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3.4 Imagens da Modernidade

3.4.2 Retratos de uma Cidade Moderna

Nas primeiras décadas do século XX as principais cidades sergipanas estiveram sob as lentes das câmaras fotográficas. A novidade do artefato tecnológico encantava por seu místico poder de registrar os cenários com grande poder de fidedignidade. Os palácios e praças de Aracaju e das cidades do interior tornaram-se alvo dos cliques dos fotógrafos e o resultado desses registros foi a constituição de acervos que se tornaram importantes elos para a compreensão da sociedade sergipana daquela época. Por esse motivo, as fotografias devem ser lidas na situação de documento. É preciso identificar os elementos intrínsecos à sua produção e a relação com os observadores e os objetos fotografados.

Os grupos escolares foram ao longo desse período um dos principais alvos dos cliques dos fotógrafos que atuaram no cenário sergipano. A modernidade de Sergipe era sintetizada por meio dos seus edifícios que se impunham no cenário urbano das cidades de destaque econômico no estado, traduzindo a ânsia de exibição. Diante disso, podemos enxergar o olhar fotográfico como uma expressão dos discursos que estavam sendo

inquirida, problematizada, analisada em seus pormenores, desmistificada de seus sentidos de manipulação da memória.

produzidos no limiar republicano na esfera educacional. Todavia, os ensejos de registro de determinado prédio pelas lentes fotográficas exprimiam também pretextos explícitos ou não. Discutir a questão da fotografia como registro da memória incumbe em entender os propósitos que conduziram a produção dessa memória, pois se sabe que todo documento carrega em si uma intencionalidade.

Da documentação fotográfica utilizada nesta investigação, quatro acervos foram de fundamental importância158. Além de identificarmos os acervos dos quais os registros documentais iconográficos são provenientes, é preciso entender os possíveis achaques que levaram a sua produção. Se o homem sempre age de acordo com seus interesses, com um propósito determinado, na produção da memória esse desígnio deve ser desmistificado. É evidente que o escopo desta investigação não é realizar um estudo a respeito das fotografias sergipanas do início do século XX, mas sim compreender o discurso arquitetônico dos grupos escolares a partir de tais registros.

Assim, os primeiros registros fotográficos dos grupos escolares sergipanos que sobreviveram às investidas do tempo são os do acervo Rosa Faria159. Trata-se de fotografias tiradas pela mesma ou, na maioria das vezes, encomendada pela artista para que fossem

158 Ao longo da pesquisa utilizamos quatro acervos fotográficos para identificar os grupos escolares edificados entre 1911 e 1926. O principal deles certamente foi o Acervo Rosa Faria, pertencente ao Memorial de Sergipe, no qual encontramos mais de cem fotografias da paisagem urbana de Aracaju, das quais, 35 enfocam a temática educacional. Na mesma instituição encontra-se o acervo Honorino Leal, que apresenta uma considerável produção fotográfica acerca dos monumentos da cidade de Capela, com 44 fotografias de grande relevância, pois apresentam diferentes perspectivas da cidade, principalmente no que concerne aos edifícios, monumentos e praças públicas. No decorrer da pesquisa tivemos relativa dificuldade em localizar as fotografias referentes aos grupos escolares dos demais interiores do estado. Por conta disso, buscamos os documentos apresentados em investigações de cunho histórico produzidas na época em foco. O fito dessa procura foi localizar fotografias que tivessem como foco os grupos escolares sergipanos na época de sua produção, o que pôde propiciar a leitura dos registros como documentos de época. Clodomir Silva (1920), além das informações acerca dos primeiros edifícios criados até 1920 destinados aos grupos escolares, fornece ilustração dos imponentes grupos. Essas fontes foram de primacial relevância na reflexão crítica dos documentos, pois auxiliou em uma das tarefas mais árduas, que foi a datação das fotografias. Outra obra que nos forneceu um acervo de fundamental importância foi a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros (1959), que possuía algumas fotografias mais antigas e outras originárias do final da década de 50 do século XX. Foram esses registros que subsidiaram a comparação dos prédios escolares em dois períodos distintos, possibilitando a compreensão da localização e trajetória das diferentes instituições escolares. Além desses quatro acervos, também consultamos fotografias utilizadas em pesquisas realizadas por outros pesquisadores. Um desses registros foi localizado por Anne Emílie Souza de Almeida e tinha como foco o Grupo Escolar João Fernandes de Brito. As demais fotografias fazem parte do acervo particular da família da professora Leonor Telles de Menezes que foram utilizadas por Nivalda Menezes Santos em sua pesquisa do Mestrado em Educação (SANTOS, 2006).

