Inicialmente, serão examinados os dados da evolução da produção em cada setor de atividade econômica no Nordeste entre 1997 e 2004. No total, a produção no Nordeste, no período analisado, aumentou em 20,3%. Esse aumento foi orientado por uma variação na demanda final da ordem de 29,42%. As mudanças tecnológicas que ocorreram na região entre 1997 e 2004 tiveram efeito negativo na produção, como mostra a parcela da variação total da produção devido a mudanças nos requerimentos de insumos (-9,13%). Tais mudanças podem ter ocorrido em razão da implantação de novos processos
produtivos na região ou por um aumento na demanda de insumos importados em detrimento dos insumos produzidos na região.
Estes impactos sugerem, portanto, que os setores onde as mudanças tecnológicas refletiram negativamente na produção, talvez necessitem se modernizar para reduzir o diferencial competitivo entre a economia nordestina e o restante do país. O setor agropecuário teve um aumento de produção de 27,86%. Na composição desse aumento, o efeito demanda final contribuiu com 39,72 pontos percentuais e o efeito tecnológico com -11,86 p.p. O setor de extrativa mineral (incluindo extração de petróleo e gás e outras extrativas minerais) teve redução na produção devido, exclusivamente, aos efeitos tecnológicos, dado que a demanda final teve variação positiva no período.
Nos setores industriais, em todos os setores, houve aumento na produção.
Os efeitos tecnológicos induziram aumentos na produção, nas atividades de vestuários e acessórios, abate e preparação de animais, leite e laticínios, outras indústrias alimentares e saneamento e abastecimento d’água. O setor de construção civil teve um aumento pouco expressivo de 4,54% na produção, orientado pela demanda final. No setor de serviços, chama a atenção o aumento na produção da ordem de 87%
no setor de comunicações, provocado pelo efeito tecnológico. Um possível reflexo do processo de privatização do setor ocorrido nos últimos anos da década de 1990, além de ser uma atividade onde ocorreu significativa ampliação nos últimos anos.
De acordo com a Tabela 2, onde estão reportados os dados de emprego setorial no período, houve um aumento de 1.270.910 no número de trabalhadores na região, um número equivalente a uma variação de 6,96%. No período em questão, dos trinta setores analisados, em dezessete, houve redução no emprego.
Nos treze setores restantes, o nível de emprego variou positivamente. As atividades que apresentaram um aumento de postos de trabalho foram: Outras Extrativas Minerais; Siderurgia; Petroquímica; Têxtil; Vestuário e Acessórios; Calçados, Couros e Peles; Saneamento e Abastecimento de Água; Construção Civil; Comércio;
Alojamento e Alimentação; Transporte; Comunicação e Administração Pública.
Já as atividades que apresentaram redução de postos de trabalho foram: Agropecuária; Extração de Petróleo e Gás; Minerais Não-metálicos; Metalúrgica e Mecânica; Elétrica e Eletrônica; Material e Transporte;
Madeira e Mobiliário; Papel e Papelão; Álcool; Refino e Petróleo; Açúcar; Abate e Preparação de Animais; Leite e Laticínios; Outras Indústrias Alimentares; Indústrias Diversas, Produção e Distribuição de Energia Elétrica e Outros Serviços.
Vale ressaltar que o setor que apresentou a maior redução no emprego foi o setor de Outros Serviços, onde ocorreu uma variação negativa de -1.551.404 empregos. Outro setor que apresentou uma redução significativa de postos de trabalho foi o setor Agropecuário, com um declínio de -670.865 no número de trabalhadores. Além do mais, destaca-se a redução no emprego em setores industriais, como Outras Indústrias Alimentares e Indústrias Diversas, com uma redução de -159.425 e -58.267 no estoque de trabalhadores, respectivamente. Ainda dentro dos setores industriais, os setores de Construção Civil e Vestuários e Calçados tiveram um aumento de 321.701 e 298.256 no número de trabalhadores. Já o setor de Comércio, destaca-se como o setor no qual o emprego mais cresceu, com um incremento de 1.103.930 de postos de trabalho durante o período analisado.
