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FUNÇÕES ambientais

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.1. Valor de Relevância das Funções Ambientais das Dunas (VRFA)

O questionário foi enviado a 117 especialistas de 33 países, que atuam em universidades, instituições de pesquisa e/ou órgãos ambientais, tendo sido respondido por 55 especialistas de 19 países: África do Sul (02), Alemanha (02), Austrália (01), Bélgica (01), Brasil (22), Canadá (01), EUA (02), Espanha (03), Holanda (01), Índia (01), Israel (02), Itália (05), Malásia (01), México (03), Níger (01), Portugal (01), Sudão (01), Reino Unido (04) e Uruguai (01). Os especialistas que responderam atuam nas seguintes áreas do conhecimento: arquitetura (02), biogeografia (01), biologia (07), botânica (01), ecologia (15), engenharia civil (01), engenharia oceanográfica (01), geodiversidade (01), geografia (12), geologia (03), geomorfologia (05), meio ambiente (02), oceanografia (03) e pedologia (01). Alguns especialistas informaram mais de uma área de conhecimento, para essa contabilização foi considerada a primeira autodeclarada no questionário. A lista com as informações dos especialistas que responderam ao questionário está no Apêndice A e a planilha com a apresentação de todas as respostas dos especialistas está no Apêndice B.

Para verificar se a diversidade de nacionalidades e áreas de formação/atuação foi um fator com interferência nos resultados do VRFA, foi gerada a moda a partir de todas as respostas dos especialistas e comparada com as modas obtidas conforme as áreas de formação/atuação e países, ou grupo de países próximos, e verificada variação pequena ou inexistente na moda geral das respostas.

Algumas funções foram pontuadas com alta variação nos valores, por isso, foi adotado a resposta com maior frequência, a moda, para definir o valor de relevância das funções ambientais. A síntese do resultado da consulta aos especialistas e a amplitude das respostas de cada função estão apresentados no Quadro 17.

Quadro 17 – Moda dos valores de relevância das funções ambientais (VRFA) das dunas atribuídos pelos especialistas.

FUNÇÕES AMBIENTAIS PRESTADAS PELAS DUNAS Relevância

0 ausente 1 baixa 2 média 3 alta 4 muito alta V

R F A In te rv al o de va ri aç ão Funções de Provisão Alimento 1 0-3 Fibra 1 0-3 Minerais 3 0-4

Madeira e combustível 1 0-3 Produtos com aplicação farmacêutica/bioquímica/medicinal 2 0-4 Material para fins de engenharia genética (sementes, esporos, gametas) 2 0-4

Funções de Regulação e Manutenção

Mediação de resíduos ou substâncias tóxicas (filtragem, armazenamento, acumulação) 4 0-4 Mediação de perturbações de origem antropogênica (odores) 1 0-4 Mediação de perturbações de origem antropogênica (ruídos) 3 0-4 Mediação de perturbações de origem antropogênica (visual) 4 0-4 Regulação de movimentos de massas (evitar deslizamentos) 4 0-4 Regulação do ciclo hidrológico e fluxo de água (controle de inundação, absorção de águas) 4 0-4 Regulação do ciclo hidrológico e fluxo de água (proteção costeira) 4 0-4 Manutenção dos ciclos de vida, habitat e proteção genética (polinização, dispersão de

sementes, berçário) 4 0-4

Controle de pestes e doenças (evitar dispersão de vetores para outras áreas) 2 0-4 Regulação da qualidade do solo (processos de intemperismo, decomposição e fixação) 3 1-4 Regulação das condições hídricas (proteção à cunha salina) 4 0-4 Regulação das condições hídricas (abastecimento dos lençóis freáticos) 4 1-4 Regulação da composição e condições atmosféricas 3 0-4

Funções Culturais Turismo 4 2-4 Recreação 4 1-4 Apreciação estética 4 0-4 Educação 4 1-4 Pesquisa 4 2-4 Inspiração artística 4 0-4

Herança histórica (geológica/geomorfológica) 4 1-4

Interações espirituais e simbólicas 2 1-4

O status de conservação da duna afeta proporcionalmente as funções por ela

desempenhadas? Ou seja, quanto mais conservada uma duna mais funções desempenha? SIM

Fonte: Elaborado pelo autor.