159 O acervo Rosa Faria é constituído por fotografias, estampas, cartões postais e pinturas executadas pela artista plástica natural de Capela. O seu foco principal é a cidade de Aracaju, que foi fotografada inúmeras vezes por ângulos distintos para que servisse de inspiração à artista, modelo para a constituição de suas obras plásticas. Entre os focos mais registrados estão os prédios escolares edificados no início do século XX, que por sua monumentalidade e apelo à modernidade parecem ter encantado e prendido a atenção da artista da “Princesa dos Tabuleiros”, Capela (PINA, 2008).

utilizadas como inspiração para o trabalho artístico. Com isso, as fotografias encomendadas por Rosa Faria tinha um propósito explícito, que era criar modelos de imagens da cidade de Aracaju para serem reproduzidas em suas obras plásticas. Por serem um dos temas mais significativos nos embates da intelectualidade e da política sergipana no período estudado, os prédios escolares se tornaram um dos principais objetos das lentes fotográficas encomendadas pela artista capelense.

Podemos perceber que as fotografias dos grupos produzidas no referido período tem como característica central a busca pela monumentalidade. Mesmo as construções dos grupos escolares já serem por si mesmas imponentes, os retratistas tentavam fazer com que a magnitude das construções aparecesse em seus registros mnemônicos. Com isso, Aracaju era representada por meio de fotografias como uma cidade moderna cercada de fortalezas em que se desenvolveriam as novas técnicas de ensino. A capital sergipana era apresentada ao país não por meio de sua população, mas sim com seus edifícios públicos que se impunham nos logradouros e teciam a imagem de modernidade.

Os grupos emergiram dentro do contexto de modernização das cidades e sua exibição consistia em uma tentativa de apresentar os avanços dessa modernidade à população que vivia em outras localidades ou até mesmo em Sergipe. Eram registros que estavam em consonância com o discurso que pregava as proezas do progresso educacional na constituição da nacionalidade pautada no patriotismo, na eloqüência da arquitetura dos prédios públicos.

Isso explica em parte o privilégio dado aos prédios públicos pelos fotógrafos de Sergipe no início do século XX. Cidades como Aracaju eram apresentadas ao público por meio de seus edifícios públicos imponentes e com traçado moderno, o que evidenciava que o progresso tinha adentrado às terras sergipanas.

A eloqüência discursiva das fotografias transparece claramente no registro fotográfico reproduzido na obra de Clodomir Silva (1920). A fachada com características semelhantes a de uma fortaleza foram ressaltadas pelo fotografo que a registrou pelo ângulo inferior, dotando-a de uma perspectiva monumental.

Figura XXVIII: Fachada do Grupo Escolar General Siqueira. FONTE: Silva (1920, p. 151).

Pelo ângulo escolhido pelo autor da fotografia, o Grupo General Siqueira aparece no cenário da capital como um grande edifício, majestoso, sóbrio e dotado de traços de um castelo com linhas clássicas. A aparência é de um gigante estendido nas ruas centrais da cidade. No entanto, a retórica arquitetônica não se restringe ao prédio. Na fotografia tem mais aspectos desempenhando a função de tornar a construção mais imponente. No lado esquerdo inferior aparece discretamente a figura de um personagem anônimo, que parece não desempenhar função alguma. Seria então o registro desse anônimo fruto de um descuido? Certamente não. O sujeito posicionado estrategicamente na lateral do prédio possui grande