Tabela 1 – Decomposição da Variação Total da Pro-dução dos Setores de Atividade Econômica no Nordeste entre 1997 e 2004 (%)
Atividade Efeito
Tecnológico
Efeito Demanda final
TOTAL -9,13 29,42
Agropecuária -11,86 39,72
Extração de Petróleo e Gás -101,61 98,76 Outras Extrativas Minerais -73,74 70,89
Minerais Não-metálicos -63,03 60,18
Siderurgia -14,84 46,37
Metalúrgica e Mecânica -46,15 77,67
Elétrica e Eletrônica -46,89 78,42
Material de Transporte -10,28 41,81
Madeira e Mobiliário -2,26 33,79
Papel e Papelão -48,37 79,90
Álcool -34,62 66,15
Refino de Petróleo -48,84 80,37
Petroquímica -32,93 64,46
Têxtil -14,79 46,32
Vestuário e Acessórios 1,69 29,84
Calçados, Couros e Peles -9,63 41,16
Açúcar -7,44 38,97
Abate e Preparação de Animais 14,07 17,46
Leite e Laticínios 10,17 21,36
Outras Indústrias Alimentares 5,37 26,16
Indústrias Diversas -34,60 66,13
Prod. e Distr. de Energia Elétrica -55,79 78,85 Saneamento e Abast. de Água 21,12 1,94
Construção Civil -0,34 4,85
Comércio -7,58 19,19
Alojamento e Alimentação 57,58 -24,24
Transporte 23,98 15,13
Comunicação 87,80 -0,79
Administração Pública -0,60 8,70
Outros Serviços -20,63 35,66
Fonte: Elaboração Própria dos Autores com Dados da Pesquisa de 2011.
Na última linha da Tabela 2, está reportado o índice de concentração de Hirschman-Herfindahl2 (índice HH), que foi calculado com o intuído de analisar a concentração setorial do pessoal ocupado no Nordeste em 1997 e 2004. Os resultados apontam para uma queda na concentração do emprego no período.
A redução no emprego de alguns setores pode ser o resultado do aumento de produtividade do fator trabalho, em razão do processo de reestruturação produtiva pelo qual passou a economia brasileira e suas regiões após abertura comercial. Quanto aos setores que apresentaram aumento no emprego e, mais especificamente, em relação ao setor de Comércio, tal resultado pode ser associado à maior facilidade de entrada neste setor e a uma menor exigência de qualificação do trabalhador.
A Tabela 3 apresenta um resumo da evolução do emprego por macrossetores (Agropecuária;
Extrativa Mineral; Indústria; Comércio e Serviços).
De posse desses dados, fica evidente a mudança na composição do emprego por setor, havendo uma drástica redução no pessoal ocupado na agricultura e um expressivo aumento do emprego no setor de comércio.
Quanto ao setor industrial, este manteve constante sua participação no emprego. Houve apenas mudanças na sua composição interna (entre os setores industriais), como foi visto na tabela anterior. Na recomposição do emprego na indústria, houve um aumento na concentração do emprego, como sugere o crescimento do índice de concentração HH, que aumentou de 0.198 para 0.274 no período no setor industrial. É interessante notar, também, que o setor de Serviços, em razão do aumento no número de contratações (639.067), ganhou participação no volume regional de emprego a despeito da queda na quantidade de ocupados no setor de Outros Serviços.
2 O índice de Hirschman-Herfindahl é calculado através da seguinte expressão: HH=6L2, onde L é a participação relativa do emprego no total.
Ele varia de (1/n a 1), onde n indica o número de atividades. Quanto mais próximo de um, maior é o grau de concentração do emprego. Se HH=1/n, então, o emprego é uniformemente distribuído entre os setores. Se HH=1, então, apenas uma atividade concentra todo o emprego da economia.