A função de regulação de mediação de perturbações de origem antropogênica (odores) foi inserida na lista de funções enviada aos especialistas, mas não foi encontrado referencial teórico que embasasse algum parâmetro indicativo, por isso ela não foi considerada na análise das dunas, mas o valor obtido com a consulta aos especialistas foi informado para registro.

A função de regulação de mediação de perturbações de origem antropogênica (visual), presente na lista enviada aos especialistas, foi suprimida no intuito de evitar a dupla contagem com a função cultural de apreciação estética.

A função de regulação e manutenção dos ciclos de vida, habitat e proteção genética agrupa polinização, dispersão de sementes e berçário, para evitar dupla contagem. Pelo mesmo motivo foram agrupadas na função de regulação da composição e condições atmosféricas: temperatura/umidade e composição química. Vale ressaltar que ambas as funções agrupadas em uma única registraram a mesma moda, não havendo prejuízo para o VRFA.

O questionário enviado aos especialistas previa a possibilidade de adicionar funções. Cinco especialistas sugeriram funções que não estariam representadas no questionário, mas, após analisar as sugestões, foi verificado que já estavam contempladas: provisão de habitat para espécie ameaçada ou endêmica, contemplada na função de provisão de habitat; manutenção da

biodiversidade, contemplada pela função de regulação de material para fins de engenharia genética e pela função de manutenção dos ciclos de vida, habitat e proteção genética; identidade cultural ou senso de pertencimento, contempladas na função de interações espirituais e simbólicas. Assim, as sugestões não foram acrescentadas para evitar a dupla contagem.

A amplitude das respostas foi apresentada com o intuito de verificar a homogeneidade/heterogeneidade dos resultados (Quadro 17). A categoria que registrou menor amplitude foi a das funções culturais. A categoria com maior amplitude foi a de regulação e manutenção.

Levando em conta a moda, nenhuma função foi considerada ausente, ou seja, as dunas desempenham todas as funções listadas.

Apesar da categoria das funções culturais ter sido a menos desenvolvida pelo MEA (2005) e pelo TEEB (2010), obteve a maior quantidade relativa de funções com valores muito alto, sete dentre oito, exceção para a função de interações espirituais e simbólicas que recebeu valor médio. Esse resultado pode explicar a grande quantidade de artigos que tem sido publicada sobre essa categoria, conforme constatado por Costanza et al. (2017, p. 5 e 6), mas Hirons et al. (2016, p. 5.1) afirmam que ainda tem sido relativamente negligenciada por pesquisadores e gestores se comparada às demais.

A categoria das funções de regulação e manutenção também obteve alta pontuação, nove funções foram consideradas com valor muito alto, quatro funções receberam valor alto, a função de controle de pestes e doenças (evitar dispersão de vetores para outras áreas) recebeu valor médio. A alta relevância dessa categoria já era esperada, pois ela reúne algumas das funções mais destacadas pela literatura, como a de abastecimento dos lençóis freáticos e aquelas associadas à proteção costeira (EVERARD et al., 2010, p. 477; BARBIER et al., 2011, p. 184; SPALDING et al., 2014, p. 53; GUISADO-PINTADO, 2016; NEHREN et al., 2016).

As seguintes funções foram consideradas de valor baixo: provisão de alimentos, provisão de fibras, provisão de madeira e combustível, e mediação de odores. A explicação das três primeiras pode estar na diversidade, especialmente das espécies vegetais, que pode ser muito alta em algumas regiões do planeta e muito baixa em outras, ou mesmo pelo desconhecimento da composição de espécies e potenciais de uso como alimentos, fibras, madeira e combustível. A função mediação de odores será discutida adiante.

Ainda analisando as respostas dos especialistas, verifica-se que algumas funções tiveram alto índice de preenchimento com N (não opinar), indicando desconhecimento sobre a função. Esse trabalho pode ser útil para contribuir com o esclarecimento sobre algumas dessas funções, conforme discussão que será apresentada na próxima seção.

