA= 2,09). Esses resultados informam que a dimensão emocional de BES para os dois grupos de professores de Educação Física retrata vivência maior de experiências emocionais positivas do que negativas. Ao se comparar esses dois escores médios pela ANOVA, foi constatada diferença significativa entre eles (F = 4,14; p < 0,05), sinalizando que o balanço é mais positivo para os professores de escolas do que para os de academia. Assim sendo, os professores que atuam em escolas parecem ter tido mais oportunidades de se sentirem bem, felizes, alegres, animados, satisfeitos e contentes em comparação com os seus colegas professores de academias.
O quadro geral de BES desses dois grupos, consoante as diferenças encontradas, parece informar que quando há maior vivência de afetos negativos, menos satisfação com a vida é relatada. Assim, parece provável que por terem vivenciado mais afetos negativos, os professores de academias avaliaram mais negativamente sua satisfação geral com a vida. Por meio das análises, parece provável que o BES de professores de escolas seja mais consistente do que o BES de professores de academias.
A Tabela 5 demonstra as comparações (ANOVA) entre as médias de BET de professores de escolas e de academias.
Tabela 5 - Comparações das médias (ANOVA) das três dimensões de BET entre professores de escolas (n = 34) e de academias (n = 90).
Escolas (n=34) Academias (n=90) F Dimensões de bem-estar no trabalho
Envolvimento com o trabalho 4,39 4,57 0,78
Satisfação com o trabalho 4,93 4,47 0,98
Comprometimento organizacional 3,89 3,60 0,60
Conforme os resultados, não existem diferenças significativas entre os dois grupos. Portanto, o quadro geral de BET se mantém semelhante para professores de Educação Física que atuavam em escolas e academias. Assim sendo, esses profissionais mantêm na mesma intensidade os vínculos com o trabalho que executam (envolvimento e satisfação) e com a organização empregadora (comprometimento organizacional afetivo).
Não foram encontrados na literatura resultados de estudos que tenham investigado diferenças nas dimensões de BES e BET entre professores. Parece, portanto, que os achados desse estudo são inusitados, o que dificulta sua discussão com estudos anteriores.