Tabela 2 – Pessoal Ocupado em 1997 e 2004 nos Setores de Atividade Econômica no Nordeste
Atividade Pessoal Ocupado
em 1997
Pessoal Ocupado em 2004
Variação 1997-2004
Particip. no Total 1997 %
Particip. no Total 2004 %
Agropecuária 6.616.234 5.945.369 -670.865 36,25 30,45
Extração de Petróleo e Gás 13.146 5.860 -7.286 0,07 0,03
Outras Extrativas Minerais 46.739 55.572 8.833 0,26 0,28
Minerais Não-metálicos 171.112 94.559 -76.553 0,94 0,48
Siderurgia 12.510 38.896 26.386 0,07 0,20
Metalúrgica e Mecânica 88.114 10.955 -77.159 0,48 0,06
Elétrica e Eletrônica 33.999 18.572 -15.427 0,19 0,10
Material de Transporte 26.624 15.351 -11.273 0,15 0,08
Madeira e Mobiliário 58.020 49.464 -8.556 0,32 0,25
Papel e Papelão 71.074 34.788 -36.286 0,39 0,18
Álcool 35.810 12.670 -23.140 0,20 0,06
Refino de Petróleo 4.232 2.143 -2.089 0,02 0,01
Petroquímica 18.714 64.344 45.630 0,10 0,33
Têxtil 200.495 213.672 13.177 1,10 1,09
Vestuário e Acessórios 21.093 319.349 298.256 0,12 1,64
Calçados. Couros e Peles 29.139 102.696 73.557 0,16 0,53
Açúcar 125.608 52.436 -73.172 0,69 0,27
Abate e Preparação de Animais 18.276 16.678 -1.598 0,10 0,09
Leite e Laticínios 19.441 8.119 -11.322 0,11 0,04
Outras Indústrias Alimentares 325.325 165.900 -159.425 1,78 0,85
Indústrias Diversas 74.852 16.585 -58.267 0,41 0,08
Prod. e Distr. de Energia Elétrica 87.278 22.187 -65.091 0,48 0,11
Saneamento e Abast. de Água 31.222 69.103 37.881 0,17 0,35
Construção Civil 966.691 1.288.392 321.701 5,30 6,60
Comércio 1.967.176 3.071.106 1.103.930 10,78 15,73
Alojamento e Alimentação 413.740 1.186.484 772.744 2,27 6,08
Transporte 201.312 751.095 549.783 1,10 3,85
Comunicação 11.521 205.547 194.026 0,06 1,05
Administração Pública 1.798.605 2.472.523 673.918 9,85 12,66
Outros Serviços 4.765.993 3.214.589 -1.551.404 26,11 16,46
TOTAL 18.254.095 19.525.005 1.270.910 100 100
Índice HH 0.225 0.171 - -
-Fonte: Elaboração Própria dos Autores com Dados da Pesquisa de 2011.
Tabela 3 – Pessoal Ocupado em 1997 e 2004 nos Macrossetores de Atividade Econômica no Nordeste
Atividade Pessoal Ocupado em 1997
Pessoal Ocupado em 2004
Variação 1997-2004
Particip. no Total 1997 %
Particip. no Total 2004
%
Diferença na Particip. Setorial
do Emprego
Agropecuária 6.616.234 5.945.369 -670.865 36.25 30.45 -5.80
Extrativa Mineral 59.885 61.432 1.547 0.33 0.31 -0.02
Indústria 2.419.629 2.616.861 197.232 13.26 13.40 0.15
Comércio 1.967.176 3.071.106 1.103.930 10.78 15.73 4.95
Serviços 7.191.171 7.830.238 639.067 39.39 40.10 0.71
TOTAL 18.254.095 19.525.005 1.270.910
Fonte: Elaboração Própria dos Autores com Dados da Pesquisa de 2011.
Os resultados da decomposição estrutural são apresentados na Tabela 4. De início, constata-se que o aumento no número total de contratações foi todo devido a um aumento real na demanda final, pois os efeitos dos coeficientes diretos e tecnológicos foram responsáveis pela eliminação de mais 3,5 milhões de empregos na região. De fato, excetuando o setor de alojamento e alimentação, as variações de demanda final contribuíram positivamente para a geração de emprego em todos os demais setores. No setor agropecuário, a queda no emprego devido a mudanças tecnológicas e no coeficiente de emprego não foi compensada por um aumento do emprego por via da elevação da demanda final, resultando numa queda de mais de 670 mil postos de trabalho. No setor de Vestuário e Acessórios, o aumento no emprego foi a grande contribuição das mudanças nos coeficientes de emprego, sugerindo que a atividade tornou-se mais mão de obra intensiva, ou que o emprego no setor aumentou numa taxa maior do que o crescimento real da produção. Resultante, provavelmente, da vinda de empresas do ramo para a região em busca de minimizar custos, principalmente, por via da redução das despesas com mão de obra. Concomitantemente, as mudanças nos coeficientes técnicos de produção induziram aumentos no pessoal ocupado nesse setor.
Na atividade calçadista, o coeficiente direto também foi o principal responsável pelo aumento do emprego.
O setor de Indústrias Alimentares perdeu 159.425 empregos. Como mostra a decomposição, tal queda pode ser atribuída integralmente ao efeito coeficiente direto de emprego, pois a variação da demanda final e as mudanças nos coeficientes técnicos de
produção ocasionaram uma elevação no número de contratações. Na construção civil, onde foi observada a maior variação de emprego no setor industrial, a maior parte do incremento do pessoal ocupado foi causado pelo efeito do coeficiente direto, havendo também contribuição positiva da demanda final. No setor de Comércio, Transporte, serviços, Alojamento e Alimentação, Administração Pública e Comunicação, o efeito coeficiente de emprego foi o grande responsável pelo aumento no número de contratações. Na atividade que engloba os outros serviços, houve um movimento em sentido contrário: o efeito coeficiente direto induziu uma queda no emprego.