A função de provisão de produtos com aplicação farmacêutica/bioquímica/medicinal foi preenchida com N por 15 especialistas, e 14 atribuíram valor médio (2) a essa função.

A função mediação de odores registrou 11 especialistas que atribuíram valor ausente (0), 11 abstenções, 12 especialistas que atribuíram valor baixo, 11 atribuíram valor médio, sete valor alto e três valor muito alto, a única que registrou tão equilibrada distribuição de valores. Essa função também carece de maior aprofundamento de análise e discussão, bem como de metodologia para sua avaliação nas dunas, pois no referencial teórico consultado não foi encontrado subsídio que servisse como parâmetro indicador.

Sobre a função de controle de pestes e doenças (evitar dispersão de vetores para outras áreas), 17 especialistas preferiram não opinar e 13 atribuíram valor médio. Essa é uma função reconhecida pela literatura (EVERARD et al., 2010, p. 481), mas que precisa ser melhor analisada e discutida em estudos futuros.

A função de provisão de material para fins de engenharia genética foi preenchida com N por 13 especialistas, mesma quantidade que atribuiu valor médio a essa função. Uma possível explicação para isso pode estar na escolha do nome da categoria, que seguiu a nomenclatura da CICES v 5.1 (HAINES-YOUNG e POTSCHIN, 2018), no entanto, após analisar as respostas surgiu a ideia que talvez tivesse sido mais adequado ter denominado a categoria de biodiversidade ou recursos genéticos.

A função de regulação de movimento de massa (evitar deslizamentos) registrou nove abstenções, nove especialistas a consideram com valor ausente, outros nove a consideram de valor alto e catorze atribuíram valor muito alto a essa função. Uma possibilidade de explicação para as abstenções e atribuições de valor ausente está no fato de a duna poder prestar um “desserviço”, no sentido de ser uma feição que acumula sedimentos e poder apresentar declividades acentuadas, gerando risco de deslizamento e decorrentes prejuízos. No entanto, considerando a relevância das funções das dunas, a declividade e a movimentação dos sedimentos devem ser monitorados e tomadas medidas para reduzir os riscos.

Por outro lado, ficou registrado que algumas funções tiveram muito baixa ou nula presença de abstenção de opinião (N), indicando maior familiaridade por parte dos especialistas. Essas funções coincidem com aquelas mais citadas na bibliografia consultada: proteção costeira (0 N); controle de inundação, absorção de água (1 N); abastecimento do lençol freático (1 N). A categoria das funções culturais registrou a menor quantidade de funções com abstenção, das oito funções dessa categoria cinco não registraram abstenção.

A consulta aos especialistas foi de grande importância para o presente estudo, pois permitiu o contato com diversos pesquisadores de várias partes do mundo e de diferentes áreas

do conhecimento, que contribuíram não apenas com o preenchimento do formulário, mas alguns sugeriram referências, deram contribuições e palavras de incentivo ao trabalho. O VRFA gerado a partir dessa consulta é um dado que sintetiza essa multiplicidade para as dunas e contribui com a discussão da temática.

4.2. Valor de Relevância das Funções Ambientais das dunas analisadas

O início desta seção servirá para apresentar alguns resultados obtidos nas dunas analisadas, considerados úteis para a discussão sobre o VRFA, sobretudo no tocante ao desconhecimento e/ou baixa valoração de algumas funções, bem como alguns esclarecimentos pertinentes à área de estudo.

Apesar da função provisão de alimentos ter sido considerada como de valor baixo pelos especialistas, foram identificadas 25 espécies com esse potencial nas dunas analisadas, 10 não são nativas do Brasil, sendo 08 naturalizadas e 02 cultivadas. Espécies com esse potencial foram encontradas em 53 das 57 dunas pesquisadas. As espécies com maior registro foram a Anacardium occidentale L., encontrada em 47 dunas, seguida pela Hancornia speciosa Gomes, encontrada em 41 dunas, Passiflora foetida L., encontrada em 34 dunas, Ximenia americana L., encontrada em 28 dunas, e Myrciaria tenella (DC.) O. Berg., encontrada em 24 dunas. A listagem dessas espécies está no Apêndice B.