A Tabela 5 exibe os mesmos resultados da Tabela 4, porém por macrossetores. A decomposição da variação do emprego no setor Agropecuário já foi examinada anteriormente. Nos setores Industriais e de Extrativa Mineral, o aumento real da demanda final gerou 677.706 postos de trabalho. As transformações nos coeficientes diretos de emprego e o efeito
tecnológico eliminaram 478.928 postos de trabalho, resultando num saldo positivo de 198.778 novos postos de trabalho. No setor de Comércio, o setor que registrou o maior aumento no número de empregos.
Chama a atenção o efeito do coeficiente direto de emprego, que foi responsável pela geração de mais de 830 mil empregos. Já as mudanças nos coeficientes técnicos resultaram numa perda de 242 mil empregos.
No setor de Serviços, o aumento da demanda final foi o grande responsável pela geração de emprego, dado que os efeitos tecnológicos e de mudanças no coeficiente de emprego eliminaram juntos 843.368 postos de trabalho.
Tabela 4 – Decomposição da Variação Total no Emprego dos Setores de Atividade Econômica no Nordeste entre 1997 e 2004
Atividade Variação Total Efeito Coef. Direto Efeito Tecnológico Efeito Demanda final
TOTAL 1.270.910 -2.107.907 -1.486.381 4.865.198
Agropecuária -670.865 -2.240.394 -685.732 2.255.261
Extração de Petróleo e Gás -7.286 -7.012 -10.666 10.393
Outras Extrativas Minerais 8.833 10.315 -37.630 36.148
Minerais Não-metálicos -76.553 -72.725 -85.179 81.351
Siderurgia 26.386 19.752 -2.868 9.502
Metalúrgica e Mecânica -77.159 -92.362 -26.308 41.511
Elétrica e Eletrônica -15.427 -23.012 -11.866 19.451
Material de Transporte -11.273 -17.310 -1.952 7.989
Madeira e Mobiliário -8.556 -23.630 -1.030 16.105
Papel e Papelão -36.286 -51.659 -26.649 42.023
Álcool -23.140 -30.303 -8.540 15.704
Refino de Petróleo -2.089 -3.013 -1.491 2.415
Petroquímica 45.630 34.968 -9.956 20.617
Têxtil 13.177 -44.038 -27.380 84.595
Vestuário e Acessórios 298.256 256.656 2.327 39.274
Calçados, Couros e Peles 73.557 56.655 -4.792 21.694
Açúcar -73.172 -99.257 -6.821 32.907
Abate e Preparação de Animais -1.598 -6.478 2.215 2.665
Leite e Laticínios -11.322 -15.360 1.365 2.673
Outras Indústrias Alimentares -159.425 -230.593 10.788 60.380
Indústrias Diversas -58.267 -72.055 -16.499 30.287
Prod. e Distr. de Energia Elétrica -65.091 -77.232 -33.691 45.832
Saneamento e Abast. de Água 37.881 27.807 8.749 1.325
Construção Civil 321.701 272.129 -3.295 52.867
Comércio 1.103.930 830.010 -175.875 449.795
Alojamento e Alimentação 772.744 555.408 356.829 -139.493
Transporte 549.783 404.833 77.325 67.625
Comunicação 194.026 141.197 51.102 1.728
Administração Pública 673.918 508.529 -12.325 177.715
Outros Serviços -1.551.404 -2.119.731 -806.535 1.374.862
Fonte: Elaboração Própria dos Autores com Dados da Pesquisa de 2011.
Tabela 5 – Decomposição da Variação Total no Emprego dos Macrossetores de Atividade Econômica no Nor-deste entre 1997 e 2004
Atividade Variação Total Efeito Coef. Direto Efeito Tecnológico Efeito Demanda final
Agropecuária -670.865 - 2.240.394 - 685.732 2.255.261
Extrativa Mineral 1.547 3.303 - 48.296 46.541
Indústria 197.232 - 191.061 - 242.873 631.166
Comércio 1.103.930 830.010 - 175.875 449.795
Serviços 639.067 -509.764 -333.604 1.482.436
Fonte: Elaboração Própria dos Autores com Dados da Pesquisa de 2011.