Foram identificadas nove espécies vegetais utilizadas para extração de fibras para usos no artesanato, construção civil e produção têxtil, sendo cinco nativas do Brasil. As espécies com maior ocorrência foram a Fridericia chica (Bondl.) L. G. Lohmann, encontrada em 34 dunas, e a Opuntia stricta (Haw.) Haw., encontrada em 13 dunas. A listagem dessas espécies está no Apêndice D.

Quase a totalidade das dunas analisadas, 55, apresenta vegetação de porte arbustivo e arbóreo, ou seja, com potencial para fornecimento de madeira e combustível (lenha). Foram identificadas duas espécies com potencial de utilização para produção de combustíveis nas dunas Ricinus communis L. e Pennisetum purpureum Schum., no entanto, por serem espécies exóticas/invasoras não foram consideradas na prestação dessas funções.

Como dito na seção anterior, a função de provisão de material para fins de engenharia genética foi preenchida com N por 13 especialistas, mesma quantidade que atribuiu valor médio a essa função. Nas dunas estudadas, conforme Relatório Remanescente de Dunas 2017 (SEMURB, 2017) foram identificadas 283 espécies vegetais e 33 espécies animais (Anexos 1 e 2), sendo quatro espécies vegetais citadas na Lista Nacional Oficial de Espécies da Flora

Ameaçadas de Extinção (Portaria MMA n° 443/2014), que será tratada mais adiante. Essa quantidade de espécies demonstra a relevância das dunas como banco de materiais genéticos.

A função de provisão de produtos com aplicação farmacêutica/bioquímica/medicinal foi preenchida com N por 15 especialistas e 14 atribuíram valor médio (2). O levantamento bibliográfico identificou que 136 espécies com ocorrência nas dunas estudadas possuem indicação de aplicação farmacêutica/bioquímica/medicinal, das quais 29 são espécies exóticas. A lista das espécies e as referências dessas aplicações estão no Apêndice E.

A função de interações espirituais e simbólicas foi a única que não recebeu valor alto na categoria das funções culturais, recebendo valor médio. Durante o trabalho de campo, indivíduos e grupos encontrados em algumas das dunas analisadas relataram que as visitam em busca de “paz de espírito”, conexão com a natureza, ou como local para realização de reuniões de adoração com conversas, orações e louvores, como grupos cristãos e de religiões de matriz africana. Inclusive existem alguns oratórios dedicados a santos católicos no entorno de algumas dunas analisadas. Também foram identificadas práticas de grupos animistas, como acender velas para entidades da natureza, deixar alimentos para criaturas míticas ou demonstrar reverência às árvores.

Quanto à função de abastecimento de lençóis freáticos vale explicar que o sistema hídrico subterrâneo da cidade do Natal é composto por dois aquíferos: o Dunas e o Barreiras, que apresentam uma forte conexão do ponto de vista hidráulico subterrâneo, constituindo um sistema hidráulico único, indiferenciado e interconectado, do tipo livre, cujo nível potenciométrico flutua com as variações sazonais e está relacionado às altas taxas de infiltração direta das precipitações sobre as dunas (CAERN, 1983, p. 43, 45 e 57; CAERN, 1995, p. 57 e 61; RIGUETTO e ROCHA, 2005, p. 28 e 29; NATAL, 2009, p. 12; ANA, 2012, p. 40).

Contudo, essa função segue comprometida pela contaminação dos lençóis freáticos com nitrato, devido à ausência de saneamento básico em grande parte da cidade (RIGUETTO e ROCHA, 2005, p. 27; ANA, 2012, p. 8). Nesse contexto, mais uma vez as dunas registram relevante função, pois como são áreas para infiltração das águas pluviais, contribuem com a diluição dos poluentes que percolam/infiltram no solo, favorecendo a diminuição da concentração desses poluentes (NATAL, 2009, p. 22 e 23).

Seguindo para a análise do VRFA propriamente dito, foi verificado que as dunas registraram entre 20 e 25 funções, sendo 22 funções o valor mais frequente, ocorrendo em 35 dunas (61%), as menores quantidades de funções (20 e 21) foram identificadas em 13 dunas (23%) e as maiores quantidades de funções (23 e 25) foram registradas em apenas nove dunas (16%) (Figura 10).

Figura 10 – Quantidade de funções das 57 dunas analisadas.

Fonte: Elaborado pelo autor.

O valor de relevância das funções ambientais (VRFA) das dunas variou entre 61 pontos, uma duna, e 79 pontos, também uma duna, distribuídos entre 11 valores (Figura 11 e Apêndice C). As menores pontuações (61-70) foram registradas em 47 dunas (82%), enquanto que as maiores pontuações (71-79) foram registradas em dez dunas (18%). As dunas situadas junto às praias obtiveram uma maior pontuação por desempenhar funções consideradas mais relevantes pelos especialistas.

Figura 11 – Frequência dos valores de relevância das funções ambientais das dunas analisadas.

Fonte: Elaborado pelo autor.

Conforme a hierarquização proposta para o VRFA (muito baixo = até 54; baixo = 55 a 62; médio = 63 a 70; alto = acima de 70), apenas a Duna 11 apresentou baixo VRFA (61 pontos),

0 5 10 15 20 25 30 35 40 20 21 22 23 25 Q ua nt id ad e de d un as Quantidade de funções 0 5 10 15 20 25 30 35 61 63 64 66 67 70 71 72 75 76 79 Q ua nt id ad e de d un as

a grande maioria (44 dunas = 77%) apresentou VRFA médio e 12 dunas (21%) apresentaram alto valor de relevância (Figura 12).

Figura 12 – Distribuição das classes dos valores de relevância das funções ambientais das dunas analisadas.

Fonte: Elaborado pelo autor.

Os valores obtidos com a consulta aos especialistas servem para diferenciar qualitativa e quantitativamente as dunas. Dunas diferentes podem desempenhar um mesmo número de funções, no entanto, a quantidade de funções não é o único parâmetro para avaliar sua relevância, pois, o valor de cada função pode variar significativamente. Assim, uma duna com menor quantidade de funções pode ter um valor de relevância maior do que uma duna na qual foram identificadas mais funções.

Exemplos que embasam tal afirmação: a Duna 07 e a Duna 08 registraram 22 funções, mas a Duna 07 obteve um total de 70 pontos e a Duna 08 apenas 67 pontos, a explicação está no fato de que a Duna 07 não registrou a função de provisão de fibra (valor baixo), registrada na Duna 08, mas registrou a função cultural de turismo (valor alto); a maioria das dunas que registraram 22 funções obteve 67 pontos, no entanto, a Duna 57 também registrou 22 funções, mas obteve uma das maiores pontuações do estudo (76 pontos), devido à sua localização próxima a vias turísticas e limite com a praia/Oceano, registrando funções com valores muito alto (proteção costeira e proteção à cunha salina).

4.3. Status de Conservação das Dunas (SCD)

A seguir são apresentados e discutidos os resultados dos parâmetros do Status de Conservação das Dunas (SCD). O resultado da avaliação do SCD das dunas analisadas, quadro

0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 54 62 70 79 Q ua nt id ad e de d un as

Valor de relevância das funções ambientais (VRFA) Muito baixo <54; baixo = 55-62; médio = 63-70; alto >70

geral das dunas, está apresentado no Apêndice F. As informações gerais das dunas analisadas estão apresentadas no Apêndice G.

Tamanho

As dunas analisadas são fragmentos que restaram dos grandes campos de dunas que cobriam a cidade antes da expansão urbana.

As dunas com pequenas dimensões representam 84% das dunas analisadas, englobando duas categorias: dunas com menos de um hectare e dunas entre um e cinco hectares. 22 dunas (38%) possuem área inferior a 1 hectare, 26 dunas (46%) estão entre 1 e 5 hectares, 5 dunas (9%) possuem entre 5 e 10 hectares e apenas 04 dunas (7%) são maiores que 10 hectares (Figura 13).

Figura 13 – Área em hectares das dunas analisadas – distribuição das classes do SCD.

Fonte: Elaborado pelo autor.

A Duna 15 foi a maior duna analisada (Figura 14), com uma área de 21,3 hectares, e a Duna 41 (Figuras 15), com apenas 0,48 hectare, possui a menor área.

Figura 14 – Vista parcial da Duna 15, maior duna analisada (21,3 hectares). Em 01/11/2019.

Fonte: Acervo do autor.

0 5 10 15 20 25 30 1 5 10 21,3 F re qu ên ci a

0 = <1; 1 entre 1 e 5; 2 entre 5 e 10; 3 >10 (hectares)

Figura 15 – Vista da Duna 41, menor duna analisada (0,48 hectare). Em 08/10/2019.

Fonte: Acervo do autor.

As dimensões das dunas analisadas mostram a intensa fragmentação dos grandes campos de dunas originais, corroborando com Amaral et al. (2005, p. 105 e 112), demonstrando a grande redução da área do campo de dunas Pirangi-Potengi, o mais afetado dos três grandes campos de dunas que havia na cidade.

Transformação Morfológica

Apesar da fragmentação percebida através da grande quantidade de dunas com áreas pequenas, mostrado no item anterior, em detrimento aos vastos campos de dunas originais, a maior parte das dunas estudadas não apresenta transformação morfológica recente, dez últimos anos, conforme análise feita através da Base Cartográfica SEMURB, Google Maps® e Google Street View®.

As transformações morfológicas mais comuns identificadas foram provenientes da fragmentação das dunas, da impermeabilização do solo com construção, da terraplenagem e da retirada de sedimentos. Essa situação não é restrita às dunas analisadas, outros trabalhos em diversas regiões do planeta constataram impactos semelhantes. Em Fortaleza, capital do Ceará, o desmatamento, a terraplenagem, a fragmentação e a extração de areia foram atribuídos como responsáveis pela redução paulatina dos campos de dunas da cidade (CLAUDINO-SALES, 2010, p. 455). Nehren et al., (2016, p. 421), analisando os tipos e os graus de degradação de campos de dunas no Vietnã, na Indonésia e no Chile, apontam a fragmentação das dunas, a extração de areia e a degradação da cobertura vegetal como os principais impactos constatados. Na península Baja California, México, a fragmentação das dunas para implantação de assentamentos também foi um dos principais impactos identificados por Rodriguez-Revelo et al., (2018, p. 78).

Das dunas analisadas por este estudo, 37 (65%) foram consideradas preservadas, 17 dunas (30%) apresentavam transformação em menos de 20% de sua área, 02 dunas entre 20% e 50% e nenhuma duna apresentou transformação superior a 50% de sua área (Figura 16).

Figura 16 – Percentual da área que sofreu transformação morfológica nas dunas analisadas – distribuição das classes do SCD.

Fonte: Elaborado pelo autor.

A Duna 48 (Figura 17), situada no bairro de Neópolis, Zona Sul da cidade, de pequenas dimensões, registrou a maior área alterada (>50%), praticamente não resta topografia que a identifique como duna. Na Duna 10 (Figura 18), por sua vez, situada no bairro de Felipe Camarão, Zona Oeste da cidade, foi construída a primeira Praça dos Esportes e da Cultura da cidade, afetando cerca de 30% da sua área.

Figura 17 – Duna 48, que registrou a maior área de transformação morfológica. Em 10/04/2019.

Fonte: Acervo do autor.

0 5 10 15 20 25 30 35 40 0 1 2 3 Q ua nt id ad e de d un as 0 = >50%; 1 = 20-50%; 2 = >20%; 3 = preservada

Figura 18 – Praça dos Esportes e da Cultura, construída parcialmente sobre a Duna 10, ao fundo. Em 01/11/2019.

Fonte: Acervo do autor.

A Duna 12, também situada no bairro de Felipe Camarão, Zona Oeste da cidade, sofreu aterros e construções irregulares (Figuras 19 e 20). Vale destacar que o aterro identificado foi feito com materiais impróprios para sustentar edificações, como restos de podação e até resíduos domésticos.

Além de ser infração ambiental, a movimentação de terra nas dunas pode gerar erosão, deslizamentos e decorrentes prejuízos sociais e econômicos.

Figura 19 – Casas construídas sobre a Duna 12, em 01/11/2019.

Fonte: Acervo do autor.

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